Pelo vermelho
1 Capítulo único
Notas iniciais
Pelo vermelho
Escrito por Meiline Damestein
— O vermelho banhou minha vida.
Puxe-os! Arranque-os! São apenas marionetes. Quero que retirem este sorriso mal feito de seus rostos, que me atormenta toda vez que os visualizo. Malditas bonecas! Por quê? Por que eu as criei? Eu não passava de uma marionete para criar outras. Agora estou pagando meus últimos momentos com minha mente sendo perdida em outra luta
Todas minhas criações reluzem com a pele de porcelana albina, puras e limpas, não são como Eu. Já tive em minha alma a inscrição de alguém que já tirou a vida de alguém por inveja. Seus olhos fundos e sem vida, sem nada para expressar, elas se parecem comigo nisto. Seus lábios vermelho carmesim. Como fogo, o mesmo fogo que matou aquela alma. Os vestidos costurados a mão e limpos, como os de Mamãe. Sapatilhas bem colocadas, como na minha infância. Os cabelos penteados e deixados com suas longas mechas castanhas de repouso sobre seu torso. Não! De novo, não! Essas malditas semelhanças! Não, errado de novo!
Quebre-os.
Agora esta tão imperfeita quanto Eu. Agora sua porcelana pura e limpa, não passa de uma feia e quebrada. De novo? A inveja? Não é possível, já estava tudo perdido. Todas as bonecas me olhavam, com aqueles sorrisos tortos, com seus rostos inclinados, e os lábios trancados. Eu estava cercada. Pisquei. Meu coração estava aludido de um mal pressentimento. Seus rostos estavam todos feios e sujos, pareciam monstros que minha Mamãe lia para mim. Em meu resto de raciocínio lógico e moral, pude sentir uma centelha de loucura e determinação preencher meus sentidos. Preencher por todos os lados. Por quê? Até em seus momentos mais desagradáveis, havia uma beleza revigorante na existência de minhas criações. Pois pasmem, minhas criações, o destino de vocês será o mesmo de sua irmã quebrada e jazida aos meus pés. Olhei para a boneca referida. Ela não estava ali.
Manipule-os.
Meus olhos passearam por todo local. Nada. Só mais e mais criações. Mas não aquela criação. Saberia discernir a diferença e virtude de cada. Ora, era sua criadora. Sentiu um calafrio ao analisar a situação. Estava cercada por suas criações. Em seu íntimo poderia afirmar que estava ouvindo risadas. Risadas dóceis mas cínicas. Saberia bem de onde estava vindo. Cada criação a olhava como se penetrasse em sua alma e as dilacerasse. Minha visão tornou-se turva e senti uma leveza em meu corpo fora das proporções normais. Ouvi uma risada mais audível meio a todas. Ergui o olhar. Era uma bonequinha, outra criação, está não me encarava. Estava com a cabeça abaixada e olhava somente para seu próprio umbigo. Duas sensações me invadiram. A primeira foi de ódio a tal afronta; Como ela poderia abaixar sua cabeça e apenas olhar para seu próprio umbigo? Ora, sou sua criadora, ao menos deve me olhar e respeitar, criação ignorante. Segunda sensação, fora de consolo. Uma sensação maternalista, ajeitá-la sua cabecinha e colocá-la bem posicionada perante todas. Avancei em seu rumo instantaneamente, a segunda sensação prevalecera. Ergui seu rostinho para luz; para mim. Senti o desespero tomar conta de minha existência.
Contamine-os.
Era eu? Sim. Era eu. Não poderia ser real. Eu não poderia ser uma delas. Não só não poderia, como não sou. Tenho certeza disto. Eu não sou como elas. Não sou uma delas. Acorde. Pedi a mim mesma, inúmeras vezes. Já estava na hora de acordar. Mas infelizmente a cada instante que se passava pude notar que não era um sonho. Não. Eu não poderia ter me tornado uma delas. Sou a criadora. Não havia mais lasca de raciocínio moral e lógico, apenas permiti o desespero tomar conta de minha existência. Recuei com passos temerosos e sai correndo. Mas cai. Novamente. Cai de novo para aquele lugar. Ouvi o barulho de algo sendo quebrado. Soou como vidro. Senti uma leveza acima de tudo. Senti um alívio tomar conta de minha existência. Estaria eu livre? Não. Foi só a constatação de que era um sonho. A centelha de loucura e determinação voltara. Era hora de eu acabar com tudo. Não poderia apagar meu pecado, afinal, estaria fazendo outro pior. Uma ideia surgiu me minha mente. Senti uma familiaridade com esta ideia. Elas não iriam mais me perturbar.
Devore-os.
Eu não havia me tornado uma delas, afinal, eu sempre fui uma delas. Elas sempre me seguiriam para onde eu me refugiasse. Porque assim como eu as criei, elas me criaram. Não dizem que o professor também aprende com o aluno? Então — minhas criações, minhas crianças, minhas ambições -, sigam Mamãe.
Acendi um fósforo. A chama me hipnotizava. Ela reluzia com tanta vontade, com tanta essência que assemelha-se a uma vida humana. Minhas crianças me encaravam com sua habitual frivolidade, mas de seus lábios soavam urros de surpresa. Não se preocupe, minhas crianças. O Inferno irá nos receber de portas abertas.
Esse fogo. Esse vermelho. Vermelho carmim. Obrigada por ter finalmente juntado-me à minhas outras partes, e por finalmente permitir que eu viesse para meu lugar.
Silêncio, elas se foram. Estou livre.
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