Pelo Olhar de Chrissie
47 Confissões
Depois dessas ocasiões infelizes, não consegui evitar entrar em parafuso. De uma forma lenta, mas impactante, me sentia triste, com medo e abalada. Ao pensar que toda vez que ia a um show ou estava envolvida com algo que estava relacionado ao Queen me tornava um alvo de críticas maldosas ou completamente desrespeitada ou ignorada, me fez querer evitar participar dessa parte da vida dos meninos.
Ir ao estúdio era a atividade do Queen mais segura pra mim naquele momento e eles não estavam gravando agora, o que significava que estavam ocupados com entrevistas e shows. Eu até acompanhei algumas entrevistas, mas estar na presença da mídia, me lembrava das matérias maldosas, que julgavam sem dó nem piedade, sem se importar que estavam falando de um ser humano com sentimentos reais.
Comecei a recusar quando Brian me pedia pra ir com ele à televisão ou à rádio. Quando ele perguntava o motivo, dizia que estava ocupada com projetos da escola, o que era verdade, mas não a verdadeira razão de eu não querer ir.
—Não está se sobrecarregando demais, está? — perguntou o meu marido, depois de tantas recusas com a mesma desculpa.
—Não, não, claro que não — consegui sorrir com sua preocupação por mim — só tem ocupado boa parte do meu tempo, só isso...
— Só isso mesmo? — ele ergueu uma sobrancelha, ainda querendo confirmar que eu estava bem.
— É! — sorri, e suspirei, me sentindo sem graça, e colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha — não se preocupa tanto com isso, tá? É só trabalho.
—Ok — consegui convencê-lo, pelo menos naquele momento.
E então comecei a ir embora dos shows mais cedo. Aos primeiros acordes de God Save the Queen, que os meninos sempre tocavam pra encerrar suas apresentações, saía do nosso camarote, usava as saídas de emergência para sair do lugar em que estávamos, pegava um táxi e ia pra casa.
A primeira vez que fiz isso, Brian estranhou demais.
— Tá tudo bem, meu amor? — ele perguntou de mansinho, enquanto estava deitada.
—Eu não me senti bem e achei melhor vir pra casa — improvisei outra desculpa esfarrapada.
—Tá sentindo alguma coisa? — Brian continuou preocupado.
—Não, não... — neguei — acho que foi só cansaço mesmo.
—Entendi, então descansa, amanhã a gente se fala — ele beijou minha testa e me deixou um pouco sozinha.
Eu queria gritar, abraçar ele, pedir pra não me deixar sozinha, mas eu não queria incomodá-lo. Acabei pegando no sono e, no dia seguinte, continuei minha velha rotina. Graças a Deus o que continuava fazendo parte dela era nossas reuniões em casa, o que sempre me deixava feliz e me fazia esquecer todos os problemas e preocupações. E era o meu lembrete preferido de que os membros do Queen não eram o que a mídia falava, eram pessoas normais, homens maravilhosos, os membros da minha família. Assim como as meninas que, mesmo sem eu falar nada, começaram a me dar abraços mais apertados e contar histórias engraçadas com muito mais frequência.
—Não, eu confesso que eu ri — declarou Dominique diante de todos nós sobre ver o clipe de "I'm in love with my car".
—Quando eu fui ver porque ela ria tanto, eu nem acreditei — Roger deixou claro seu desapontamento.
—Mas... — Beyrand começou a rir de novo — quando você imagina um carro no lugar de uma namorada... Por exemplo, como você abre a porta do carro pra ela sair, se sua namorada é o próprio carro? Vai sair de mãos dadas com o carro encostando no capô dele? Não vai precisar de outra pessoa dirigindo? Essa pessoa não vai ser a vela do encontro?
—Vocês vão me caçoar o resto da vida por causa disso, né? — Roger perguntou ao grupo — quer saber, pode rir gente, já entendi que vocês não entendem minha lógica, já acostumei...
E a frase de Roger foi a deixa pra todo mundo rir, até ele mesmo.
No entanto, por mais que ainda tinha esses momentos alegres e descontraídos, meu medo e angústia nunca desapareciam por completo. Continuei saindo cedo dos shows e evitando as entrevistas. Às vezes, até evitava ver Brian compondo novas músicas.
Numa das minhas escapulidas de fim de show, Jim Beach interveio antes que desse início a minha fuga.
—Desculpa perguntar, sei que posso soar curioso, mas acredite é só preocupação — ele foi se justificando — está tudo bem, Chrissie? Tem algo que eu possa fazer?
—Só estou cansada sr. Beach — dei minha resposta pronta e meu sorriso tímido — diga ao Brian que eu estou bem, só precisei ir mais cedo, por favor.
—Está bem — ele percebeu que estava com pressa e me deixou ir.
Ao perceber que meu marido tinha chegado em casa, antes que Brian viesse perguntar o que eu tinha, fingi que estava dormindo. Ao sentir que ele me abraçava ao se deitar ao meu lado, me dava vontade de chorar, mas me segurava. Eu não queria contar o que estava acontecendo, seria como culpá-lo por minha tristeza, como se o sonho realizado dele tivesse dado vida aos meus pesadelos.
E continuei fugindo e fingindo dormir, dando a desculpa do trabalho e do cansaço, até Brian notar o quanto eu estava ausente quando se tratava de algo relacionado ao Queen. Então foi numa noite, depois de nos despedirmos de todos em mais uma reunião na nossa casa, que tive que enfrentar o que mais temia.
—Chrissie, vem aqui, por favor — Brian me chamou à sala, com toda delicadeza possível, mas muito sério, o que me deixou com medo.
Me aproximei devagar e trêmula, sentando ao lado dele no sofá, mas não conseguia olhá-lo nos olhos. Algo que sempre fiz, que sempre me fazia sentir tão segura e amada, e meu medo me deixava incapaz de fazer isso.
