Pelo Olhar de Chrissie
80 Um forte laço
Um pouco mais tarde, eu e Louisa recebemos alta do hospital e finalmente podemos voltar pra casa. É claro que ao descer do carro e entrar com minha filhinha me lembrou quando Jimmy nasceu. Toda aquela sensação de alegria e responsabilidade vindo à tona de novo. No entanto, por mais que criar duas crianças fosse um pouco mais desafiador, eu estava muito mais tranquila agora quanto a isso.
—Eu vou buscar o Jimmy... — Brian me avisou, me trazendo de volta ao presente — vocês vão ficar bem sozinhas?
—Claro, claro, estou morrendo de saudade dele — sorri, pensando em como Jimmy reagiria à irmãzinha.
Brian me beijou se despedindo, e também deu um beijo na testa de Louisa, o que a fez olhar curiosa para ele. Assim que ele saiu, ela começou a chorar.
—Ei, ei... — a balancei para acalmá-la — papai já vem, eu prometo, você vai conhecer seu irmão, é, é sim...
Louisa parou de chorar por um instante, mas logo começou de novo. É, seria como nos velhos tempos de quando Jimmy era um bebê. Comecei a andar com ela pela casa, ainda a balançando, começando a cantar o refrão de " '39" baixinho. Mas ela continuava chorando.
—Como assim você não gosta de " '39?" — perguntei a ela, o que a fez me encarar por um momento.
Então imaginei que fosse outra coisa, e estava certa, troquei a primeira fralda de Louisa enquanto o pai e o irmão dela chegavam em casa, lá de cima os ouvi entrar.
—Meu amor? Chrissie? — Brian procurou por mim.
—Mãe! — Jimmy foi mais rápido — você tá bem? Doeu ficar no hospital? Cadê minha irmã?
—Calma Jimmy, calma — eu ri da empolgação dele — ela está bem aqui. Você tem que ficar bem quietinho, tá bem? Ela pode se assustar com um barulho muito alto.
—Ok mamãe — meu menino abaixou a voz ao me responder.
Eu tirei Louisa do berço, devagarzinho, por mais que ela ainda estivesse acordada. Eu me sentei na cadeira de balanço e Jimmy veio do meu lado, observando a irmãzinha.
—Ela é... fofinha! — decidiu meu filho — eu queria pegar ela mamãe, eu posso?
—Só se tiver muito, muito cuidado, ela é pequenininha e frágil, não pode se mexer demais com ela no seu colo, entendeu? — instruí, séria.
—Aham — Jimmy assentiu, igualmente sério.
Me levantei devagar, meu filho entendeu que tinha que sentar para pegar a irmã. Ele ajeitou a postura e estendeu as mãos. Tive que rir da fofura dele.
—Faz assim, Jimmy — Brian mostrou a ele em que posição tinha que deixar seus braços, e nosso menino imitou o pai.
Me inclinei devagar, e coloquei Louisa nos braços do irmão. Ela sorriu imediatamente.
—Eu queria falar uma coisa pra ela, mas não sei se ela entende — ponderou meu pequeno.
—É claro que entende — Brian respondeu no seu melhor tom de professor — ela só não sabe como responder ainda.
—Ah... — entendeu Jimmy — então, oi Louisa, eu sou o Jimmy, na verdade me chamo James. mas todo mundo me chama de Jimmy, inclusive os tios. Você já conheceu os tios? Eles são legais, cada um do seu jeito, o tio John e o tio Freddie são mais quietos, mas o tio Roger é o mais bagunceiro. Faz mais bagunça que a gente... A gente é eu, o Bobby, o Felix, o Mike e a Rory...
Notei que Jimmy continuaria falando sem parar, muito atípico pra nossa família, que tinha fama de ser quieta e tímida, mas pelo menos Louisa estava atenta a cada palavra, completamente fascinada. Era lindo ver o instinto de Jimmy como irmão mais velho, apresentando o mundo à irmãzinha, a preparando pra o que ela iria conhecer, a instruindo sobre coisas boas e ruins para protegê-la.
Fiquei tão encantada os observando, meus filhinhos, que sempre sonhei em ter, que nem notei Brian sair e voltar. De novo, ele tinha capturado o momento sem que eu tivesse notado.
—Olha Louisa — Jimmy disse — isso na mão do papai é uma câmera, ele ama tirar foto de tudo, mas principalmente da gente...
—Em falar em foto, lembra da foto que eu queria tirar, Bri? — falei pra ele — agora seria um bom momento pra isso, não?
—Está certa como sempre, sra. May — ele assentiu e então Jimmy entregou a irmã ao pai deles, com um pouquinho de tristeza.
