Penance For His Sin

10 Awake and unafraid, asleep or dead.


Notas iniciais
Ainda tenho algum(a) leitor(a)? Bom, espero que sim.
Vou tentar ser breve (erm, sem contar que já escrevi a Bíblia toda na mensagem pra quem comentou anteriormente.)
Devo mil e uma desculpas pela demora absurda e mereço uma punição ou algo assim, eu sei que mereço. Pra mim, foi um alívio sair algo mais aceitável e só espero não decepcionar ninguém mais ainda pelo acontecimento provavelmente inesperado no capítulo. Perdão pelo mini-spoiler e por ser tão irresponsável e incapaz, mas espero que entendam minha situação. Também espero não ser cortada aqui, enfim; boa leitura pra quem continuar.

Taemin’s POV.

Eu não queria ir à faculdade no dia seguinte. Logo depois de toda aquela confusão, eu tinha voltado ao meu apartamento, me jogado debaixo do chuveiro para tomar um banho gelado, aproveitando para lavar toda aquela loucura que parecia estar pregada em mim.

Vesti um pijama quente e quase felpudo, tomei um comprimido para dormir que eu sequer sabia muito bem qual era, deitando-me na cama enquanto minha cabeça rodava. Parecia que eu tinha voltado de uma maratona, de tanta energia ruim e cansaço que meu corpo carregava.

~

Dormi por toda a tarde e a noite, acordando um pouco mais cedo que o previsto. Fiquei deitado por mais algum tempo, levantando e indo direto para o chuveiro quando imaginei que o relógio marcasse uma hora conveniente para isso acontecer.

Demorei cerca de meia hora, colocando a primeira roupa que achei. Apesar de tudo, faltar aula realmente não mudaria minha atual situação, eu só iria perder mais conteúdos e, quem sabe, até o ano se continuasse faltando desse jeito. MinHo não valia tudo isso.

Não estava completamente atrasado como todos os dias, estava em cima da hora. Bati levemente na porta, adentrando lentamente a sala já lotada enquanto encarava meus próprios pés. O professor já estava lá e comentava alguns assuntos nos quais eu não estava tão interessado. Não queria prestar atenção, pois acabaria vendo MinHo... Isso aconteceria de um jeito ou de outro, mas queria evitar o quanto eu pudesse. Não queria olhá-lo ou ouvi-lo, mas eu tinha certeza que eu não poderia fugir disso. Eu não desistiria de estudar por ele, não mudaria ainda mais minha vida por ele. Ficaria ali, agindo como se ele fosse qualquer outra pessoa.

Eu me encaminhava por entre as fileiras de cadeiras, procurando sentar-me em um lugar vazio e longe de todos no fundo da sala. Não pude evitar, olhei para MinHo, que me olhava de volta. Notei que Donghae estava onde eu pretendia sentar, então o encarei, como se estivesse pedindo sua permissão. Seus olhos desviaram-se de seu desenho e se voltaram para mim, um tanto surpresos por eu estar ali. Sentei-me, sorrindo levemente.

“Mais calmo?” Disse baixo, voltando a encarar o desenho.

“Esqueça aquilo, Donghae.” Toquei seu braço levemente, como que em forma de carinho. Eu estava sendo sincero, toda aquela barbaridade que eu tinha feito assim que ele deixou meu apartamento fez com que eu me sentisse mal de uma forma tão intensa.

~

Permaneci ao lado de Donghae durante toda a aula, tentando manter minha concentração na aula. Eu precisava falar para ele e parar de enganá-lo dessa forma, mas eu não queria fazer a mesma coisa que ontem.

Sequer percebi quando a aula terminou, já que meu plano de concentração não deu muito certo. Os alunos saiam apressados da sala de aula e isso me despertou de meu transe. Passei por MinHo sem ter coragem de levantar o olhar, mas estaquei de repente quando sua voz ecoou pela sala.

“Taemin, me espere no corredor.”

