Notas iniciais
Embora seja tarde a data tá em dia, como vocês estão? Tem uma explicação que eu esqueci de dar, a narração irá acontecer tanto por parte da Jade quanto do Beck, a partir desse capítulo veremos a partir dele, será normalmente 2,3 capítulos pra um e ais 2,3 capítulos pro outro pra ajudar a rotacionar bem. Acho que de aviso é isso por enquanto. Boa leitura.

Beck Oliver

Com reuniões de família acontecendo sempre aos domingos e às vezes nos sábados, naturalmente detectasse um problema quando resolvem fazer isso em uma terça-feira.

“Quem aprontou?”

Era a pergunta que eu via estampada na testa do meu irmão mais novo Daniel e da minha prima Lilian no instante que nos encaramos, e eu sei que a mesma indagação também estava na minha. Meu pai que nos olhou por um breve instante apenas balançou a cabeça sem dizer qualquer palavra ou mostrar qualquer indicio do que poderia ser a causa de tal encontro, limitando-se a apenas continuar a ler o bendito livro de capa escura no seu costumeiro lugar em um silêncio mortal.

— Tem certeza que não foi você que causou problemas de novo? – sussurrei para meu irmão ao ocupar o espaço vago no sofá de três lugares ao lado dele com minha prima sentada do outro lado dele que deixou sua atenção vir para nós automaticamente, tão avida quando eu por respostas.

— Eu saberia se tivesse feito algo de errado – rebateu Daniel no mesmo tom fazendo Lilian rir esganiçada.

— Nem sempre, primo.

— Por que você tá aqui?

— Eu não sei, a tia me ligou e falou pra vir porque era importante.

— Então talvez você aprontou e essa é uma armadilha da minha mãe para você – Daniel devolveu – Tá ferrada.

— Ele tem um ponto – afirmei me metendo na pequena briga dos dois.

Possuindo a mesma idade e tendo que crescer juntos chegando a frequentar a mesma escola e salas de aula talvez com a boa intenção de fazê-los próximos foi um verdadeiro tiro nos pés da minha mãe e tia, pois só resultara no oposto entre os dois que sempre acabavam brigando por qualquer bobagem desde que aprenderam a engatinhar.

— Se eu tivesse feito algo minha mãe estaria gritando comigo até meus ouvidos doerem – minha prima rebateu me fazendo trocar um rápido olhar com meu irmão em que ambos balançamos a cabeça em acordo com tal sentença verídica. Nossa tia não precisava de uma plateia para dar um show.

Então como um imã que nos atrai as três cabeças voltaram-se para minha mãe que surgia pisando com passos pesados e olhando para nós por alto antes de continuar em direção a cozinha com uma pequena pilha de panos de prato.

Acompanhando atentamente com a ajuda do relógio na parede foram 14 minutos nesse silêncio sepulcral até a porta ser aberta e minha irmã mais velha Elizabeth entrar, olhar para todos nós, cumprimentando-nos e ocupar a outra poltrona vazia paralela a do pai.

Quando minha mãe veio da cozinha com uma bandeja de biscoitos deixando na mesinha nenhum de nós ousou tentar pegar um sequer, mesmo sendo o meu favorito.

— Podemos conversar agora que todos estão aqui – minha mãe anunciou se pondo ao lado do meu pai apoiando o corpo no encosto alto da velha poltrona – Quer nos contar algo, Elizabeth?

— O que você espera que eu diga, mãe?

— Vamos começar com o porquê de estar se divorciando? Enlouqueceu?!

— Sou uma adulta, não sou obrigada a dar explicação ou pedir permissão sobre algo assim.

Elizabeth sempre fora aquela filha calma, comportada e responsável de modo que eu jamais poderia me lembrar de alguma vez em que a virá irritar nossa mãe ao ponto de como muitas vezes eu e meu irmão fizemos durante a infância e adolescência.

Ela sempre sábia o que deveria dizer para os irmãos e como acalmar nossos pais quando aprontávamos. A clareza que ela tinha com relação a vida sempre foi algo que admirei nela.

— Divórcio não é brincadeira, Lizzy – meu pai comentou soltando sua voz pela primeira vez, um tom serio, mas não tão severo quanto o de nossa mãe.

— Eu sei e quero fazer isso vocês aprovem ou não. Mas espero sinceramente que possam apoiar minha decisão.

— Nem pensar! Você não pode se separar. Casamento é um acordo para a vida toda, você estava ciente disso quando quis subir naquele altar.

— Em tese sim, mas alguns acordos às vezes precisam ser quebrados por um bem maior – ela argumentou sem se abalar.

— O bem maior que você fala é sua reputação? Pois eu te digo que ela vai ficar manchada! Como vai explicar isso pro Kevin? Como do dia pra noite o pai dele que sempre esteve ali de repente estará morando em outra casa, e talvez depois de amanhã tenha outra família que, infelizmente pode vir a desprezar ele. Tudo por culpa de uma atitude imprudente tomada num momento de raiva por você.

— Querida – meu pai alcançou uma das mãos da minha mãe num segundo pedido para conter-se, um ato que fora ignorado para não dizer que serviu como combustível para a raiva da nossa mãe.

— É a mais pura verdade, ela precisa entender.

— Mesmo que o que você esteja dizendo seja verdade, o que eu acho que não é, Kevin ainda terá a mim, e a nossa família. Ele não estará abandonado.

