Pelo Olhar de Chrissie
41 O casamento dos Deacon
Sabendo da urgência que Veronica e John tinham em se casar, nós agilizamos tudo conforme podíamos, organizamos documentos, os convites para os convidados, a cerimônia na igreja, os trajes de todo mundo, e finalmente a festa na casa de Jim Beach. Não foi fácil, mas como todo mundo estava empenhado, conseguimos. Passamos o Natal, o Ano Novo e finalmente chegou o dia do casamento, em janeiro de 1975.
Eu e as meninas nos encontramos em casa para aprontar a noiva. Veronica não queria estar muito chique nem chamar a atenção, e nós todas respeitamos a vontade dela. Os meninos aprontaram John no apartamento de Freddie.
—Ai... Eu não sei nem o que pensar – a noiva se levantou já pronta – eu estou feliz, e eu só fiquei bem depois de decidir me casar, e agora que estamos aqui... Será que vou fazer tudo direito?
—Eu sei exatamente o que está passando – eu me aproximei dela, ficando ao seu lado e segurando seus ombros – mas você consegue passar por tudo isso, se concentre no John e tenta ignorar o resto, por mais difícil que seja.
—Eu vou tentar – ela conseguiu sorrir – obrigada Chrissie.
Os pais de Veronica vieram buscá-la e a levaram antes de nós, ficamos esperando pela carona dos nossos amados.
—Vamos logo porque não podemos deixar a noiva chegar antes dos padrinhos – Freddie brotou na porta da sala e nos chamou com pressa.
Eu pisquei meio assustada, mas entendi o recado um pouco depois. Como éramos em três casais, os meninos estavam em dois carros. Roger e Dominique foram com Mary e Freddie e eu e Brian fomos no nosso carro.
—O Freddie tá... – escolhi bem as palavras antes de dizer, conforme estávamos a caminho da igreja – chamando mais atenção que a noiva...
—Ah é – Brian riu – ele pegou o paletó de um conjunto, a calça de outro e pra completar, a echarpe.
—E não esquece o óculos de sol – acrescentei – mas é só o Freddie sendo Freddie...
—Mas hoje ele extrapolou, a gente começou a chamar ele de Camaleão 2.0 – meu marido riu mais um pouco.
—Por que camaleão? – fiquei curiosa, aquela história ainda não conhecia.
—Quando a gente encontrou com o John Reid a primeira vez – Brian recordou – ele tava com uma jaqueta toda escamosa, com umas asas de dragão nas costas, eu que falei que ele tava parecendo um camaleão, lembrei disso hoje.
—Só vocês mesmo – eu balancei a cabeça – e como é que tá o John?
— Ele tá nervoso, menos do que eu tava no nosso casamento, mas ele tá muito seguro de si, e isso é o mais importante.
— Sabe de uma coisa, Bri? – repliquei pensativa – acho que o John já estava se preparando pra fazer o pedido, e o bebê foi só um empurrãozinho pra criar coragem, eles já se amavam muito antes disso. E amar um ao outro é o principal motivo pra se casar.
—Está absolutamente certa, meu amor – Brian sorriu e pegou minha mão por um breve instante.
Nós chegamos e vimos que a noiva estava na porta, esperando todos chegarem.
—Não tem como entrar sem todos os padrinhos chegarem – Veronica justificou.
—Desculpa o atraso – Brian se desculpou por nós dois.
—Na verdade não estão atrasados – ela explicou – eu que cheguei cedo, mas vão lá logo pro seus lugares.
—Sim, senhora – entendi a urgência da situação e obedecemos a noiva, rumando com pressa pra dentro da igreja.
Todos já estavam a postos, entre os meninos e as meninas, havia mais um casal de padrinhos do lado de John. Eu e Brian demos um oi rápido pra todos e fomos pro nosso lugar.
—É muito mais fácil ser madrinha – percebi, falando em voz alta.
—Eu tenho que concordar, mas passar por esse nervoso todo vale a pena – ele beijou minha bochecha e voltou sua atenção para a porta, e então, esperamos a entrada de Veronica.
