Pelo Tempo Que For
1 Complicated
Notas iniciais
Casa do Cascão
Bairro do Limoeiro, São Paulo
19 de abril de 2016, 08:55PM
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Cascão: Linda, bó sair amanhã? (20:55)
Cascuda: Vms sim, ia te mandar msg agr p marcarmos algo! Q hrs? (20:59)
Cascão: Sla, dps do almço? Te encontro perto do campinho, ok? A gnt vai se flndo, bjs (21:14)
Cascuda: Ok, bjs (21:17)
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Colégio do Limoeiro
Bairro do Limoeiro, São Paulo
20 de abril de 2016, 12:30PM
Soundtrack: 21 Guns — Green Day
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Cascão já estava com seu material guardado e a mochila nas costas quando o sinal tocou, indicando o fim da aula — estava cansado de passar a manhã inteira preso naquela sala, então correu em direção à saída assim que foi liberado. O fluxo de alunos era grande, mas isso nunca foi um problema para o garoto esportista. Em menos de três minutos (e algumas manobras de parkour) ele já estava fora do colégio, respirando fundo o ar puro como se tivesse saído de uma prisão.
— Pra que a pressa, criatura? — Ouviu Cebola perguntar, finalmente alcançando-o — Parece até que está fugindo de alguma coisa.
— Tô fugindo dessa prisão que chamamos de escola. Não agüento mais essa pressão do ensino médio — Reclamou, fazendo Cebola rir.
— Relaxa, cara. Daqui a pouco as férias do meio do ano estão aí!
— É, mas enquanto isso é prova atrás de aula, aula atrás de prova... — O sujinho fez uma careta e os dois seguiam andando em direção ás suas casas.
— Ta ferrado em quais matérias? — Perguntou Cebola, já sabendo que esse era o problema.
— Algumas... Mas bem menos que no ano passado. Os estudos em grupo têm ajudado pra caramba.
— Temos até que marcar essa semana, a prova de história já é na segunda-feira que vem... E ninguém vai querer estudar no fim de semana, né?
— Ih, é mesmo. Vou ver se a Mônica e a Maga podem amanhã. Estou mesmo precisando de uma força em história...
Após um minuto ou dois de silêncio, Cebola retomou a conversa, curioso.
— Cascão, sem querer me meter nem nada... Mas porque você nunca estuda com a Cascuda? A mina é a maior cdf da sala, só tira notão...
— A gente tentou umas vezes, mas não deu muito certo. — Ele torceu o nariz — A Cascuda é muito encucada com essas paradas de estudo. E toda vez eu levava bronca, então parei de pedir ajuda pra ela.
— Bronca? Por quê?
— Pra começo de conversa, ela não consegue prender minha atenção... E quando eu não viajo no meio da explicação e tento tirar dúvidas, ela sempre me dá um sermão de horas falando que o professor já falou de tal coisa na sala, que eu não presto atenção...
— Mas isso aí é verdade né, cabeção? Você vive viajando nas aulas.
— É, mas eu sou desligado mesmo, careca. É o meu jeito, vou fazer o que? Não tenho essa facilidade da Cascuda e da Maga pra prestar atenção nas aulas, não. Mas não é por querer.
— Você é hiperativo, mané.
— Eu to ligado. Mas a Cascuda parece que não entende isso. Eu fico bolado por não conseguir ser focado e ela ainda joga isso na minha cara...
— Você já disse isso pra ela?
— Já. Mas ela fica dizendo que preciso ouvir esse tipo de coisa pra tomar jeito — Cascão revirou os olhos — Sei lá, ás vezes eu queria que a Cascuda fosse mais como a...
— ...Magali? — Cebola completou, como se fosse óbvio.
— É. Ela consegue me ensinar de boa.
— Ela também te da bronca por não prestar atenção, pelo que me lembro...
— É, mas a Maga não briga comigo, ela me chama atenção, sacou? Conversa, me mostra que é importante... Ás vezes me deixa até com peso na consciência por não prestar atenção. E funciona bem melhor. Ás vezes lembro dela falando isso, durante a aula, e me esforço mais pra focar no que o professor ta falando. Mas só de pensar nas broncas da Cascuda já fico com vontade de mandar tudo pro espaço.
Ao chegarem em frente a casa de Cebola, o careca cruzou os braços, encarando o amigo.
— Cara, a gente nunca parou pra conversar sobre isso... Mas o que rolou entre vocês dois?
