Pelo Olhar de Chrissie
46 O estouro
Eu tinha acabado de chegar do trabalho, deitando no sofá da sala para tentar recuperar as energias quando ouvi Brian abrindo a porta com certa raiva. Me sentei devagar, já me preparando pro pior.
—Está vindo de onde, Bri? — eu olhei pra ele, confirmando minha suspeita de ele estar bravo e tentei deduzir o motivo — e o que foi que aconteceu?
—O Ray Foster disse que não vai lançar "Bohemian Rhapsody" como single! — ele pôs uma mão na testa e suspirou — todo mundo decidiu que queria Bo Rhap, mas ele preferiu "I'm in love with my car"!
—Ah não, agora entendo porque você tá irritado, e com razão! — me agitei um pouco diante do que Brian contou.
—Mas não foi só isso que aconteceu — Bri se acalmou um pouco — cancelamos o contrato e... Freddie quebrou a janela do escritório do Foster jogando um tijolo!
—O que? — não sei se ria ou ficava preocupada — e como é que ficam as coisas agora?
—John e Jim decidiram que nós mesmos vamos lançar o álbum por conta própria — ele não parecia tão seguro da decisão — vamos ver o que acontece.
—Só nos resta ter esperança — tentei manter o otimismo.
Freddie conseguiu que Kenny Everett divulgasse "Bohemian Rhapsody" no rádio, tocando-a quase que ininterruptamente durante vários dias. A crítica massacrou a canção, mas o público tinha uma opinião bem oposta. Bo Rhap se tornou uma das músicas mais ouvidas do país durante semanas.
Isso tinha acontecido com "Killer Queen", mas com "Bohemian Rhapsody" era diferente, quem gostava dela era por ter sentido o mesmo que eu quando a ouvi pela primeira vez. E onde se fosse, se tivesse alguém comentando sobre música, Bo Rhap estava no meio do assunto. Escutava-se entre eles o cantarolar de "Mama, oo oo ooh", " Galileo! Galileo! Galileo, Figaro, Magnifico..." e "Nothing really matters to me...". Vendo toda essa repercussão, percebi que as pessoas não associavam a canção diretamente a Brian, John e Roger, mas ao Queen e a Freddie.
Isso até eu ver alguns alunos na escola analisando "Bohemian Rhapsody" e porque ela era tão boa. Escutei uma aluna defendendo os solos de guitarra com todas as forças, de como eles eram importantes, o que me fez sorrir de orgulho por Brian. Isso até ela começar a descrever meu marido, seu nome completo, sua idade, como tinha criado a Red Special, e ver o quanto ela sabia me assustou um pouco. Mas esse susto não se comparava com situações que ainda estavam por vir.
Era um sábado de manhã quando eu e Brian fazíamos as compras do mês no mercado do bairro, ninguém nunca o reconheceu ali como o guitarrista do Queen, apenas o sr. May, ou Bri, famoso ali apenas pela cabeleira cacheada. Estávamos no corredor decidindo o que levar quando ouvi um burburinho do outro lado.
—É ele, é ele sim! Tenho certeza... — ouvi alguém dizer com entusiasmo.
—Não, não pode ser... — respondeu outra voz e vi uma movimentação ao nosso redor — ai meu Deus! É ele mesmo!
E depois disso dois rapazes vieram ao encontro do meu marido, empolgados, mas se segurando para não serem invasivos.
—Desculpa, mas você é o Brian May, não é? — um deles perguntou enquanto eu me afastava um pouco.
—Sou eu — Brian tentou conter o constrangimento e apenas sorriu de forma simpática.
—Por favor, pode nos dar um autógrafo? — pediram e logo atiraram um pedaço de papel e uma caneta no rosto do meu marido.
Ele deu outro sorriso sem graça e assinou, enquanto os rapazes enchiam ele e o Queen de elogios.
—Valeu, valeu mesmo! — disseram eles e tão logo como surgiram, saíram.
—Isso foi... — murmurou Brian e vi que ele estava me procurando.
Estava meio que escondida atrás de uma prateleira.
—É... — mordi o lábio sem saber o que dizer.
—Hã... Inacreditável? — sugeriu ele — você tá bem, Chrissie?
