Não tivemos muito tempo para lua de mel, apenas passamos um fim de semana em Hampton com os pais de Brian e logo voltamos pra Londres, não me importava de ter viajado para um lugar simples, o lar da infância do meu marido também tinha se tornado um lugar especial pra mim, que me trazia paz e sossego.

Sossego não era tudo que nos esperava em Londres, o Queen trabalhava a todo vapor, em mais shows locais, que eu comparecia sempre. O tempo de Brian agora tinha aumentado um pouco, ele finalmente tinha se formado, era oficialmente um astrofísico. Só que mesmo assim, outras preocupações rondavam sua cabeça.

Nós decidimos nos mudar, tínhamos economizado o suficiente para comprar uma casa e, enquanto Brian não ensaiava nem compunha, íamos juntos à procura da casa ideal.
Andamos bastante por Barnes até nos depararmos com uma casa que chamou nossa atenção quase ao mesmo tempo.

A placa na frente dizia que estava a venda, corremos até lá para dar uma olhada, admirando o que dava pra ver pelo lado de fora.

—Tem dois andares, então quer dizer que tem no mínimo uns três quartos e um sotão — Brian deduziu.

—É, é bem provável — devolvi — mas será que precisamos de todo esse espaço? Não me entenda mal, meu amor, é que estamos acostumados a um espaço pequeno e...

—Vai levar um tempo pra nos adaptar? Eu também pensei nisso — Brian coçou a cabeça — mas pensa só... Não ter que nos espremer no nosso sofá pra assistir um filme ou ver Doctor Who!

—Mas eu gosto do nosso sofá... — apertei os lábios fingindo chorar, brincando — ele é tão confortável... e se ele pudesse falar contaria tantas histórias que eu amo...

—É, ele também reclamaria de como fomos capazes de deixar o Roger se jogar nele tantas vezes — meu marido riu e me trouxe pra mais perto dele, voltando a admirar a casa — temos que vê-la por dentro pra ter certeza de que é a casa certa.

—Vamos falar com o corretor — concordei — vamos ver o que acontece.

Nós marcamos uma visita ao imóvel que tínhamos visto, e o corretor estava à nossa espera quando chegamos à casa.

—Sr. e sra. May, certo? — ele nos cumprimentou — prazer em conhecê-los, eu sou Matt e espero que possamos fazer um bom negócio juntos.

—É, nós também — Bri o respondeu.

Eu notei que Matt ficou encarando meu marido por um tempo, e podia quase apostar no que o corretor estava pensando.

—Desculpe falar sr. May, mas parece que te conheço, ou já te vi em algum lugar — disse Matt enquanto nos guiava pela casa.

Brian olhou pra mim em busca de ajuda, ele sabia lidar com fãs quando estava num ambiente de show, mas ali, enquanto era só um marido procurando uma casa com a esposa, declarar com todas as letras que era guitarrista do Queen era um tanto constrangedor.

—Brian é professor... — tentei ajudá-lo a disfarçar, mas não acho que tive tanto sucesso com isso.

—Ah sim — aquilo pareceu ser suficiente para Matt por um momento — é que você parece um cara que eu vi numa capa de disco de uma banda nova, deve ser isso.

—É, deve ser sim — Brian concordou querendo evitar o assunto.

Matt então se ocupou em nos mostrar a casa, havia uma sala espaçosa, cozinha completa, lavanderia, escada com proteção (embora nenhuma criança fosse morar ali), no andar de cima, mais dois quartos e um sotão. Brian foi até a janela do cômodo e deu uma boa olhada no céu por aquele ângulo.

—Só por essa vista, eu fico com a casa — decidiu meu marido — gostou daqui também, Chrissie?

Fiquei grata por ele querer saber minha opinião.

—É um lugar ótimo, realmente — concordei.

—Desculpe sr. May mas... — Matt inspecionou a vista da janela — não considero essa uma vista bonita.

Realmente, olhando por cima só se via casas e mais casas, mas não era nisso que Brian estava pensando.

—É que eu sou astrofísico também — Brian explicou com certa modéstia — e pelo visto, quando ficar de noite, vai dar pra ter uma vista perfeita daqui pra observar o céu.

—Ah sim — Matt era simpático, mas estava se esforçando para não olhar Brian como se ele fosse maluco.

Decidimos ficar com a casa, e, depois de organizarmos nossos pertences e escolhermos alguns novos para completar a nova casa, pouco antes da mudança, Brian decidiu ter uma conversa séria comigo.

—Chrissie — chamou ele no seu tom mais sério, enquanto estávamos no apartamento de Roger, já que o nosso estava bagunçado por causa da mudança — eu andei pensando uma coisa, e, por mais que eu esteja contente com o que decidi, me assusta um pouco.

—Pode me contar, meu amor — realmente ele soava preocupado.

—Eu decidi parar de dar aulas, já conseguimos pagar a casa pelo que ganho com o Queen, e John está acertando os últimos detalhes de uma turnê no Japão, então eu... — ele respirou — vou ser guitarrista do Queen em tempo integral, vai ser minha profissão oficial.

—E isso é ótimo! — eu sorri, já esperando isso acontecer devido tudo que os meninos tinham conquistado até agora — e por que ainda parece triste?

—Eu vou ter que dar um tempo no meu doutorado, é isso — ele contou — mas eu amo fazer música, e é exatamente por isso que nós quatro nos esforçamos até aqui.

—Com certeza, então aproveite esse momento — eu o abracei, pois sabia que Brian gostaria de continuar estudando, mas agora todas as possibilidades musicais estavam abertas para serem exploradas pelo Queen.

Era estranho não ter que carregar minha própria mudança e pagar uma empresa e funcionários para fazerem isso por mim. Era outro pequeno privilégio da minha nova vida, pelo menos eu ainda podia desembrulhar e arrumar tudo como queria, e foi o que eu e Brian fizemos. Nossos livros foram para o sotão, organizados na velha estante dele e até mesmo Red Special tinha um lugar reservado só para ela.

—Não é exagero ter um cômodo só pra guardar sua guitarra? — alfinetei, achando a ideia absurda.

—Não é só pra ela, é um lugar pra eu compor — explicou Brian fazendo sua cara de sabichão — mas nunca se sabe quando ou onde a inspiração bate.

—Eu sei... — acabei rindo, entendendo a lógica dele, como sempre.

Quando tinha tempo à noite, Brian observava o céu pela janela do sótão, através de um telescópio, outro presente valioso do seu pai, e de vez em quando ele me chamava para ver com ele. Foi durante uma das observações que ele ficou inquieto.

—Tive uma ideia pra uma música — meu marido se explicou, beijou minha bochecha e saiu correndo até lá embaixo para anotar antes que esquecesse.

Essa foi uma das primeiras ideias que ele teve na nossa nova casa. Uma outra ideia surgiu enquanto estávamos dormindo. Nossas cabeças estavam a pouco centímetros de distância uma da outra, minha mão direita descansava sobre o seu peito, o que me fez sentir ele se mexendo, ele começou a murmurar alguma coisa antes de acordar, até começar a cantarolar baixinho.

Eu olhei bem pra ele com os olhos pesados de sono.

—Desculpa, mas eu estava dormindo — soei reclamona.

—Me perdoa, mas eu tive uma ideia — Brian beijou minha mão que estava apoiada nele, levantou devagarinho e foi escrever a bendita música com que tinha sonhado.

E entre momentos musicais criativos e as mais triviais correrias domésticas, eu e Brian fomos nos acostumando ao nosso novo lar.