Donghae desacelerou o passo ao ouvi-lo pronunciar meu nome, mas eu prossegui andando, fingindo que não tinha escutado. Eu não queria conversar com ele, eu já sabia perfeitamente qual seria o teor da conversa e eu sentia um misto de repulsa e vergonha pelo que tinha feito, apesar da raiva que ainda me abrigava. Eu sabia que todos os sentimentos que eu estava sentindo eram única e exclusivamente por ter visto lágrimas nos olhos de Kibum. Somente por isso.

Eu já saía daquele corredor da forma mais rápida que eu conseguia e ia para o paralelo quando pude ouvir seus passos apressados atrás de mim. “Taemin, eu disse pra você esperar!” Gritou de súbito, e todos os alunos que passavam por ali se viraram para nós e puseram a nos encarar com estranhamento. Donghae, que estava do meu lado novamente, parou bruscamente. Lançou-me um olhar significativo e eu suspirei, virando-me para MinHo devagar, fuzilando-o com o olhar.

Isso não o afetou. Ele se mostrava impassível, me olhando com descaso e seus olhos faiscavam como lhe era característico. Estava me desafiando, olhando-me como se eu fosse um verme prestes a ser exterminado.

Caminhei em sua direção, ouvindo o burburinho no corredor. Donghae, por sua vez, ficou no mesmo lugar de antes, observando-nos como se MinHo fosse me bater novamente ou algo do tipo.

“Ele não vai sair?” Perguntou num tom de voz letal em volume relativamente alto, fazendo-me virar para trás e ver os olhos de meu amigo, que habitavam curiosidade, ao que ele apenas meneou a cabeça em afirmativo, olhando para mim como quem perguntava se estava tudo bem.

“Te ligo depois, Taem.” Seguiu pelo corredor.

~

Key’s POV.

Minha cabeça doendo foi a única coisa que senti quando abri os olhos pela manhã. Doía tão forte e latejava a qualquer um de meus movimentos mais bruscos, o que chegava a ser quase enlouquecedor. Tentei levantar da cama, mas acabei fechando os olhos com força devido à outra pontada.

Deitei de volta, rendendo-me, ao que meu corpo perdia o sentindo. A garrafa de whisky estava no chão, ao lado da cama, praticamente vazia. Desde que MinHo tinha deixado meu apartamento daquele modo tão horrível, era como se um vácuo tivesse se formado na minha mente.

Eu tinha ficado por algumas boas horas chorando sentado no chão, encostado na parede, até que via coisas na minha cabeça que faziam sentido. Eu tinha conhecido MinHo e em tão pouco tempo sentia com muita certeza que eu o queria perto de mim de uma forma tão concreta, como se eu precisasse dele para me manter são. A imagem de Jonghyun havia se tornado inatingível para mim.

Ao mesmo tempo, a sensação de que eu era duramente massacrado por aqueles que eu amei era tão presente no meu coração, que doía mais que as próprias pontadas em minha cabeça, mais que qualquer dor física podia doer.

E, depois disso tudo, bebi durante aquele dia inteiro, e pensei em comprar algum tipo de droga para me manter entorpecido tempo suficiente para que todas as memórias doloridas deixassem minha mente, mas eu não tinha coragem de fazer isso, muito menos de andar pelo corredor. Não podia simplesmente sair por aquela porta e ter todos os vizinhos me encarando como se eu participasse de uma orgia.

A cada vez que pensava nas palavras que saíram da boca de Taemin, eu sentia meu peito convulsionar e toda a dor parecia voltar determinada a me destruir.

Eu tinha encontrado meu próprio meio de autodestruição, como um modo de me punir por ter me deixado gostar tanto de alguém que eu mal conhecia. Entregar-me de corpo e alma de modo impensado só serviria para que eu quebrasse a cara no final. Eu devia saber bem disso.

Eu não consigo entender, não consigo ver como uma pessoa consegue deixar tudo o que ama ou o que tem por causa de alguém que sequer conhece.

Primeiro Jinki tentou abrir meus olhos sobre Jonghyun. Agora, Taemin tentou fazer o mesmo sobre MinHo. Nenhum dos dois obteve sucesso. Qual era meu problema, que eu nunca me permitia enxergar as coisas com precisão de modo que sempre saí machucado no final? Sempre tive o péssimo defeito de apenas seguir meu coração, e agora isso estava me matando. E não havia bebida ou droga no mundo que pudesse me fazer esquecer tudo isso.