—Calma, carinha, eu sei o quanto é legal pegar sua irmã no colo, mas já devolvo ela pra você — brincou Brian.
Jimmy sorriu, entendendo, e veio ficar do meu lado. Eu então tirei a foto, Brian e Louisa estavam na mesma posição que eu os vi no hospital. Ela acabou dormindo nos braços dele, e então nossa filha ficou assim até o resto do dia.
Ao contrário de Jimmy, Louisa era uma bebê agitada, que trocava o dia pela noite, que quase não dormia quando papai e mamãe precisavam descansar, mas mesmo assim, não me importava com esse trabalho todo. O melhor de tudo era que Jimmy não costumava acordar com o choro da irmã, pelo menos, na maioria das vezes.
Para fazê-la voltar a dormir, eu tentava cantar " '39", mas parecia que essa música só funcionava com Jimmy, então tentei outra, me lembrando de quando nós três cantamos pra ela antes de ela nascer. A melodia suave de "Doing All Right" era o que acalmava Louisa. Era curioso como meus dois filhos amavam as músicas do seu pai, mas canções diferentes.
Depois de uma semana com Louisa em casa, e já acostumada à rotina dela e de cuidar de duas crianças, recebemos uma visita inusitada.
Era um sábado à tarde, eu estava lendo "A Viagem do Peregrino da Alvorada" na sala, Louisa estava na cadeira perto de mim, Jimmy contava histórias pra ela, Brian aproveitava para se atualizar nos últimos assuntos ligados a astronomia, quando aquela cena tão familiar foi interrompida por alguém que eu não esperava.
—Eu atendo — Brian se ofereceu depois de ouvirmos a campainha.
Me levantei ao ver que alguém entrava em casa com meu marido. Como fiquei feliz ao ver que era Freddie.
—Oi! — dei um sorriso largo e o abracei sem cerimônia, senti ele ficar um pouco constrangido por isso — você deu uma sumida, como é que você está?
—Eu vou bem, sra. May — ele respondeu com um sorriso acanhado — e não ando sumido, nos vemos todo dia.
—Nos ver no trabalho não conta — rebati — senti sua falta por esses dias, de verdade.
—É por isso que estou aqui — ele apontou para o pacote que trouxe — minha consciência pesou por não ter ido ver a Louisa no hospital.
—Sua consciência pesou? Que milagre! — Brian estava impressionado.
—Quer ver ela? Vem! — chamei ele, animada.
—Abre o presente primeiro — Freddie despistou.
—Ok... — concordei, abrindo o embrulho — é pra mim ou pra Lou?
—Pra Louisa, a não ser que você goste de bichinhos de pelúcia também — Freddie deu um sorriso genuíno.
—Você sabe que eu gosto — respondi e então admirei o presente em minhas mãos — que linda, Freddie!
O presente dele era uma baleia de pelúcia, era cinza claro com enormes olhos verdes, um de cada lado do bichinho.
—Eu queria um texugo ou um ouriço, sei que são os preferidos do Bri, mas só tinha baleias — ele deu de ombros.
—Tudo bem, agora o tio Freddie pode dar pessoalmente o presente pra sua nova sobrinha — sugeri, querendo que ele interagisse com as crianças.
—Não tem mesmo como eu fugir? — ele disse em tom de brincadeira a Brian.
—Você que fez o favor de vir até aqui, agora arque com as consequências — Brian pôs as mãos nos ombros do amigo — relaxa Freddie, bebês não mordem.
Freddie deu um risinho irônico, mas foi até a sala. Com muita insistência, aceitou pegar Louisa no colo. Aos poucos, ele relaxou, ela ficou quietinha, olhando enquanto tio Freddie e papai conversavam. Sem querer a conversa caiu no assunto de John e Brian.
—Nós fizemos as pazes, Freddie, de verdade — contou meu marido — eu percebi que tinha que tinha que abrir mão, mesmo não gostando de disco, e também ver que eu posso mesmo fazer outras coisas na banda, além de só tocar guitarra.
—É claro, você não é só o guitarrista, é nosso amigo, o mais sensato, racional e compreensivo de todos, a voz da razão — Freddie elogiou com toda eloquência — e te entendo, todos nós temos dias ruins.
—Pois é — Brian deu um pequeno sorriso — valeu, Freddie.
—Não tem de que, irmão — Freddie disse com toda convicção do coração.
Era uma verdade universal, que às vezes as brigas e desentendimentos nos faziam esquecer, John, Roger, Brian e Freddie eram irmãos, e nada poderia mudar isso.
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