Pelo Ouro e o Trovador
5 Capítulo V
A chuva parou totalmente pela manhã. O bruxo conseguiu algumas horas de sono, mas assim que o sol nasceu, já estava em pé, de banho tomado e cabelos arrumados. Em dias comuns, ele deixaria a limpeza para mais tarde e daria prioridade para encher a barriga com o desjejum do Camaleão, que era um dos melhores da cidade, porém, o plano desta vez era outro e precisava estar o mais apresentável possível. Era tolice, ele sabia bem, mas o bardo nunca escondeu o contentamento com banhos e perfumes, e deixá-lo confortável ao seu lado era uma prioridade.
Ele se olhou no espelho e quase revirou os olhos. Não era de seu feitio, não gostava sequer de olhar o próprio reflexo, mas o fazia da mesma forma, tolamente preocupado com o que o bardo iria achar. Tolo até demais, ele pensou mais tarde, quando encontrou Jaskier tentando subir as escadas com dificuldade. As pernas ainda estavam enfraquecidas e o corpo estava dolorido, então sequer notou a aparência do bruxo, ou escondeu muito bem. Ele abaixou o olhar, ignorando-o completamente; as mãos apertaram o corrimão com mais força enquanto subia, orgulhoso demais para pedir a ajuda de quem o observava alguns degraus acima, mas pensando se deveria gritar pelo socorro de uma das garotas que ensaiavam lá em baixo — o Camaleão logo reabriria. Mas os lábios permaneceram fechados, e se apertaram um no outro quando a ajuda não requisitada veio.
— Deixe-me ajudá-lo — Geralt disse, evitando dar a entender que era uma pergunta.
Com cuidado, um dos braços deslizou pela cintura do bardo, que tentou resistir no início, mas a recusa durou pouco. Ele logo aceitou ter o braço guiado para se apoiar nos ombros largos, mas, ainda assim, manteve o olhar em qualquer lugar que não fosse Geralt.
Os passos foram vagarosos até o último andar, houve bastante tempo para começar um diálogo, mas a maneira tensa com que o bruxo o sentia em seus braços o fez recuar em todas as vezes em que pensava em tentar. A bela porta do melhor quarto do Camaleão foi alcançada e Jaskier se apressou para se afastar. O baixo som do agradecimento estremeceu o bruxo, que viu ali a oportunidade para também falar, porém, assim que os lábios se separaram, o bardo fechou a porta com certa força, quase batendo em seu rosto. Geralt juntou as sobrancelhas quando o rápido choque passou, e a mão se moveu para tocar a maçaneta, porém, o som da tranca do outro lado o fez parar e abaixá-la com derrota. Ele soltou um suspiro cansado e deitou a testa na porta. Aquilo seria mais difícil do que havia imaginado.
Os degraus foram encarados com desanimo, mas ele os desceu mesmo assim. De nada adiantaria ficar parado na porta do quarto do bardo, isso só o faria ficar trancado ali por mais tempo. Com a ideia de deixar os ânimos se acalmarem e a raiva de Jaskier esfriar ao menos um pouco, ele não voltou a subir. O desjejum foi feito ao lado de Ciri e Zoltan, mas ele apenas os ouviu. Não houve conversa de sua parte, e os outros dois não o forçaram a falar, deixando-o à vontade, assim como nos dias que se passaram.
Jaskier continuou no quarto, descendo apenas quando tinha certeza de que o bruxo estava fora. Neste tempo, Geralt descobriu que o bardo não estava instalado no Camaleão apenas para se recuperar e levantar o seu comercio novamente; com a falta de movimento que viera com a ameaça dos homens de Wiley, o bardo havia sido obrigado a deixar sua casa alugada no centro. As despesas tiveram que ser cortadas, e foi o outro motivo além da pressão dos bandidos para que fechasse as portas do cabaré. O bruxo ficara incomodado com isso, e a ansiedade para conversar com Jaskier aumentou ainda mais.
Em uma tarde após um simples contrato, ele retornou para o cabaré e o bardo estava no salão. Os olhares se encontraram, e demorou um pouco mais do que vinha sendo costume para Jaskier desviar sua atenção para outra coisa. O bruxo podia jurar que naquele instante o seu coração passou a bater como o de um humano comum, mas não teve tempo para animações quando o viu se esconder rapidamente na cozinha, o evitando novamente.
Para o alívio da mente de Geralt, que com aquele afastamento parecia mais fantasiosa do que nunca, Ciri apareceu em sua frente em seguida. Em suas mãos havia um contrato, com uma recompensa gorda, mais do que o suficiente para duas pessoas, assim como o trabalho.