— Quem?
— Você e a Magali.
— N-não rolou nada ué.
— Nem quando você e a Cascuda terminaram? Porque vocês só andavam juntos naquela época.
— Se tô dizendo que não rolou nada é porque não rolou, careca.
— Ta, beleza, não ta mais aqui quem falou... — Ele começou a se virar pra entrar em casa, mas acabou deixando escapar, num tom de voz mais baixo — Imagina então se tivesse rolado...
— Que?
— Pindalolas, pensei alto.
— Como assim, Cebola?
— Nada não, cala. Deixa pla lá. — Tentou o careca, na defensiva. Foi a vez de Cascão cruzar os braços.
— Agora fala, troca-letras. Que parada foi essa aí?
— Ah Cascão, desde aquela época vocês tem andado meio estla... uhum, estranhos um com o outro. Todo mundo percebeu, você sabe disso.
— Cara, a Magali tem namorado. E eu tenho a Cascuda, também. Não viaja.
— A Cascuda morre de ciúmes da Magali, isso não é segredo pra ninguém. Aquele dia na competição de parkour* mesmo...
— Aquilo foi besteira da Cascuda...
— Será que foi mesmo? — Disse Cebola, encarando o amigo com uma expressão desafiadora — E seu ciúme da Magali com aquele cara lá? Foi besteira também?
— E-eu não estava com ciúmes, careca. E eu tava certo sobre aquele cara, ele era um...
— Cascão, você não sabia o que aquele cara era.
— É, mas eu...
— Deixa pra lá, eu que não vou ficar insistindo nisso. Só estou querendo te dar um toque — Disse o careca, abrindo o portão de casa — Se mesmo sem acontecer nada vocês já estão nesse climinha, bom... Imagina só se tivesse rolado então.
Cascão não respondeu. As palavras do amigo haviam atingido-o mais do que deveriam, então optou por ficar quieto... Poderia se complicar se tentasse se justificar. Ele observou Cebola entrar em casa e seguiu seu caminho, pensativo.
Era verdade que as coisas tinham mudado um pouco entre ele e Magali, mas Cebola estava exagerando. Eles tinham se aproximado mais, só isso. Quando ambos estavam solteiros, experimentaram algo... Diferente um com o outro. Uma coisa nova... Mas tudo havia voltado ao normal, como tinham que ser, e Cascão não pensava muito no que tinha acontecido. Ele e Magali estavam mais próximos depois de tudo, mas... Como amigos. Antes, ele considerava Monica e Magali igualmente, agora, Maga estava acima, podendo ser considerada sua melhor amiga. Mas era só.
O Careca só estava realmente certo em uma coisa: Os ciúmes da Cascuda. Ultimamente, qualquer coisa que ele fizesse relacionada à Magali deixava a namorada enciumada, desconfiada, chateada. Ele não havia contado a ninguém, mas eles já haviam brigado algumas vezes por conta disso, e Cascuda tinha que entender... Eles eram amigos. Ele não ia se afastar da Maga por conta de um ciuminho bobo... Nem por qualquer outro motivo.
Logo ele estava em casa. Deixou a mochila no sofá da sala e os pensamentos pra trás, indo direto pra cozinha, pois estava morrendo de fome. Ao chegar lá, porém, encontrou apenas um bilhete:
Filho,
Como havia te avisado, tenho uma consulta médica 13:00 no centro, então não pude fazer o almoço, vou comer algo no shopping antes de ir. Você provavelmente se esqueceu completamente disso e chegou morrendo de fome. Tem um pacotinho de miojo no armário da despensa que comprei pra uma ocasião como essa. Cuidado ao mexer no fogão. Te amo.
Beijos,
Mamãe
— Ih caramba — Ele pensou alto. Havia se esquecido completamente. Pegou então uma panela qualquer e encheu-a de água — Vai ter que ser miojo mesmo.
Colocou a água pra ferver e foi levar a mochila — que havia deixado na sala — para o quarto. Quando subiu as escadas e finalmente chegou no tão conhecido cômodo, colocou o material numa cadeira e, prestes a jogar-se na cama para ler um gibi, avistou alguém conhecido pela janela.
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Casa da Magali
Bairro do Limoeiro, São Paulo
20 de abril de 2016, 12:45PM
Soundtrack: Sparks will fly — Devon Werkheiser
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Magali chegou em casa e logo foi recebida por um Mingau faminto, pedindo comida. Ela pegou o bichano no colo — rapidamente atraindo a atenção dos outros gatinhos da casa — e se dirigiu até a área onde estavam as coisas dos felinos. Encheu os potes de comida, que logo foram atacados, e se dirigiu até a cozinha.