—Estou — assenti várias vezes — só não sabia direito o que fazer, mas eles foram educados e respeitosos, isso é bom...
—É... — Brian tentou não se incomodar com o que tinha acontecido e voltou às compras.
Tentei seguir seu exemplo. Nas semanas seguintes, A Night at the Opera continuou ganhando destaque na televisão e nas revistas também, o que fez com que os meninos fizessem incontáveis sessões de fotos e entrevistas. Acompanhar tudo isso me deixou cansada e preocupada.
Era de praxe nós recebermos revistas e jornais que faziam matérias sobre o Queen, e é claro que eu lia tudo, embora soubesse que muito do que a mídia percebia sobre eles era o que deduziam do que os meninos deixavam transparecer.
Foi então que me deparei com uma matéria que acabou comigo.
Tinha o título de "Garotas sortudas: veja no lugar de quem você queria estar!." Só por esse título sabia que não deveria levar a sério, mas conforme fui lendo, fui ficando revoltada e de coração partido.
O escritor contava ao leitor sobre mim, Mary, Dominique e Veronica. Não havia muita informação pessoal sobre nós, ainda bem, mas tinhas umas descrições bem infelizes e injustas. Mary era descrita como "uma princesa, com seu perfeito cabelo loiro, olhos azuis, silhueta magra, e pele pálida, que combinava com o líder do Queen, mas sabia onde era o seu lugar e não chegava a ofuscá—lo." Veronica era "simples e discreta, assim como o baixista da banda, que podia muito bem ser substituído por alguém mais falante". Dominique era " a beldade que tinha conseguido conquistar Roger Taylor no momento, tão bela quanto ele, mas ninguém sabia até quando esse romance iria durar." E eu... Bom, eu "era muito sem graça e mais parecia um bichinho assustado perto do descolado Brian May, sem ter nada a ver com ele".
Sem perceber, comecei a chorar. Fechei a revista com raiva, chegando a jogá-la contra a parede. Não queria que Brian me visse assim e nem porque eu estava daquele jeito. Dei um suspiro fundo, lavei meu rosto, e sentindo a temperatura fria da minha aliança sobre a bochecha, lembrei que não importava o que os outros pensavam, Brian me amava, exatamente como eu era. Lembrar do discurso dele no nosso casamento me acalmou um pouco.
O Queen continuou ocupado com os shows de lançamento de A Night at the Opera, e eu notei que eles estavam muito mais lotados do que costumavam estar há 3, 4 anos atrás. Chegar no local do show era a parte fácil, já que os meninos iam muito mais cedo para acertar todos os detalhes, mas ir embora, tinha se tornado uma verdadeira maratona com obstáculos. Os fãs se espremiam e se atropelavam na chance de conseguir falar com Freddie ou conseguir um autógrafo de um dos quatros. Foi num tumulto desses que levei um susto.
Eu estava saindo com Brian de mãos dadas, passando pela multidão de fãs contidos por barreiras, mas de algum modo, uma fã chegou perto demais, e, na tentativa de chegar perto do guitarrista do Queen, me empurrou. Eu tropecei, mas não cheguei a cair porque Brian ainda segurava a minha mão. Não sei como, porque tudo aconteceu muito rápido, mas percebi que a mesma fã agarrou o ombro do meu marido e fez um rasgo na sua jaqueta.
Brian me puxou com cuidado pra mais perto dele, me abraçando, nós dois estávamos com medo.
—Você tá bem? — perguntou ele, baixinho.
Só consegui assentir, e o abracei com mais força ainda. Ao chegarmos em casa, notei que tinha um arranhão feio no ombro de Brian.
—Aquela fã conseguiu fazer isso? — perguntei, assustada.
—Pelo jeito sim — ele gemeu de dor — está ardendo um pouco.
—Espera, eu faço um curativo — me ofereci, preocupada.
Limpei a ferida com cuidado e passei um bálsamo, tanto eu quanto ele em silêncio, assustados demais com o que tinha acontecido, que nem sabíamos que palavras usar para descrever o que estávamos sentindo.
Eu estava feliz pelos meninos, por sua música tão criticada por alguns, ser tão amada por outros, mas ainda assim, todas aquelas situações ruins que aconteciam por causa da fama do Queen, causaram um mal estar terrível em mim.
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