Pelo Olhar de Chrissie
44 Compreensão e Paciência
A noite das meninas havia sido um tremendo sucesso entre nós, e mais noites assim vieram, já que não se tinha uma previsão de quando os meninos voltariam, então, sem eles, pela lógica, só tínhamos encontros com as meninas. Toda essa enrolação nos fazia ficar imaginando o que tinha de tão especial nas músicas do álbum novo e como ele ficaria no final de tudo.
Variamos um pouco os lugares onde marcávamos nossos encontros, um pouco no apartamento dos Deacon, depois no apartamento de Mary e Freddie, no apartamento de Dominique e no lugar de sempre, a residência dos May, minha casa.
Estávamos assistindo a Os Apuros de Cleópatra dessa vez, quando o telefone tocou. Levantei para atender e não pude conter meu sorriso ao ouvir a voz do meu doce astrofísico.
—Tô atrapalhando, Chrissie? Só deu pra ligar agora... — ele parecia cansado.
—Você? Nunca — respondi do jeito que ele sempre me falava quando o encontrava ocupado — mas me fala, como tá tudo aí, e os meninos? E as gravações?
—Bom... — meu marido riu do meu entusiasmo — estamos bem, eu só ralei o joelho mais cedo jogando tênis, ardeu um pouco, mas já cuidei disso. Já os meninos... Freddie tava meio chateado e pensativo, mas acho que é por causa do álbum, ele tá com essa ideia de ópera na cabeça e... Acho que nem ele sabe direito o que quer, estamos experimentando. John fala muito no bebê e o Roger...
Nisso, Brian começou a rir sem parar, o que me deixou confusa.
—Meu amor, você tem que me contar o que foi pra eu entender porque você tá rindo desse jeito — constatei e Brian se acalmou um pouco.
—A Dominique tá aí? — por um momento achei que Brian estava desviando do assunto — chama ela que ela precisa...
Houve um chiado e uma gritaria e finalmente um Roger muito bravo do outro lado da linha.
—Não faz isso, Chrissie! — ele pediu, ainda irritado com Brian — Não vou deixar que Brian tire onda com a minha cara pra minha namorada.
Desse jeito, eu até achei melhor eu contar pra Dominique o motivo dessa discórdia toda.
—Certo, então, me conta você o que tá acontecendo porque o Brian não vai conseguir, pelo jeito — acabei achando um jeito de acalmar Taylor.
—Eu escrevi uma música sobre um carro, mas é uma metáfora, eles não entendem que não é pra levar ao pé da letra — Roger me explicou com toda paciência.
—Tá ok, mas como é o nome da música? — fiquei curiosa.
—"I'm in love with my car" — respondeu ele com orgulho.
Eu realmente me esforcei pra não rir, mas não consegui.
—Não acredito que tá fazendo isso comigo, Chrisse — Roger voltou à irritação — você é uma May mesmo, não entende nada de metáfora igual o poodle gigante aqui.
—Ei! — ouvi Brian reclamar ao fundo e continuei rindo.
As meninas vieram até onde eu estava.
—O que é que tá acontecendo pra você rir tanto assim? — questionou Veronica.
—Ai... — eu suspirei ao parar de rir, sentindo a barriga doer — só nossos meninos sendo meninos.
—Ainda tá aí, Chrissie? — Brian retornou ao telefone.
—Tô sim, Bri, eu e as meninas — olhei pra elas.
—Certo, John e Freddie estão na fila pra falar com Veronica e Mary, a Domi vai ter que esperar o Roger se acalmar — meu marido explicou — então eu vou ter que me despedir agora, tchau, se cuida, eu te amo, muito!
—Também te amo Bri — sorri — tentem não se matar.
—O que foi que aconteceu? — Mary perguntou dessa vez, mais curiosa do que preocupada.
—Hã... Só o Roger fazendo confusão por causa de uma música — falei meio por cima — toma, talvez o Freddie te conta mais, ah e Veronica, John vai falar com você depois.
Passei o telefone pra Mary e nós três voltamos pra sala.
—Já sei, não gostaram da música dele, né? — adivinhou Domi — confesso que o Rog tem uns problemas de composição e temperamento.
—E como consegue lidar? Em todos esses anos, eu tento contar até dez quando ele faz drams- confessei.
—Deixo ele falando sozinho até perceber que não tem motivo pra ficar bravo — Beyrand deu de ombros — ou se eu contrario ele, faço a mesma coisa, só volto a conversar com ele depois que ele volta a se acalmar.
—Bom, talvez nesse caso, eles mereçam um desconto — Veronica sugeriu — estão trabalhando sobre pressão e têm que fazer um álbum extraordinário pra gravadora ficar satisfeita.
—É, tem razão — acabei concordando.
Fazer algo sob pressão, até mesmo algo que se amava fazer, podia deixar qualquer um com os nervos à flor da pele, especialmente quando se tratava de quatro músicos tão diferentes um do outro.
—Veronica? — Mary a chamou indicando que era sua vez de usar o telefone.
A sra. Deacon então foi atender o marido.
—Poxa, o Freddie tá cansado de um jeito que eu quase nunca vejo — Mary contou — ele tá se esforçando tanto que acho que vem mais um sucesso por aí...
—Tomara — desejou Dominique — vai ser a recompensa por ficarem tanto tempo isolados.
—É... — tentei concordar, mas discordava em parte.
—Ih, conheço esse tom de voz... — Austin se preocupou comigo — que foi, Chrissie?
—Bom, é que, sabe, nós somos namoradas e esposas dos membros do Queen, e tipo, eles tão ficando cada vez mais famosos — tentei desabafar — e... O que isso faz de nós? Já aconteceu alguma situação desagradável por causa disso com vocês? Digo, o corretor que nos vendeu essa casa, quase reconheceu Brian, e nós dois ficamos sem graça com isso.
—Eu sei o que quer dizer — Mary me respondeu — às vezes é surreal acompanhar os meninos num show, ver eles sendo ovacionados , e no dia seguinte, voltar a ser uma simples atendente na loja.
—Isso é diferente comigo — Dominique opinou — às vezes uns artistas e outros assistentes mal intencionados me acham interesseira ou aproveitadora por namorar alguém da mídia que conheci no trabalho, mas eu sei como tudo aconteceu de verdade, que eu e o Roger nos amamos de verdade, não pela nossa profissão, mas por quem somos como pessoas.
—É, me sinto assim também — falei enquanto Veronica voltava à sala — quer dizer, nós conhecemos eles de verdade, quem eles são além de músicos.
—E é por isso que eles são nossos meninos — a sra. Deacon entendeu o assunto — nós conseguimos ver além do baixista, ou guitarrista, ou baterista, ou vocalista. E temos que entender que eles também são o Queen. Soou confuso, mas vocês entenderam?
Nós três assentimos.
—Só temos que ter compreensão e paciência — Mary resumiu.
—Compreensão e paciência — repeti, sentindo um pouco de conforto — por amor a eles.
—É isso aí! — confirmou Dominique com um sorriso.
O telefone nos interrompeu outra vez e ao atender, vi que era Roger. Pedi desculpas a ele por ter rido da sua música e entreguei o telefone a Dominique. Voltei à sala tentando me concentrar no filme, mas meu pensamento foi pra outro lugar. Enquanto me lembrasse que Brian me amava e era meu querido marido, tinha certeza que ficaria tudo bem.
Fale com o autor