— Oi mãe!
— Oi, filha! Como foi o colégio?
— Tudo bem... Fazendo o almoço?
— Sim... Hoje a fila estava maior que de costume. Ainda deve demorar.
Dona Lili ia ao mercado todas as quartas-feiras pela manhã, o que sempre atrasava o almoço. Magali, já acostumada, voltava pra casa sempre comendo uma barrinha de cereal nesses dias.
— Quanto tempo, mais ou menos?
— Cerca de uma hora, talvez. Mas a boa notícia é que teremos lasanha!
— Ai, que tentação! — Magali suspirou, fazendo sua mãe rir.
— Você não consegue resistir a minha lasanha...
— E quem consegue?
Dona Lili sorriu, orgulhosa, e Maga se dirigiu a sala.
— Acho que vou dar uma volta de patins, já que ainda vai demorar... Tudo bem?
— Sem problemas!
— Volto em meia hora então! — Respondeu a garota, subindo as escadas em direção ao seu quarto.
Ela rapidamente trocou de roupa, pegou os patins e, antes de sair, calçou-os com facilidade. Em poucos minutos estava na calçada, sentindo o vento bater em seu rosto à medida que aumentava a velocidade.
Não muito tempo depois, ouviu alguém gritar seu nome e reconheceu a voz imediatamente. Sem nem pensar duas vezes, deu meia volta e foi ao seu encontro.
— Oi Cas!
O garoto abria o portãozinho que separava sua casa da calçada, encarando a amiga.
— Saindo pra patinar essa hora?
— É, dia de mercado. Minha mãe sempre atrasa o almoço! E você, o que está fazendo?
— No momento, atrapalhando seu treino — Ele brincou.
— Nem estou treinando, só curtindo mesmo — Ela sorria — Não treino de verdade desde aquela competição contra os gêmeos patinadores...
— Pôô, aquela competição foi show! Bateu até saudades daquele dia!
— Foi bem legal mesmo — Comentou, saudosa — Aquelas manobras eu não vou desaprender nunca! Mas e aí, você ta de bobeira mesmo?
Ele sorriu.
— Estava. Não sai daí! — Disse ele, correndo pra dentro de casa.
Em poucos minutos, Cascão já estava de volta, também usando seus patins.
— Faz um tempinho já que não ando, bateu saudade — Ele se justificou, dando de ombros — Posso te fazer companhia?
— Claro, Cas. Precisa mesmo perguntar? — Ela sorria de maneira tão doce que Cascão não pode evitar sorrir de volta.
— Então ‘vamo’ lá! — O sujinho disse, empolgado, puxando a amiga pela mão em direção à pracinha.
Chegando lá, ele soltou a amiga e patinaram juntos sem rumo durante algum tempo, calados. O silêncio, no entanto, não era constrangedor, pelo contrário... Era reconfortante. Só o fato de estarem ali, lado a lado, com aquela sensação de liberdade invadindo seus corpos já era o suficiente pra fazer com que ambos se sentissem bem.
Cascão então resolveu brincar e fez um moonwalk com os patins.
— Ainda se lembra disso?
Magali o imitou, com facilidade.
— Eu disse que não ia desaprender, não disse? — Ela sorriu, vitoriosa.
— E esse aqui? — Perguntou ele, segurando as mãos da amiga e começando a rodopiá-la.
Magali fez o tufão, girando em torno do próprio eixo diversas vezes, mas, quando finalmente parou, cambaleou um pouco.
— Um aviso prévio seria bom, Cas. Agora to bem tontaaAAAAAAH! — Disse, finalmente se desequilibrando e caindo na grama.
Cascão então se aproximou e estendeu a mão pra ajudá-la a levantar.
—Eita! Ta de boa, Maga? Machucou?
— Não — Ela disse, rindo e aceitando a ajuda — To bem!
Ao tentar apoiar-se em cascão para se levantar, porém, as rodinhas de um dos patins escorregaram e, perdendo o apoio, Magali não só caiu novamente como levou Cascão junto.
Os dois caíram na grama fofa de maneira desajeitada e tiveram uma crise de riso por conta da cena.
