Eu ainda estava indecisa sobre o que usar na ocasião da noite. Comecei a ponderar se preto realmente seria a cor ideal do vestido que eu usaria. Trajes pretos sempre remetiam a elegância, mas remetiam muito mais a tristeza e luto. E apesar de tudo, aquela não era uma noite de luto.

Revirei meu armário com energia, disposta a encontrar o traje perfeito. Bem, não exatamente perfeito, mas que ao menos fosse perfeito aos meus olhos, uma roupa com a qual me sentisse confortável. Então me lembrei de um vestido que se encaixava nessa descrição. Não me importava se eu o repetiria, já não me importava mais com as críticas da mídia.

Procurei no lugar onde me lembrava de vê-lo pela última vez, e lá estava ele. O tecido azul marinho cintilava para uns tons cinzentos conforme a luz batia nele, e havia pontinhos prateados discretos nas mangas e na saia. Aquele vestido me lembrava uma perfeita representação de um céu estrelado, do infinito universo. Definitivamente, o traje perfeito pra mim.

Então me troquei rapidamente, vendo que já estava quase em cima da hora. Parei um pouco pra observar meu reflexo no espelho da penteadeira. Não me importava com as rugas a mais, nem com os cabelos brancos, faziam parte de quem eu era agora. No entanto, tive uma ideia pra completar meu visual.

Nunca fui muito de usar joias, mas tinhas alguns colares, e com certeza o meu preferido era o que tinha um pingente da Red Special, a corrente se interligava ao pingente em forma de guitarra no lado direito e se fechava no seu braço do lado esquerdo, e a sua cor era na mesma tonalidade de vermelho da verdadeira. Ao colocar o colar, me lembrei da história engraçada que aconteceu quando o ganhei.

Estava trabalhando, organizando tudo que dizia respeito à carreira de Brian, quando recebi a proposta inusitada da criação do colar com o pingente da Red Special. Brian achou a ideia um tanto inusitada, mas acabou concordando. Como eu soube mais tarde, quando ele a viu pronta, ficou morrendo de vontade de me dar de presente, mas achou a ideia muito narcissista, pra ele era ruim me dar um presente que me faria lembrar dele. No entanto, também achando o colar lindo, eu acabei sendo mais rápida e me dei de presente. Foi quando Brian falou que queria ter me dado e os motivos por não ter feito isso. Eu apenas ri e o assegurei que com colar ou não, eu sempre amava me lembrar dele, de qualquer forma.

Depois que fiquei pronta, desci as escadas indo esperar minha carona na sala. Jimmy tinha feito questão de ir me buscar, já que Brian teve que sair mais cedo.

—Boa noite, mãe — meu menino (que agora não era mais uma criança, mas sempre seria meu menino) me cumprimentou — está tão linda!

—São seus olhos — respondi, ele tinha puxado ao pai com esses elogios que me constrangiam — guarde esse charme pra Rory, aliás, onde ela está?

—Ela e o Isaac já foram com o tio Roger — Jimmy explicou enquanto saíamos.

—E suas irmãs? Lou não falou nada o dia todo, estou com medo dela ter ido viajar de novo, e a Emily, tenho quase certeza que já foi direto — deduzi, conhecendo bem minhas filhas.

—Mãe, as duas já estão a caminho, respira fundo, e não se preocupa — meu filho sorriu ao tomar o volante e começar a dirigir.

—Ha! Sabe que não adianta me pedir pra me acalmar — balancei a cabeça — mas tudo bem, eu sei que vamos encontrar as meninas lá, não é possível que elas vão perder uma noite como essa.

E como nos custou até chegar àquela noite! Tempos difíceis quase nos faziam perder a noção do tempo, de quanto tempo tinha se passado até chegarmos ali.

Em 1986, eu e Brian passamos um momento turbulento, em Maio daquele ano ele tinha sofrido uma recaída terrível da hepatite de novo, ficando muito mais tempo de recuperação do que da primeira vez em 1974. Eu não deixei seu lado por um só instante. Preferi que as crianças ficassem em Hampton ao ver seu pai naquelas condições que os entristecia tanto. Os velhos fantasmas de Brian voltaram com toda força a perturbar sua mente, tinha medo de estar atrapalhando a banda, logo agora que eles tinham se reconciliado, e além disso, o tempo tinha se tornado nosso inimigo. Não era só a condição de Brian que deixava o futuro do Queen obscuro, mas a condição de Freddie também.

Antes que Freddie me contasse que estava gravemente doente, eu também não estava bem. Brian tinha acabado de se recuperar, e parecia que seus sintomas tinham passado pra mim, mesmo a doença não sendo contagiosa. Imediatamente, meu marido me levou ao médico e juntos descobrimos que estávamos esperando nosso terceiro filho. Foi antes que Emily nascesse que soube sobre Freddie, e aquele foi um dos piores momentos da nossa vida.