Demorou três dias para que as criaturas que rondavam os muros de Novigrad serem rastreadas e mortas pelos dois. Durante aquele tempo, ele tentou manter o foco apenas no contrato, mas no fim, ele não pôde deixar de pensar se o bardo estava bem e completamente recuperado, se ele o receberia quando retornasse, ou se fugiria como em todas as outras vezes. Geralt queria ouvir mais sobre Jaskier, e tinha certeza de que Ciri sabia dos detalhes, porém, depois da noite em que conversaram, ela não voltou a tocar no assunto, dando-lhe o espaço que sempre presava, mas que naquele momento o enlouquecia aos poucos.
— Estou indo embora hoje — Ciri chamou sua atenção enquanto cavalgavam um ao lado do outro. A égua e o alazão carregavam os donos e os troféus com orgulho, não se incomodando nem mesmo com o forte sol do meio dia. — Para Vengenberg.
— Yennefer está lá? — O bruxo perguntou casualmente, tentando contar há quanto tempo não via a feiticeira.
Cirilla assentiu enquanto ainda olhava para a frente.
— Eu o chamaria para vir comigo, mas sei que tem assuntos mais importantes para resolver aqui — ela hesitou e o olhou de canto. — Geralt — o chamado foi sério, alertando o bruxo. — Ele não vai tomar a iniciativa desta vez, não fique esperando demais.
E foi apenas isto. Ciri não tocou no nome do bardo, mas não houve necessidade, nem mesmo de estender o seu aviso cansado. Ela tinha esperanças de que um deles cederia, e que Jaskier seria o primeiro, mas parecia que a mágoa do bardo ia além do que Ciri pensava. Mais uma vez não queria se intrometer, mas sentia que Geralt se arrependeria e até mesmo ela, se não o ajudasse a no mínimo pensar em começar o necessitado diálogo.
Depois de coletarem a recompensa, ela foi dividida no Camaleão. Geralt tomou um banho e esperou que Ciri se despedisse de Jaskier no quarto do último andar, depois de Zoltan no salão, e a abraçou com força e por bastante tempo do lado de fora.
— Espero vê-lo logo — ela sorriu quando se soltaram. — Em Corvo Bianco. Eu, você e Jaskier.
O bruxo também sorriu.
— Mal posso esperar.
Sua resposta foi o suficiente para alargar o sorriso de Ciri, e a última despedida foi feita com menos peso que normalmente tinha. Geralt esperou que o alazão não fosse mais visto para retornar para dentro do cabaré, que enfim voltara para o seu barulho costumeiro. Os clientes estavam de volta, assim como alguns novos que enchiam suas canecas e o cofre do dono, que naquele dia também não havia descido.
As palavras de Ciri se repetiram na mente de Geralt, mas não foi coragem que o fez subir os degraus sem hesitar; em seu interior havia o mais puro medo. Se imaginar naquela situação tão estranha com Jaskier pelo resto da vida o fez estremecer, mas não foi pior do que pensar que futuramente poderia haver nada. Ele sentia a falta do bardo mesmo o vendo ao longe aqui e ali, e se recusava a imaginar como seria se não pudesse vê-lo nunca mais.
A mão tocou a maçaneta, e a girou devagar, imaginando se desta vez teria que ir ao extremo de chutar aquela porta, porém, ela foi aberta sem impedimento algum, fazendo-o arregalar os olhos por um breve momento. Ela esteve destrancada por quanto tempo? Ele se perguntou, se sentindo um idiota por não ter tentado abri-la mais vezes. E se Jaskier o esperava há dias? Eu só ando fazendo merda. O bruxo balançou a cabeça enquanto entrava.
O cômodo estava vazio. As sobrancelhas claras se juntaram com o silêncio, mas a presença sentida o fez suavizar a expressão rapidamente, e os pés foram cautelosos até a grande sacada que combinava perfeitamente com a ostentação daquele quarto. O corpo se agitou com a visão das costas do bardo, e sentiu um estranho frio na barriga, mas não parou a caminhada até colocar os pés do lado de fora. O punho bateu levemente no batente ao lado, mas Jaskier não se moveu, mostrando que já o havia notado há algum tempo.
Apesar da falta de reação, o bruxo não desanimou como antes. Ele se colocou ao lado do bardo, e o imitou ao pousar as mãos sobre o muro da sacada para observar parte da cidade.
— Por que não me disse sobre a ameaça? — Geralt perguntou. Havia muitas maneiras de iniciar aquela conversa e que ele havia ensaiado, mas a questão era importante demais para o bruxo.
Ele esperou por pouco tempo até ouvi-lo suspirar de maneira trêmula.
— Você sempre diz que eu só lhe trago problemas e preciso ser resgatado. E está certo — Jaskier sorriu tristemente. — Não queria parecer ainda mais patético.
— Eu pensava que não ligava para isso — o bruxo juntou as sobrancelhas enquanto se virava para o trovador. Aquelas palavras o haviam acertado em cheio. — Se tivesse me dito, eu...
