Ele não parou. Plotka estava dando sinais de exaustão e sentia o próprio quadril doer enquanto a língua se movia dentro da boca seca, mas Geralt não pensou no bem-estar de nenhum dos dois, e só deixou as pernas exaustas da égua descansarem quando passou pelos portões de Novigrad. Daquele lado, costumava não ser preciso muito para ouvir o Camaleão agitado com sua música e clientes, e por isso seguiu a pé, com passos apressados e pesados. Ele não pensou muito no clima escuro que anunciava a chuva próxima, sequer que algumas pessoas o olhavam com curiosidade, e outras até mesmo cochichavam nos ouvidos umas das outras. O bruxo estava ocupado com a preocupação que vinha do silêncio naquela parte da cidade. Não havia flautas ou alaúdes, sequer os sons dos copos batendo nas mesas e a cantoria.

Geralt subiu os dois degraus que iniciavam o cabaré, e foi recebido pela porta trancada. As sobrancelhas claras se juntaram, e andou para o lado, tentando olhar através da janela, porém, a grossa cortina cobria quase toda a visão, impedindo-o de bisbilhotar o estabelecimento de Jaskier. Eu sabia que alguma coisa havia acontecido. O bruxo se xingou enquanto dava um passo para trás, para olhar o letreiro ainda pendurado. “O Camaleão” estava escrito com uma bela caligrafia, e se mantinha limpo e bem cuidado, o que o fez estranhar a situação ainda mais. Jaskier estava viajando ao seu lado há algum tempo, e mesmo com o jeito estranho do bardo que escondia alguns de seus passos, foi fácil descobrir que antes do encontro de ambos, ele não estava na estrada há pouco.

Não era raro para o bardo deixar o cabaré nas mãos de terceiros para partir em suas aventuras, porém, havia algo que soava estranho naquela porta firmemente trancada em horário comercial, o que fez Geralt cogitar a ideia de derrubar a madeira com o pé. Ele não podia perder tempo e não pensou em nenhum contato que poderia ter em comum com Jaskier, para que abrisse o local de uma maneira menos violenta e que causaria menos reclamações no futuro, então se aproximou da porta novamente. Lá dentro poderia haver pistas para o bardo insistir tanto em acompanhá-lo até mesmo no banho, como se temesse estar sozinho.

O pensamento nas atitudes de Jaskier o remeteu aos olhares que recebia durante aqueles momentos na banheira, o que fez seu corpo esquentar levemente e em um momento totalmente inapropriado. A culpa e preocupação se misturaram com o desejo de tê-lo ao lado novamente, fazendo-o perder alguns minutos dentro da própria cabeça, mas a distração acabou servindo para receber o salvador da pobre porta. Antes de Geralt ter a chance de levantar o pé, sentiu uma presença logo atrás. As sobrancelhas se juntaram e rapidamente deu as costas para a entrada do cabaré. Com o queixo erguido ele viu o nada, mas ao tocá-lo no peito, soltou um breve suspiro e largou o punho da espada que nem ao menos havia se dado conta que segurava.

— Geralt!

O bruxo se aproximou, sorrindo de uma maneira tão fraca que quase passava despercebido.

— Zoltan.

Ele se abaixou para cumprimentar o anão, que deu fortes tapas em suas costas quando o breve abraço aconteceu.

— O que o traz até aqui, amigo? — Zoltan Chivay também sorriu, com a espontaneidade e a empolgação que as mutações de Geralt o impediam de ter.

— Eu não tenho tempo para trivialidades, Zoltan — O bruxo foi direto, alertando o anão quando rapidamente olhou para trás. — Você tem a chave?

— Sim, sim. Eu vim exatamente para isso, para abrir a porta — ele passou por Geralt enquanto balançava a cabeça. — Venho ao menos uma vez por dia, para ter certeza de que nenhum vagabundo invadiu. — Um molho de chaves foi tirado do bolso e Zoltan enfim abriu a porta. — Em pensar que o vagabundo quase foi você — ele riu divertido, mas a seriedade logo o tomou ao ver que o bruxo não o ouvia, e entrou no local apressado, mexendo em tudo o que via pela frente. — O que está havendo, Geralt? Onde está Jaskier? Eu pensei que ele estaria com você.