Havia sempre a tensão no ar, o medo, a tristeza, nenhum de nós queria perder nosso amigo. Tudo que precisávamos no momento era de um milagre. Não fora à toa que Freddie tinha escrito "The Miracle", era ele demonstrando um pouco de esperança, mesmo parecendo impossível. E foi então o que aconteceu.

Um tratamento experimental surgiu, algo que deveria ser decidido por Freddie se ele estaria disposto a passar por isso ou não. Era muito incerto, o tratamento era imprevisível e caro, e ele havia discutido muito com Jim e Mary se aceitaria. Foi então que ele fez sua escolha.

"Vamos tentar, o que tiver que acontecer, será..."

Assim, Jim Hutton e Mary Austin administraram juntos as despesas do tratamento. Freddie passou por momentos terríveis, parecia que seu corpo não reagia a mais nada, e, quando relutantemente começamos a nos despedir dele em nosso coração, ele teve uma melhora significativa. Sua aparência doente foi aos poucos voltando ao normal e, a sua voz, tão cansada nas gravações de "Innuendo", foi voltando a quase a mesma força de antes. Quando minha caçulinha Emily Ruth May nasceu, tio Freddie já estava bem o suficiente para conhecê-la e mimá-la.

Freddie se recuperou, mantendo um tratamento contínuo. Ele precisou de um tempo pra que se recuperasse o suficiente pra gravar um novo álbum, mas no devido tempo, os meninos lançaram "Made in Heaven". Um tempo depois, voltaram a fazer shows, tão grandiosos como sempre, com toda pompa típica do Queen.

Vieram "Return of the Champions" e "The Cosmos Rocks", com suas respectivas turnês, que eu acompanhei como a fiel escudeira de Brian, como ele me chamou uma vez, e guardei o apelido com carinho.

Com a expansão e popularidade da música pop, desde Britney Spears a Justin Bieber e Melanie Martinez, o trabalho do Queen se tornou menos urgente e mais compassado, mas seus fãs permaneceram fiéis à banda.

Nesse tempo, Brian aproveitou pra finalmente terminar seu doutorado, 42 anos depois de tê-lo interrompido. Meu marido era oficialmente um doutor em astrofísica como também um guitarrista, não poderia estar mais orgulhosa.

E depois de toda essa viagem às últimas décadas das nossas vidas, voltei ao presente, em 2018. Já havia muitos carros e representantes da imprensa cercando o Albert Royal Hall. Aquele era um lugar especial, criado pela rainha Vitória em homenagem ao seu amado marido, e tão especial quanto o motivo de estarmos ali.

Conforme entrava, me lembrava da vez que o Smile tinha se apresentado ali, e essa noite, o Queen se apresentaria, era como um ciclo se fechando, uma jornada incrível, com tantas reviravoltas que nos trouxeram até ali. Havia um lugar reservado para nós, logo encontrei Veronica, Laura e os meninos. A família Deacon tinha crescido mais um pouquinho com a chegada de Joshua, Luke e Cameron. Um pouco mais a esquerda estavam os Taylor, que também estavam com a família um pouco maior. Rufus devia estar se preparando para fazer uma participação especial no show. Felix estava sentado entre Tigerlily e Lola, Rory tinha deixado uma cadeira vazia ao seu lado que só podia ser de Jimmy. Do lado da cadeira vazia estava meu querido Isaac, meu neto de 13 anos, que me deu um oi animado ao me ver. Dominique, sua avó materna, estava ao lado dele.

Foi então que vi minhas meninas e finalmente fiquei calma.

—Mãe, aqui! — indicou Emily e me sentei entre elas.

—Achou que a gente não ia vir? — Louisa me deu um sorriso travesso, sabendo bem como me provocar.

—A senhorita sumiu o dia inteiro, não me mandou nem uma mensagem, é claro que eu fiquei preocupada — justifiquei, usando todo meu tom de voz de mãe.

—Eu pensei que a senhora não ia ter dúvidas de que eu ia vir — ela cruzou os braços — afinal, não é todo dia que faz 45 anos do lançamento do primeiro disco do Queen!

Apenas sorri com o exagero dela, dando uma olhada em todos ao meu redor, os membros da minha família, presentes que a vida tinha me dado. Senti falta de Jim ali, tão sensato, amoroso e gentil Jim Hutton, que tinha sido a âncora de Freddie. Já tinha 8 anos que ele havia nos deixado, mas os dois foram muito felizes no tempo que tiveram. Freddie tinha se contentado com a nossa companhia, com o amor que estávamos sempre prontos a lhe dar, o mesmo amor que ele sentia por nós.