— Você o quê? — Jaskier apertou os punhos e também se virou, podendo encarar Geralt de frente depois de longos dias. — Não teria dado razão para aquele vampiro e não teria me deixado para passar horas com ele? Não teria me enfeitiçado? Deus, Geralt, eu ainda quero te socar por isso. Não imagina como me senti sendo levado sem poder reagir por causa da sua mágica idiota!
Eu sei. Ele quis abaixar o olhar, tamanha era a vergonha e arrependimento por tudo aquilo, porém, não se atreveu a desviar a atenção do rosto do bardo. Ainda havia pequenos cortes na pele macia, e junto do sentimento pesado vinha um imenso desejo de tocá-lo.
— Eu sinto muito, por tudo. Mas principalmente por essa última parte — Geralt se aproximou, porém, Jaskier deu um passo para trás. — Eu não deveria nem ter pensado em fazer isso.
O bardo riu com deboche.
— Sim, sim, mas não aguentou uma ofensa para o seu vampirinho — ele desviou o olhar enquanto murmurava e o rosto se retorcia em uma careta desgostosa. — Deus, ele é tão velho e horroroso. Como você é estúpido, bruxo idiota...
Pela primeira vez Geralt ficou aliviado por Jaskier evitar olhá-lo diretamente. O que ouvia soar em tom tão ciumento o fez sorrir de maneira discreta, enquanto o interior se agitava cada vez mais. Ele deu mais um passo, ficando feliz por desta vez o outro não ter se afastado, mas permaneceu cauteloso e não o tocou como queria.
— Você pensa mesmo que eu te mandei de volta por causa disso? — Ele então perguntou, tendo a atenção dos olhos chateados novamente. O bardo deu de ombros, e Geralt se apoiou no muro ao lado. — E o estúpido sou eu? — O olhar cortante que recebeu o fez levantar as mãos, tentando acalmá-lo. — Regis é meu amigo, Jaskier, e precisava de ajuda. Eu nunca daria as costas para ele, mas, se soubesse que você também estava em perigo... Faria muito mais para protegê-lo.
Ele havia mexido no coração de Jaskier com suas palavras, ficara bastante óbvio em seu jeito de agir, porém, o bardo não quis ceder tão fácil.
— Não vai me ganhar com esse papo fácil — ele levantou o queixo enquanto cruzava os braços. — Eu sei bem como é, sou especialista nisso.
— Sim, você é — Geralt acabou rindo em tom baixo. O olhar em sua direção era repreendedor, mas, ainda assim, ele não apagou o fraco sorriso do rosto, e se atreveu a tocar um dos braços de Jaskier. — Mas não é papo fácil, é a verdade. Eu tenho os meus arrependimentos, e planejo compensá-lo da maneira que você quiser.
Ele quase se arrependeu pela promessa quando os olhos do bardo brilharam de uma forma diferente, mas o fundo malicioso que tinha neles o fez manter a palavra, esperando por qualquer coisa que fosse exigido, desde que fosse cumprido ao lado de Jaskier.
Vendo que tinha total atenção finalmente, não escondeu a animação. Geralt apertou o braço em sua mão com pouca força e o trouxe para mais perto, sentindo os lábios se moverem sozinhos ao não ter resistência desta vez.
— E Regis nem mesmo passou pela minha cabeça quando o mandei de volta para a pousada. Você pensa mais nele do que eu — o sorriso ainda estava ali, porém, aos poucos diminuiu com o sentimento de nervosismo com aquela parte da conversa. — O problema era eu naquela noite. Você me conhece, sabe que não há falta de sentimentos em mim, só é difícil mostrar, e muitas vezes nem quero — ele aproveitou que o aperto dos braços do bardo se afrouxaram e o acariciou enquanto falava, até poder chegar no pulso e então, conseguir segurar as mãos levemente trêmulas. — Mas, foi difícil guardar naquele dia e você fingiu que estava tudo bem, que nada tinha acontecido. Fiquei nervoso, achando que não havia significado nada. Não tinha como eu saber que você só insistiu em não conversar sobre isso porque estava em perigo e não queria ficar sozinho.
— Não foi só por isso — Jaskier disse rapidamente, quase atropelando as palavras de Geralt. Ele abaixou o olhar para a mão que era tocada com carinho e soltou um profundo suspiro. — Eu estava em perigo, sim, e sem saber o que fazer depois daquela noite, mas... Não pude dizer ou agir como queria de verdade porque achei que era melhor fingir que nada tinha acontecido do que te perder.
— Por que me perderia? — O bruxo perguntou, mesmo podendo imaginar como era aquela insegurança, pois para ele acontecia de forma muito parecida.