A porta foi mantida aberta para que houvesse luz, mas, ainda assim, o anão foi até os castiçais para acender algumas velas.

— Como sabe disso? — O bruxo parou de fuçar dentro do grande baú do salão para olhar para o anão, que devolveu a atenção com estranheza após afastar algumas cortinas.

— Bem, depois de tudo, ele partiu, já que não havia outra opção, e disse que passaria algum tempo ao seu lado — Zoltar coçou a bochecha com nervosismo. — Achei totalmente certo, mas pensando agora, eu deveria ter ido junto para protegê-lo no caminho.

Geralt endireitou a postura. A sensação pesada em seu peito ficou ainda mais forte.

— Protegê-lo do que?

Ambos se olharam da mesma forma; havia confusão e imensa preocupação nos olhos dos amigos. Ficara claro que Zoltan achava que Geralt sabia de todos os detalhes, e o bruxo previu o perigo naquela situação estranha. Eu sabia. Ele fechou os olhos por um breve momento e se aproximou do anão.

— Bem, alguns homens fiéis do Filho Da Puta ainda não conseguem aceitar a decisão do chefe. Se doeram pelo Júnior, que não recebeu o cabaré no lugar de um bardo qualquer, como eles dizem — Zoltan se encostou em uma coluna e suspirou pesadamente enquanto cruzava os braços. — Os malditos chegaram arrastando os nossos clientes pelos cabelos. E nem quero dizer em voz alta o que fizeram com as garotas. Que dia terrível, Geralt, que dia terrível — ele olhou para o lado, como se ainda pudesse ver os acontecimentos ali. — Jaskier tentou escapar, mas o pegaram enquanto ajudava uma das moças. Estavam prontos para acabar com o coitado, mas eu cheguei bem em tempo. Só servi para salvar ele também — o olhar do anão se tornou envergonhado. — Tivemos que fechar o cabaré por causa de ameaças de que retornariam. As dançarinas e os músicos não quiseram voltar e os clientes também estão assustados com tudo isso. Estamos arruinados.

— Mas que merda é essa, Zoltan? — O bruxo perguntou entredentes. Aquilo era grave demais para Jaskier manter segredo. E ainda havia uma questão que o enfurecia muito mais. — O que Dudu anda fazendo?

O anão se desencostou da coluna e suspirou outra vez.

— O idiota está fora de Novigrad faz algum tempo. Os malditos aproveitaram, e ainda se aproveitam da liberdade.

Apesar de ter achado uma grande irresponsabilidade, Geralt não pôde deixar de se sentir menos raivoso com o dúplice. Por um momento ele havia se decepcionado, mas ao que parecia não tinha motivos para desconfiar de sua conduta, e até mesmo se sentiu um pouco culpado por ter acreditado que alguém como Dudu poderia agir daquela forma. Porém, não havia como Geralt saber com certeza e de imediato. Fazia bastante tempo que Dudu havia assumido a forma do bandido assassinado por sua espada, Cyprian Wiley, mais conhecido como Filho Da Puta Júnior. Muita coisa poderia mudar em alguém naquele meio em tantos anos, e o bruxo se sentiu aliviado por saber que o dúplice aparentemente continuava o mesmo.

Apesar do assunto estar ligado, Geralt rapidamente o deixou de lado e colocou a mão em um dos bolsos. O pequeno broche foi retirado e o entregou para Zoltan.

— Reconhece isto?

— Sim. É deles, não se lembra que Dudu mudou o símbolo? É exatamente este. — O anão fechou a mão, apertando o objeto com força. As sobrancelhas se juntaram e o olhar raivoso se levantou. — Eles o pegaram, só pode ser isso. Nós pensamos que tínhamos despistado, para que Jaskier pudesse fugir e estar em sua proteção, mas no fim, fomos ingênuos demais.