— Não é o mesmo que não ter um pai para ensinar as coisas básicas que um homem deve aprender com outro.

— Kevin tem os tios que podem ajudar nesses casos.

— Isso é verdade, mãe – meu irmão apoiou para receber em resposta o mesmo olhar raivoso que era direcionado à nossa irmã, mas que ao contrário dela que parecia bem fez com que Daniel se encolhesse no sofá e de esguelha tenho a impressão que minha prima também.

— Se alguma coisa acontecer com quem que você poderá contar para te ajudar? Você não trabalha a tanto tempo.

— Eu pretendo me manter firme onde estou.

Mamãe bufou.

— E continuamos a ir ladeira abaixo da loucura. Quem vai cuidar do Kevin? As babás nem sempre são confiáveis, ainda mais as que você e seu marido vêm contratando. Eu vivo te dizendo isso.

— Vou me esforçar para encontrar alguma boa.

Quando Elizabeth teve sua primeira entrevista de emprego lembro vagamente de vê-la escrevendo o que acreditava serem as perguntas que fariam a ela porque queria ter respostas à altura que lhe dariam vantagem e, principalmente a fariam sentir-se segura. Enquanto as bochechas de nossa mãe inflavam em raiva, os dedos entrelaçados de Elizabeth sobre seus joelhos apertavam-se minimamente para conter-se como nossa mãe não fazia questão de fazer. Mais uma vez ela havia se preparado com antecedência...

— Como seu marido esta lidando com isso? – meu pai questionou.

— Não muito bem.

— Pior, ou melhor, do que a mãe? – questionei pela primeira vez intercalando a atenção entre elas.

— Estão no mesmo nível talvez.

— Com razão – minha mãe completou com desgosto.

— Mãe, por favor – me ajeitei no sofá – Você quer que eu seja o seu advogado no divorcio?

— Nem se atreva a fazer isso, Beck – minha mãe ameaçou – Como sua mãe eu te proíbo de compactuar com isso.

Ignorando nossa mãe minha irmã apenas maneou a cabeça sutilmente.

— Não é necessário, eu já tenho uma especializada em divórcios e parece bastante capaz.

— Parecer não é o mesmo que ser – mamãe desdenhou olhando de esguelha para o marido que se movia silenciosamente para pegar um biscoito.

Lizzy não se abalou com o tom carregado de desdém.

— Ainda sim pretendo continuar com ela.

— O que acontecerá se caso venha a se arrepender amanhã?

— Se isso acontecer, eu lidarei sozinha com o problema, você não tem que se meter.

— Como mãe é meu dever interferir quando estiver fazendo uma bobagem!

— Como mãe também deveria me apoiar.

Tanto eu quanto Daniel pegamos os cabelos e olhos castanhos do meu pai, e talvez alguns hábitos a mais como gosto musical e preferencia a comidas apimentadas. Dos três, Elizabeth fora a única a nascer com a mesma tonalidade azulada de olhos herdada de nossa mãe e, por alguns anos eu me peguei concluindo infantilmente que ela era a filha favorita.

Minha mãe já olhou com decepção para meu irmão, para mim e até Lilian mais de uma vez, mas nunca para Elizabeth. O entendimento entre elas sempre era perfeito. Ironicamente, hoje também era ao refletir os mesmos sentimentos nos dois pares de olhos azuis.

Indignação.

Decepção.

— Por que não encomendamos comida aproveitando que todos estão aqui? – meu pai mais uma vez tentou intervir da melhor forma que via sem contrariar minha mãe para não causar uma nova rodada de brigas ou talvez magoar ainda mais Elizabeth como mamãe parecia estar fazendo.

— Não acho que seja uma boa ideia hoje, pai.

— Eu concordo.

Se havia palavras certas para dizer, eu e provavelmente o resto dos presentes não sabia para usa-las nos poucos instantes que levou para Lizzy se levantar e passar por todos com sua bolsa no ombro e o queixo erguido sem se abalar por nossa mãe que a chamava alegando não ter terminado ainda.

Quatro minutos depois, com um pedido de desculpas eu me ergui deixando que meu estupor se fosse por completo enquanto também saia da casa seguindo a passos cada vez mais rápidos até a mulher que parecia estar com dificuldade para abrir a porta do próprio carro.

— Lizzy.

— Podemos deixar o segundo round para amanhã, eu preciso buscar o Kevin na casa de um colega da escola – palavras soltadas em alta velocidade denunciando que seu planejamento de situação já havia sido terminado e o controle deixava suas mãos pouco a pouco.

— Quem é a advogada que você contratou?

— Isso não importa.

— Só me deixa saber se você esta em boas mãos. Deixe-me falar com ela.

A porta do carro abriu, a bolsa foi jogada no banco do passageiro com mais agressividade que o necessário, por um breve instante eu acreditei que seria deixado de lado se Lizzy não se erguesse apoiando o queixo no teto do veiculo, o olhar duro que antes era sustentado com tanto afinco parecia rachado agora.

— Eu vou marcar um encontro com ela e você aparece para apresentar vocês dois, mas você não pode criticar ela abertamente estamos entendidos?

— Sim.

Eu só quero ser útil pra minha irmã...

Notas finais
Até o próximo domingo Bjs