— Nos conhecemos há tantos anos, Geralt, e passamos por milhares de situações juntos — Jaskier se tornou sério, de uma forma que não combinava em nada com sua personalidade. — Por que agora? Eu não podia parar de pensar nisso.
— E importa o motivo?
— Importa. E como importa, porque... — ele suspirou outra vez. O olhar levantou para o ansioso que estava fixo em seu rosto. O coração acelerou com força, e Jaskier precisou de grande esforço para conseguir voltar a falar. — Para mim não é algo de agora.
A revelação o pegou desprevenido. Por um momento, Geralt emudeceu por fora, enquanto por dentro seus pensamentos estavam altos e claros. Ele se lembrou de cada momento ao lado do bardo, como se sentiu e o quanto se reprimiu, e se viu como um grande idiota. Quanto tempo nós perdemos?
— Eu entendo — foi a primeira coisa que conseguiu dizer. Temendo que Jaskier se afastasse por conta da falta de ação imediata, segurou sua mão com firmeza e manteve o olhar sobre os inseguros do bardo. — Há coisas que precisamos guardar por bastante tempo, não é? Muito, muito tempo. Eu entendo perfeitamente, porque para mim, foi o mesmo.
Já faz tanto tempo que nem sei mais quando começou.
— Está mentindo.
Assustado com o novo sentimento em seu peito, Jaskier tentou se afastar, porém, o bruxo não permitiu, continuando a segurá-lo próximo a si.
— Não estou — ele se levantou ao garantir. Talvez fosse impossível por conta de sua condição, mas podia sentir o coração agitado como nunca, principalmente quando tocou o belo rosto. — Eu não sei porque agimos apenas agora, mas sei que não consigo mais fingir.
Jaskier não tentou se afastar, então Geralt não esperou desta vez. Os olhares não desviaram e o bruxo quis sorrir com a maneira ansiosa com que o bardo tocou seu peitoral, mas felizmente ele não teve tempo para nada além de sentir os lábios de Jaskier sobre os seus. A mão que segurava com firmeza foi solta, e o bruxo usou as duas livres para tocar as costas e trazê-lo para mais perto.
O beijo profundo e vagaroso durou o quanto os pulmões do bardo aguentaram, e mesmo ofegante, aceitou os curtos e carinhosos que o bruxo insistiu em dar em seguida.
Como antes, eles não souberam como reagir quando os lábios se separaram de vez, mas nenhum dos dois sentiu necessidade de se afastar. O bruxo o apertou um pouco mais em seus braços, e Jaskier deslizou as mãos por sua cintura, até retribuir o abraço na mesma intensidade. O rosto foi escondido no ombro de Geralt, que tocou as cabeças enquanto acariciava suas costas.
Isso é estranhamente pacifico e romântico. O bruxo pensou consigo mesmo. Aquele clima também não combinava muito com os dois, porém, era algo que adotaria com todo o prazer, se fosse se tornar um costume. Porém, ele rapidamente riu internamente, sabendo que logo um deles abriria a boca e o romance se misturaria com suas personalidades intensas demais para se prenderem em um único lado daquela relação.
— Se fizer aquilo de novo, eu te chuto para fora da minha vida — Jaskier foi o primeiro a mudar o clima, como costumava ser, e exatamente por isso os lábios do bruxo se puxaram em um sorriso.
O abraço ficou mais apertado e Geralt subiu a mão até os cabelos do bardo, acariciando-o devagar.
— Não vou fazer — o bruxo garantiu. — Eu aprendi a minha lição, acredite.
Jaskier afastou a cabeça para poder olhá-lo nos olhos.
— Aprendeu às minhas custas! Olhe o meu pobre rosto, e se visse como ficou o meu corpo... ainda bem que saro rápido. E também...
O bardo reclamou sem parar, mas não foi interrompido. Geralt o ouviu com paciência desta vez; hora se sentindo culpado e outra se divertindo com as expressões exageradas que combinavam perfeitamente com as palavras. Jaskier estava de volta, e ele não poderia estar mais satisfeito, foi o que pensou por um momento, até o próprio bardo se cansar das reclamações e voltar a apertar sua cintura enquanto ficava na ponta dos pés para poder beijá-lo. Ele não estava tão satisfeito quanto havia pensado, e a maneira com que seu corpo reagiu enquanto ambos se roçavam um no outro deixou bastante claro o que precisava. Há anos evitava pensar naquilo e pretendia deixar que as coisas ficassem menos estranhas entre eles para poder tocá-lo como realmente queria, mas tendo Jaskier em seus braços daquela forma não o ajudou a manter o controle de sempre, muito menos a expressão maliciosa que viu, assim que as línguas se soltaram.
— Você não ia me compensar? — O bardo perguntou em tom baixo e lambeu os próprios lábios enquanto a mão voltava para o largo peitoral.