— Aiai, só você mesmo pra me fazer passar por essas, Cascão — Disse a garota quando eles finalmente conseguiram parar de rir, e então fez menção de se levantar.
No entanto Cascão, para a sua surpresa, a impediu.
— Ah, relaxa um pouco, Maga! — Disse o garoto, com uma das mãos em seu ombro — Aqui ta tão de boa... E vamos ter que patinar bastante pra voltar pra casa. É até bom que a gente recarrega um pouco as baterias!
— Pode ser — Ela deu de ombros e encarou o relógio de pulso — E ainda temos tempo também.
Dito isso, Cascão deitou completamente na grama, colocando as mãos atrás da cabeça pra que servissem de travesseiro. Magali continuou sentada, abraçada aos joelhos e encarando o amigo largado no meio da praça.
— Senti falta disso, Cas.
Ele a encarou, confuso por um momento. Não tinha certeza se havia entendido direito.
— O que? De sair junto?
— É...
— Eu também. Tem um tempinho mesmo que não saímos só nós dois. Pra curtir e tal... Como amigos.
— Claro, como amigos — Ela de repente corou e ele se arrependeu das próprias palavras.
— Sim, claro — Ele coçou a cabeça, também sentindo as bochechas arderem — Como o que mais seria, não é mesmo?
Agora sim o silêncio era constrangedor. Magali não tirava os olhos do chão e seu desconforto era palpável. “Talvez por isso não role mais vezes...” Cascão disse a si mesmo, em pensamento. Tentou então mudar de assunto para deixar o clima mais leve.
— Ehr... Você e a Mô vão sair amanhã?
— Eu não combinei nada com ela, mas pode ser que tenha algo marcado com o DC... Porque?
— Eu e o careca estamos querendo marcar um daqueles estudos em grupo pra prova de história da semana que vem... Por você ta de boa então?
— Ah, claro! Sem problemas — Ela lhe deu um meio sorriso — Aonde?
— Hm, boa pergunta. Posso ver com minha mãe se pode ser lá em casa... Falo com ela hoje, quando ela voltar do médico.
— A Dona Lourdes está nó médico? Está tudo bem?
— Ah, ta sim. Consulta de rotina. Eu achei que tinha te dito antes de sair de casa, por isso que eu tava fazendo aquele mioj... — Ele interrompeu a frase no meio e Magali não entendeu quando o amigo fez uma cara de espanto.
— Cas? Viu um fantasma?
— CORRE MAGA! A GENTE TEM, QUE VOLTAR! — Ele praticamente gritou enquanto se levantava as pressas.
Magali o encarou assustada, completamente confusa, mas o seguiu.
— O que aconteceu?! — Perguntou a amiga, patinando o mais rápido que conseguia ao seu lado — Tá tudo bem?!
— Espero que sim! — Disse ele, verdadeiramente desesperado. Aquela resposta só deixou Magali mais preocupada.
Em metade do tempo que tinham levado na ida, eles voltaram até a casa do Cascão. O sujinho entrou correndo no local e, sem nem pensar duas vezes, foi voando até a cozinha. Magali chegou logo atrás e se deparou com um cascão aliviado ao lado do fogão, ofegante. Sob uma das bocas havia uma panela que soltava um pouquinho de vapor d'água e parecia suar bastante. Ela se aproximou, também ofegante devido a corrida e ao susto.
— Sério, Cas? Deixou o fogão ligado? — Perguntou, incrédula.
— Não sou muito de cozinhar — Ele se defendeu — Nem pensei em olhar se tinha algo ligado na cozinha antes de sair...
— Mas é avoado mesmo — Ela riu de leve, cruzando os braços — Tem que tomar mais cuidado, ouviu? Você teve sorte que não aconteceu nada, mas... — Ele a encarava, incrédulo, o que a fez interromper a fala — O que foi?
— Eu nunca vou entender como você consegue até dar bronca gentilmente. — Ele parecia genuinamente confuso, o que fez Magali rir novamente. Ela se aproximou do fogão, pegou uma das luvas e levou a panela até a pia do cômodo, deixando a água-corrente esfriando o objeto.
— Vamos fazer o seguinte... Minha mãe fez lasanha hoje, e meu pai vai comer no trabalho. Porque você não almoça com a gente? Tem comida pra todo mundo... E não me sinto segura em deixar você sozinho com esse fogão outra vez.
— Ei, eu não sou tão irresponsável a ponto de fazer isso duas vezes num dia — reclamou, em tom de brincadeira — Mas aceito o convite. Não tem como recusar a lasanha da dona Lili...
