Pelo Ouro e o Trovador
3 Capítulo III
A casa ficava no meio da floresta, ao Sul de Novigrad. O meio elfo havia dado a direção, porém, não tinham coordenadas exatas, então, os três demoraram um pouco mais do que gostariam para achar o local. Não parecia haver perigos entre as árvores e arbustos, porém, ainda assim, Ciri e Zoltan se separaram em silêncio, prontos para investigar os arredores. E Geralt, que sequer notou que já estava sozinho, andou com passos firmes e apressados até a velha casa.
Ele observou as madeiras escuras pela umidade e fixou o olhar na podridão que tomava metade da porta de entrada. As condições da casa eram péssimas, mas não tanto quanto o que acontecia em seu interior. Não precisou se aproximar muito para ouvir uma voz. Houve certa alegria ao escutar o bardo tagarelar insultos e histórias completamente mentirosas sobre empregados fortes e mercenários que lhe deviam e em pouco tempo viriam por ele, porém, o sentimento logo foi esmagado e de maneira inédita o coração de Geralt acelerou tão rápido e forte que fora doloroso para o peito. A voz de Jaskier mudou de tom após engasgar com o som de uma forte pancada, e o bruxo não pôde suportar os que vieram a seguir, rápidos e certeiros em um curto espaço de tempo, o suficiente para que a fúria que o queimava por dentro o fizesse chutar a porta apodrecida.
Surpreendentemente a madeira estragada apenas abriu caminho, continuando presa à casa velha. Ela se fechou sozinha quando o bruxo entrou, e mesmo com o local parcialmente escurecido, foi capaz de ver com clareza o homem vestido com roupas simples e pretas logo atrás do bardo, sentado e amarrado em uma cadeira tão velha quanto a casa, enquanto grunhia de dor ao ter os cabelos puxados para trás. O rosto do bardo estava machucado, assim como parte de seus braços que estavam à mostra, e o bruxo estremeceu ao imaginar as condições nas partes que não podia ver. Ele sequer conseguiu olhar para o lado, onde o advogado estava em uma pose parecida com a de Jaskier, com a exceção de estar desacordado; o olhar furioso foi do bardo para o outro bruxo, que sorriu de maneira fraca.
— Geralt! — O bardo tentou gritar, mas engasgou no meio do caminho, quando seus cabelos foram puxados para trás mais uma vez.
Ele se segurou. Os punhos se fecharam atrás das costas, e os lábios se abriram de maneira discreta, para que o ar que segurava fosse liberto. O corpo estremecia com intensidade pela raiva, e temeu que a voz estivesse no mesmo estado, então optou por não responder o esperançoso bardo que apesar da situação, ainda tinha os olhos confiantes e provocativos, como costumava ser.
— Olá, Lobo — o outro bruxo alargou um pouco mais o sorriso. — Há quanto tempo não nos falamos.
A voz que soou pela casa velha o enervou ainda mais. Antes mesmo de vê-lo, havia uma ideia de quem poderia ser, porém, a lembrança que tinha com aquele bruxo só voltara com clareza naquele instante em que o encarava. Dalibor de Vizima, um bruxo da Escola do Gato. Não o via há tantos anos que seu nome quase fora totalmente esquecido, mas Geralt se lembrava de sua face, era a mesma que o olhou com extremo ódio e rancor enquanto segurava outro bruxo morto em seus braços.
— Como está Yennefer?
Os punhos de Geralt se apertaram ainda mais. Ah, eu estava com Yennefer naquela época. Ele se lembrou. Fora rápido e sangrento, e o bruxo de Rívia não se arrependera no momento passado, e nem mesmo naquele. Havia dois bruxos na cidade em que ele e a feiticeira estavam de passagem. Ele se lembrava de Dalibor, mas, o outro, apenas o rosto lhe vinha à mente, pelo simples fato de nunca tê-lo escutado. O bruxo sem nome tentara emboscar Yennefer por conta de um contrato de um “admirador”, e Geralt reagiu de imediato, derrubando-o após um tempo considerável de combate. Dalibor chegou depois; o chamou de irmão enquanto acolhia o corpo sem vida, se revelando o companheiro do outro bruxo. Fora uma visão nada boa, assim como os olhos odiosos do bruxo da Escola do Gato na direção do que pertencia a do Lobo. A ameaça de vingança fora lançada, e Dalibor tentou cumpri-la no mesmo dia, porém, as condições da feiticeira impediram Geralt de dar atenção ao Gato e ambos partiram rapidamente através de um portal, o deixando para trás.