Os olhos de MinHo transbordando certezas, suas mãos apertando as minhas levemente, seus lábios trêmulos de prazer sussurrando promessas doces no meu ouvido. Promessas quebradas se mesclando à imagem de Jonghyun cantando com sua bela voz, tocando seus instrumentos, Jonghyun me deixando sem sequer dar uma explicação. Tudo numa mesma confusão em minha mente. Tudo porque me joguei sem ponderar por um segundo, por amar demais. Eu precisava aprender a lição: quanto mais você ama, mais você erra.

Eu não sabia como, mas estava deitado naquela cama e pensando nisso tudo enquanto parecia morrer com aquela dor de cabeça mesclando-se com a ferida em meu peito. Levantar dali soava mais simples que raciocinar alguma coisa, mas não era bem isso que acontecia.

Logo pude ouvir a campainha tocando repentinamente. Tentei levantar, fechando meus olhos mais uma vez. Continuei sentado, pulando para uma segunda tentativa. Minhas pernas me responderam dessa vez, mesmo que não totalmente, ao que eu me apoiava na parede para não cair no chão.

“Já vai!” Gritei ao ouvir um segundo toque da campainha, pude perceber que quem estava do outro lado estava começando a ficar nervoso ou ansioso. Aquele som fazia minha cabeça rodar ainda mais e a vontade de gritar graças às pontadas só continuava mais intensa.

“Já disse que já vai.” Falei para mim mesmo, sem condições de gritar novamente, caminhando muito devagar até a porta. Nem podia imaginar como estaria meu rosto ou meu cabelo. Eu deveria estar horrível e minhas roupas provavelmente estavam sujas e desarrumadas, um pouco amassadas também, mas eu não podia fazer nada, já que estava no meio do caminho e a pessoa continuava insistindo com o maldito dedo pressionando a campainha.

No segundo seguinte ao que abri a porta num solavanco, eu já não sabia mais o que estava sentindo, não conseguia pensar em nada. Sequer conseguia respirar, acho que meu coração estava parando de bater pelo susto que eu havia levado e pela falta de oxigênio em meu sangue.

Jonghyun estava ali, do outro lado do umbral de madeira gasta, e suas bagagens estavam ao seu lado no chão – duas malas não muito grandes de alguma marca cara – enquanto ele, bem vestido como sempre e lindo como nunca, me observava agora com completo espanto ao ver em que situação eu estava naquele momento. Eu olhava-o de volta com mais assombro do que ele estava me olhando. Ele não podia estar ali... Mas estava.

Afastei-me da porta, dando alguns passos para trás e quase caí, ao que me amparei debilmente na estante lateral da sala; Jonghyun vindo imediatamente ao meu encontro e me ajudando a manter-me dignamente em pé. Eu ainda achava aquilo tudo muito estranho e inacreditável, era demais para a minha cabeça.

“Key, fale comigo!” Disse com nervosismo, mas sua voz parecia algo muito longe de minha cabeça. Eu estava sobrecarregado e não estava me sentindo bem. Eu sequer sabia se aquilo era real ou apenas uma consequência de meu possível delírio, mas suas mãos fortes me impedindo de fraquejar eram muito reais. A mistura de seu perfume como cheiro de sua pele era o mesmo, Deus! Era ele que estava ali, cuidando de mim como sempre fizera.

“Kibum, o que há com você?” Tocava meu rosto com preocupação, fazendo com que eu passasse um braço por seus ombros para ter apoio. “Você precisa se sentar, venha...”

Abracei-o calmamente, sendo correspondido em seguida. Eu não conseguia evitar e um abraço era tudo que eu precisava naquele momento.

Taemin’s POV.

O corredor estava completamente vazio agora. MinHo e eu ali, apenas as paredes mudas testemunhando. Aquele lugar já havia sido cenários de muitas coisas que eu me lembraria para sempre; e que, com certeza, ficariam apenas na lembrança, pois o modo como MinHo me olhava demonstrava claramente o quanto ele queria me matar ou, tamanho o nojo que parecia sentir de mim, jamais nos veríamos novamente. Havia repulsa em seus olhos bonitos, e, assim que Donghae fora embora, ele falou coisas que eu nunca imaginei que poderia ouvir de sua boca ou da de qualquer outra pessoa.