— Disse isso a ela ainda hoje — Maga sorriu, fechando a torneira — Vamos, o almoço de lá já deve estar quase pronto!
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Casa da Magali
Bairro do Limoeiro, São Paulo
20 de abril de 2016, 01:50PM
Soundtrack: You Can Rely On Me — Jason Mraz
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— Mãe? — Chamou Magali, abrindo a porta de casa. Então virou-se para o amigo, indicando o sofá — Senta aí, Cas.
Cascão obedeceu e a garota foi até a cozinha após tirar os patins.
— Oi mãe — Cumprimentou, encontrando dona Lili tirando a lasanha do forno. "Bem a tempo" pensou. — O almoço já está pronto?
— Já sim, meu amor.
— Trouxe o Cascão pra almoçar com a gente, tem problema?
A mãe a encarou.
— Não, problema nenhum...
— Quer ajuda pra botar a mesa?
Ela assentiu e, rapidamente, o almoço estava servido.
— Cas? Ta na mesa! — Chamou a garota.
O sujinho entrou timidamente na sala de jantar, observando a amiga se sentar e sua mãe colocar a lasanha na mesa. Ele se aproximou, sorrindo.
— Oi, Dona Lili, como vai? — Disse, cumprimentando-a. — Me desculpa aí pela invasão, a Maga que chamou...
— Imagina, Cascão! Sem problemas! — Ela sorria — Como vão Antenor e Lourdes?
— Estão bem — Ele deu de ombros, finalmente sentando-se à mesa — Provavelmente morrerão de inveja quando souberem que almocei essa lasanha maravilhosa!
Magali sorriu ao ver sua mãe corar e dar um meio sorriso, sem jeito, satisfeita devido ao elogio do garoto. Ela cortou a lasanha e serviu-a aos três.
O tempo passou rápido até demais durante o almoço. Devido à intimidade que tinham, a conversa fluía fácil e transitava por vários assuntos, sem problemas. Dona Lili inclusive ofereceu a casa para o estudo em grupo do dia seguinte.
— Tenho até que mandar uma mensagem pra Mônica pra saber se ela pode... — Comentou Magali.
— Acho difícil ela não poder — Comentou sua mãe — Vocês fazem tudo juntos!
— Ela pode ter algo marcado com o DC, mãe. Vai saber.
— Ué, mas ele não é da sala de vocês? Também deve estar precisando estudar...
— É mas... Ele não costuma estudar com a gente...
— Por conta do Cebolinha?
— Não sei, ele só... Não aparece por lá.
— Ele é Do Contra, né? — Comentou Cascão.
— É... Mas não sei se isso é uma coisa boa, Cas.
— Mas ele sempre foi assim...
— Não é isso. Estou falando dele e o Cebola não estarem interagindo muito ultimamente...
— Ah, sei lá, Maga! Eu acho que evita treta, o que é sempre bom...
— Nem sempre. — Comentou, séria.
Cascão a encarou, erguendo uma sobrancelha, enquanto Dona Lili se levantou, recolhendo os pratos e levando-os para a cozinha.
— Peraê, acho que não saquei. Como evitar treta pode ser ruim?
— Eu entendo o que você está dizendo, Cas... Mas quanto mais ignoramos o elefante branco na sala, mais ele cresce...
Cascão abriu a boca para responder, mas se deteve. Na mesma posição por um segundo ou dois, ele franziu o cenho, até finalmente voltar a falar.
— Pera, de onde veio o elefante?!
Maga suspirou, apesar de ter um sorriso divertido nos lábios.
— É uma expressão, bobinho. O que estou dizendo é que ás vezes fugir do problema e fingir que ele não existe só piora a situação, não resolve nada...
— Bom, taí uma verdade... Mas não tem muito como resolver isso, Maga. A Mô seguiu em frente e o careca tem que aceitar isso. Simples assim.
— Será mesmo, Cas?
O sujinho encarou a amiga, que estava anormalmente séria.
— Epa. O que você sabe que eu não sei?
Ela desviou o olhar, parecendo culpada e, antes que pudesse sequer fazer menção de responder, sua mãe voltou ao cômodo com um pudim de leite em mãos, encerrando a conversa.
