Pelo Olhar de Chrissie

20 As mudanças de Freddie


O show que marcou o retorno do Smile a se apresentar trouxe uma repercussão inesperada e surpreendente, bom pelo menos, pra mim e pros meninos, mas não pro Freddie, que tinha subido o palco naquela noite com a certeza que faria todo mundo que os visse ficar de queixo caído, e olha, como testemunha ocular do que aconteceu, tenho que admitir que ele estava super certo.

Então, depois desse show, as oportunidades para os meninos tocarem se multiplicaram. Praticamente quase todas as noites, eles tinham um show em alguma faculdade ou bar em Londres, isso sem tirar os corriqueiros fins de semana em que iam para outra cidade, nas redondezas da região metropolitana da capital, ou até um pouquinho mais longe. Eu ia aos shows conforme a faculdade me deixava, o que foi ficando cada vez mais difícil por ser meu último ano e eu estar muito atarefada, mas sempre que podia ir, eu ia e sempre estava pronta para dar apoio moral à banda quando eles precisavam.

Por causa dessa popularidade crescente do Smile, Freddie decidiu fazer umas sugestões. ou quem sabe tomar algumas decisões pela banda, dependendo do ponto de vista, que no início, assustaram um pouco a mim e aos meninos.

Nós estávamos no apartamento de Roger, (o mais espaçoso de todos os apartamentos da nossa turma porque sua bateria precisava do espaço, o que não quer dizer que o apartamento era enorme, só um pouquinho maior), meio aconchegados no único sofá e puffs espalhados, Mary e Veronica também estavam presentes, quando o vocalista se pronunciou.

—Tem algo que eu tava pensando, gente — ele começou falando como quem não quer nada, mas ainda assim ele chamou nossa atenção — estamos aos poucos deixando de ser uma bandinha de segunda pra ser alguma coisa mais... significativa. E nós devemos fazer jus à nossa própria significância.

—Essa nem o Bri entendeu — Roger riu, apontando para a cara confusa do meu namorado.

—Traduz, por favor — John foi irônico.

—Nosso visual tem que mudar, estamos sempre no mesmo estilo, e estamos meio fora de moda e apagadinhos, Deaky e Brian são sempre certinhos demais, Rog... até que dá pro gasto... — Freddie foi apontando os amigos.

—Certinho? Certinho? — Brian repetiu, num tom de reclamação, imitando Freddie — cara, certinho seria todos usarmos terno e gravata e isso a gente não faz. Pergunte aos nossos pais se eles aprovam nosso estilo pra fazer um show, acho que essa é a maior prova que você precisa pra ver que não somos tão certinhos, assim.

—Eu sei, eu sei disso — Freddie aceitou a crítica, pelo menos no momento — mas dá pra ser um pouco mais... extravagante! Impressionar antes mesmo de cantarmos e tocarmos.

—Agora fiquei com medo... — murmurou John.

—Não tem nada que temer, meus queridos! — Freddie garantiu e ele trocou um sorriso confidencial com Mary, como se os dois estivessem guardando um segredo só deles.

—Então aquela mala gigante que vocês dois trouxeram era isso? — Roger apontou para os dois. e Freddie foi até o quarto do dono da casa.

—Que mala? — eu perguntei.

—Mary e Freddie chegaram antes de vocês, trazendo uma mala enorme, perguntei o porquê, até falei que não estava recebendo hóspedes, e aí perguntei o que tinha nela, e Fred aqui me proibiu de perguntar, ou olhar dentro, disse que era uma surpresa... — o baterista explicou, numa voz pouco satisfeita.

—E eu só estava esperando por esse momento — Freddie posicionou a bendita mala bem no meio da sala e esfregou as mãos, claramente animado.

Logo em seguida foi distribuindo os figurinos que ele tinha pensado para cada um dos companheiros de banda. John, Brian e Roger fizeram variações da mesma expressão ao receberem o "presente": "que troço é esse?". Por vergonha e por respeito às damas presentes, os quatro se apertaram no quarto de Roger para se trocar. Freddie se juntou a eles, é claro que ele já tinha pensado no que iria usar pra combinar com o resto dos amigos.

—Isso vai ser... interessante — Veronica comentou enquanto esperávamos.

—Ou engraçado — acrescentei.

—Talvez os meninos não gostem, mas até que Freddie tem razão no porquê mudarem o visual — Mary nos disse.

Foi então que eles surgiram, uma mistura de brilho, batas, correntes, calças boca de sino e sapatos plataforma. Eu tentei de verdade não rir, mas senti minha cara inchar e ficar vermelha, até que deixei escapar, pro desespero de Brian.

—Chrissie, não faz isso comigo... — ele disse, fingindo estar magoado.

—Não culpa ela, Brian, culpa o Freddie — Roger deu um tapinha no braço dele.

Falando em Freddie, ele usava um macacão colado e tão brilhante que doía os olhos se olhasse demais pra ele.

—Não reclamem e vão se acostumando — recomendou o vocalista, sem perder o ânimo.

—Você nem perguntou se a gente queria — apontou John — nem pediu por favor.