Esperamos mais uns minutos antes que o show começasse, mas antes um dos assistentes de palco veio me procurar, dizendo que o sr. May queria falar comigo. Emily ficou um pouco preocupada, mas Louisa pareceu se divertir com a situação. Então segui o assistente até os camarins.

Dei meu oi empolgado a Freddie, Roger e John, lhes desejando boa sorte e só então fui ver o que Brian queria.

—Oi, desculpe te mandar chamar depois que você já tinha se acomodado — ele se justificou, admirando meu rosto por um momento — você está tão linda hoje...

—Só hoje? — brinquei — e Jimmy já disse isso, agradeço o elogio, mas me diz porque me chamou.

—Certo, claro, bom, falta uns 10 minutos pra gente começar, preciso do seu beijo pra me dar boa sorte — ele disse com uma seriedade que me fez rir.

—Brian... — murmurei entre risos — não estamos velhos demais pra isso?

—Nunca!- Bri afirmou com todas as forças, colocando uma mão na minha cintura, me aproximando pra mais perto dele, apenas sorri e fiz o que ele pediu.

—Boa sorte — desejei depois que nos separamos — eu te amo.

—Também te amo, minha doce dama — Brian ainda beijou minha bochecha quando nos despedimos.

Instantes depois, o show se deu início, com todos os efeitos exagerados de sempre, com o amor e a energia dos meninos em cada canção. Eles estavam mais contidos fisicamente devido a idade, mas sua essência estava toda ali. Eu cantei cada uma das músicas, de todo coração.

Quando Brian tomou o centro das atenções, meu coração começou a bater mais forte, como sempre fazia quando eu o via tocar. Ele se ajeitou no banquinho, equilibrando a Red Special no seu colo, e então suspirou antes de falar:

—Bom, hoje é certamente uma noite muito especial, sem dúvida, mal posso acreditar que nós estamos há mais de 45 anos juntos, só quero agradecer a presença de vocês aqui hoje, e como fãs na nossa vida, muito obrigado mesmo — palmas e vivas o interromperam antes que ele continuasse — mas sabe que tudo isso me lembra um fato muito marcante na minha vida, há 45 anos atrás, esses três me convenceram a fazer uma coisa num palco, na frente de todo mundo, e eu nunca me arrependi disso, e acho que alguns de vocês devem saber do que eu estou falando, mas pra quem não sabe, eu pedi minha esposa em casamento depois de um show, e... Não poderia deixar de mencionar minha amada Chrissie.

Senti as batidas do meu coração acelerarem, e Brian olhou diretamente pra mim.

—Eu te amo, tenha certeza que eu não estaria aqui se você não estivesse ao meu lado todos esses anos, obrigado, muito obrigado — ele me mandou um beijo, eu sorri em resposta, enxugando as lágrimas nos meus olhos — a próxima música é de "A Kind of Magic", chamada "Stars Tonight", minha singela homenagem à minha esposa.

E logo ele tocou os primeiros acordes de "Stars Tonight", somente sua voz e o som da Red Special, pra só depois os outros instrumentos o acompanharem. Minha mente me levou ao dia em que ele me mostrou aquela canção pela primeira vez.

Brian me contou que teve a ideia assim que tinha chegado de Wembley, no dia do Live Aid. Eu o vi concentrado, trabalhando na letra e no ritmo, mas ao contrário de todas as vezes que tinha me deixado ver suas músicas, essa ele fazia questão de esconder.

—Vou te mostrar quando estiver pronta — respondia ele.

Então quando chegou a hora certa, Brian me fez sentar para ouví-lo.

—Essa eu fiz pra você, eu sei que nunca fiz isso pra respeitar sua privacidade, mas eu não pude evitar, preciso que o mundo saiba o quanto eu te amo e o quanto você é importante pra mim — ele foi me explicando, e já fui chorando antes mesmo de ouvir a música.

—Ai, Bri... — apenas suspirei, disposta a ouvir a canção sobre mim.

E a emoção que tinha sentido na primeira vez que a ouvi, tinha se multiplicado agora. Meu pobre, mas feliz coração, ainda teve que lidar com os meninos apresentando "These Are The Days of Our Lives".

Aquela canção tinha sido escrita por Roger como uma despedida, mas agora, ela era um hino às nossas melhores recordações. E certamente, essa noite ficaria entre elas.

O show terminou com "We Are The Champions", e enquanto cantava, dentro de mim, transbordava de orgulho e amor, por todas as conquistas e vitórias que os meus olhos puderam contemplar até ali.