Durante a sobremesa, Cascão continuou a puxar assunto com Dona Lili, lançando olhares curiosos pra Magali sempre que tinha oportunidade. Notou que a amiga estava claramente pensativa, até demais. Quando finalmente terminaram, os dois amigos foram até a sala de estar, onde ele fez questão de sentar bem ao lado dela no sofá, virando o corpo para encará-la de frente.
— Ô Maga... O que ta pegando?
Ela mordeu o lábio inferior, visivelmente apreensiva. Aquela expressão fazia Cascão sentir uma vontade quase urgente de pega-la no colo e garanti-la que tudo ficaria bem.
— Cas, não me leve a mal, mas... Eu não acho que eu deva... Ou possa te contar.
— Ei — Ele apoiou uma das mãos no ombro da garota — Você pode me contar qualquer coisa. Vai ficar só entre a gente se você quiser.
— Não sei... O Cebola é o seu melhor amigo — Respondeu ela, finalmente encarando-o.
— E você é minha melhor amiga — As palavras a fizeram abrir um sorriso tímido — Eu sei que tenho fama de boca grande com a galera, mas eu nunca trairia sua confiança, ainda mais se a parada for séria.
Ela suspirou.
—Certo, Cas. Eu conto... Mas aviso logo que vou te colocar numa situação difícil.
— E não é pra isso que servem os amigos? — Ele também sorria, com aquela tranquilidade que só ele conseguia transmiti-la — Agora desembucha que estou curioso.
Ele deu-lhe um leve empurrãozinho, ombro com ombro.
— É que... — O sorriso dela começou a se desmanchar — Eu acho... Eu acho que a Mô não seguiu em frente tanto assim.
— ... Que? Porque você está dizendo isso, Maga?! Ela não ta toda de boa aí com o DC?
— O problema não é o relacionamento da Mônica com o DC, Cas... Mas dela com o Cebola. Eles não tiveram um ponto final.
— N-não?
— Não! Claro que não... O Cebola deu muita mancada com ela, durante muito tempo. Ela cansou. E, venhamos e convenhamos, ela tomou uma decisão bem... Impulsiva quando ficou com o DC.
— É mas... Eu achei q você apoiava essa decisão!
Magali suspirou e encarou o teto com uma expressão estranha e, mais uma vez, apreensiva.
— Eu apoio a felicidade da minha amiga, Cas. Aquele vai e vem da Mô com o Cê só fazia mal a ela... Então pensei que, se ela ficasse com o DC, ele poderia fazê-la feliz... Ou o Cê poderia tomar uma atitude...
— Você armou um plano pra que isso não acontecesse, pelo que me lembro...
— Não, Cas. Eu armei um plano pra que a Mônica realmente considerasse ter algo com o Do Contra. Pra que ela se permitisse ter uma chance com ele. Mas, ao mesmo tempo, eu queria que isso provocasse o Cebola. Sabia que talvez fizesse ele tomar alguma iniciativa, uma vez na vida, e colocasse os sentimentos da Mô em primeiro lugar... E eu sabia que, se ele fizesse isso, a Mônica não pensaria duas vezes.
— O que?
— A Mônica sempre foi louca pelo Cebola, Cascão. Você sabe disso. Se ele tivesse lutado por ela ao invés de ficar naquela noia de plano, eu não tenho nem dúvidas que ela escolheria o Cê. Foram as atitudes do Cebola que fizeram a Mônica escolher o Do Contra.
— Mas... Eu achei que a Mô gostasse do DC! Ela me parece tão feliz com ele...
— Ele faz bem a ela... Mas há uma grande diferença entre fazer bem e fazê-la feliz. E acho que ele já percebeu isso...
— O DC?
— É. Eles estão meio... Estranhos. E o Do Contra sempre soube que a Mônica gostava do Cebola. Ela pode até ter escolhido o DC e, estando com ele, nunca sequer pensaria em traição... Mas um sentimento desses, que vem desde a infância, não some assim de uma hora pra outra. A esperança era que, com o tempo, o DC fizesse isso desaparecer... Mas não acho que isso esteja funcionando.
— Então a Mônica só ficou com o DC pra esquecer o Cebola? — Cascão perguntou, confuso.
Magali balançou a cabeça em negativa.
— Não, Cas. A Mô gostava do DC... Ainda gosta. Só acho que não dessa forma. Ele é um cara maravilhoso, que pediu a ela uma chance de fazê-la feliz. E a Mônica aceitou. Se já era tentador a oportunidade de seguir em frente e estar com alguém que não tivesse receio de dizer e demonstrar o quanto gostava dela, imagina só depois que o Cebola falou aquele bando de besteiras?! Mas por mais que o Do Contra goste dela e seja um bom namorado... Não acho que ele esteja conseguindo fazer a Mô se sentir da mesma maneira que ela se sentia quando estava com o Cê, quem dirá mais que isso...
