Notas iniciais
Por recomendação da beta dessa história, deixo o aviso prévio que esse capítulo é, inteiramente, um flashback.

Barbara tinha se guardado por tanto tempo, que nunca pensou que poderia se reencontrar.

Descobriu que poderia gostar dos filmes idiotas que Clint gostava, a maioria de cowboy ou ficção científica. Descobriu que gostava de ter alguém, e ser de alguém. Que adorava ficar com o cheiro dele no final do dia, e manter aquela sensação de não estar só mesmo quando estava. Ele mudou também. Se esforçava para não ser um idiota sempre, mas ela gostava quando ele era. Acabaram por descobrir mais do que um ao outro.

É claro que não concordavam com tudo. Ela dizia “Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva”; e ele respondia com: “Não pode chover o tempo todo”.

Mas haviam criado uma terceira pessoa. Que os tornava um só. Um pedaço que estava perdido na não existência, e agora crescia, se tornando cada vez mais forte.

Era isso que fazia Barbara temer. Eles conheceram coisas e presenciaram situações que quebravam a maioria dos conceitos que acreditavam conhecer, como a eternidade, o poder e a realidade. Entretanto, tudo isso parecia desvanecer e tornar o mundo cada vez mais normal quando se tratava de pessoas e sentimentos.

Pessoas e sentimentos.

Bobbi aprendeu cedo, talvez cedo demais, que nenhuma das duas coisas eram eternas.

Quando ele a tocava, sentia seu espírito deixar o corpo e voar para longe. Voar para longe com ele. Sua boca não conhecia nenhuma outra palavra que não aquela: Clint. Clint, Clint, Clint. Achava um nome esquisito. E se passasse muito tempo pensando, virava só um som. Apenas um barulho esquisito que tinha um volume ínfimo saindo de sua boca. Tão pequeno que apenas ele ouvia. Quando não havia mais espaço para nenhum nome entre eles, e o seu espírito voltava à sua jaula de carne, ela imaginava qual seria o nome dele quando fosse embora.

Aquele sentimento era tão forte. Tão alto. Parecia que duraria para sempre, e mesmo além do para sempre. Mas Bobbi era uma cientista, e achava que mais do que só inocência, era também arrogância, achar que seu sentimento era tão transcendente. Enchia-se de aspirações e desejos, mas achava errado se considerar importante, decisiva ou infinita. No final do dia, eram todos só sopro na galáxia.

Aquele inverno foi especialmente frio, mas Clint Barton tinha o seu jeito especial de aquecê-lo.

Não somente com aquele relacionamento, mas também os outros que vinham com ele. Como o reencontro da família Morse, que até então consideravam Barbara como morta.

Bobbi ponderava tudo isso enquanto encarava o teto branco daquele quarto. O apartamento dele era sempre bagunçado, não tinha um computador e ainda possuía um telefone preso na parede. Parecia estar mais congelado no tempo do que o Capitão Rogers, mas ela gostava. Não, não gostava; amava.

Mas havia algo de especial naquele teto. Não era liso. Era cheio de pequenas falhas na pintura e pontos quebrados pelas flechas do Gavião. Durante muito tempo, pôde ver a sua vida num teto qualquer. Uma imensidão branca, sem sentimentos. Um loop infinito da mesma rotina, sem mudanças, sem perturbações além do esperado. O abraçou, e sentiu o amor arder em seu peito quando percebeu que agora sua vida mais parecia com o teto dele do que com o seu.

Já não conseguia mais se lembrar do que tinha feito antes. Como chegou ali. Como fora o seu dia. Mas não importava. Era um daqueles momentos em que esquecia de como se comunicar, e só existia uma palavra em sua boca. Os corpos se colavam. Primeiro de maneira vagarosa. Uma luta que nasceu perdida ao tentar transformar dois corpos em um. Depois, se tornava algo diferente. Uma experiência gigante cheia de pequenas outras experiências. Inúmeros cheiros, sabores e toques.

Parecia ser eterno enquanto durava. Mas sempre chegava ao seu fim.

Fim. Era um conceito interessante. Assim como a palavra. Fim, fim, fim. Era tão boa quanto Clint. Clint, Clint, Clint. Com a respiração ainda irregular, riu ao pensar que, se repetir “fim” por muito tempo, o sentindo da palavra encontra a si mesmo. O fim tem um fim. Fim, fim, fim.

Clint não sabia por que ela estava rindo, e ela não parecia estar disposta a explicar. Tocaram-se de novo, e o toque queimava.

Novamente pensou sobre o fim.

Em algum ponto, aquilo deixaria de ser algo tão cheio de sentimentos. Seria um bando de movimentos mecânicos semiautomáticos e sistematizados. Quase como o barulho que faziam, que no final não significava nada, e ninguém podia ouvir.

— Bobbi... — Mais um barulho ininteligível para o universo. — Eu te amo.

Uma promessa ou uma constatação de um fato? Deveria dizer algo. É claro que também te amo. Seria verdade. Mas, no momento, tudo o que queria era ficar em silêncio. Porque se não ficasse, teria perguntas.

Perguntas como: Até quando? Quem de nós dois irá desistir primeiro? Quando isso tudo se tornará rotina?