— O que tem em mente? — O bruxo tentou soar inocente, mas o fraco sorriso mostrava malícia parecida com a do outro.
Os rostos se aproximaram, mas o bardo mordeu o próprio lábio antes que fosse beijado. Ele afastou um pouco o corpo, e a mão no peitoral de Geralt deslizou até a calça, tocando o membro sem pudor algum, assim como passou a acariciá-lo devagar sobre o tecido.
— Espero que tenha o dia todo livre.
O sorriso de Jaskier se alargou com o fraco suspiro que o ouviu soltar, e se tornou ainda mais ansioso quando sentiu os dedos de Geralt acariciando seu couro cabeludo.
— E eu espero que você tenha a noite também — o bruxo rebateu as palavras.
Jaskier riu em tom baixo e divertido. A mão se tornou mais firme sobre o membro já endurecido e manteve o olhar sobre os olhos amarelos tão sedutores.
— Está fazendo promessas?
Foi Geralt quem riu desta vez, contido, mas não menos provocador.
— Eu lhe darei algo para cantar, você pode ter certeza.
O bruxo o segurou pela cintura e subitamente o puxou para cima. O grito surpreso de Jaskier quase o fez rir, porém, os lábios se ocuparam com um profundo beijo no momento em que as pernas do bardo rodearam seu quadril e os braços se apoiaram nos ombros largos. As mãos de Geralt desceram e seguraram as coxas presas em seu corpo com firmeza e os pés se moveram para dentro do quarto.
A risada animada do bardo dentro da boca do bruxo o fez estremecer, assim como quando os dedos longos afundaram nos fios brancos e uma gostosa carícia foi dada na nuca. As botas foram tiradas no caminho e os lábios só se separaram quando o corpo de Jaskier foi deitado sobre a cama e o largo sorriso contagiou o bruxo, mas de maneira discreta enquanto o despia. Os botões delicados das vestes do bardo foram abertos com incrível habilidade e rapidez, fazendo-o alargar ainda mais o sorriso com a clara pressa do bruxo. Jaskier apenas o observou livrá-lo da jaqueta azul escura e a camisa branca, deliciado com o claro desejo nos olhos amarelos de Geralt, e no volume que roçava em seu corpo de maneira discreta.
Sem motivo algum ele quis rir novamente, mas o som morreu com a estranha expressão do bruxo quando enfim pôde acariciar o peitoral desnudo. Os olhares se encontraram por pouco, e Geralt desceu a mão para a cintura com marcas escuras. Ele o acariciou com cuidado e fez o mesmo com um dos braços, que tinha manchas um pouco mais claras. Ali os hematomas eram quase imperceptíveis, mas também havia pequenos cortes que fizeram o peito do bruxo chacoalhar. Dias antes, ele desejou ver aquelas marcas, para poder cuidar e acariciar como fazia naquele instante, mas não esperava que seria tão doloroso ver o bardo daquela forma. A culpa quis tomá-lo, porém, as mãos quentes que tocaram o seu rosto trouxeram outro sentimento.
Os olhares voltaram a se prender um no outro.
— Eu estou bem — garantiu Jaskier, voltando a abrir seu animado sorriso. — Se continuar me olhando assim, vou acabar me envergonhando.
O bruxo não conseguiu segurar uma baixa risada. De repente a região do peito se tornou aquecida, e um rápido beijo fez com que a sensação se espalhasse pelo corpo.
— Você, com vergonha? — O bruxo perguntou com deboche. Ele se afastou do rosto do bardo, e enquanto falava, desabotoou a calça que combinava com o casaco jogado no chão e, junto da roupa íntima, a deslizou pelas pernas longas de Jaskier, que o ajudou levantando o quadril. — Você não tem vergonha de nada, Visconde Julian — o sorriso de Geralt foi um pouco mais claro ao ouvir a risada divertida do bardo com jeito que fora chamado. — E é por isso que sou louco por você.
Foi espontâneo e sem nenhum pensamento prévio. A declaração do bruxo soou divertida, mas bastante sincera, surpreendendo Jaskier, que por um momento o olhou deslumbrado, para então voltar com o sorriso provocante, que só desfez quando afastou as costas do colchão e sugou os lábios de Geralt.
— Só por isso? — Fingiu indignação. O corpo do bardo estremeceu levemente, quando as mãos fortes tocaram sua cintura nua.
O bruxo deu de ombros.
— Entre outras coisas.
Jaskier riu outra vez, um pouco antes de ser envolvido em um beijo longo e desesperado. Ele não conseguia entender porque aquele som saía com tanta frequência em um momento como aquele. Havia imensa felicidade preenchendo o seu peito, mas ele deveria estar soltando outro tipo de som ou ao menos ouvindo. O pensamento o fez afastar os lábios, e o olhar desejoso foi compatível com o que estava tão próximo do seu.