— Isso quer dizer que o Careca... Ainda tem chance? — Perguntou, incrédulo.
— Acho que ele nunca deixou de ter. — Magali confessou.
— Mas isso é incrível, Maga! — Cascão comemorou, animado — Ele vai ficar tão feliz quando... Quando...— Ele se interrompeu, caindo em si —Eu... Eu não posso contar pra ele...
Magali negou com a cabeça, culpada.
— Eu avisei que estava te colocando numa situação difícil...
— Mas... Mas... Por que não podemos contar pra ele?
— Primeiro porque a Mô ainda está com o DC. Segundo por que... Eu acho que eles têm que descobrir isso sozinhos. E terceiro porque, bom... É só uma suposição minha.
— Maga, é uma suposição muito bem justificada, apoiada por inúmeros fatos e racional pra caramba. Além disso, você nunca está errada sobre a Mônica. Conhece ela melhor que ninguém! Eu não tenho dúvidas de que você está certa... E digo mais: Aposto que ela te contou alguma coisa.
— Muito pouco, sobre ela e o DC. Mas ultimamente ela não tem falado sobre ela e o Cebola nesse sentido, só sobre a amizade mesmo...
— E você já tentou perguntar?
— Na verdade já sim, mas... Não deu muito certo — Respondeu, sentindo as bochechas corarem.
Um flashback rápido veio a sua mente. Uma das vezes em que mais chegou perto de conversar sobre isso com Mônica. A amiga havia admitido estar com raiva pelo Cebola estar se reaproximando justo quando ela e DC estavam bem, então Magali havia perguntado se ela ainda não sentia mais nada pelo Cebola. Havia sido sua melhor chance, mas Mônica (de maneiras muito esperta, diga-se de passagem) havia respondido com um “Então Magali, eu soube que você e o Cascão...” pegando a garota de surpresa. Mônica acabou nunca terminando aquela frase e Maga nunca teve a resposta pra sua pergunta. Decidiram, em um acordo quase silencioso, que era melhor assim: nunca trazer aqueles assuntos à tona.** O problema era explicar aquilo logo ao Cascão...
— Cê ta legal, Maga? Ta parecendo meio... Desconfortável — Perguntou o garoto, estranhando.
— N-nem. To de boa, Cas. Besteira. — Ela sorriu, tentando parecer tranqüila — A Mônica sabe como fugir do assunto muito bem, só isso.
— Hm... Mas e aí? Você acha que ela e o DC estão pra terminar?
— Não sei... Talvez. Mas não vamos interferir nisso... O namoro é deles dois, ninguém deve se meter.
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Casa do Cascão
Bairro do Limoeiro, São Paulo
20 de abril de 2016, 03:40PM
Soundtrack: This is not me — Delta Goodrem
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Cascão chegou em casa pensativo, lembrando de tudo que ele e a Magali haviam conversado. Após um tempo considerável falando sobre Mônica, Cebola e DC, o rumo da conversa mudou. Começaram a conversar sobre uma das séries que assistiam em comum e o papo acabou desenrolando muito fácil. Acabaram até assistindo a um episódio juntos e o tempo passou voando.
— Filho, é você? — Ouviu sua mãe perguntar.
— Epa, sou eu sim. Já chegou? — Respondeu, observando-a vir até a sala.
— Já, há algum tempo.
— Viu o bilhete que deixei pra você?
— Vi sim, mas ali estava escrito que você ia almoçar na casa da Magali, não passar a tarde fora...
— Ah, mas eu tava lá até agora, mãe!
— Estava? — Ela franziu o cenho — Fazendo o que?
— Sei lá, batendo papo, vendo série... Nada de mais.
— Podia ter avisado que ia demorar, Cascão.
— Ah, pega nada. Qualquer coisa você dava uma ligada no celular.
— Por acaso você está falando desse celular aqui? — Ela segurou o aparelho, mostrando-o ao garoto. Cascão ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Eita, esqueci em casa, foi? — Ele sorriu, sem graça, pegando o celular nas mãos da mãe — Nem me liguei, foi malz.
— Estava aí se acabando de tocar quando cheguei, uma ligação atrás da outra — Ela avisou.