“Eu sempre imaginei que você era um descontrolado, Taemin. Não pense que estou surpreso, é bem típico seu o que você fez ontem, mas o que não entra na minha cabeça... Meu Deus, como deixei as coisas chegarem a esse ponto?”

“Eu não sou um descontrolado, MinHo, você sabe disso...” Rebati depressa.

“Tudo o que eu sei é que você envolveu uma pessoa que não tem absolutamente nada a ver com essa história toda no meio dessa sua teia imunda. Você humilhou Kibum, você disse mentiras, você fez aquele prédio todo ficar sabendo de coisas que não eram da conta deles!”

“Eu nunca disse mentira alguma!” Quase gritei, meus olhos estavam começando a lacrimejar.

“Você sabe que disse. E você disse tudo de um modo tão baixo, tão sujo, que eu tive vergonha de ter tocado em você algum dia, Taemin. Sabe que quando te conheci, pensei que você fosse diferente. Só pra te esclarecer, eu não pagava seu aluguel por sexo. Pagava para te ajudar, porque você precisava, porque você não tinha ninguém e, bem no fundo, eu também não tinha. Mas você nunca quis saber nada sobre mim, não é? Você agia como se tivesse obrigação de ir pra cama comigo. Quem se enxergava e se comportava como o uma prostituta era você. Na verdade, eu te desejava, por isso nunca neguei... Mas nunca exigi nada. Eu nunca te vi assim antes. Taemin, você tem uma visão completamente errada de tudo à sua volta, inclusive de si mesmo, o que é uma pena...”

A essa altura, eu não podia mais conter minhas lágrimas. Elas corriam indomadas por meu rosto, eu não me apressava em escondê-las. Não sentia vergonha naquele momento; era algo muito pior que isso.

“Você fez com que eu me sentisse assim, MinHo. Você me tratava mal, como uma boneca com a qual você brincava apenas quando tinha vontade. Você sempre saiu com outras pessoas, Donghae me contou, ele...” Parei de falar no segundo em que percebi que tinha falado demais.

“Como Donghae podia saber da minha vida, Taemin? Ele não sabe nada da minha vida. Ele te falou sobre Hyukjae? Pois diga a ele que está cometendo um ledo engano. Eu sempre achei que você era completamente maduro para ter suas próprias opiniões, mas já percebi que estou completamente errado a seu respeito. Nada mais vai me surpreender.”

“MinHo, não fale assim. Você saía com outras pessoas. Kibum...”

“Não toque no nome dele.” MinHo me interrompeu secamente. Suas palavras eram duras e me atingiam como lanças afiadas. “Kibum foi a única coisa boa que poderia ter me acontecido. Eu não me lembro de ter estado tão feliz quanto nos dias em que estive ao lado dele, e agora ele acha que sou um monstro. Tudo porque você só pensa em seu próprio umbigo e não tem nenhum tipo de sensibilidade para perceber as coisas como elas realmente são.”

“Você me trocou por ele, MinHo! Como quer que eu me sinta?”

“Não te troquei por ele, Taemin! Você sempre me tratou como uma obrigação que precisava cumprir, e isso nunca foi verdade, nunca. Eu te disse que poderia continuar pagando seu aluguel mesmo que não houvesse nada entre nós, mas você achava que precisava me dar sexo como pagamento. E como você estava enganado!” Passou as mãos pelos próprios cabelos. “Tudo que eu queria de você era honestidade, carinho e companhia...”

Engoli em seco, temendo que a próxima palavra dele fosse amor. Mas ele parou por ali, talvez temendo a mesma coisa.

“... Eu juro que só buscava isso. Mas você nunca foi capaz de me dar o que eu precisava. Sabe o porquê de tudo isso, Taemin? Porque você não tem isso dentro de si. Me desculpe por dizer isso assim, mas você é vazio. Sexo não segura as pessoas, não vai mantê-las perto de você... Nada disso é verdade. Sexo é nosso instinto primitivo, fazemos isso pelo mesmo motivo que qualquer outro animal faz. O que nos faz ter a característica de um ser humano é exatamente o contrário. É o que fazemos fora da cama, é a capacidade de raciocinar, o respeito, a amizade, o companheirismo. Seu erro maior foi achar que eu pensava da mesma forma que você pensa. E eu não penso.”