No caminho até ali, Geralt havia cavado mais fundo em sua memória. Aqueles homens que nunca gostaram do bardo apareceram em sua mente, se tornando um dos milhares de suspeitos, porém, enquanto ouvia a história de Zoltan, eles imediatamente se tornaram os principais, e após ter certeza de que sua mente não estava bagunçada pela aflição sentida e que aquele broche realmente já havia sido visto, se tornaram os únicos culpados pelo desaparecimento de Jaskier.

O pensamento no bardo lhe trouxe um gosto amargo. Geralt se afastou do anão e por um momento se isolou nos próprios pensamentos. Jaskier já havia passado por situações parecidas diversas vezes; aquele momento parecia até mesmo um déjà vu, porém, pela primeira vez ele não se sentiu confiante de que o recuperaria ou entediado por ter que mais uma vez socorrê-lo. De forma inédita era doloroso estar ali, naquele instante, e saber o motivo muito bem só piorava a situação.

— Ele não me disse nada disso — o bruxo disse em tom baixo, com os olhos fixos em uma parede vazia.

— Então, você o viu?

Geralt respirou fundo, buscando se acalmar, e virou para encarar o amigo.

— Ele estava comigo. Nos separamos por algumas horas e ele sumiu. Todos na pousada em que estávamos estão mortos.

Os olhos do anão se arregalaram e os punhos se apertaram.

— Malditos! Nós precisamos achá-lo, Geralt!

— É por isso que estou aqui — o bruxo balançou a cabeça rapidamente, se obrigando a se recuperar. — Alguma ideia de onde podem tê-lo levado? Ou...

Ele não queria pensar na possibilidade de Jaskier não ser ao menos um prisioneiro. Geralt sentiu o corpo estremecer em apenas imaginar a vida sem o bardo, e se fosse real, jamais se perdoaria e muito menos se recuperaria daquela dor que só crescia e o fazia perder as forças.

— Não acredito nisso. Não há valor em matá-lo agora — Zoltan disse com seriedade, convicto, mas também amedrontado. — Precisam dele para que o Camaleão seja registrado no nome do Júnior. Dudu pode chegar a qualquer momento e não concordará com isso, é claro, mas temo o que possam fazer com Jaskier até lá.

Ser um prisioneiro era melhor do que estar morto, porém, ao ouvir o tom preocupado do anão, Geralt não pôde relaxar com a esperança de encontrar o bardo. Os homens de Wiley eram conhecidos por sua crueldade e falta de empatia; muito havia mudado nos últimos tempos com a súbita mudança nas atitudes do chefe, mas duvidava que aquele lado dos capangas havia sido melhorado. A história de Zoltan já mostrava muito da selvageria daqueles homens, e imaginar o bardo nas mãos sujas de qualquer um deles mais o enfureceu do que se culpou pela situação, dando-lhe a energia que parecia estar perdida há algum tempo. O bruxo rapidamente se colocou a pensar.

— Eles precisariam de um advogado para isso, assim como Jaskier — ele cruzou os braços enquanto compartilhava as ideias com o anão, que assentiu rapidamente.

— O advogado dele mora no centro. Podemos visitá-lo, para perguntar o que sabe sobre o contrato.

Geralt apenas balançou a cabeça para concordar com Zoltan. Ele se virou para a saída imediatamente, ansioso para achar uma pista definitiva sobre o paradeiro de Jaskier, e só notou uma terceira presença quando o olhar se levantou para a porta aberta e viu a mulher alta de cabelos cinzentos e uma grande cicatriz no rosto, como uma versão melhorada de si mesmo.

— Ciri! — Zoltan foi o primeiro a reagir. O anão correu até ela, que o recebeu em seus braços com um largo sorriso.