—Por favor, não precisa ter medo — agora Brian usou o tom de voz que usaria com uma criança — só quero entender o que tá acontecendo com você... Você não está bem, já faz um tempo, e não sei porque não quer me contar. Eu fiz algo errado?
—Não, não... — e quando vi já tinha desatado a chorar — pelo amor de Deus não se culpe pela minha tristeza, você não tem culpa de nada Bri, você é maravilhoso! É só que... Eu não quero contar porque eu vou te magoar e eu nunca vou querer te machucar...
—Espera, mas se eu sou tão maravilhoso assim, por que te daria um motivo pra me magoar? — sua voz se alterou um pouco, o que voltou a me assustar.
Eu só chorava enquanto ele me encarava sem saber o que fazer.
—Chrissie, para de chorar — Brian tentou, mas mesmo não sendo áspero, suas palavras doeram — para de chorar...
Eu não conseguia, me deu vontade de sair correndo e me trancar no meu quarto. Foi então que meu marido me abraçou, tão apertado, mas tão gentil, acariciando minha cabeça.
—Calma, calma... — murmurou ele — desculpa pelo que eu fiz, eu não sei o que foi, mas desculpa...
Senti minha respiração voltar ao normal, meu coração desacelerou, e consegui olhar pra ele de novo. Seu olhar transbordava amor, compreensão e preocupação. Brian aproximou uma mão do meu rosto, com medo que eu rejeitasse seu toque ou que eu quebrasse. Peguei sua mão e levei ao meu rosto.
—Consegue me contar agora? — perguntou ele baixinho.
Assenti, enxugando as lágrimas e o nariz, respirei fundo.
—Não me leve a mal pelo que eu vou falar, só... — hesitei, fechando os olhos — só se coloca no meu lugar, tá bem?
—Entendi — ele suspirou, pronto pra me ouvir.
—Brian, eu amo você, de todo coração — confessei sincera — e se perguntar porque é porque você é como eu, entende o meu jeitinho, é inteligente, gentil, bondoso, lindo! Nada disso tem a ver com você ser guitarrista, ser guitarrista faz parte de quem você é, mas não me apaixonei por você por você ser músico. Mas eu também amo seus talentos musicais, me enche de orgulho o reconhecimento que você e os meninos estão recebendo, porque é o sonho de vocês, e vocês merecem, por quem são e por terem trabalhado duro por isso. O problema é que... Serem artistas profissionais de sucesso fizeram vocês ficarem famosos, e com a fama, passei... Por situações difíceis, que nunca imaginei passar, que me traumatizaram. Então às vezes eu penso que se... Vocês não fossem uma banda famosa, teríamos uma vida um pouco mais normal, com a qual eu ficaria mais tranquila. Só que desejar isso é a mesma coisa que pedir que vocês, você desistisse dos seus sonhos por minha causa e isso é errado e egoísta. É isso que eu estava pensando, desde quando você ficou internado, e eu não queria dizer porque ia magoar você e os meninos demais.
Brian ficou em silêncio por um momento, mas então me deu outro abraço, apenas me deu um espaço para olhar pra ele, mas seus braços ainda estavam em torno de mim.
—Você não pensou nada de errado — ele falou calmo, com os olhos fixos nos meus — eu e os meninos também entramos em parafuso com essa história de fama, e eu também fico muito incomodado com certas coisas que acontecem por causa dela, mas eu estou começando, bem no comecinho, a lidar com tudo isso, entender que já que eu quero ser guitarrista do Queen, também vou ter que aceitar as críticas e os fãs sem noção. E é bom você ter falado porque se apaixonou por mim, por quem eu sou de verdade e não só por quem pensam ser o guitarrista do Queen.
—Você me perdoa? — ainda me sentia culpada — porque eu também sei que tenho que entender esse lado da sua vida, que vou ter que deixar de lado os medos pra ser a esposa do guitarrista do Queen.
—Como eu posso te perdoar se não fez nada de errado, meu amor? — ele sorriu — de certa forma, também já pensei no que você pensou. Apenas, vamos aprender a lidar com isso juntos, sem esconder mais nada um do outro. Promete?
—Eu prometo — eu consegui sorrir de volta — obrigada por me entender Bri... Como eu te amo por isso!
— Não esqueça que eu também te amo, Chrissie... — Brian fez um carinho na minha cabeça — vem, vamos descansar um pouco, tá?
—Tá — eu me levantei devagarinho, deixando o alívio trazido pela conversa me acalmar.
Nos deitamos e logo adormecemos. Mesmo assim, toda adrenalina da conversa me fez acordar no meio da madrugada, mas eu estava calma. Saí do quarto, subi as escadas do sótão devagar e olhei para o céu pela janela. Quase não havia estrelas, mas a lua cheia brilhava, forte e linda. Meio sem graça, fixei meu olhar naquela imensidão sobre mim.
—Deus? — comecei uma oração, meio incerta — hã... É a Chrissie Mullen... Chrissie May... Eu sempre agradeço por colocar o Brian na minha vida, mas hoje eu quero agradecer ainda mais. Às vezes eu não acho que o mereça, mas... eu acho que se os meninos formaram a banda, é porque era o Seu plano pra eles, então, me ajuda a ajudar eles, a apoiar, a cuidar, a não me importar tanto com as coisas ruins, e continuar sendo uma boa esposa pro Brian, não importa qual seja seu trabalho, porque eu amo ele demais... Amém.
Voltei ao quarto com o coração totalmente aliviado. Antes de me deitar com cuidado, dei uma olhada no meu marido, dormindo tranquilamente, e mais uma vez me senti agradecida por eu ser sua esposa.
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