“Então estamos os dois enganados, MinHo.” Eu disse com firmeza, apesar das lágrimas, tentando manter um fio de dignidade. “Eu não sou nada disso que você está dizendo.”

“Pior ainda, Taemin! Porque foi exatamente isso que você demonstrou ser. Se você se porta de um jeito contrario à sua essência dita, então as coisas estão ainda piores para você. Eu realmente espero que você consiga mudar isso um dia e que encontre seu caminho.”

Passou por mim, olhando para o chão, deixando-me sozinho e parado num pranto silencioso que eu não podia controlar. A dor não deixava meu corpo a cada lágrima que eu deixava sair. Muito pelo contrário: a dor era tão grande que parecia encher todo meu peito de maneira quase insuportável.

As perdas que minha impulsividade tinha acarretado eram irreparáveis.

Key’s POV.

Abri os olhos e estava novamente em minha cama. A cabeça ainda doía, mas não como antes. Rapidamente olhei para os pés da cama sem levantar nenhum centímetro de meu corpo, encontrando as malas de Jonghyun por ali.

E tudo voltou na minha mente numa torrente abrupta. Jonghyun me abraçando enquanto eu caía bêbado, me depositando sobre a cama enquanto eu chorava descontroladamente e segurava fortemente sua camiseta de tecido fino. Ele havia ficado comigo ali até que eu adormecesse, e lembro que ele me beijou.

Fechei os olhos lembrando-me daquela caricia terna. Os lábios dele por cima dos meus fazendo cócegas como as borboletas na boca do meu estômago costumavam fazer quando éramos praticamente garotos e nos beijávamos escondidos nas ruas escuras. Mas agora a realidade era tão amarga... O que o havia feito voltar?

Sentei na cama. Jonghyun deveria estar na sala, me esperando acordar. Havia tanto para ser dito, mas eu não tinha cabeça para aquilo naquele momento. Sequer podia acreditar que ele tinha voltado sem me avisar, e agora eu não podia expulsá-lo, embora minha vontade fosse essa.

O que MinHo pensaria ao ver Jonghyun de volta, instalando-se em meu apartamento? Seria praticamente impossível fazê-lo acreditar que eu não estive com Jjong por todo esse tempo, e tudo estava tão errado que eu não sabia sequer por onde começar a consertar todas essas coisas.

Abri a porta do quarto, cerrando os olhos ao que a claridade do sol atiçava minha pupila sensível enquanto gritos encheram meus ouvidos no mesmo nanossegundo.

“Eu já disse para ir embora daqui!” Jonghyun gritou com alguém, reconheci sua voz de imediato. Ele estava furioso.

Saí do quarto às pressas, não me importando por estar apenas de boxers. Não me lembrava de ter tirado as minhas roupas, mas também não me importava por ser visto assim. Quando pisei na sala de estar, meu sangue gelou no mesmo instante com a cena que meus olhos focalizaram.

Jonghyun estava parado no umbral da porta e, do lado de fora, estava MinHo. Assim que senti seu olhar sobre mim, minhas pernas bambearam. Nem precisaria que alguma pessoa abrisse a boca para dizer nada. Agora ele tinha certeza que eu mantive uma relação com Jonghyun durante esse tempo todo, o que não era verdade. Era muita falta de sorte.

“Mas o que está acontecendo aqui?” Perguntei prender a atenção deles. Jonghyun virou-se ao ser surpreendido por minha voz. Será que ele achou que ia expulsar MinHo sem que eu soubesse, mesmo com todo aquele escândalo?

O quão desesperador era ser acusado de erros que você não cometeu? Agora eu sabia muito bem, pois eu tinha certeza do que se passava pela mente de MinHo. Talvez eu tivesse cometido o mesmo erro, o de ter o deixado ser acusado por erros que possivelmente não tivesse cometido sem deixa-lo se explicar.