Ela entrou lado a lado de seu pai, devagar e trêmula, perto de nós John começou a chorar. Roger que estava mais perto dele, colocou uma mão em seu ombro em solidariedade. Então olhei de volta pra Veronica, que estava chorando também. Desse jeito, daqui a pouco eu também ia começar a chorar. A noiva chegou no altar e rapidamente ela tentou secar as lágrimas dele e ele as dela. John recebeu Veronica do pai dela. O padre pediu para que eles ajoelhassem e os noivos obedeceram. A cerimônia então teve início.
Eu prestei atenção em cada palavra, emocionada e percebendo o quanto aquele casamento estava sendo muito mais formal e tradicional. Talvez fosse exigência dos Tetzlaff, a família de Veronica. Pelo pouco que os conhecia, dava pra perceber que eram tradicionais, talvez esse fosse um dos motivos para ele ter se tornado uma moça quieta e tímida.
Depois do sermão, o padre passou para as alianças e finalmente a pergunta pela qual todos estavam ali. John e Veronica voltaram à choradeira ao dizer sim e, dessa vez, eu chorei junto. O beijo deles foi tímido e rápido, mas tão doce que não fazia ninguém duvidar do quanto eles se amavam.
Eles saíram da igreja acenando para todos e nós, padrinhos e madrinhas fomos atrás deles. Antes de irmos para a festa, fomos bombardeados pelos flashes do fotógrafo. Eu me sentia meio desconfortável em tirar foto, mas três anos morando com Brian, que às vezes teimava em me clicar em momentos corriqueiros, me fez me acostumar com isso. E fotos em grupo eram mais confortáveis pra mim do que só eu aparecendo na foto.
Então nos encaminhamos todos para a festa, e, ao chegar lá, notei que era um tanto maior do que a minha festa e a de Brian. Nos sentamos com Roger, Freddie, Dominique e Mary, já que os parentes de Veronica e John eram meio que desconhecidos para nós.
—Quanta gente... — deixei escapulir, mas foi mais pra que Brian ouvisse.
—É que aparentemente tanto os Deacon como os Tetzlaff são famílias grandes — replicou meu marido — nós temos muito menos parentes, por isso nossa festa foi menor.
—Hum... — concordei meio distraída.
O que confortava meu desconforto de estar no meio de estranhos era estar bem pertinho dos meus amigos. Passou um tempo e John veio até nós, trazendo dois convidados que eu não conhecia com ele. O rapaz era um dos seus padrinhos e a garota era mais nova que nós.
—Hã, pessoal, eles insistiram muito pra vir conhecer vocês, então espero que não se importem — John nos explicou — esse é meu amigo Nigel Bullen, éramos da mesma banda na época da escola, e essa é a minha irmã Julie. Julie, Nigel, esse é o resto do Queen, Roger, Brian e Freddie.
Eles trocaram apertos de mãos educadamente, enquanto cada um dos meninos apresentou a mim, Dominique e Mary aos convidados do John.
—Eu reconheci o John na televisão — contou Nigel — naquele vídeo de vocês, Killer Queen não é? Eu mal acreditei que era o velho Deaks na TV.
—É, parece fácil, mas nós demos muito duro pra chegar ali — a voz de Freddie demonstrava orgulho.
—Será que não teria como vocês tocarem alguma coisa? — Julie pediu, esperançosa.
—Ah não, Julie, talvez nosso estilo não agrade a maioria dos convidados, e também não dá ideia que eles são capazes de por em prática — o irmão dela aconselhou.
—Sabe John, aquela música que compôs pra Veronica, seria perfeita pra tocar agora — Roger sugeriu.
—Não, não, nem pensar — John negou balançando a cabeça — ela não tá pronta, e já tô fazendo muita exposição da minha figura pra um dia só, tá bom? Eu amo vocês gente, mas dá pra me dar um tempo, pelo menos no dia do meu casamento?
—Corta o drama Deaky, acabou vencendo — Freddie aceitou a trégua.
—Obrigado — John disse com sarcasmo, mas aliviado.
Depois de um tempo, Veronica também veio nos ver. A pobrezinha que já estava cansada por toda correria e pelo bebê, só queria um lugar familiar para descansar. John veio sentar ao lado dela um tempo depois, e foi ali perto da gente que vi uma das coisas mais lindas da minha vida. O futuro papai sussurrou algo para o seu filhinho, que tudo aquilo que ele e sua mamãe fizeram era para ele, para a família que em breve os três formariam.
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