Geralt foi o próximo a receber sua atenção. O abraço entre os dois foi mais demorado, e o sorriso de Ciri foi acompanhado de uma risada alegre. Há muito não se viam, e o bruxo sentiu um breve alívio por poder tê-la ali naquele momento, mas, mesmo com toda a animação que Ciri trouxera, a seriedade logo voltou, assim como a ansiedade que dominava o cabaré, que rapidamente foi analisado por ela.

— Por que está tão quieto aqui dentro?

Zoltan e Geralt se olharam e soltaram suspiros ao mesmo tempo.

— Longa história, Andorinha, e das perigosas — o anão cruzou os braços, e com a muda permissão de Geralt, narrou a história e seus achismos e certezas sobre o paradeiro do bardo.

Ciri os ouviu atentamente, mostrando indignação na maior parte do tempo, para chegar ao fim da narrativa furiosa e extremamente preocupada. Geralt podia imaginar como ela se sentia naquele momento; Ciri e Jaskier eram muito próximos e a amizade que tinham era forte, mas, mesmo sabendo o quanto ela e Zoltan estavam aflitos, duvidava que chegava aos pés de suas próprias aflições, que o fizeram se manter quieto enquanto liderava o caminho até o centro de Novigrad.

Ciri fez questão de acompanhá-los. Ela estava de passagem na cidade; após ter concluído um contrato próximo dali, a ideia de visitar Jaskier foi natural, e depois de tudo o que ouviu do anão, a decisão de ficar por tempo indeterminado também foi tomada sem profundos pensamentos. O resgate do bardo era a prioridade no momento.

— Começo a pensar que você estava certo esse tempo todo, Geralt — Zoltan soltou a voz no meio do caminho, pela primeira vez conseguindo o olhar do bruxo.

— Sobre o que? — Ciri, andando entre ambos e de maneira apressada, se mostrou curiosa.

— Sobre Jaskier começar a considerar nos pagar um salário para os resgates. — Geralt desviou o olhar após respondê-la. Na primeira vez que havia dito aquilo para Zoltan, havia graça e certo nervosismo, porém, ali ele não conseguia sequer abrir o discreto sorriso de sempre. Era diferente desta vez, e o bruxo sentia que era ele quem devia para o bardo.

Os passos apressados estavam irritando Geralt, que cogitava a ideia de começar a correr. A espera era agoniante, e fazia muitas horas desde o sumiço de Jaskier. Ele sentia prestes a explodir com os sentimentos que antigamente conseguiria esconder muito bem, e até mesmo sequer teria, porém, os pés foram parados de repente quando um pequeno garoto correu em suas direções.

— Senhor Chivay! — A mão balançou no ar para ser notado, e o anão pediu com urgência para que todos esperassem. O garoto vestido com roupas encardidas respirou fundo, se recuperando da corrida, e com um sorriso amarelo estendeu a mão na direção de Zoltan, que rolou os olhos antes de colocar duas moedas sobre ela. — Como ordenado, venho para informar que o Filho Da P... — O garoto pigarreou — que o senhor Wiley Júnior está de volta.

Os três adultos se entreolharam, e não precisaram de palavra alguma para que concordassem que o destino daquela caminhada deveria ser mudado. Desta vez fora Ciri quem liderou o caminho, e mais uma vez sem precisarem se comunicar, fizeram o que Geralt desejava. A corrida diminuiu o tempo até a mansão de Wiley, e nem mesmo os chamados e olhares tortos dos capangas os pararam, principalmente quando notaram de quem se tratava a inesperada visita. Alguns deles até mesmo se esconderam da atenção do bruxo e os companheiros, mas ninguém recebia sua atenção total. Geralt só pensava em falar com Dudu, para que pudesse ser direcionado diretamente para o responsável por sua agonia.

A porta do escritório do Júnior foi aberta pelo bruxo, que não se preocupou com boas maneiras e sequer pensou em se anunciar antes de entrar. Os olhos surpresos dos que estavam no interior do cômodo não o abalaram, e Geralt permaneceu em silêncio enquanto era seguido por Ciri e Zoltan.