“Jonghyun, você não tem o direito!” Gritei, empurrando-o ferozmente, fazendo com que ele se afastasse da porta.

“Você é que não tem o direito de colocar outro cara em meu lugar, Kibum! Eu te amo! O que deu em você?” Gritou de volta, enquanto MinHo nos observava com tanta tristeza que eu quis abraça-lo e implorar por perdão. Ele não merecia passar por aquilo!

“Esse apartamento é meu e você me deixou, quem você é para tirar alguém daqui de dentro? Pare de fazê-lo pensar coisas erradas!” Virei-me para MinHo, engolindo em seco e puxando um pouco de fôlego. “MinHo, eu sei que precisamos conversar, e eu prometi que iria atrás de você. Agora não é uma boa hora, eu vou mais tarde ao seu apartamento, eu...”

“Você não vai!” Jonghyun gritou, prendendo-me ameaçadoramente pelo braço, ao que senti os olhos de MinHo me fitando com a mesma onda de tristeza e ele abaixava a cabeça. Meus olhos encheram-se d’água no mesmo instante em que vi sua expressão de derrota.

“Ele tem razão, Kibum. Você não vai, não precisa ir e perder seu tempo. Eu é que não devia ter vindo aqui. Até mais, meu anjo.” Praticamente sussurrou as últimas palavras, sorrindo fracamente. Virou-se e deixou a porta do apartamento, descendo pelas escadas lentamente, o som do solado de seu sapato batendo pelos degraus e soando aos meus ouvidos como uma melodia triste.

“MinHo!” Gritei, mas era tarde demais. Aquele som tornava-se cada vez mais distante e sua imagem desaparecia quando ele virou o primeiro lance de escadas.

“Eu vou matá-lo!” A voz de Jonghyun destacou-se, tirando-me daquele torpor.

Eu sentia muita vergonha de tudo que estava acontecendo. Estava enjoado, provavelmente pelo álcool que ingeri no dia anterior. Eu não havia comido nada além do meu café da manhã com MinHo de um dia atrás. Eu estava passando mal e perdi meu equilíbrio, mas Jonghyun me impediu de cair com o rosto no chão.

“Eu não quero que encoste em mim!” Eu gritava e chorava, tentando conter a ânsia de vômito que me incomodava. Sentia meu corpo tão fraco, era como se eu fosse desmaiar a qualquer momento. “Você não podia ter feito isso... Não estamos no seu apartamento, Jonghyun! Eu sequer te convidei para vir morar comigo!”

“Como você acha que estou me sentindo, Key? Eu ligo para falar com você e outro homem atende, como se isso fosse muito normal!”

“E como você acha que me senti quando você me deixou sozinho? Por Deus, Jonghyun, eu não aguentava aquela solidão toda. Eu não queria ser deixado com um apartamento como esmola, você pode tratar de enfiá-lo no rabo. Eu estou cheio disso tudo, de como eu era tratado pela sua família quando estávamos juntos! Eles sabem que você voltou para vir atrás do viadinho suburbano? Aliás, por que você voltou?”

“Pare com isso, Kibum!” Segurou-me. “Olha só para você! Há quanto tempo não se alimenta direito? Só têm álcool no seu estômago! Você estava quase desmaiando, quase em coma alcoólico quando cheguei aqui! Olha o estado em que aquele cara te deixou... Se ele te fizesse bem ou se importasse com você, você não estaria assim.”

“Cale a boca! Você não sabe nem metade do que aconteceu, você nem se importa em saber, Jonghyun! MinHo é a pessoa que tem menos culpa nisso tudo! Se tem algum culpado pelo meu estado, o único culpado é você. Você sequer se importa comigo, Jonghyun, você só se importa com sua imagem, não sabe tirar qualquer conclusão sozinho!”

“Eu sou o culpado? Pois se tudo o que eu fiz quando cheguei aqui foi cuidar de você... Você estava caindo de bêbado e, se não fosse por mim, sabe-se lá o que poderia acontecer com você!”

“Pois se eu estava caindo de bêbado, podia ter voltado pela mesma porta por onde você entrou!” Vociferei ao que as mãos de Jonghyun seguraram-me com força pela camiseta, forçando-me a ficar em pé. As lágrimas lavavam meu rosto.

