Assim que escureceu, nos preparamos pra ir embora e, depois de um dia tão agitado, logo as crianças pegaram no sono, aproveitando o balanço que o carro fazia durante o caminho. Brian estava atento à sua frente, mas ainda assim, estava concentrado em outra coisa, provavelmente a música que tinha escrito enquanto estávamos na praia. Foi então que ele começou a cantarolar um ritmo baixinho, provavelmente a melodia da sua música nova. Minha memória me fez reconhecê-la.

—Você terminou aquela música que não conseguia terminar? — deduzi, depois de me lembrar dele cantarolando aquela mesma melodia em casa.

—É, você prestou atenção... — Brian soou admirado — só preciso completar tudo pra ela estar definitivamente pronta. Acho que só vou poder fazer isso em Londres, o resto da letra está no meu caderno.

—Entendi — assenti devagar, olhando pra ele com atenção — é muito bom te ver compondo de novo...

Meu marido sorriu e segurou minha mão um pouco, sua forma de me agradecer sem palavras.

Ficamos mais um tempo em Hampton, até retornarmos pra casa, faltando uma semana pra que Jimmy voltasse às aulas. Nessa semana, fomos os quatro juntos até Hyde Park, vermos as estrelas juntos, e, numa tarde calma, Brian finalizou sua canção.

"All Sense" era sobre ele mesmo, não tinha dúvidas disso, era sobre a sensação de estar perdido que a falta do Queen causava em Brian, mas antes que a canção se encerrasse, meu marido adicionou um pouco de esperança, afirmando que eu, Jimmy e Louisa, éramos o que fazia sua vida ter sentido.

—É linda... — murmurei emocionada, depois que ele me mostrou a música.

Queria perguntar se ele a colocaria no próximo álbum da banda, mas não tinha coragem pra isso. Apesar de estarmos mais tranquilos agora, ainda temíamos sobre o que aconteceria com o Queen.

—Sabe, música é um jeito de... pôr os sentimentos pra fora... quando não consegue falar... — ele deu de ombros, soando pensativo.

—Eu sei — apenas concordei, e automaticamente o abracei, sabendo o quanto ele precisava.

Brian tirou o violão do espaço entre nós e me abraçou melhor, me segurando por um tempo. Não o ouvi chorar, nem havia sinal de choro quando o olhei de volta, realmente, de um jeito irônico, música o ajudou a lidar com a falta do Queen.

Brian sentia a falta da banda e de Freddie, eu sabia que ele estava mais que disposto a voltar a trabalhar com os meninos, mas lidar com Freddie era outro dilema a ser enfrentado. Ainda havia mágoa e ressentimento da parte de Bri, e John e Roger sentiam o mesmo.

Estando de volta em casa, voltamos à nossa rotina, tentando manter a esperança de que tudo ficaria bem, independente das coisas ficarem diferentes de como estávamos acostumados. Porém, uma reviravolta que veio bem a calhar surgiu.

Eu e Jimmy tínhamos chegado depois de eu ter buscado ele da escola, Brian ficou com Louisa em casa aquele dia. Encontrei ele completamente perplexo, num misto de raiva e euforia, ambos sentimentos contidos, mas seu olhar estava inquieto.

—O que aconteceu? — fui direta, já que estava claro que algo grave tinha acontecido.

Brian suspirou antes de me contar, saindo daquele estado quase em transe.

—O Jim ligou — ele começou, simples, tentando manter a calma — tem um evento que Bob Geldof está organizando, chamam de Live Aid, basicamente é uma série de shows com vários artistas pra arrecadar doações pra ajudar os necessitados na África.

—Parece muito grande e importante — disse minhas impressões, depois que Brian fez outra pausa.

—Sim, eu também achei — ele prosseguiu — o que aconteceu é que querem que o Queen participe.

—Oh... — foi tudo que pude dizer diante das possibilidades presentes, não havia Queen sem Freddie, nem Freddie poderia ser o Queen sozinho, a banda sempre foi seus quatro integrantes.

Enquanto eu pensava tudo isso, Brian deu outro suspiro.

—Chrissie, o Freddie voltou... — ele me contou com um certo pesar, tentando ficar totalmente feliz por isso, mas ainda não conseguia.

Instintivamente, coloquei uma mão em seu ombro, e não demorou muito pra que eu pensasse num conselho necessário para aquele momento.

—Vão ter que resolver isso, por mais ruim que seja, e por mais que percam a paciência — encorajei — mas ele ainda é seu amigo, seu irmão...

—O irmão que nos abandonou — Brian balançou a cabeça — olha, o Jim disse que Freddie quer ver a gente e conversar, marcaram um horário pra amanhã.

Não precisou meu marido dizer mais nada, era só olhar pra ele e percebia que por trás de toda mágoa, ainda havia a vontade de rever o amigo.

—Vai ficar tudo bem, Bri — era tudo que eu podia desejar, e ele apenas assentiu como resposta.

Era impossível não criar expectativas quanto o que aconteceria, ainda havia a possibilidade de eles decidirem não participar do Live Aid, mas eu via isso tudo primeiramente como uma chance de reconciliar a banda e restaurar a amizade de Roger, John, Freddie e Brian. E, me apegando ainda mais à esperança, poderia ser o retorno definitivo do Queen.

É claro que as crianças notaram a preocupação de Brian e, como eu, também ficaram aflitos, mas logo ele tentou despistar e os tranquilizar.

—Não fiquem assim, meus amores — ele disse olhando diretamente pra Jimmy e Louisa — é só uma coisa de adulto.

—Parece que tudo que é coisa de adulto deixa os adultos tristes — Jimmy comentou.

—Não, nem tudo, filho — Brian sentiu a necessidade de melhorar esse pensamento — tem coisas boas em ser adulto, são só algumas coisas que parecem ficar mais difíceis, e às vezes, achamos que não conseguimos resolvê-las.

—Então, está triste porque é isso que está pensando? — entendeu nosso filho.

—É, pois é, Jimmy — Brian deu um sorriso tristonho — só podemos esperar pra ver como tudo vai ficar no fim das contas.

Jimmy apenas assentiu, entendendo que era melhor não fazer mais perguntas. Então, fomos dormir, sem as expectativas sobre o resultado da reunião diminuírem.

No dia seguinte, perto da hora da reunião, Brian se arrumou e antes que saísse, o beijei.

—Boa sorte... — me despedi, baixinho.

Ele apenas sorriu, com certeza se lembrando de todas as vezes que eu tinha feito isso.

Então ele foi até o escritório de Jim Beach e as horas que ele ficou fora foram agonizantes pra mim. Seria decidido acabarem de vez com o Queen? Seria o Live Aid sua apresentação de despedida? Será que os meninos conseguiriam perdoar Freddie? O Queen voltaria a ser como era antes?

Tudo isso ficou rondando minha cabeça e só Louisa me chamando pra assistir Doctor Who com ela conseguiu me distrair por um tempo. Quando Brian chegou, corri até ele feito uma desesperada, ansiosa por notícias.

—E então? — despejei.

—Estamos de volta, Chrissie — meu marido me contou, emocionado.

Eu pulei para os seus braços abertos, e ele me girou, tão animado quanto eu.

—Que tá acontecendo? — Louisa veio perguntar, confusa — vai deixar a mamãe tonta, papai.

Brian riu e me pôs de volta no chão.

—Papai e os tios vão tocar juntos de novo, meu amor — eu expliquei a ela, e Lou deu um sorriso enorme também.

Nós, como fãs do Queen e parte da família que eles eram, ficamos mais que felizes com a notícia. Era simplesmente maravilhoso.