—Por favor... — Freddie se inclinou dramaticamente em frente os companheiros de banda e se levantou com uma rapidez incrível — vão se acostumando. Ah, tem outra coisa! Além do figurino, também temos que nos preocupar com cabelo e maquiagem.

—Eu não vou cortar meu cabelo — Roger objetou — estou deixando crescer.

—Era exatamente o que eu ia sugerir Rog — concordou Freddie — e Brian, em particular, vai ter que parar de alisar o cabelo.

—O que? Por que ? — meu namorado suspirou de frustração — por que eu? Trocou de lugar com o Roger pra implicar comigo? Já viu meu cabelo sem alisar? É uma tragédia...

Ok, agora Brian estava sendo muito dramático. Eu sabia que ele alisava o cabelo, mas nunca tive curiosidade de saber como ficaria natural.

—Acredite em mim, vai ficar bom — surpreendentemente, Freddie disse isso ao meu namorado com toda paciência e gentileza.

Eu olhei pra Brian, tentando enfatizar o que Freddie disse. Bri olhou de volta pra mim, desolado, sem saber o que fazer, aceitar as mudanças ou dizer não e brigar com Freddie. Acho que o meu olhar já expressava o que pensava, mas senti a necessidade de dizer em voz alta.

—Eu te amo de qualquer jeito — assegurei Bri, e minha fala provocou uns "owwwwwnnnnn" do pessoal.

—Por você, meu amor, e pelo bem da banda, eu tento — Brian acabou aceitando, mas disse isso mordendo o lábio, claramente ainda incomodado.

Os meninos se trocaram de volta aliviados, e Freddie, sem pensar em poupar os amigos de tantas emoções numa noite só, ainda tinha outra bomba pra soltar.

—Eu sinto muito por assustar vocês com o figurino, mas tem outra coisa, gente... — ele anunciou.

—Ah não... — John lamentou um pouco alto demais.

—Não dá mais pra chamar a banda de Smile — Freddie prosseguiu, ignorando Deaky — querendo ou não esse nome remete à formação antiga e agora, somos uma banda nova, não é?

—É, até que faz sentido — disse Brian, mais calmo agora.

—Ainda bem que é só isso, achei que era alguma coisa mais dramática — comentou Roger.

—Cuidado pra não falar cedo demais Rog — John acrescentou, já esperando por mais surpresas.

—Quero que a banda se chame Queen — despejou Freddie, decidido.

—Queen? Tipo, rainha? A Rainha Elizabeth? — Brian questionou, e sua irritação voltou.

—Nem vem cara — Roger cruzou os braços — esse nome é muito nada a ver.

—Não gostei — John adicionou timidamente.

—Não, não, tem tudo a ver com o que eu disse sobre nosso nome, nossa aparência chegar antes de nós — Freddie bateu o pé, literalmente, sem pestanejar em mudar de ideia — Queen é clássico, elegante, e atiça a curiosidade do povo! É isso que precisamos no momento em que estamos, num sucesso crescente!

—Agora ficou difícil argumentar contra — o baixista deu de ombros.

—Gente, o que me dizem? — Freddie olhou pros meninos com aquele mesmo olhar de expectativa, de aprovação, que eu percebia quando ele estava na nossa companhia.

—E alguém consegue falar não pra você? — Brian foi o primeiro a admitir.

—Já são dois contra um — o vocalista comemorou a vitória parcial.

—Eu topo, fazer o que? — Deaky aceitou.

—Tá bom — Roger revirou os olhos — vamos ver o que vão achar de nós com esse nome.

—Não importa o que achem de nós — Freddie disse agradecido — o que importa é que mesmo no meio da maioria, tem alguém que vai amar a gente.

Nós acabamos comemorando a decisão da banda. Levaria um tempo pra se acostumar com o novo nome e toda a extravagância, mas no meio disso tudo, eu admirava a coragem e a maneira como Freddie enxergava nele e nos companheiros um grande potencial. Eu não amava o Queen só por sua música, mas também por seus membros, todo seu esforço e companheirismo, o que os fez ganhar um lugar especial no meu coração.

Notas finais
Oi pessoal, tudo bem? Deixa eu contar um pouco dos bastidores pra escrever esse capítulo. Na minha cabeça, tinha uma listinha de coisas que tinham que aparecer aqui: os meninos se apresentando muito, o visual rock glam (que me faz rir muito, quem mais ri aí do Queen dos anos 70?), o nome novo, e Freddie e Mary. Freddie e Mary apareceram pouco, mas a interação deles aqui é pra desenvolver o romance, aliás, a aparição dela aqui saiu um pouco fora do filme, porque lá o Freddie conta pra ela depois que mudaram o nome da banda, enfim, licença poética. Outra coisa interessante é o drama do cabelo do Brian, ele mesmo admitiu que queria que o cabelo dele ficasse liso, mas dava trabalho, e ele acabou deixando de cachinhos (sorte a nossa), ah e no filme dá pra reparar que o Brian tá com o cabelo liso na época do Smile, e depois muda bem bruscamente pro cabelo cacheado, então achei legal colocar isso aqui. Ok, agora parei. Até a próxima!