— Eu espero que se lembre de mim — o sorriso do bruxo de Vizima sumiu, impaciente com o silêncio de Geralt, que enfim se moveu e deu um passo para a frente.
— Dalibor — para o alívio do Lobo, a voz soou firme e até mesmo um pouco desinteressada.
O sorriso retornou, enojando o bruxo de Rívia. Havia muito para Geralt pensar naquele instante. Havia a prioridade, que era a segurança de Jaskier e depois a do advogado; a dúvida sobre o bruxo que mantinha as mãos no bardo estar realmente sozinho e a raiva por ele, porém, o que veio em sua mente naquele instante fora a simples ironia que tudo aquilo trazia. Há anos ele havia matado um bruxo para proteger quem ele achava que amava mais do que a própria vida. Muito tempo depois e um feitiço desfeito e Geralt estava ali, pronto para matar outro por quem ele enfim tinha uma certeza natural de como se sentia. Por que a droga das mutações não agem nessas horas? Ele xingou internamente, mas de uma forma estranha, a rápida análise sobre sua vida amorosa o fez se acalmar aos poucos, até voltar a focar somente no presente.
— Dalibor de Vizima — o Gato completou com empolgação. — O bruxo cujo o irmão você assassinou por uma vadia qualquer! — Ele soltou os cabelos de Jaskier enquanto aumentava o tom de voz. — Eu jurei que iria vingá-lo, por anos pensei que mantando você seria a maneira perfeita para isso, mas, estava enganado. — O ombro do bardo foi apertado com força, fazendo-o soltar um gemido. — Eu farei o mesmo que fez comigo, e saberá como me sinto, ou talvez seja até mesmo pior.
Dalibor riu em tom baixo. Sua felicidade se misturava com o clima horrendo daquela casa, fazendo Geralt se alterar internamente novamente, enquanto o bardo tremia pelo medo.
Sabendo suas intenções, o bruxo de Rívia deu mais um passo, mas precisou parar. A mão no ombro de Jaskier ameaçou subir para o pescoço, e Geralt precisou pensar rapidamente.
— Eu vim pelo advogado — ele enfim olhou para o pobre Alois Bogdan, ainda desacordado. — Já recebi adiantado por ele.
Não era a sua estratégia mais inteligente, porém, esperava que Dalibor acreditasse em seu tom indiferente ao bardo. Para o mundo, eles eram amigos próximos, mas havia muito de Geralt que era inventado e cantado por aí, então esperou que o bruxo de Vizima ao menos o questionasse sobre a relação que tinham, e esqueceu que o bardo podia ouvi-los perfeitamente.
— Mas o que... — Jaskier juntou as sobrancelhas, os lábios descrentes se abriram, prontos para externar tudo o que pensou naquele instante, mas bastou um olhar do Lobo para entender e se calar.
— Acha que sou idiota? — Dalibor balançou a cabeça, achando graça no claro plano estúpido do bruxo que sempre era atento e esperto, mas que naquele instante vacilava por conta da ansiedade. — Eu venho te observando por muito tempo, Geralt. — O ombro do bardo foi apertado novamente, enquanto o bruxo se posicionava atrás da velha cadeira. — Ele sempre está com você. E pensa que não notei como se tratam? Como você o trata? — O Gato riu soprado. — Como uma esposa barulhenta, mas delicada.
Ao ouvi-lo, Geralt emudeceu enquanto o espirito de Jaskier finalmente foi revivido. Os olhos se arregalaram, e o corpo amarrado se debateu.
— Mas que diabos? Esposa? Eu tenho um pau bem no meio das pernas, seu maldito! Quer ver?
Dalibor riu em tom alto e espontâneo, para logo depois fechar a expressão.
— O elegante bardo tem a boca suja, que decepção. — Uma das mãos subiu até o pescoço de Jaskier, enquanto a outra alcançou uma pequena faca presa no cinto de couro. O Gato olhou para o Lobo com seriedade e tocou a pele que segurava com a lâmina. — Você pode ficar com o seu ouro, Lobo, e quanto a mim... Ficarei com o seu coração.
O momento durou segundos. O olhar de Geralt se encontrou com o amedrontado de Jaskier, e o peito doeu como se tivesse levado um forte chute no local. A lâmina cortou a primeira camada de pele do bardo, e um alto barulho foi escutado do outro lado da parede em que o bruxo da Escola do Gato estava. A janela tampada com uma taboa impedia de ver o que acontecia lá fora, e o susto o fez soltar o pescoço de Jaskier. Ele não estava sendo atacado, como pensou em um primeiro momento, mas sim os homens que esperavam do lado de fora, escondidos para lidarem com o Lobo, caso houvesse algum imprevisto. Mas não contavam que o desvio em seus planos seria por conta de Ciri e Zoltan, os que causaram a barulheira da luta do lado de fora.
