Pelo Que Você Luta?

5 Primeiro encontro entre advogados


Notas iniciais
Boa leitura

Felizmente a expressão “o cliente tem sempre razão” não se aplica no Direito, a razão fica com o advogado porque ele é a pessoa que vai salvar o seu couro se você cometeu um crime. O obedeça se for esperto. Ele será o seu escudo, seu cavaleiro, mas se você não tomar cuidado ele também pode ser o seu inimigo e a coisa que você menos quer é um advogado que conhece seus segredos do outro lado da mesa para te atacar.

— Serei a advogada que representará o senhor Morgan no processo de divorcio, ele infelizmente não pode comparecer hoje – Abigail disse em seu melhor tom brando e profissional – Como não somos completos estranhos, podemos pular as apresentações mais formais, acredito eu.

Maneei minha cabeça em concordância.

— Vamos nos ater ao motivo de estarmos aqui.

Conseguia sentir Elizabeth olhar com apreensão para Abigail o que, de certa forma seria compreensível dada à situação, mas por algum motivo a maneira como Elizabeth olhava Abigail como sua inimiga velada que de má vontade esta assinando um tratado de paz me deixa curiosa.

Abigail destruiu tanto assim o pobre coração de Beck Oliver a ponto de conquistar toda a antipatia da irmã mais velha dele?

— Com relação à divisão de bens é muito gentil da parte da senhora Elizabeth ceder o apartamento por livre e espontânea vontade, nos poupa uma briga – tão confiante e... irritante – Mas com relação a guarda de Kevin que ela exige nós talvez tenhamos que brigar já que meu cliente a quer. E com relação à pensão exigida podemos conversar um pouco mais.

Sem gracejos ou rodeios?

— Como você mesmo elucidou minha cliente é uma pessoa gentil, mas como todos ela tem limites e acredito que você esta começando a querer ultrapassa-los, não acha advogada? Guarda compartilhada é muito justo.

— Meu cliente só quer o que é melhor para o filho seguindo o plano que ele e a esposa já haviam estipulado antes mesmo dela manifestar seu desejo pela separação. Tendo a guarda da criança meu cliente vai garantir que o filho estudará em um bom internato para criar e aprimorar bons valores em seu desenvolvimento como individuo em nossa sociedade.

Uau, que belo discurso...

— Quem começou essa conversa foi ele e nunca realmente terminamos, pois eu não concordei. Não distorça as coisa dessa maneira – minha cliente contrapôs da cadeira ao meu lado.

— Será que sou eu mesma que estou fazendo isso aqui, sra.Morgan?

— Quem diria que você gostasse de se ater a conversas de travesseiro – zombei trazendo a atenção da advogada para mim.

— Me atenho a tudo que for importante sobre meu cliente.

— Cuidado para não passar muito dos limites éticos.

— Cuidado com o que insinua, advogada West. Pode se arrepender de suas ações.

— Alguma coisa te ofendeu? – os olhos de Abigail comprimiram sutilmente – Como não sei o que é, não vejo a necessidade de pedir desculpas.

Elizabeth bebeu a água do copo que estava em sua frente desviando o olhar da advogada, como se estivesse recitando um mantra internamente.

Não julgo.

— Não ter boas capacidades de compreensão é um problema que não deve ser julgado. Eu entendo.

1...2...se concentre em sua cliente;

3...4...não voe na vagabunda;

...5...

— A falta de compreensão também pode fazer uma pessoa entrar aonde não deve? – minha cliente questionou atraindo a atenção para si – Ouvir o que não deve...

Por mais que a resignação que dançava nos olhos de Abigail fosse um balsamo, a noção de ser possivelmente a única pessoa no escuro nessa sala não me é nada agradável.

— Vou discutir com o meu cliente e depois voltamos a nos comunicar e ver se iremos mesmo a tribunal com punhos erguidos ou ficaremos com sorrisos bonitos sem incomodar um juiz. Não queremos nos precipitar, não é?

— Veremos.