Jaskier se apressou para desabotoar os três botões da camisa fina do bruxo e antes de puxá-la para cima, as mãos ansiosas já estavam desabotoando a calça escura.
— Tira isso — o bardo sussurrou, se referindo a peça que cobria o peitoral largo, e foi rapidamente atendido.
Ele não teve paciência para livrá-lo da peça de baixo, e com movimentos cuidadosos, mas rápidos, o bardo agarrou o membro ereto do bruxo e o colocou para fora. Os olhos claros se direcionaram para o rosto de Geralt, que estava ajoelhado, o encarando de forma febril enquanto segurava os ofegos que queriam sair com a vagarosa carícia dos dedos longos. Mas a resistência não durou muito quando os dedos se tornaram apenas um apoio para os lábios famintos de Jaskier.
A língua o tocou sem hesitações, lambendo-o por inteiro antes de recebê-lo em sua boca. Jaskier sorriu com a sensação do membro crescendo um pouco mais em seus lábios, enquanto o bruxo que tocava seus cabelos estremecia com intensidade e gemia seu nome em tom baixo e deleitoso.
O bardo o sugou devagar de início, provocando-o, apreciando a sensação gostosa das mãos puxando os seus fios com pouca força, mas a própria excitação tomou controle tão rápido quanto quando se apaixonou pelo bruxo de Rívia. Os movimentos se tornaram mais rápidos, a língua o rodeava com urgência, causando gemidos um pouco mais contínuos, mas ainda em tom controlado. Jaskier ouviu seu nome mais uma vez, e não aguentando mais o inchaço solitário entre as pernas, o soltou.
O bardo encarou a ereção completamente molhada pela saliva e mordeu o lábio. Precisou se esforçar para não voltar ao que fazia, mas não foi tão difícil quando se afastou e viu os olhos do bruxo escuros pelo prazer. Ele conhecia Geralt como ninguém, mas era a primeira vez que o via daquela forma tão desejosa, com a expressão que parecia querer avisá-lo para que não o provocasse demais ou seu controle magistral seria completamente perdido. Jaskier podia ler os pensamentos dele apenas com aquele olhar, mas como era costume, passou por cima de todos os avisos do bruxo. O sorriso provocante retornou enquanto se arrastava pela cama, e as pernas se abriram quando encostou as costas na cabeceira. Geralt rapidamente se inclinou para se aproximar, mas o bardo o impediu, tocando seu peitoral com um dos pés, obrigando-o a recuar e sentar sobre as próprias pernas.
— Fique aí — Ele ordenou com diversão, soltando uma curta risada da expressão do bruxo.
Uma das mãos do bardo foi até o criado mudo ao lado e a outra tocou sua própria ereção. Um suspiro deliciado soou por seus lábios, e o corpo tremeu com intensidade enquanto abria a primeira gaveta e sentia a carícia em seu tornozelo ser acompanhada da língua que tocava o pé que antes estava sobre o peitoral do bruxo. Outro suspiro foi dado quando o sentiu sugar seus dedos, e Jaskier se tornou impaciente. A ideia era provocá-lo lentamente, até que Geralt pedisse por ele em voz alta e clara, porém, havia deixado de lado o fato de que o próprio corpo ansiava pelo bruxo por tempo demais para brincar no momento em que finalmente poderia tê-lo.
O pequeno pote que procurava foi achado enfim e Jaskier o abriu com as mãos trêmulas e apressadas. O pé se afastou do bruxo, que permaneceu obediente enquanto o observava abrir as pernas novamente. A pressa fez com que Jaskier molhasse os dedos em um óleo feito com lavandas sem cuidado algum, derramando o líquido no lençol e o peitoral. Ele voltou a acariciar a ereção com uma das mãos enquanto a outra descia um pouco mais. Dois de seus dedos penetraram com facilidade; a sensação quente com os movimentos que em nenhum momento foram vagarosos o fez soltar ofegos baixos e deleitosos. Os olhos se levantaram quando o corpo clamou por mais, e Jaskier separou um pouco mais as pernas enquanto dois dedos se juntaram aos outros e penetraram a entrada completamente entregue.
Ele encarou Geralt por um momento, mas o prazer que sentiu ao se tocar mais fundo o fez fechar os olhos enquanto gemia. Ele queria chamá-lo, mas a respiração junto dos gemidos o impediam e tudo o que pôde fazer foi se esforçar para olhá-lo novamente. Bastou alguns segundos para desprender o olhar do bruxo de suas mãos para chamá-lo para o rosto corado pela excitação.
— Jaskier... — Geralt o chamou trêmulo enquanto abaixava um pouco mais a calça. A ereção parecia ainda maior naquele ponto, e a visão fez o bardo afastar os próprios dedos.