O rosto de Cyprian Wiley continuava o mesmo que o bruxo se lembrava, assim como a carranca e olhar malicioso. O homem pigarreou ao passar o espanto e as sobrancelhas naturalmente juntas se apertaram ainda mais ao olhar para o capanga com quem antes trocava algumas palavras.

— Pode sair — ele ordenou com seriedade, mas nervosismo torceu seu rosto quando o viu hesitar após olhar mais uma vez para as visitas. — Tá surdo, maldito? Sai logo, porra!

Wiley andou até o homem, o agarrou pela camisa e o arrastou até a porta, expulsando-o com um chute no traseiro. A porta foi fechada com força enquanto ele resmungava. As costas eretas do bandido relaxaram ao ouvir o capanga descer as escadas do outro lado, e então ele se virou para as visitas. As sobrancelhas não estavam mais juntas e nos lábios marcados pela idade e horrendas cicatrizes havia um gentil sorriso que foi retribuído apenas por Ciri. Aquela era o Dudu que todos conheciam. Ele se aproximou, fazendo menção em abraçá-los, mas Ciri deu um passo para trás, quando notou que seria a primeira.

— É esquisito quando você está nesta forma — ela explicou, fazendo-o rir com bastante divertimento e acabou apertando as mãos de cada um.

— Precisamos conversar — Geralt avisou após os cumprimentos. — Sem rodeios.

O dúplice assumiu uma expressão séria, mas relaxou mais uma vez enquanto se sentava em sua cadeira, atrás de uma mesa elegante de madeira escura.

— Ah, o que foi que eu fiz desta vez? — Ele suspirou, fazendo sinal para que os três se sentassem à frente.

— Você, nada, mas os malditos dos seus homens... — Zoltan ignorou o convite para se sentar e cruzou os braços.

Sem esperar por uma reação de Dudu, Ciri se sentou e colocou a mão sobre a mesa de forma ruidosa.

— Eles invadiram o Camaleão, saquearam, estupraram as mulheres, e perseguiram Jaskier até conseguirem sequestrá-lo — ela foi direta e raivosa em seu tom.

O rosto de Wiley já estava bastante duro e horrorizado enquanto a ouvia, mas quando a última parte saiu pelos lábios de Ciri, os olhos dele se arregalaram, e rapidamente se levantou da cadeira. A postura relaxada foi abandonada em um piscar e os punhos se apertaram.

— Mestre Jaskier? — Ele perguntou, mas havia escutado muito bem, só não conseguia acreditar na estupidez daqueles homens. — Sabem quais deles foram? Me deem os nomes imediatamente — Dudu saiu detrás da mesa rapidamente. — Isso é um absurdo!

— Não temos os nomes, apenas este broche — o bruxo interrompeu seus passos ao esticar a mão, mostrando-lhe o objeto, que foi pego rapidamente. Em seguida, Geralt se sentou ao lado de Ciri. — Não sei se todos são iguais...

— Não são. Ao menos não os formatos — o dúplice o interrompeu e a expressão foi do inofensivo Dudu para um furioso Cyprian Wiley. — Grutus! — Ele gritou enquanto abria a porta. — Traz a sua bunda suja aqui para cima agora!

Não demorou para o tal Grutus aparecer. Seu olhar era receoso, e a hesitação para entrar fora facilmente notada. O bruxo se levantou rapidamente e observou Dudu puxá-lo para dentro com impaciência.

— Entra, caralho! — O dúplice gritou, já no fim de sua paciência.

— Senhor...

Os olhos de Grutus se arregalaram enquanto recuava um passo. Os presentes o encaravam com fúria, mas nenhum deles o amedrontava mais do que Júnior e o bruxo que se aproximava com passos pesados e uma expressão assustadora.

Geralt o segurou pelo colarinho e o empurrou com força contra a parede ao lado da porta. O som das costas batendo fora alto e se misturou com o grito contido do capanga, que ao ser observado com cautela, se revelou um meio elfo.

— Onde está Jaskier? — O bruxo perguntou entredentes.

