Quando eu abri os olhos naquela manhã de Julho de 1985, me deparei com uma rara visão. Não tão rara assim, lembrava sempre com muito carinho da primeira vez que vi aquele mesmo rosto, há quase 16 anos atrás. Seu cabelo caindo nos olhos do mesmo jeito, mas em seu rosto havia leves marcas do passar dos anos. Ainda assim, era o meu lindo Brian, dormindo ao meu lado, sem acordar antes de mim, e era isso que era raro.

Fiquei ali quietinha, o observando mais um pouco. Achei que a ansiedade pelos eventos que aconteceriam mais tarde me fizeram acordar mais cedo que ele. Às vezes isso acontecia, eu não me apresentaria com o Queen, mas não deixava de ficar nervosa por eles, afinal de contas, a apresentação de hoje não era qualquer uma.

—Chrissie... — Brian murmurou assim que acordou, me dando um sorriso — bom dia...

—Bom dia, meu amor — respondi, e me aproximei para beijá-lo.

—É... — suspirou ele depois — chegou o grande dia...

—Está mais nervoso que o normal — comentei, logo notando sua preocupação — mas vai dar tudo certo.

—É, nós ensaiamos bastante pra recuperar o tempo perdido — Brian foi bastante prático e racional — se depender disso, vamos nos sair bem, vamos tocar as mais conhecidas, o que também vai ajudar, mas... Quando eu penso que... Literalmente, o mundo todo vai estar nos vendo, uau... Não é algo com que eu esteja acostumado, nem que eu consiga processar...

—Sabe que isso é bom? — tentei aliviar suas preocupações — quero dizer, não se sentir completamente confortável com o mundo te olhando, mostra um pouco de... humildade, humanidade! Se sentir vulnerável faz parte de ser humano.

—Faz com que eu me lembre que, por um lado, eu também sou uma pessoa comum... — resumiu Brian — isso certamente foi muito interessante, sra. May. Obrigado...

Nisso, Brian me aproximou dele, me beijando dessa vez, demorando mais um pouco de propósito.

—Nós vamos nos atrasar — interrompi, rindo — ainda tenho que acordar as crianças.

—Eu te amo — disse ele, parecendo que foi do nada, como se nem tivesse prestado atenção no que acabei de dizer, mas sabia que não era bem assim.

Brian me amava por meus conselhos, por me preocupar com Jimmy e Louisa, por ser quem eu era.

—Também te amo — respondi, e dando mais uma olhada no meu marido, me levantei, me preparando para os grandes compromissos do dia.

Jimmy já estava de pé quando o encontrei, terminando de calçar os tênis. Nós dois nos surpreendemos ao se encontrar.

—Oi, mamãe, acordei antes de você vir me chamar — ele se explicou — eu sei que o dia vai ser corrido, por isso eu estou fazendo as coisas com pressa.

—Ah, meu amor... — apenas o admirei por um instante, beijando sua bochecha, encantada com seu comportamento — obrigada por isso, já está me ajudando muito.

Jimmy apenas sorriu e desceu pra me esperar na cozinha, enquanto fui ao quarto de Louisa. Muito ao contrário do irmão, ela ainda estava dormindo profundamente, o que me deu um pouco de pena de acordá-la.

—Lou? — toquei o ombro dela com delicadeza, a chamando — Louisa, tá na hora de levantar, meu amor...

—Mamãe... — ela murmurou, fazendo uma careta — mas já?

—É, eu sei, mas nós temos que ir agora — expliquei — lembra que hoje papai e os tios vão tocar na televisão?

—Mas vai passar na TV agora? Por isso me acordou agora? — perguntou Louisa, ainda deitada.

—Não, nós vamos ver o show ao vivo, igual das outras vezes — sorri pela lógica dela.

—Ah... Entendi — disse minha menina por fim, um pouco mais desperta.

Um pouco depois, desci as escadas com Louisa e Brian e Jimmy já tinham adiantado o café da manhã, nós duas apenas nos juntamos a eles. Assim que terminamos, nos preparamos pra ir ao Wembley.

Ao tomar meu lugar no banco do carro, senti borboletas no estômago, só de pensar na quantidade de pessoas que lotariam o lugar, sem contar com as ilustres presenças do Príncipe Charles e da Princesa Diana. Realmente era um tipo de evento do qual o Queen nunca tinha participado. Suspirei, repetindo a mim mesma que os meninos dariam conta do recado. Instintivamente, pus uma mão na barriga ao sentir aquela sensação de borboletas indo e vindo outra vez.