“Você só está sendo mal agradecido.” Dizia sem encarar meu rosto.

“Solte-me, seu maldito!” Soltou-me como pedi, ao que eu me apoiava na parede devido ao impacto. “Você fugiu quando eu deixei tudo por você. Me diz se existe covardia pior que essa! Me diz quem é mal agradecido, Kim Jonghyun!” Eu gritava, mas minha voz começava a falhar. Eu estava fraco e completamente tonto, sem mencionar que me afundava cada vez mais.

“Você não sabe o que está dizendo, Kibum...” Disse com pesar, tornando a me prender em seus braços firmes, mas agora para um abraço. Beijou levemente meu rosto molhado pelas lágrimas. Eu não o entendia. “Eu não posso mais te ver assim, por favor.” Sua voz estava embargada. “Vamos, eu te ajudo a tomar um banho, você precisa dormir um pouco mais. Você precisa voltar ao normal.”

“Você é quem não sabe o que está dizendo!” Tentei soltar-me de seus braços, ao que ele me carregava em direção ao banheiro.

Depositou-me dentro do box de vidro. Abriu o chuveiro, checando a temperatura antes de ajudar-me a entrar sob a água.

Quando terminei o banho – sendo ajudado por ele –, fui guiado até meu quarto. Sentia-me melhor, mas ele ainda tentava me ajudar.

“Eu não preciso de sua ajuda...” Andei até a cama, deitando-me.

“Pare de dizer besteiras...” Sussurrou próximo ao meu ouvido, sentando-se ao meu lado, cobrindo-me com um cobertor pesado. “Durma, você precisa dormir e se alimentar também, mas isso pode esperar um pouco.” Acariciava meus cabelos molhados com uma leveza extraordinária.

Foram as últimas palavras que ouvi antes de cair em sono profundo.

~

Acordei no meio da noite, meu estômago roncava enquanto sentia meu corpo congelar, apesar do cobertor grosso. Virei meu corpo lentamente, tateando até encontrar o rádio-relógio, percebendo que faltavam algumas horas para que o dia amanhecesse.

Levantei-me, vestindo roupas quentes antes de ir até a sala a passos curtos. Jonghyun já tinha ajeitado tudo para que ele dormisse no sofá, contudo, ele não estava ali. Eu podia ver seu travesseiro, o cobertor e o estofado levemente afundado pelo peso de seu corpo que havia se instalado ali; contudo, nem sinal de Jonghyun. Mas eu sabia que ele não tinha ido embora novamente, suas malas estavam por ali e ele não iria sem nada. Sem contar que não era louco o suficiente.

“Jjong?” Chamei, inquieto, enquanto o silêncio ressoava por todo o apartamento. Concluí que ele realmente não estava ali.

Andei até a cozinha e um arrepio percorreu minha espinha quando o vento entrou por uma pequena fresta da janela que estava aberta. Resolvi que preparar um chá seria uma boa ideia, afinal, nada parecia ser o suficiente para conter aquele frio quase insuportável. Eu realmente precisava comer e sabia que não havia muita coisa na geladeira, então preparei um ramen e sentei-me na cadeira, pensando incansavelmente em MinHo. Eu não podia evitar, só pensava naquela situação que havíamos nos colocado. Ou eu o teria colocado nela?! Minha única certeza era a de que eu realmente queria vê-lo novamente. Eu precisava me explicar e precisava que ele me explicasse muita coisa, e não era algo pelo qual eu ia simplesmente sentar e esperar que acontecesse repentinamente. Esperaria até amanhecer e iria encontrá-lo na Universidade para tentar remediar tudo. Implorar por desculpas por Jonghyun ter sido tão indelicado, ouvir o que ele tinha para dizer em sua defesa sobre aquelas acusações e, principalmente, deixar claro o bastante que meu caso com Jonghyun havia acabado e fui extremamente sincero o tempo todo. Eu não podia perder minha única chance de sair da bagunça que estava a minha vida.