O capanga endureceu a expressão ao ouvir o nome do bardo. A raiva no olhar que encarava Geralt sem medos desta vez fora clara, o que estremeceu o fino fio de paciência que o bruxo ainda tentava manter.

— Diga, Grutus, ou não vou pará-lo — Dudu disse com seriedade enquanto cruzava os braços logo atrás, com o olhar fixo em seu subordinado.

— Onde ele está? — Desta vez Geralt gritou. A camisa suja do meio elfo foi amassada ainda mais e a nova batida na parede foi mais forte, machucando a cabeça juntamente com as costas.

Grutus segurou um grunhido de dor, e no lugar de dar atenção para o bruxo, com dificuldade se voltou para Dudu.

— Chefe, estávamos quase conseguindo o cabaré de volta! — Ele exclamou estranhamente culpado e envergonhado.

— Eu avisei que o Camaleão e o Me... — Dudu se deteve antes que palavra “Mestre” saísse por seus lábios. Ele havia pegado o jeito em interpretar a personalidade de Júnior, mas certos hábitos ainda eram difíceis de controlar, e o respeito que tinha por Jaskier o fez se desculpar internamente antes de continuar. — E o Merda daquele bardo deveriam ser esquecidos!

O meio elfo abaixou o olhar. Era do conhecimento dele e de todos os companheiros que “Wiley” queria enterrar aquele assunto da herança. Todos insistiam que o cabaré deveria voltar para a família, mas a maioria respeitava a decisão do chefe, levando suas novas atitudes como se quisesse esquecer a vergonha de seu pai ter dado o local para um bardo qualquer. Mas Grutus e alguns homens ainda tentaram por suas costas, certos de que o chefe se alegraria no final, o que não fora o caso. Diante dele o líder tinha os olhos pegando fogo pela raiva e o cabaré continuava registrado no nome de Julian Alfred Pankratz, o mundialmente famoso trovador, Jaskier.

Sem tempo para dar ao meio elfo, Geralt não viu saída, ele segurou o rosto orgulhoso com as duas mãos e o apertou com tanta força que a pele de Grutus se tornou avermelhada.

— Se eu souber que fizeram qualquer arranhão nele, vou explodir a sua cabeça com as mãos nuas.

O tom usado pelo bruxou causou arrepios não somente no que estava sendo segurado. Era ameaçador e extremamente perigoso. Saber que aqueles homens quase conseguiram algo do bardo, o fez imaginar como chegaram a isso, e como a situação se transformou quando não conseguiram o que queriam, como ficara óbvio no jeito do meio elfo agir. Nada estava bem para Jaskier, ele não precisou saber pelos lábios de Grutus; Geralt sentia o desespero do bardo desde que estava na casa do intendente da cidadezinha escura e recebia seu tão aguardado ouro.

— Oh, nós nos divertimos um pouco sim — o meio elfo forçou uma risada, tentando parecer forte, porém, o aperto em sua cabeça era demais para suportar e mesmo quando foi solto, nenhum alívio veio.

O resto da paciência do bruxo se foi, e o corpo de Grutus foi jogado para o lado, caindo desajeitado no chão. Sem chances de levantar, ele recebeu a bota de couro escuro no estômago por três vezes até o quarto golpe acertar o nariz que imediatamente transbordou sangue.

Ele estava tomado pela fúria, sinceramente querendo cumprir a ameaça, mas antes do quinto golpe acontecer, a voz de Zoltan chamando por seu nome o fez parar.

— Precisamos dele — o anão o lembrou, para o alívio do meio elfo.

Apesar de ser apaziguado com o lembrete, Geralt ainda levantou o punho mais uma vez, pronto para um último golpe, porém, como o esperava ao fazer o movimento, o meio elfo enfim cedeu.

— Ok, ok! Ele está na velha casa na floresta ao sul daqui — ele cobriu a cabeça com os braços enquanto elevava o tom de voz. Vendo que o bruxo se apressou em se afastar, ansioso para partir, ele tomou um pouco de coragem, pois se não abrisse a boca mais uma vez, sabia que o seu chefe não o perdoaria. — Mas, espere, tivemos um problema.