O bruxo se aproximou com pressa, mas não o tocou de imediato. Os olhares se encontraram de perto, as respirações ofegantes se misturaram e o bardo enfim conseguiu abrir a boca para além de gemer.
— O que está esperando, Lobo? — A pergunta soou sensual. Os corpos de ambos estremeceram com força quando o bardo resvalou a mão nos cabelos da nuca de Geralt, e a língua do bardo deslizou pelos lábios entreabertos à sua frente. — Me devore.
Nenhum dos dois podia mais esperar, então, não houve hesitações ou pedidos de calma quando o bruxo se afastou para puxar a cintura do bardo para baixo. Jaskier sentiu o colchão nas costas novamente, e agarrou o travesseiro na cabeça com ambas as mãos. A cintura foi levantada com facilidade, e lamentou não poder ver Geralt o penetrando fundo e de uma vez. Os olhos se fecharam com força, e tudo o que pôde fazer foi soltar um alto gemido enquanto sentia o corpo reagir como nunca antes.
Doía um pouco, mas ele queria mais, com mais força e sem interrupções, e foi o que teve do bruxo. A ereção pulsava em seu interior, sempre que ia fundo e os gemidos soavam pelo grande quarto. Geralt ainda mantinha o tom baixo, mas continuo e completamente tomado pelo desejo enquanto a voz de Jaskier ia além daquelas paredes, avisando os clientes e transeuntes que Geralt de Rívia honrava sua reputação.
Os barulhos dos corpos se chocando com certa violência se misturavam com as vozes cada vez mais entregues. Os quadris de Jaskier se moviam sozinhos, mesmo lhe faltando forças para aguentar o prazer tão intenso, que atingiu o seu auge quando o bruxo se debruçou para beijá-lo desajeitado enquanto tocava seu membro de forma deliciosamente frenética.
Os olhos se fecharam com força e a ereção tremeu na mão firme. A voz do bardo atingiu notas que antes não achava ser possível. A letra era a mais simples que já havia saído por seus lábios, mas que continha todo o seu sentimento pelo único nome que conseguia proferir enquanto o pescoço era marcado por seu dono.
Geralt continuou a tocá-lo até que a mão se tornasse completamente molhada pelo sêmen do bardo, que manteve o tom alto e deliciado enquanto o sentia penetrá-lo com rapidez, até ser preenchido com o prazer do bruxo.
A voz de Jaskier foi escutada novamente, quando os corpos se separaram e o baixo gemido provocou o bruxo, que precisou tomar fôlego antes de se deitar ao lado. As respirações pesadas e a visão do teto foi tudo o que tiveram por algum tempo, até a risada rouca do bardo soar pelo quarto.
— Você me fez mesmo cantar.
Geralt virou a cabeça em sua direção, e os lábios se curvaram quando o viu fazer o mesmo.
— E a cidade inteira ouviu.
Jaskier riu novamente, enquanto se arrastava sobre os lençóis, até poder aconchegar metade do corpo sobre o do outro.
— É melhor que se acostumem — ele soltou um suspiro ao sentir a leve carícia na coxa apoiada sobre as pernas do bruxo. — O dia ainda não acabou.
Ambos se juntaram nas risadas desta vez, principalmente quando Geralt lembrou que durante a noite poderiam reclamar de verdade. A conversa continuou, na maior parte do tempo levada somente pelo bardo, reclamando dos vizinhos, deixando claro o quanto preferia os do centro, mas só podia sorrir para todos aqueles porque a maioria eram clientes. O bruxo no fim apenas o ouviu, se sentindo satisfeito quando a colônia usada após o banho daquela tarde fora elogiada, e só houve silêncio no grande quarto após longos minutos.
Eles permaneceram quietos por algum tempo, viajando nos próprios pensamentos enquanto as mãos se acariciavam sem notar. E no meio de uma lembrança, o bruxo se agitou internamente, e um dos braços se moveu para abraçar os ombros de Jaskier.
— Katakan — ele disse em tom baixo, e o olhar desviou do teto para ver o rosto curioso que se levantou em sua direção.
— O quê?
— O nome da criatura da última vez era Katakan — Geralt se lembrou. — Você pode escrever a sua balada agora.
A expressão do bardo aos poucos mudou; os lábios se curvaram com suavidade, os olhos se tornaram emocionados por algum motivo que o bruxo não soube ler.
— Eu quero te dizer uma coisa — Jaskier apoiou a cabeça na mão enquanto o observava de cima —, mas, tenho medo.