~

O sol já havia nascido e eu tinha acabado de sair do banho quente, procurando peças de roupa ainda mais quentes para enfrentar o frio que estava fazendo do lado de fora. Nevava um pouco e Jonghyun ainda não estava em meu apartamento; eram quase 7 da manhã.

Não sabia onde raios ele havia se metido, mas internamente me sentia feliz por ele não estar ali ao me ver sair, senão seria provável que ele me interrogasse por tempo suficiente para que eu perdesse a hora ou desistisse de sair. Eu estava completamente curado do meu mal estar do dia anterior e estava completamente apresentável. Era o mínimo que eu podia fazer para ir atrás de MinHo, já que ele tinha centenas de motivos para me repudiar.

Calçava meus sapatos quando Jonghyun chegou, a porta abriu-se muito devagar, como se pretendesse entrar sem fazer barulho algum. Pigarreei para que ele notasse minha presença.

“Kibum! Aonde você vai?” Perguntou em tom surpreso ao notar que eu pegava minhas luvas e usava um dos meus chapéus. Ele carregava uma enorme sacola cheia de pães – algo que eu raramente consumia – que cheiravam muito bem.

“Preciso resolver umas coisas.” Não tinha certeza se devia entrar em detalhes.

“Key, você vai atrás daquele cara e não devia fazer isso.” Começou a falar mansamente, pousando a sacola de pães sobre a mesa.

“Não vai tentar me impedir.” Afirmei, enrolando meu cachecol no pescoço.

“De forma alguma, faça como quiser.” Respondeu prontamente enquanto eu deixava o apartamento.

~

Passei a caminhar apressado por entre aquela neblina que percorria as ruas sem muitas pessoas e com muitos carros. Eu ignorava o barulho – fruto do stress do trânsito matinal – porque sabia que estava indo ao encontro da pessoa que eu mais desejava ver.

Eu não me importava com qualquer tipo de explicação, só queria vê-lo, ficar junto dele e não queria qualquer mal entendido entre nós.

Apertei o passo ao que eu me aproximava das ruas que me levariam ao Campus, quando notei um tumulto em uma das esquinas. Estranhei ao ver tal aglomerado de gente que começava a se juntar por ali. Pude notar que alguns eram alunos da Faculdade de Artes, pois tinham telas de pintura embaixo de seus braços e muitos deles eram familiares das vezes que fui até o Campus. Estavam todos na entrada de um beco sujo.

Mas nada disso era relevante naquele momento. Com um frio na espinha que passou a dominar todo meu sistema nervoso, corri até a multidão porque a curiosidade me impediu que focasse em meu destino.

Eu corri mais rápido que nunca, meu rosto estava avermelhado pelo vento gélido que o tocava e parecia feri-lo sem nenhum pudor. Quando estaquei no meio daquelas pessoas, vi a característica fita amarela que eu bem podia reconhecer como uma daquelas que isolam uma cena do crime ou de um acidente. Bem ao lado, vi duas viaturas e alguns policiais falavam com os estudantes, e quando pude finalmente me aproximar mais, vi o que nunca desejaria ter visto em qualquer momento de minha vida.

O corpo de MinHo jazia imóvel sobre o chão frio, parcialmente coberto pela lona preta. Os olhos fechados numa expressão serena e tranquila como quando ele dormia. A única diferença é que suas bochechas estavam mais pálidas que normal, seus lábios estavam terrivelmente arroxeados, anunciando que sua vida há muito já havia se esvaído dali. Os flocos de neve dançavam em um tipo de balé macabro, indo por fim repousar em seus cabelos antes tão macios, formando um véu triste sobre sua fisionomia completamente amena.

Um dos homens com uniforme de perito, porém, interrompeu minha visualização e passou por debaixo da fita amarela, fechando o corpo dentro daquele saco preto. Era àquilo a que ele se resumia agora. A um pedaço de carne sem qualquer vida num maldito saco preto. Meu olhos ardiam de forma involuntária e eu não podia conter as lágrimas grossas que teimavam em cair desesperadamente em um silêncio tão profundo. Meu peito ardia da mesma forma, meu coração parecia contrair em agonia e eu sentia uma vontade enorme de gritar para aliviar toda aquela dor.

MinHo estava morto.

Notas finais
*Suspiro*
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.