— Sra. Morgan – chamei quando a distancia de Abigail era significativa – Tem alguma coisa que preciso saber e não esta querendo me contar?

— Esta interessada em conversas de travesseiro também srta. West?

— Se isso for ter o poder de influenciar o nosso resultado no tribunal, você pode ter certeza que estarei disposta a ouvir sobre essas tais conversas.

A expressão de Morgan me dizia claramente que não me contaria nada, seu celular tocando foi seu bote salva-vidas para ir embora cuidar de alguma coisa relacionada ao seu trabalho.

Lentamente me ergui juntando os papeis, deixando a sala de reuniões rumando para minha sendo seguida no caminho por minha assistente.

— As coisas não foram bem?

— Estamos em desvantagem aqui – disse ocupando minha cadeira – Abigail esta confiante porque ela tem alguma coisa e Elizabeth não esta ajudando escondendo as coisas de mim também – Cadê a Sam? Liga para ela agora.

~*~

Na faculdade ouvi uma piada sobre qual era a semelhança entre um advogado e um vendedor de peixes?

Resposta: Ambos deviam ter lábia.

O vendedor venderia como o melhor peixe que alguém poderia pescar. O advogado venderia a história de que seu cliente é um cidadão exemplo para a sociedade moderna.

Não teve a menor graça naquela época e nem mesmo hoje, mas isso não muda o fato de que isso não deixa de ser uma verdade.

Aquele peixe pode já estar estragado; aquele humano pode ser um criminoso cruel, mas como vendedores eles farão o quer for preciso para vender seu material.

Seja na peixaria...

Seja no tribunal...

Ocupei um dos lugares vazios da sala de Edward, esperando.

Quando uma das portas de madeira alta foi aberta o homem em um terno marrom finalmente adentrou com uma pasta nas mãos e os olhos buscando claramente por mim, acenando minimamente como se estivesse satisfeito por eu estar ali e não um cumprimento.

— Espero não ter te feito esperar de mais.

— Não, senhor.

Depositando a pasta na mesa ele voltou ocupando a poltrona e apontando para o sofá para que voltasse a sentar. O fiz.

— Soube que pegou o caso de divorcio da senhora Morgan. Como vão as coisas.

— Sob controle.

O homem maneou a cabeça mudando a posição na cadeira.

— Não sei se sabe, mas o marido da senhora Morgan é um dos donos da distribuidora de alimentos Fix que tem um contrato conosco.

— E o que isso tem haver com um processo de divorcio? – questionei me fazendo de tola por minha própria segurança.

— Nada muito grande, apenas estou preocupado que a visão deles sobre nós após esse caso não se torne tão boa. Eles entraram para a nossa família há muito pouco tempo como deve saber.

Stones era um advogado da área de direitos corporativos o que sempre o tornava propicio a ter maior inclinação aos casos e contratos da sua divisão ao passo que os casos criminais eram os de Kim e sua equipe altamente, os estagiários raramente conseguiam uma posição regular na equipe dele se não possuíssem apoiadores externos que o tornariam sugestivo a aceita-los por um curto período de tempo para avalia-los, caso não estivessem a altura do que queria apenas os soltava sem remorso ou os transformaria em um exemplo para os outros.

As áreas do direito familiar e divorcio não possui um sócio nominal para colocar ordem na casa completamente, o que, a principio era um dos motivos que me fez achar o escritório mais atraente pela falta de atenção e possibilidade de conseguir subir na hierarquia quando claramente não se tem um chefão no topo esperando para bater.

Entretanto, quando Stones ou Kim se dispunham a prestar atenção em um caso, não era algo que poderia facilmente ignorar.

— Entendo o que esta dizendo.

— Fico feliz. Esta pedindo uma pensão dos lucros anuais do senhor Morgan?

— Não chega a tanto, Elizabeth não quer pedir muito, ela até mesmo cedeu à residência principal. Ela só quer resolver as coisas rapidamente e se afastar.

