Pelo Olhar de Chrissie

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Depois de sair do trabalho numa quinta feira no fim da tarde, fui dirigindo tranquila, mas com certa ansiedade até o escritório de Richard Branson. Estacionei, desci e caminhei até lá, tentando parecer o mais descontraída e amigável possível. Amigável? Até conseguia ser, Bri e meus amigos diriam que sim. Descontraída? Eu nunca conseguia ficar descontraída fora de um ambiente familiar, mesmo que eu já tivesse vindo ali. O problema era o que eu tinha vindo fazer ali, isso é que me deixava nervosa. Apenas coloquei minha melhor cara de "Sra. May, esposa do guitarrista do Queen", entrei na recepção e encontrei justamente quem queria ver.

—Chrissie, oi! — Dominique me cumprimentou, tirando o ar sério do trabalho por um breve momento — está tudo bem com você? Trouxe alguma queixa do Queen pro sr. Branson?

—Hã... Não? — me assustei, já me preparando pro pior, achando que os meninos tinham aprontado alguma coisa grave outra vez.

—Eu estou brincando, desculpa te assustar — ela esclareceu ao ver meu estado e sorriu.

—Bom, nesse caso eu vou bem, todos nós estamos — eu me enrolei um pouco — na verdade, vim falar com você.

—Comigo? Isso é raro — ela voltou sua atenção pra mim, curiosa.

—Eu vim te convidar pra tipo uma reunião na minha casa, sabe? — fui relaxando conforme explicava — nós temos essa tradição de assistirmos filme sempre que os meninos tem um tempo, e se o Queen não te traumatizou demais, seria legal se você viesse.

—Nossa, eu... Nem sei o que dizer, obrigada pelo convite — Dominique hesitou, mas agradeceu com educação, sincera — faz tempo que ninguém me convida pra alguma coisa assim...

"Não é verdade, e o convite do Roger?" pensei, mas depois entendi o que ela quis dizer, prestando mais atenção, percebi que ela se sentia sozinha. E tecnicamente eu a estava convidando para uma reunião entre amigos, enquanto Roger a convidou para um encontro, o que eram duas coisas diferentes.

—Será um prazer ir — ela resolveu enfim — e não se preocupe, tirando o jeito que eu e o Roger começamos com o pé esquerdo, os rapazes do Queen são perfeitos cavalheiros.

—Com algumas exceções — respondi num tom brincalhão — olha, pra eu não te atrapalhar mais, me passa seu número de contato e te ligo pra explicar onde eu moro.

—Ah sim, tudo bem — Dominique pegou uma folha de um bloquinho que estava sobre a mesa e anotou, entregando pra mim logo em seguida — me liga durante a noite, é quando estou em casa.

—Pode deixar — sorri pra ela — e obrigada por aceitar o convite Domi.

—Não tem de quê — ela devolveu — tchau, Chrissie!

—Tchau! — acenei e fui saindo, voltando para casa.

Naquela mesma noite, antes de ligar para Dominique, eu e Brian recebemos o pessoal em casa. Enquanto Mary e Freddie estavam tranquilos, discutindo sobre um detalhe ou outro do seu casamento (na maioria das vezes era ela tentando barrar as ideias mais extravagantes dele), John e Veronica estavam um tanto tensos, o que era muito fora do normal para eles. Eles eram sempre tranquilos, mas a mesma coisa estava os preocupando, tinha quase certeza. Eu ofereci um chá de camomila ao baixista e sua amada, na tentativa de acalmá-los, já que não me achava no direito de perguntar diretamente a eles se eles estavam bem. Tava na cara que eles não estavam bem, mas se eles não queriam contar, respeitaria isso. Veronica e John agradeceram o chá e foram tomando aos pouquinhos, ainda preocupados.

Eu cutuquei Brian ao voltar pra sala e sentar ao lado dele, tentei fazer um gesto que não chamasse a atenção de todo mundo, pra ele me seguir. Meu marido veio atrás de mim de imediato, entendendo o que quis dizer.

—O que foi com o John? — eu perguntei a Bri quando estavámos na cozinha — ele falou alguma coisa no ensaio? É alguma coisa com a Veronica? Porque nenhum dos dois tá bem. Desculpa eu ser curiosa, é que eu me preocupo com eles...