— Ué, quem foi? — Perguntou, desbloqueando o aparelho pra checar.
— Não olhei, mas a Cascuda ligou pro telefone fixo e, depois que falei com ela, as ligações pararam, então...
— Ferrou — Disse Cascão, encarando a exibição de 14 ligações perdidas da namorada na tela — Mãe, o que você falou pra Cascuda?
— A única coisa que eu sabia, oras. Que você tinha saído pra almoçar com a Magali.
— Ah, maravilha — Ironizou — Agora que estou f***** mesmo!
— Cascão! Que palavreado é esse?!
— Malz, mãe, mas depois você me da bronca. Agora tenho que ir! — Disse o garoto, pegando o skate e correndo em direção à porta de casa. — Isso vai dar uma merda gigantesca — Completou pra si mesmo.
Após uma corrida de poucos minutos, estava na casa da garota: Tinha certeza de que ela não estaria mais esperando por ele perto do campinho. Cascão se aproximou devagar e apertou a campainha. A porta se abriu alguns minutos depois, revelando uma namorada furiosa, de braços cruzados, encarando-o como se fosse esganá-lo.
— O-Oi, linda...
— Linda?! — Ela soltou todo ar dos pulmões, incrédula — É só isso que você tem pra me dizer? UM MÍSERO “OI”?!?!
— C-calma...
— Você NÃO OUSE me mandar ficar calma depois de esperar por HORAS pra você aparecer!
— Olha, na verdade eu tinha marcado contigo depois do almoço e meu almoço terminou há pouco, então tecnicamente...
— Ah, sim, seu almoço. Outro ponto extremamente importante. Como foi com a Magali? Pra ter demorado tanto, o almoço devia estar ótimo, se é que foi isso mesmo que vocês fizeram.
— Cascuda, não começa com isso de novo, por favor — Ele suspirou, chateado — Pega leve, pô. A Magali namora o Quim, quantas vezes eu tenho que te lembrar disso? E eu tenho você, isso não...
— Será que tem mesmo?!
— Ca...Cascuda...?
— Eu não sou IDIOTA, Cascão! Eu vejo a maneira como você olha pra ela, e não é de hoje. As coisas mudaram, admita!
— Tem razão, as coisas mudaram: Você enlouqueceu! Que ciúme doentio é esse da Magali agora?!
— Vai dizer que não tenho motivo?!
— Não tem, Cascuda! EU ESCOLHI VOCÊ! — Após se exaltar, ele a encarou, ofegante, tentando manter a calma — Eu estou com você. Isso não significa nada?
— Depois de hoje, Cascão... Aparentemente significa só que ainda não admitiu nem pra si mesmo o que está acontecendo — Agora ela parecia triste, não com raiva — Logo hoje...
Cascão a encarou confuso.
— O que... Como assim? O que tem hoje?
Aquela pergunta só piorou as coisas. Ela fechou os olhos, respirando fundo e balançando a cabeça em negativa. Quando voltou a encará-lo, seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Hoje é nosso aniversário de namoro, Cascão. Ou melhor, era...
Merda.
— Linda... Desculpe, eu... Eu sou avoado mesmo, você sabe disso. Não tem nada a ver com... Eu...— Ele tentou se aproximar— ... Só... Não faz isso. De novo não...
— Não — Ela se afastou — Dessa vez é diferente, Cascão. E você sabe disso.
— A Magali é minha amiga, só isso. A gente nunca teve nada. Porque você não acredita em mim? — Ele tentou.
— A questão não é essa, Cascão. É que eu cansei. Foram nove anos agüentando seus esquecimentos, suas irresponsabilidades, seus defeitos... Pra você se importar mais com ela que comigo.
— Isso... Isso não é verdade.
—Você nunca teve ciúmes de mim! Nunca me olhou como olha pra ela! Não ouse me dizer que não é verdade quando nem você mesmo tem certeza disso!
Naquele momento, Cascão se calou. Mais uma lágrima escorria pelo rosto da garota e ele tentou enxugá-la, mas ela o impediu, dando um passo pra trás.
— Vai embora, Cascão. Por favor.
— Mas... A gente...
— Nós estamos terminados. — Ela foi firme — E dessa vez, é sem volta. Cansei de me machucar.
Ele ainda tentou protestar, mas não sabia o que dizer. Estava em choque. Não era possível que tivessem terminado.
Não era possível.
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