Pelos Olhos do Gavião
8 Ao Fim de Tudo
Pietro podia perder tudo.
Qualquer senso de direção, ou tudo o que conhecesse poderia se tornar cinzas entre os seus dedos.
Mas ele nunca perderia o laço que tinha com a sua irmã.
Gostava de tomar um bom café e estava deixando uma Starbucks em Manhattan quando sentiu um aperto no coração. Soube imediatamente do que se tratava.
Correu.
O vento cinzento e impetuoso percorreu as ruas de New York em uma velocidade absurda.
Em uma frequência, e talvez até em outra dimensão, que ele não conhecia, ouviu a voz de Wanda. E ela gritava.
Não era rápido o suficiente.
Forçou-se ao limite até se mover com tanta rapidez que nem mesmo a luz poderia o acompanhar.
Parou em uma fração minúscula de tempo depois. E não restava mais nada.
Não pôde salvar sua irmã, porque já não pertencia mais àquele lugar. Correu com tanta intensidade que alcançou algo que imaginou ser impossível. Havia corrido sobre o tempo, até alcançar o seu crepúsculo.
Encarou o universo inteiro, que agora era completamente plano. O pálido ponto azul de outrora se tornou algo que muito se assemelhava à uma rocha. Rígida, solitária e sem vida. Perguntou-se imediatamente como ainda conseguia respirar, até perceber que não o fazia. Seu coração deixou de bater, suas células já não se reproduziam.
Não só Pietro ou mesmo a Terra estavam parados. O tempo deixou de mover-se.
Compreendeu que aquilo não era somente a Terra. Caminhou com a sua velocidade, em desespero, para a frente e assim que pisava em um solo diferente podia sentir. Corria sobre milhares, ou talvez milhões, de Terras diferentes. Algumas em que histórias conhecidas haviam sido contadas de maneiras diferentes. E então deixou o seu lar para desbravar mundos desconhecidos. Caminhou sobre planetas em que haviam dado nomes, planetas que depois foram explorados. E planetas que, em seu tempo, sequer haviam sido alcançados pela luz.
Alcançou o fim e não encontrou uma saída.
Seu coração só não batia forte no peito pois deixou de pulsar há muito, mas o seu desespero o devorava por dentro.
E então Ele chegou.
Imaginou que veria algo grandioso, ou simplesmente a escuridão sem fim.
Qualquer coisa.
Definitivamente não um homem de branco.
— Ouvi histórias sobre você. — Lembrou-se que mesmo o Homem Aranha já havia se encontrado com Ele uma vez. — One-Above-All.
— Não é o meu nome preferido — confessou, se aproximando.
Não soube dizer de onde a entidade cósmica apareceu, mas quando olhou com mais calma pareceu que ele sempre esteve ali.
Não era nada como esperava.
Imaginou algo próximo à Eternidade ou Morte, ou alguém com a mesma presença forte e poderosa como Thanos.
Não.
Era um tanto mais baixo que Pietro, e tinha os cabelos e a pele mal tratada pelo Sol. Os cabelos castanhos claros e os olhos num tom de mel. Seu nariz era excessivamente grande para fazer de sua aparência bela, mas ele transmitia em sua expressão uma calmaria que só poderia ser etérea.
Se olharam por um bom tempo, e depois para o horizonte infinito de nada.
— Veio me buscar? — questionou, quebrando o silêncio que se espalhava por toda a criação.
— A Morte tocou cada um dos que eu criei. Mesmo àqueles que estavam muito longe, que detinham poderes incalculáveis. Aqueles que chamavam a si mesmo de deuses. Ela tocou planetas inteiros. E foi isso que restou. O interminável fim. — One-Above-All era um tanto nostálgico em tudo o que recitava, mas nunca triste. Mostrava um sorriso de canto da boca. — Menos você. Era o trabalho dela vir buscá-lo, mas eu quis vir.
— Tem prazer em me levar até a Morte? — Para Pietro, aquilo soou doentio.
— Quando a Morte foi tudo o que restou, ela tornou-se isso. O tempo não passa, o vento não canta. Esse universo estático em que estamos é a Morte. Eu vim tirá-lo. — Tocou o rosto de Maximoff e sorriu. — Por que teme?
“Você não ia entender. Eu ainda tinha coisas para fazer. Planos. Eu ia salvar minha irmã. Nós íamos ser aceitos. Tanta coisa. Eu estou aqui com você, mas, de alguma forma, ainda estou lá. Meu espírito ainda está preso ao passado. Ao universo limitado e tangível que vivia”. Não conseguiu dizer nenhuma dessas palavras.
Piscou os olhos algumas vezes, para se certificar que ainda estava ali e então respondeu com uma tentativa de pergunta:
— O que houve com a Terra depois...
— Que você desapareceu? Pessoas nasceram, morreram. Tiveram o coração partido, se formaram, perderam o emprego. Encontraram a si mesmas, e uns aos outros. Multiplicaram-se. Se amaram e se odiaram. Fizeram obras de artes que palavras não descreveriam, descobertas científicas que a sua mente não estaria preparada. Se mataram por muito pouco ou quase nada. Tiveram tempo. Até que o tempo acabou, e não houve uma alma que não se lamentava por não ter sido o suficiente.
Não era exatamente isso que queria saber. Queria saber o que aconteceu com seu pai, com os Vingadores. Queria saber qual foi o destino de todos os seus amigos quando ele deixou as suas vidas. Mas percebeu que a resposta era a mesma.
O tempo passou.
— Eu quero entender. — Não só o que aconteceu, não só onde estava. Queria entender tudo.
— Não pode. Não ainda. Se deslumbrasse plenamente a maravilha da criação, certamente não entenderia. Acharia que está tudo errado, e fora do lugar.
— De onde eu vim, tudo parecia estar errado e fora do lugar — confessou.
O homem de branco o abraçou. E Ele era grande. Maior do que qualquer coisa. Mas pequeno. Pequeno como Pietro era. Nunca se sentiu tão frágil.
— Você deve vir, Pietro — segredou no ouvido do borrão cinza.
— Por quê? — Queria ficar. Queria correr de novo sobre a superfície dos planetas e lembrar. Mesmo que fosse de mentira, queria imaginar o futuro que teria se tivesse ficado.
— Porque eu te amo. — Não era aquela a resposta mais perfeita?
— Por quê?
— Porque eu te conheço. — Não.
Conhecer Pietro, assim como conhecer qualquer outro ser humano, era ruim. Sempre acreditou que conhecer alguém era o que estragava tudo. De início, quase todo mundo podia parecer alguém legal. Entretanto, quanto mais se conhecia, mais visíveis eram os defeitos. Assim como todos os outros, Pietro possuía defeitos. E muitos. Defeitos que ele próprio odiava e que não queria que ninguém soubesse. Porque sabia que, quando descobrissem, o tratariam diferente.
— Você está errado. — One-Above-All disse, quebrando o silêncio, como se estivesse na mente do velocista. Se mantinha longe de Xavier por isso. — Se você conhecesse cada pedacinho, se você tivesse esculpido cada estrela com suas próprias mãos e dado nome a cada uma delas, se você soubesse até mesmo a quantidade de cabelos na cabeça de alguém e pudesse completar as frases dela. Se você apenas pudesse conhecer alguém de uma maneira tão intensa que ela fosse como parte de você, você a amaria. Amaria com tudo o que tem, não?
Um sorriso escarlate lhe apareceu em pensamento.
— Eu amo.
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