Dalibor rapidamente voltou a se mover, mas o corpo foi afastado do bardo com um vento forte e poderoso. A pressão do sinal Aard o fez tropeçar até bater as costas na parede; a cadeira velha também não escapou da magia do bruxo de Rívia, e foi ao chão junto do bardo. A madeira se quebrou com facilidade, porém, as mãos e pernas de Jaskier ainda estavam amarradas e o impediam de se movimentar como queria.
— Geralt! — Ele gritou enquanto se debatia no chão. — Tira isso de mim!
O bruxo de Rívia quis libertá-lo, mas Dalibor já estava recuperado, e só teve tempo de agarrar as cordas em volta do corpo do bardo para tirá-lo do caminho. Jaskier continuou a afalar e se debater no canto da casa velha, mas Geralt se fechou totalmente para ele e focou a atenção no Gato que desembainhava a espada de aço.
Ele desviou de um golpe. A lâmina esbarrou na armadura de couro, cortando o ar. O Lobo girou os pés enquanto agarrava o punho de sua própria espada, que bloqueou um novo ataque feroz que viera de cima. Os rostos dos bruxos ficaram próximos; o Gato rosnou com ódio enquanto o Lobo mostrou nem um traço de emoção. A espada de Geralt se moveu, afastando a de Dalibor; a cabeça do Lobo se inclinou para trás, para voltar e acertar a do gato, que cambaleou para trás. A espada do bruxo de Rívia girou, e o de Vizima bloqueou antes que acertasse sua cabeça; o mesmo aconteceu em seguida, quando a cintura foi o alvo. Vendo que não havia brechas, ambos se afastaram. Os pés se tornaram cautelosos enquanto andavam em círculos, encarando um ao outro, com as espadas em movimentos contínuos, prontas para se encontrarem novamente, mas Dalibor preferiu mover a mão livre, e antes que formasse o sinal Igni, Geralt também se moveu. O Lobo correu, segurou o pulso do Gato e o apertou com força. O braço foi puxado para o lado, o desequilibrando, e então, fora para cima. O pulso quebrou, fazendo o bruxo de Vizima soltar um urro engasgado, pois no meio da ação, Geralt virou a espada, atacando-o de baixo para cima, perfurando a axila até poder ver a ponta da espada sair pelo ombro.
O sangue de Dalibor transbordou, banhando a lâmina de aço, que o rasgou ainda mais quando fora retirada com violência. Ciente da rapidez do Gato, o Lobo não esperou uma reação; ele sacou uma pequena faca de prata e a cravou no pescoço do outro, que rapidamente cambaleou para trás enquanto segurava o objeto em sua carne.
Antes que os joelhos de Dalibor de Vizima fossem ao chão, Geralt foi até ele e o segurou em seus braços. Os olhares se encontraram de perto enquanto o Lobo o deixava cair devagar, e o bruxo da Escola do Gato finalmente pôde ver emoção na face acima da sua. A cabeça foi colocada sobre o chão com um estranho cuidado, e Geralt o observou cuspir líquido vermelho escuro.
— Eu ficarei com os dois — ele o respondeu em tom sério enquanto tocava a faca de prata.
Dalibor tentou rir com deboche, mas os olhos perderam o brilho com rapidez quando a faca foi retirada, e mais uma abertura que jorrava sangue marcou o seu fim.
O som de um trovão estremeceu levemente o corpo de Geralt, que rapidamente guardou as armas e deixou o corpo do outro bruxo esfriando sozinho. Ele foi até o bardo e o desamarrou com urgência. Não havia mais as reclamações ou o corpo se debatendo, o que o fez alerta. Ele o ajudou a se levantar, e tentou segurá-lo com mais firmeza quando Jaskier tropeçou nos próprios pés, porém, o bardo lançou um olhar furioso em sua direção e o empurrou com ambas as mãos. O movimento havia sido feito com todas as suas forças, mas tudo o que conseguiu fora mudar a expressão preocupada de Geralt para uma espantada. Era bastante sutil, é claro, porém, o bardo sabia lê-lo muito bem, e apesar da frustração por não ter causado sua queda ou ao menos o afastamento, ficou bastante satisfeito por ter mexido com o interior do bruxo.