Geralt se tornou alerta. As sobrancelhas se juntaram levemente, e o bruxo se mostrou sério enquanto o segurava com mais firmeza. O coração se agitou ao vê-lo desviar o olhar, e surpreendentemente se mostrar constrangido um pouco antes de inclinar a cabeça, para deitar a testa no travesseiro que o bruxo usava. Os braços fortes rodearam a cintura do trovador, e quis incentivá-lo a falar, porém, se manteve quieto e paciente. Mas não demorou muito até que Jaskier voltasse a se mover. O rosto virou para o lado, e os lábios esbarraram na orelha de Geralt.
— Eu te amo.
Não era a primeira vez que Jaskier se declarava para alguém, porém, era inédito para o bardo se sentir tão ansioso e nervoso como naquele instante. Ele se manteve parado na mesma posição, temendo olhar nos olhos do bruxo naquele instante, podendo ter uma ideia do que se passava em sua mente e que estava totalmente errado.
Geralt também não se moveu. Em todos aqueles anos, ele havia escutado o bardo dizer aquelas palavras para muitas pessoas, mas nunca sentia nada negativo sobre isso, pois tinha certeza de que no dia seguinte ou no máximo dois ou três, Jaskier voltaria atrás e sumiria da vida da pobre alma que estava verdadeiramente apaixonada pelo trovador. Ele não aprovava aquele jeito, mas também não o repreendia, porque com as fugas, sempre vinham o alívio que Geralt não queria ter, mas não podia evitar. Até ali, ele nunca se deixou levar pelas palavras de Jaskier, porém, de forma inédita o coração estremeceu, e o alívio de sempre fora substituído por insegurança.
— "Eu te amo" do tipo ficar — ele juntou coragem para falar — ou do tipo que vai pular da janela na primeira oportunidade?
Jaskier não se surpreendeu com a pergunta, ele até mesmo a esperava, ainda que não feita daquela forma, que fez a tensão sumir e sua risada retornar.
— É a minha janela — ele voltou a levantar o rosto avermelhado. — Não há motivo para pular da minha própria janela.
Aquela sempre foi a abertura de escape do bardo, que não suportava as expressões decepcionadas em sua direção e usava as janelas de suas parceiras ou parceiros para sair de maneira discreta e nunca mais voltar. Ele nunca havia se sentido envergonhado por isso, apesar de muitas vezes se afundar em culpa, mas, naquele instante teve uma boa mistura dos dois sentimentos, apesar de também ter achado graça na pergunta que ouviu.
— Ainda assim, é uma janela — o bruxo disse com seriedade no olhar, fazendo com que a risada de Jaskier diminuísse aos poucos.
O bardo entendeu sua insegurança perfeitamente, mas, ainda assim, manteve um fraco sorriso enquanto tocava o rosto de Geralt.
— Ela está trancada e não pretendo destrancar — ele garantiu. Todas aquelas janelas foram usadas simplesmente porque dentro do cômodo não havia quem ele realmente queria, o que era diferente desta vez. Havia bastante segurança nos olhos claros do trovador quando falava de suas próprias intenções, porém, ele vacilou quando a vez de receber alguma garantia chegou. Os dedos desceram para o peitoral, e o acariciaram devagar enquanto o olhar se mantinha ali, novamente sem coragem de encará-lo. — Eu espero que a porta esteja na mesma situação.
O sussurro de Jaskier foi escutado com bastante clareza, e desta vez o envergonhado e culpado foi Geralt, que não o repreendia no passado não apenas pelo alívio, mas também porque não era tão diferente. Não havia janelas; não, ele não chegava a tanto, mas mantinha as portas sempre abertas para que pudesse sair sem problemas. Até mesmo Yennefer foi deixada para trás daquela forma no passado, em completo silêncio e sem uma despedida apropriada, então, como o bardo não poderia se sentir inseguro? Ele sabia, os dois entendiam, e por isso era tão importante deixar aquela parte entre ambos bastante clara.
— Ela está muito bem trancada. — O bruxo afirmou, finalmente tendo alívio quando os olhos de Jaskier se levantaram em sua direção e os lábios se curvaram aos poucos.
A cabeça abandonou o travesseiro quando a mão tocou o rosto do trovador. Geralt se apoiou no cotovelo e se inclinou sobre o outro, que correspondeu ao seu beijo eufórico da mesma forma.
— Também te amo — ele sussurrou, esbarrando os lábios em uma breve pausa que causou mais uma das gostosas risadas alegres de Jaskier.
O bardo se livrou totalmente da atípica vergonha e sentou sobre o colo de Geralt durante mais beijo. O quadril se moveu de forma vagarosa e provocante, agradando o corpo abaixo do seu, que estava pronto para cumprir sua promessa de envolvê-lo até o próximo dia, sem se importar com o que os vizinhos e clientes diriam. Ele tinha a bolsa cheia do ouro ganho mais cedo e o seu trovador gemendo com satisfação sobre o seu colo, então, Geralt de Rívia não precisava se importar com nada mais.
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