Na ausência de Brian, o que me distraía de sentir sua falta era continuar trabalhando e cuidar da nossa casa, mas cada canto que eu olhava, sentia falta dele. De conversamos sobre coisas comuns, suas repentinas ideias pra compor que o faziam sair correndo, o jeito como ele perguntava sobre o meu dia e tinha toda paciência do mundo para me ouvir.

Era agoniante não ter um número para ligar e falar com ele, tinha que esperar que ele me ligasse, o que me lembrou um pouco quando era uma simples universitária, apenas a amiga dele, que sem saber bem porque amava quando ele ligava, mas agora eu tinha mais do que certeza que o amava, tinha me tornado sua esposa, e minha antecipação por suas ligações era ainda mais significativa.

As meninas também vinham me visitar, ajudava Veronica com os trabalhos do seu último ano da faculdade e Mary passava em casa sempre que podia depois do trabalho, pra tomarmos um chá e conversamos sobre outras coisas além da ausência dos meninos. Ficar as três juntas ajudava uma a outra a lidar com a saudade.

Era sempre muito tarde quando Brian ligava, e eu sempre acabava pegando no sono, nunca conseguindo ficar acordada enquanto esperava. A primeira vez que ele me ligou durante a viagem, quase não ouvi o telefone tocando do meu quarto, mas estava tão ansiosa que assim que percebi o que era aquele barulho, corri para atender, ignorando a tontura pelo sono, a escuridão, e o risco de tropeçar nos degraus da escada.

Tocou umas seis vezes antes de eu atender, e eu estava torcendo para ele não desligar, só podia ser Brian me ligando a uma hora dessas, fiquei torcendo para que não fosse um engano.

—Alô? — atendi com a voz trêmula e meio esganiçada de sono, transbordando ansiedade.

—Meu amor? Te acordei, não foi? — a voz do meu marido soava cansada e preocupada — mas eu tinha que ligar, porque você pediu...

—Eu queria muito, muito que você ligasse — ignorei meu sono, animada — mas você me ligou só porque eu pedi? Achei que não fosse só por isso....

—Claro que não — ele riu percebendo que eu estava brincando — eu estava só preocupado em te acordar, mas queria falar com você assim que tivesse um tempo. Como é que você tá, Chrissie?

—Eu tô bem, tá tudo bem, nada de novo, mas tudo bem — respondi — só estou com saudade.

—Eu também, demais... — Brian suspirou — mas tem sido ótimo aqui, e confesso que um pouco assustador também.

—Assustador? Por que? — fiquei confusa e preocupada.

—Tinha uma multidão de fãs no aeroporto esperando a gente — Brian foi contando — muita gente mesmo Chrissie, com faixas, fotos nossas, desenhos, nossos discos, eu cheguei a estranhar quando me pediram autógrafo. Sabe, a gente é... Famoso aqui. É bom, mas...

—Você não sabe muito bem como reagir? — deduzi o que meu marido estava sentindo.

—É, bem isso, estou aprendendo a lidar com isso — confessou ele — e nós nem ainda nos apresentamos.

—Não? Ah é, fuso horário — me lembrei — então boa sorte no show, fala pros meninos que eu disse oi, e pede ajuda pro John pra dar um jeito no Freddie e no Roger, caso eles aprontem alguma coisa.

—Ah, pode deixar, por enquanto eles não fizeram nada... — Brian riu — eu vou deixar você descansar agora, tá? Eu te amo Chrissie, tchau.

—Te amo, tchau — eu desliguei e fiquei mais aliviada por ter conseguido falar com ele.

Nos dias seguintes, acabei dormindo no sofá, pra não perder nenhuma ligação de Brian, que me contava mais como eram as coisas e os fãs no Japão. Então minha espera finalmente acabou, quando Brian me contou a data e a hora em que eles voltariam pra casa.

Estava ansiosa no aeroporto, sem tirar os olhos do céu. Já Mary e Veronica conseguiam estar mais calmas. Parece que eu sempre era a mais emotiva das três. Veronica percebeu meu nervosismo e me trouxe um café como consolo.

—Você precisa relaxar um pouco — aconselhou ela.