— Você está bem? — Geralt perguntou em tom baixo, tentando se aproximar novamente, querendo verificar os machucados na pele sempre tão bem cuidada, porém, o bardo deu dois passos para trás.
As sobrancelhas se juntaram e os olhos de Jaskier se tornaram ainda mais raivosos.
— Se eu estou bem? — Ele levantou o tom de voz e se aproximou novamente. Mais um empurrão, e também uma tentativa falha de um chute entre as pernas do bruxo o fez gemer. O corpo estava dolorido e mal podia movê-lo, mas nada doía mais do que o orgulho e o coração do bardo. — Você tem a coragem de me perguntar se estou bem? Vá para o inferno, Geralt!
No instante em que o nome do bruxo se espalhou pela casa, a porta apodrecida foi aberta e novamente o som de um trovão o estremeceu. Ciri se apressou para checar o bardo, e reportou sobre os poucos homens que precisaram nocautear do lado de fora. Ela olhou para o corpo de Dalibor, mas não teve tempo para perguntar nada além do motivo do bardo tremer tanto. Ela havia escutado a gritaria e por isso havia entrado daquela forma, e após vê-lo daquela forma, mesmo o tendo vivo e ao seu lado, não relaxou enquanto tocava seu rosto ferido.
— Se acalme.
— Eu estou bem, minha querida — o bardo a respondeu, forçando um sorriso trêmulo.
O bruxo se incomodou com o que via, mas não se atreveu a alimentar o sentimento indignado. Ele merecia ser tratado de forma diferente, era óbvio depois de tudo, porém, também não conseguia deixar de lado a necessidade de envolvê-lo em seus braços. Eu quase o perdi. O pensamento fez o peso em seu corpo retornar, mas, ainda assim, arriscou mover os pés na direção das duas pessoas que eram o seu mundo.
— Jaskier...
O tom foi cauteloso, assim como a aproximação, mas de nada adiantou. O bardo novamente o olhou sem afeto e se afastou.
— Não chegue perto de mim — ele disse de forma controlada desta vez, no instante em que teve mais público.
Zoltan entrou apressado no momento em que os trovões receberam a chuva, e o anão se surpreendeu ao ouvir a frase do bardo.
A fim de não alterá-lo e ainda preocupado com os machucados, Geralt, voltou os passos que havia dado, chamando a atenção de todos os olhos para si, confundindo-os ainda mais.
— O que está havendo? — Ciri foi quem teve a coragem de perguntar o que Zoltan também queria, mas não sabia se deveria.
A pergunta fez os pelos do bardo eriçarem pela raiva.
— Você não contou? — Ele perguntou indignado. O olhar foi do bruxo para Ciri e Zoltan, e a boca se abriu com muito gosto. — É por causa dele que estou nessa situação! E não, não é por este Gato imundo que estou falando isso. — Ele voltou a fixar o olhar em Geralt, atento em sua reação, esperando que estivesse mortalmente arrependido, no mínimo. — Geralt é um bruxo baixo. Me colocou em um feitiço. Eu, o seu melhor amigo, em um feitiço barato controlador de mentes. Como chama isso mesmo Ciri? Sim, Axii! Sem preocupação nenhuma, só porque não queria me ouvir! — Jaskier andou até o bruxo e tocou-lhe o peito com a ponta do indicador. — Eu poderia ter fugido, como vim fazendo. Eu os ouvi chegando, ouvi todos sendo mortos, mas não pude sequer me mover daquele quarto, porque eu fui forçado a me calar e te esperar receber a porcaria do dinheiro!
Eu não sabia! Geralt quis externar o pensamento, mas os olhares espantados o fizeram se calar e manter os lamentos apenas para si. Eu não sabia que estavam atrás dele. Como eu poderia? Mas, ainda assim, não foi justo tê-lo obrigado a retornar daquela forma.
Ele já sabia o que Ciri diria, e seria exatamente o que estava em seus pensamentos. Os olhos claros dela foram acusadores por um breve momento, para então, se tornarem decepcionados. Zoltan deu as costas, preferindo enfrentar a chuva do que a descoberta, enquanto Jaskier... a raiva ainda estava ali, mas os olhos tristes eram tudo o que Geralt conseguia enxergar.
Ciri se aproximou, e sem olhar para o bruxo, apoiou um dos braços do bardo em seus ombros. Devagar ela o guiou para fora, e o som da madeira apodrecida batendo no batente foi o sinal de que Geralt fora deixado para trás com o cadáver de um Gato e um advogado desacordado.
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