—Não, eu sei que tá preocupada — Brian me entendeu — a gente também tá, ele tá assim, mais quieto que o normal já faz um bom tempo, mas uma hora ele conta, é só não pressionar.

—Eles sabem que podem contar com a gente, não é? — ainda assim duvidava se alguma hora eles contariam o que estava os incomodando.

—Claro que sabem — Brian me abraçou de lado, deitando minha cabeça em seu peito — se é algo entre eles, eles vão se entender.

—Tá bem — suspirei e aceitei não interferir, e nesse meio tempo, me lembrei de outro problema, envolvendo outro (suposto) casal — eu tenho que ligar pra Dominique.

—A assistente do Richard Branson? — Brian estranhou — ah sim, você prometeu ao Rog que ia convidá-la pra passar uma noite aqui com a gente, verdade, mas acha que ela e o Roger... sei lá, o baixinho tem alguma chance concreta?

—Não sei, Bri — eu balancei a cabeça — acho que agora está nas mãos dela.

Eu beijei a bochecha de Brian antes de me separar dele e fui até o telefone, que ficava no corredor que separava a sala de estar da sala de jantar.

—Alô? Dominique? É a Chrissie — sorri pela ligação ter dado certo — então posso te passar meu endereço agora?

Ela confirmou e fui ditando conforme ela anotava.

—Nos encontramos na semana que vem então? — esperei a resposta de Domi.

—Sim, sim, eu vou — ela confirmou — olha, o Roger vai estar aí também?

—Vai — a curiosidade dela pelo baterista me deixou de orelha em pé — por que, se me permite perguntar?

—É que... — senti a hesitação e constrangimento de Dominique, ela suspirou num sorriso de nervoso — não sei nem se devia estar te contando, mas é que... eu acho ele um cara legal, de verdade, o que você e as meninas falaram sobre ele, quer dizer as coisas boas, eu percebi que ele realmente é assim. E também tem... o jeito que ele me olhou depois que eu fiz aquelas brincadeiras, eu achei que ele ia querer me matar, mas ele riu! Ninguém nunca reagiu assim às minhas pegadinhas, e depois disso, o jeito com que ele se prestou a pedir desculpas e recomeçar, ele se preocupou com os meus sentimentos, e quando eu falo com ele... ele me olha como se eu fosse a única garota do mundo. E olha, eu sei que é verdadeiro, sei diferenciar conquistadores de apaixonados. Talvez ele é um conquistador, mas ele tá agindo diferente comigo... Ah... não sei Chrissie... talvez eu gosto dele também.

Eu ouvi toda aquela confissão com o coração acelerado e esboçando um sorriso diante de toda aquela declaração, feliz por Roger. Até o dito cujo aparecer bem na minha frente, fazendo caretas, curioso pra saber a o que exatamente eu estava reagindo.

—Então talvez você... — tentei disfarçar pra que ele não adivinhasse do que se tratava a conversa — possa vir aqui e conversar com ele.

—Eu vou tentar — respondeu Dominique — obrigada por me ouvir Chrissie.

—Imagina, estamos aí pra isso — sorri — tchau!

Me virei pra Roger depois de colocar o telefone de volta no gancho e colocar as mãos na cintura.

—Você veio ouvir porque ouviu eu falando Dominique, né? — arqueei as sobrancelhas pra ele.

—Era ela? Eu sabia — sua raiva foi trocada por insegurança rapidamente — ela falou de mim? Ela perguntou de mim? Ela vai vir aqui?!

—Eita! — soltei, com as mãos pra cima — calma aí Taylor. Sim, era ela, ela perguntou se você ia estar aqui no dia que ela vai vir, eu disse que sim, e ela falou que vem.

—Mais alguma coisa? — ele implorou com os olhos de cachorrinho.

—Rog, fica calmo que vai dar tudo certo — eu bati no ombro dele de leve.

—Como você pode ter tanta certeza? — Roger ainda duvidava.

—Eu apenas sei! — sorri, e fiz minha melhor cara de esperta.

Por todo coração partido que Roger tinha deixado por aí, o dele, sofrendo por amor verdadeiro, podia esperar mais um pouquinho pra ser recompensado.