Pelo Olhar de Chrissie
50 Conhecendo Bobby
Era um fim de tarde numa quarta feira, eu e Brian assistíamos às reprises de Doctor Who na TV, quando o telefone tocou. Brian se prontificou para atender, mas antes fez um pedido.
—Me conta o que aconteceu depois — ele não desgrudou os olhos da tela da televisão, até não poder olhar mais.
Ele realmente amava Doctor Who e não perdia nenhum detalhe só pra ver se suas teorias sobre o programa estavam certas.
—O que? — ouvi Bri surpreendido ao telefone — sério? Ai meu Deus! Não, não, vou avisar a Chrissie, já estamos indo.
Sem nenhum tchau ou outra despedida, ele encerrou a ligação.
—Chrissie, se apronta rápido! — ele me pediu, animado e com pressa — Veronica entrou em trabalho de parto. John me ligou do hospital, todo mundo tá indo encontrar com eles lá.
—Tá, tudo bem — me levantei e logo também fiquei animada.
Enquanto me arrumava, não pude conter a emoção que surgiu. Eu lembrei do dia em que John e Veronica deram a notícia, estavam tão nervosos e com medo, e conforme o tempo foi passando, começaram a se acostumar com a ideia e a ficarem ansiosos com o dia em que conheceriam seu filhinho.
Além de estar feliz por eles, eu sempre gostei de crianças, e às vezes ficava me imaginando como seria como tia, já que pensar em ser mãe ainda me dava medo. Por enquanto, estava contente por ajudar a cuidar do nosso pequeno novo membro da família.
Entramos no carro e Brian dirigiu com pressa conforme o trânsito permitia, mas com todo cuidado.
—Acredita que eu tô nervoso? — me confessou meu marido — não sei bem porque, talvez seja a preocupação, mas vai dar tudo certo...
—Claro que vai — Eu sorri — se tem alguém que consegue lidar com uma situação assim é o John e a Veronica.
—É, John tem sempre a cabeça no lugar, mas ainda assim, controlar a emoção é quase impossível — comentou Brian.
—Ninguém precisa controlar a emoção numa hora dessas, deve ser tão... — não tinha palavras pra expressar.
Eu e Brian estávamos fazendo esse mesmo exercício de nos colocar no lugar de Veronica e John, e sem querer, surgia no ar a questão de quando teríamos nossos próprios filhos. Ainda não me sentia totalmente confortável com a ideia, ponderava tantas coisas que eu achava que ainda tinha que mudar na minha vida, e em como criaria uma criança. Por mais que uma partezinha dentro de mim começou a desejar isso, outra parte maior me lembrava de tudo o que ainda me preocupava.
Eu fiquei distraída nos meus pensamentos, mas notei Brian me observando. Nós trocamos um olhar, era como se estivéssemos discutindo a questão novamente. E eu notei Brian relutantemente não insistir em conversar sobre isso.
—Vamos descobrir em primeira mão daqui a pouco — ele acabou completando minha frase, dando um sorriso tímido.
Liguei o rádio do carro para distrair os pensamentos de novo, e até chegarmos no hospital, Bohemian Rhapsody tocou entre as outras músicas, o que nos fez sorrir.
Entramos rapidamente à procura de John, ele estava na sala de espera, Freddie e Roger conversavam com ele, e Mary e Dominique entre si.
—Faltou quem chegava, literalmente! — brincou Roger ao nos ver.
—É, desculpe a demora — Brian justificou — como a Veronica tá, John?
—Faz quase uma hora que ela entrou, mas disseram agora há pouco que está tudo bem, que costuma demorar às vezes, mas ela e o bebê estão bem — John explicou e depois deu um suspiro.
—Vai dar tudo certo — eu o assegurei mais uma vez.
Deaky estava aguentando bem a expectativa, mas era claro que ele estava preocupado. Todos estavam, na verdade, acho que aquela era a primeira vez que passávamos por uma situação daquelas, então era tudo muito novo e confuso, só sei que no fim, estaríamos felizes, chorando, rindo e se abraçando, e querendo abraçar o bebê. Eu sei, parecia exagero, mas era bem assim que a nossa turma era.