—Tudo bem, Chrissie? — Brian me olhou muito preocupado, cheguei a perceber que ele pensou que minha atitude tinha a ver com outra coisa.

—Estou, é só o nervosismo, você sabe, né? — consegui me recuperar rapidamente.

—Tem certeza de que não é outra coisa? — ele insistiu mais um pouco.

—Que outra coisa, Brian? — minha voz soou desconfiada — pare de se distrair, você ainda tem um grande show pra fazer hoje.

—Certo — ele acabou rindo e voltou a prestar atenção no trajeto.

O Wembley já estava cheio quando chegamos e eu, como assistente de Brian e seguindo as orientações que Jim Beach tinha nos dado alguns dias atrás, nos guiei até o trailer exclusivo do Queen. Encontramos Jim e John, já esperando.

—Adiantados como sempre — o sr. Beach nos cumprimentou — fiquem à vontade, Roger e Freddie já estão a caminho.

—Ai deles se derem pra trás — brincou Deaky.

—Duvido muito, John — Brian comentou com um sorriso.

—A Veronica e as crianças estão lá no camarote? — perguntei ao baixista.

—Ah, estão sim — ele respondeu.

—Certo, vou encontrar com ela e viemos mais tarde antes de vocês se apresentarem — avisei, olhando para os dois.

—Tchau, Chrissie — ouvi John dizer atrás de mim e acenei de volta.

Encontrei com Veronica e as crianças Deacon no mesmo lugar que visitamos, embora todo o espaço à nossa volta já estivesse preenchido com outros convidados. Quase 40 minutos depois, Dominique, Felix e Rory chegaram, se unindo a nós.

—Estão nervosas também? — perguntou Veronica, olhando pra nós.

—Tem como não estar? — Dominique disse com um sorriso — imagina só, tocar pra toda essa gente, e pra quem vai ver pela TV...

—Bom, os meninos já tocaram muito em estádios, talvez isso ajude — ponderei — mas também estou uma pilha de nervos.

—Nós sabemos — a sra. Deacon deu um tapinha no meu ombro — te conhecemos bem, sra. Chrissie May...

Apenas ri e dei de ombros pelo comentário dela. Foi então que os shows tiveram seu início e, mesmo antes que o Queen se apresentasse, foi emocionante acompanhar outros artistas ao vivo, com toda a energia que trocavam com o público presente. Perto das 6 da tarde, percebi que logo seria a vez do Queen, então fiz todo o caminho de volta ao trailer dos meninos, na companhia de Louisa e Jimmy. Bati a porta do trailer, sem conseguir segurar muito a ansiedade, que tinha crescido conforme a hora do Queen se apresentar ia chegando.

—Sra. May! — Freddie abriu a porta pra mim — e mini Brian e mini Chrissie...

As crianças riram por causa dos apelidos do tio.

Entrei com meus filhos no trailer, dando um oi a Roger e outro olá a John novamente. E então Brian veio ao nosso encontro, ele se abaixou pra falar com as crianças.

—Estão gostando? — Bri perguntou aos nossos filhos.

—Aham, mas mal posso esperar pra ver o Queen — respondeu Jimmy.

—Uhum — concordou Louisa — toca bem bonito, tá papai?

—Pode deixar, minha princesa — ele beijou a bochecha dela, rindo.

—Boa sorte, pai — desejou Jimmy, e Brian bagunçou os cabelos dele.

—Chegou a minha vez... — brinquei, vendo que as crianças já tinham terminado de falar — bom, só digo pra se concentrar e prestar atenção nos sinais dos meninos, e não esqueça de tocar com o coração, como você sempre faz...

—Vou sim, Chrissie — ele assentiu — mas eu ainda preciso de uma coisa.

—O que? Eu pensei que tava tudo certo, nós checamos tudo... — quase me desesperei.

—Meu beijo de boa sorte — meu marido fez sua melhor cara de convencido.

—Para com isso, Brian Harold May! — balancei a cabeça, um pouco envergonhada — eu não esqueci disso, eu já ia fazer isso...

Impedi que ele falasse mais alguma coisa lhe dando o beijo que tinha pedido.

—Mãe... — disse Louisa num tom de reclamação.

—Se acostuma, Lou — Roger disse a ela — Esses dois já eram assim muito antes de vocês nascerem.

—Tudo bem, já entendi — ergui as mãos, me rendendo — chega de beijo.

Falei tchau para Brian e os meninos, e então voltei para o nosso lugar com Louisa e Jimmy. A minha expectativa tinha aumentado, mal esperando pra ver o Queen tocar junto novamente, depois de tanto tempo.