Não tinha as respostas, mas foi a primeira a se levantar.

— Eu preciso ir.

Clint estava embriagado demais com o amor para reparar. E então não reparou. Não reparou que ela não disse que o amava de volta. Não reparou que soava como uma despedida. Não reparou que ela sentia que era o fim, mesmo tão perto do início.

As coisas vêm e vão. Uma flecha disparada nunca volta atrás.

Entretanto, era preciso de um alvo certo e um bom disparo para que ela não precise voltar. Afinal, retroceder nunca parecia algo bom. E certamente não era o que queria. Observava o seu teto cheio de falhas e rachaduras e se perguntava: qual seria o nome para eles dois?

Não havia uma opção sonora e legal como Brangelina, tudo soava bobo ou estranho.

Passou um bom tempo sozinho, em sua cama, tentando configurar as sílabas de seus nomes em uma única palavra que soasse boa, mas acabou desistindo. O outro lado da cama já estava frio, e os seus passos foram firmes e certeiros até o velho telefone pendurado na parede.

— Tasha, posso te perguntar uma coisa?

— Você sabe que esse é um... argh! — Ouviu gritos em outra língua do outro lado da linha, e então algumas pancadas que precederam o silêncio. — Clint, eu estou ocupada.

— Eu só queria saber. O que você acha da Bobbi? Você acha que ela é só uma mulher ou uma mulher? — Romanoff suspirou profundamente com a pergunta.

— Até pra você isso não faz sentido, Clint. Eu realmente preciso ir...

— Sim, senhora. — Outro longo suspiro, mas desta vez tinha outro significado.

— Clint, peça a ela.

— Como você...

— Eu te conheço. — Os dois sorriram simultaneamente com o gosto doce da amizade. — E... vocês dois vão dar certo. Quer dizer, vocês precisam dar certo. Vocês dois juntos me fazem acreditar de que ainda existe algo bonito. Algo que valha a pena.

Queria ter dito não para Clint.

Afinal, ela havia acabado de chegar da casa dele quando o seu telefone tocava e ele pedia para que se encontrassem.

Não, Clint, eu não quero lhe encontrar.

Por que não?

Porque... eu não quero que você enjoe de mim.

Sempre escrevia os mais perfeitos diálogos em sua mente, e tudo ficaria bem se eles ganhassem vida. Acontece que ninguém os seguia. Às vezes nem ela mesma.

Ainda fazia frio no fim do inverno, mas a neve acumulada nas ruas lentamente derretia e as águas corriam pela cidade. Traziam limpeza. Traziam promessas. Sua bota estava molhada e os dedos rígidos, mas valeu a pena esperar.

Seu sorriso abriu e se tornou sonoro não somente pela presença de Clint, mas também pelo vestuário dele. Terno amassado, gravata mal amarrada e sapatos desgastados. Que tipo de idiota usaria aquilo para se encontrar com a namorada no parque? Clinton Barton.

— Por que você tá vestido assim? E o que não podia esperar? E, de novo, por que você tá vestido assim? — Barbara não conseguia esconder o sorriso, por mais vermelha que as bochechas de Clinton ficassem.

— Eu... eu só tou... parecendo um idiota, né?

— Tá — riu, mas ele não a acompanhou.

— Escuta, Bobbi. Só me escuta, tá? Eu não sou bom com palavras, mas eu quero te dizer... Eu... Nós conhecemos coisas loucas e extraordinárias, não é? Eu era um menininho de Iowa que aprendeu a usar um arco e agora sou amigo do Thor. Eu nem sei se eu acredito em um deus do trovão. — A fez sorrir com aquilo, e o sorriso dela lhe ajudou a deixar de gaguejar. — Todas essas coisas são tão fantásticas, mas você é a coisa mais maravilhosa na minha vida.

— Clint...

— Eu não quero mais acordar e não ter você ao meu lado. Porque, eu nunca percebi, mas eu odeio ver o mundo sem você. — Se ajoelhou devagar, molhando todo o seu terno amassado. Tirou desajeitadamente a caixinha de veludo do bolso, e abriu. Um anel discreto que Bobbi não pôde contemplar. Seus olhos se afogavam. — Você quer casar comigo?

Sentiu como se seu único ponto de calor fosse as lágrimas, mas que logo à frente havia uma fonte muito mais intensa. Ela só precisava dizer três letras e esticar a mão. Era tudo o que queria.

Então não precisa ter um fim, suas lágrimas diziam.

— Não. — Ainda eram três letras, mas fez o trabalho inverso de os aquecer. Só trouxe mais frio. — Clint, eu não posso. Não agora. Eu era filha de alguém, irmã de alguém, amiga de alguém. Nunca teve espaço para ser só a Bobbi, e eu acabei de descobrir quem ela é. Eu não posso. Não posso desistir de mim por você.

Clint não notou que ainda estava ajoelhado e suas calças estavam completamente molhadas e as suas pernas duras com o frio. Seus olhos de Gavião só conseguiam ver Barbara indo embora. Ia embora junto com as águas, que se desprendiam do gelo do inverno.

Notas finais
Para melhor ou pior, o próximo capítulo será o encerramento. Alguém ansioso?