Um pouco depois, uma enfermeira veio chamar John. Ele a seguiu, e começou a demorar a voltar.
—O que será que foi agora? — me perguntei em voz alta.
Brian apenas me puxou pra mais perto dele, como sempre fazia quando estava preocupada.
—Essa espera também está me matando... — murmurou ele — é ruim demais não nos contarem o que está acontecendo...
—Isso é um pensamento negativo, Brian? — questionou Freddie — não acredito que logo vocês, estão desse jeito.
—É que... — hesitei — não temos ideia do que tá acontecendo.
—Eu digo o que tá acontecendo — Freddie olhou bem pra mim — bebê Deaky está chegando, e ele mal pode esperar pra conhecer os tios e as tias.
—Pensei que não conseguia se ver como tio, Freddie — comentou Dominique.
—No começo a ideia pareceu meio estranha pra mim, mas aí eu lembrei que um dia a Kash também pode ter filhos, então os filhos de vocês vão ser o meu treino — resumiu Mercury.
—Calma aí que é meio cedo pra isso — Roger já foi se defendeu.
—Talvez pra vocês, mas pra outro casal... — entendi a indireta de Freddie.
—Gente! — não aguentei — dá pra mudar de assunto?
Como que por um milagre pra me salvar do meu constrangimento, John finalmente voltou.
—Ei, seus encrenqueiros — ele se aproximou, percebendo uma tensão entre nós — venham conhecer meu filho.
Nós então enchemos o quarto de Veronica, Roger e Freddie foram os primeiros a se aproximar do bebê, bem como duas crianças curiosas. Eu, Brian, Mary e Domi ficamos admirando o pequeno Deacon à distância.
—Olha só, Robert — Veronica murmurou para o bebê — essa é a parte Queen da família.
Nós sorrimos ao ouvir como ela nos descreveu. O pequeno Robert estava acordado, tinha os olhos claros da sua mãe, e no geral, lembrava mais Veronica do que John. Ele olhava pra nós com curiosidade, como se tentasse decifrar quem era aquele povo todo.
—Robert? Sério que vão chamar o bebê Deaky de Robert? — Freddie fez essa objeção.
—É o nome dele, Freddie — John revirou os olhos — ou achou que ia chamar ele de bebê Deaky pra sempre?
—Não, claro que não — negou Mercury — se chamar os dois de Deaky confunde todo mundo. É que Robert é chato demais! E nome de adulto, olha pra ele, é só um bebêzinho, tão pequenininho, merece um apelido condizente com isso, então pra mim, ele é o Bobby, Bobby Deacon.
—É, Bobby não é tão ruim — Veronica acabou gostando — achei que ia inventar um nome pior.
—Até você, meu amor? — John soou incrédulo, mas sua esposa apenas riu.
—Eu nunca daria um apelido ruim a alguém tão precioso quanto o Bobby — declarou Freddie.
—Tudo bem então — John aceitou, já acostumado com o jeito do amigo.
Nós revezamos para pegar o bebê, e quando chegou minha vez, confesso que morri de medo. Ele era tão frágil e eu tinha que ser tão cuidadosa. Fiz muito esforço para equilibrar Bobby nos meus braços, sem me mexer de forma brusca.
—Oi Bobby — eu estava encantada — é a tia Chrissie, a mesma que encheu sua mãe de pão de ló e broncas pra ela se cuidar por causa de você. É muito bom te conhecer...
Brian ficou me olhando enquanto conversava com o bebê, mas não me olhava como se eu fosse maluca. Era aquele seu velho olhar apaixonado, que sempre me constrangia.
—Queria ter trazido minha câmera pra tirar uma foto desse momento... — Brian se explicou.
—Bom, depois que Bobby for pra casa, podemos tirar uma parecida com essa — sugeri.
Meu marido sorriu concordando comigo. Ficamos mais um pouquinho, então nos despedimos dos Deacon, deixando eles descansarem e sossegados um pouco.
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