— Uma mulher ajuizada. Isso é bom.

— Mas ela quer a guarda da criança, é a única coisa que ela não irá ceder.

— É compreensível, mas se esforce para resolver isso de forma simples. Não estou dizendo para não ajudar sua cliente e fazer seu trabalho, só quero evitar uma dor de cabeça no futuro, pode fazer isso por mim?

— Sim senhor.

— Há um rumor de que Sara Goulding, diretora de operações da indústria de pretório Cutter, pretende pedir o divorcio do marido, dependendo de como for a sua performance nesse caso talvez eu a indique para ela eventualmente.

— Sim senhor.

~*~

A ideia de paz foi para o espaço no instante que abri minha porta e o som da TV ligada se fez presente nos meus ouvidos – gritos mais precisamente – ascendi às luzes ao passo que me desfazia dos saltos de bico finos e desconfortáveis como eu não imaginei que seriam vestindo os sapatos de casa e entrando mais.

Pessoas gritavam enquanto fugiam de um assassino serial killer na televisão e Sam comia com gosto pipoca enquanto ria da deplorável situação deles. Larguei minha bolsa sentando ao lado e pegando pipoca.

— Por que esta aqui?

A loira deu de ombros sem desviar os olhos da TV.

— O ralo do meu banheiro esta entupido, o funcionário que chamei só vai aparecer amanhã. Eu pedi pizza.

— Você vai pagar.

— Eu sou a visita.

— Você passa tempo demais aqui pra se considerar visita – resmunguei. Há roupas, itens de uso pessoal e comidas que apenas ela come na geladeira.

— Foi tão ruim com a Abigail?

— Eu estou perdendo meus peões e meu chefe esta me mandando não usar a rainha e sacrificar meus bispos enquanto monto uma defesa com as torres.

— Você só usa analogias de xadrez para casos que te dão dor de cabeça.

— Esse esta tendo mais capacidade disso do que eu imaginei.

— Sua cliente esta escondendo as coisas – a loira pausou o filme se erguendo e saindo para longe.

— Como se eles nunca fizessem isso – resmunguei pegando um pouco mais de pipoca.

Quando Sam voltou uma pasta estava em suas mãos.

— Acho que isso vai te deixar feliz.

Eu realmente amava a capacidade da minha prima de cavar a vida das pessoas. As coisas que mais fazem um advogado de divorcio feliz são os podres do outro conjugue que dão para usar no tribunal, às vezes é como um presente de natal antecipado.

— Diga que ele tem uma amante – o clássico.

— Ele tem, mas isso não é a cereja do bolo. Quer adivinhar quem foi a amante anterior?

— Não acho que fara muita diferença.

— Eu acho que vai.

~*~

Acho que minhas palavras se mostraram bastante verdadeiras dada a maneira como não havia praticamente nenhuma surpresa adornando a face de Elizabeth enquanto passava pelas fotos do marido com suas amantes, nada de choro, nada de gritos...apenas desgosto.

— Quer compartilhar seus pensamentos?

— Apenas mantenha as coisas do jeito que estão. Só quero a guarda do meu filho como prioridade.

Como advogada meu trabalho seria naturalmente aconselhar a querer mais porque naturalmente isso me renderia mais também. Pelo canto dos olhos eu podia ver minha assistente me olhando a espera que eu começasse algum discurso que impulsiona-se Elizabeth, as palavras estavam na minha garganta a postos, ao mesmo tempo as do meu chefe na minha cabeça zumbindo. Inconscientemente meus dedos apertaram o tecido da saia.

— Tem certeza que não irá se arrepender dessa decisão? – questionei sufocando o discurso e afastando os zumbidos. O vencedor já havia sido decidido.

— Tenho.

— Então faremos da maneira que você desejar.

Todos sairão ganhando de alguma forma. Era só o que poderia repetir para mim mesma enquanto assistia minha cliente ir embora com minha assistente confusa. Claramente não era um bom jeito de começar o dia.

Notas finais
Bjs