—Eu sei, mas eu não consigo... — lamentei, tomando um gole de café logo em seguida.

—Parece que vamos esperar em aeroportos muito mais vezes agora — Mary se levantou e ficou ao meu lado.

Ela já tinha se acostumado com a fama crescente do Queen, com a ausência deles, embora não fosse fácil, mas eu... nada na minha vida tinha me preparado para momentos assim. Respirei fundo para encarar mais essa mudança.

—Eu sei — apenas concordei, pensativa.

Tentei me distrair um pouco, não focando na espera em si, prestando atenção no que estava passando nos monitores do aeroporto. Foi então que reconheci o avião que pousava, o Queen estava de volta à sua terra natal.

Me contive pra não ir correndo ao encontro de Brian, mas mesmo eu ficando parada, eu percebi ele apressando seus passos até mim. Ainda assim, John, Roger e Freddie chegaram primeiro até nós.

—Como vocês fizeram falta! — eu os abracei depois que eles cumprimentaram Mary e Veronica — não fazem ideia do quanto eu amo vocês, meus meninos!

—Ah também senti sua falta, mãe — brincou Roger.

—Eu sei que eu falei igual uma mãe, mas é sério — me justifiquei.

—Você me ama também, né? — meu marido surgiu atrás dos amigos.

—Brian! — gritei seu nome sem querer e eu o abracei com força, enquanto ele me tirava do chão.

—Oi Chrissie... — ele me disse depois de me soltar.

—Eu te amo tanto que, olha só! — mostrei minha aliança pra ele — eu casei com você!

—Ah não gente, já vão começar? — Roger reclamou da nossa demonstração pública de afeto.

—E agora você sabe exatamente como a gente se sentia uns anos atrás aí... — Brian deu de ombros, satisfeito com sua vingança inesperada.

—Depois vocês tem que contar essa história pra gente — pediu John.

—Desencana Deaky! — Roger o empurrou de leve.

—Não sei vocês crianças, mas tudo que eu quero agora é dormir pelo menos um dia inteiro — Freddie cortou, e assim nos despedimos um dos outros, já que os meninos estavam mesmo exaustos.

Vê-los brincando daquele jeito me ajudou a matar a saudade deles de imediato. Mas realmente, Mary tinha razão, eu teria que me acostumar com o fato de eles viajarem e estarem fora por um tempo, já que a fama do Queen tinha chegado do outro lado do Atlântico. Dessa vez eles tinham conseguido uma turnê nos Estados Unidos.

Antes dos meninos viajarem, não foi só a nova turnê que comemoramos, mas também o noivado de Freddie e Mary.

—Eu bem que desconfiava já fazia um tempo — disse a eles — mas me admira sr. Mercury, o senhor insistir tanto pra que o Brian me pedisse em casamento na frente de uma multidão e quando chega a sua vez, faz isso bem discretamente...

—O que eu posso fazer? — Freddie deu de ombros, meio que sei saber o que responder — eu já estava pensando nisso por um tempo, o momento certo surgiu e eu não podia deixar passar...

—Sei... Acredito em você — parecia descrença, mas eu realmente acreditava nele.

Uma das coisas contraditórias no Freddie era ser extremamente extravagante no palco, cheio de presença e confiança, mas com a gente ele chegava até ser tímido e discreto dependendo da situação. Esse era seu verdadeiro eu, que só a gente conhecia.

Na hora de se despedir quando chegou o dia deles irem, consegui lidar melhor com tudo, eram mudanças difíceis, mas eu sei que eram consequências de coisas maravilhosas. Não que eu não estivesse acostumada com Brian viajar para fazer um show, mas uma turnê oficial passando meses fora, tinha uma proporção muito diferente. De qualquer forma, eu também era a esposa do guitarrista do Queen, e sempre entendi essa parte da vida dele.

Assim como quando estava no Japão, Brian sempre me ligava quando podia, me contando sobre o pouco que conhecia de cada cidade em que passavam.
Numa tarde, atendi o telefone, achando que era mais uma ligação do meu marido.
Antes que falasse alguma coisa, só ouvia Roger soluçando num choro que ele mal conseguia controlar. Meu coração ficou imediatamente aflito.