— De que tipo? — Zoltan fora quem se aproximou desta vez. Ele segurou Grutus pelo colarinho e o obrigou a se sentar sobre o chão. — O que fizeram com Jaskier?

Ciri, quem apenas os observou até ali, não aguentou mais segurar as mãos inquietas, que desde o início queriam agir como as de Geralt. Ela sacou a longa espada que estava na cintura e encostou a ponta no pescoço do meio elfo, coberto pelo sangue que ainda escorria do nariz quebrado.

— Eu não sei o que aconteceu com ele — Grutus estremeceu com o olhar de Ciri sobre si. Ela não precisou de palavra alguma, e ele sentiu que poderia molhar as calças a qualquer momento. — Quando estávamos próximos de um acordo com o bardo e o advogado dele, um dos caras que contratamos se virou contra nós. Era muito forte e habilidoso, tomou posse da casa e dos prisioneiros. Mandou que entregássemos um recado para Geralt de Rívia.

— E você não pensou em mencionar isso antes? — Dudu se aproximou, o olhando de cima. Era claro que os seus homens iriam querer acobertar os erros cometidos, mas, ainda assim, ele ainda não conseguia acreditar em tamanha burrice e falta de preparo.

— Isto me cheira a armadilha, Geralt — Zoltan soou sério, quando notou que o meio elfo havia capturado a atenção do bruxo novamente.

— Eu também acho — Grutus ainda teve o disparate de concordar. Os olhares de todos caíram sobre ele, e rapidamente se encolheu, fugindo da espada para se encolher em um canto. — Não uma armadilha nossa! O plano sempre foi manter o Lobo Branco fora disso.

Geralt fechou os olhos por um momento. A situação só piorava enquanto tudo o que ele queria era poder fazer o que deveria desde o início: manter Jaskier sempre ao seu lado e protegê-lo.

Ele respirou fundo, conseguindo trazer um pouco da calmaria de volta e devagar se agachou ao lado de Grutus.

— Quem é o homem, e o que ele disse?

A voz naturalmente grossa de Geralt fez o meio elfo estremecer.

— Homem? É a porra de um mutante! — Ele cuspiu as palavras, percebendo o que dizia e para quem um pouco tarde. Ele rapidamente limpou a garganta e desviou o olhar. — É um bruxo, da escola do gato. Ele mandou que dissesse que cuidará do bardo para você, e que se o quiser inteiro, é para ir buscá-lo sozinho.

O bruxo se manteve parado, olhando diretamente nos olhos do meio elfo. Não houve reação externa, mas o estômago de Geralt se agitou com a frieza que aos poucos subiu até o seu peito. Ele se levantou devagar, lançou um olhar para Dudu, que o entendeu rapidamente e apenas assentiu. Ele iria cuidar daqueles subordinados estúpidos, enquanto o bruxo da escola do lobo partiria finalmente.

Os passos de Geralt foram rápidos e silenciosos, mas facilmente seguidos pelos amigos, que apesar de acostumados com os picos de quietude quando estavam em sua companhia, se preocuparam com a falta de palavras.

— Geralt? — Ciri o chamou apressada; ao vê-lo decidido a não parar, o segurou pelo braço.

— Eu vou sozinho — ele avisou com seriedade, sem olhá-la diretamente.

— Está maluco? — Zoltan os alcançou a tempo de ouvi-lo, e rapidamente expos seus pensamentos. — Precisamos de um plano!

— Com certeza é uma armadilha.

Ciri o soltou e finalmente todos se encararam. O rosto de Geralt parecia neutro como sempre.

— Eu sei.

— Você não está pensando direito — Ciri balançou a cabeça. Havia preocupação nos olhos claros, mas também nervosismo que foi apaziguado quando por um breve momento vira o rosto do bruxo se mover em agonia.

— Eu já pensei demais e por isso estou a um passo de perdê-lo — as palavras eram calmas, mas o olhar denunciava os sentimentos que Geralt treinou tantos anos para esconder. — Foda-se que é uma armadilha, eu vou agora.

— Nós vamos juntos — apesar de surpresa, Ciri não cedeu. — Jaskier é meu amigo e não vou deixá-lo para trás.

— Faço das palavras dela as minhas — Zoltan se aproximou um pouco mais. Os braços cruzaram sobre o peito, e o anão cuidou para não deixar a curiosidade escapar por seus lábios. Não havia sido explícito, mas para ele, fora uma pista e tanto para os verdadeiros sentimentos do bruxo sobre o bardo. — Se quer entrar no local sozinho, tudo bem. É bom seguir as exigências dele para sondar o terreno. Ciri e eu podemos ficar de olho do lado de fora, caso haja mais homens — o anão olhou para ela e ambos assentiram antes de voltar para Geralt. — Você dá conta de um gato, não?

O bruxo quase juntou as sobrancelhas com a pergunta, porém, antes de mover qualquer parte do rosto, ele foi interrompido. Uma nova presença o fez olhar para trás, e o rosto normalmente neutro recebeu uma bela mulher de cabelos escuros amarrados em uma trança. O longo vestido era discreto, mas aparentava ser de um valor alto, assim como as poucas joias que usava.

— Geralt de Rívia? — Ela perguntou esperançosa, não escondendo a agitação quando o bruxo assentiu. — Por favor, senhor, me conceda um momento. Meu marido está desaparecido e temo que seja por seu amigo, o bardo Jaskier.

Ela se aproximou do bruxo, mostrando desespero, alertando os três ao ouvirem o nome do trovador.

— Quem é o seu marido? — Geralt perguntou calmamente, enquanto por dentro havia urgência que mal podia conter.

— Alois Bogdan. Ele é o advogado do Mestre Jaskier — ela agitou os três amigos do bardo ainda mais. As palavras de Grutus voltaram para a mente do bruxo, e o tal advogado sendo mantido junto de Jaskier finalmente foi notado. — Dizem que você é um bom rastreador. Eu pago o quanto quiser. Ache o meu marido, por favor. Tenho certeza de que o Mestre Jaskier o apoiará nisso — a mulher pegou uma pequena bolsa e estendeu na direção de Geralt. — Tome, leve.

Por um momento, nenhum deles a respondeu. O bruxo de Rívia tentou organizar palavras para contar a ela que sabiam onde seu esposo estava, e as condições não pareciam nada boas. Os olhos acinzentados fixos nos de Geralt trouxeram um sentimento esquisito, do qual ele não conseguiu lidar de imediato, e só conseguiu desviar o olhar quando Ciri tomou a atenção da esposa do advogado.

— Nós vamos achá-lo — Ciri tocou o ombro da mulher. — Aguarde em casa e em breve traremos notícias.

A mulher abriu a boca, mas logo a fechou. As milhares de perguntas que tinha não foram feitas por conta do nervosismo e um novo sentimento que surgiu com o olhar cheio de segurança de Ciri, e no fim o que fez foi assentir rapidamente.

— Obrigada, obrigada! — Ela se curvou e se virou para o bruxo mais uma vez.

As mãos trêmulas da esposa do advogado colocaram a bolsa de moedas nas de Geralt, que apenas naquele instante em que as pele se tocaram notou que as dele estavam de forma parecida. Ele levantou o olhar da pequena bolsa e viu as costas dela se afastando devagar, enquanto vez ou outra olhava para trás com aflição e uma esperança forçada. O peito do bruxo doeu com a visão que tinha, pois, apesar de ter certeza de que Zoltan e Ciri estavam extremamente preocupados, apenas nos olhos aflitos daquela mulher ele sentiu que havia alguém que realmente o entendia.

Notas finais
E não é que eu não demorei mesmo? Acho que foi o menor tempo que já levei pra postar um capítulo novo oaisdhoaishioa Enfim, bora buscar o bardo!