Durante a manhã do dia que os meninos chegariam da viagem à Suíça, esperei com ansiedade em casa, Jimmy e Louisa ainda dormiam enquanto eu me preparava para encontrar com Brian no aeroporto. Tinha sentido tanto a falta dele, não só eu, mas as crianças também. Era a primeira vez que tanto Louisa como Jimmy passavam muito tempo longe dele. Na ausência de Brian, percebi meu garotinho passar as mesmas coisas que eu. Aquele questionamento que formigava por dentro, mas ele tinha medo de dizer. Foi então que uma vez, ele reuniu coragem suficiente pra me contar o que o incomodava.

—Mãe — ele me chamou durante o almoço — por que o papai tem que trabalhar longe da gente?

—Oh meu amor... — foi minha reação imediata, sentindo meu coração apertado — eu sei que tá com saudade, mas é uma coisa que faz parte do trabalho do papai, ele teve que ir dessa vez.

—Mas... ele... — senti a vergonha de Jimmy naquele momento.

—Não tem problema falar, meu amor, pode confiar em mim — disse segurando a mãozinha dele.

—Os pais de outras crianças não precisam viajar por causa do trabalho — disse meu menino — e se papai tivesse um trabalho assim?

Meu Deus, pensei, como ele pode ser tão igualzinho a mim? E o que eu respondo?

—Jimmy, todo papai que trabalha fica um tempo longe do seu filho, isso acontece meu bem, os papais precisam trabalhar, e dessa vez, o seu pai teve que ficar longe, mas logo ele volta, ele prometeu, não prometeu? — falei, com toda ternura possível.

—Prometeu — Jimmy disse entre dentes, ainda chateado.

—E seu pai já mentiu pra você? — continuei.

—Não, mamãe — ele disse com um pouco mais de energia — nunca.

—Então tem que ser paciente — sorri, o entendendo completamente, sentindo o mesmo que ele.

Então assim, quando encontramos Brian no aeroporto, Jimmy foi muito mais rápido que eu correndo ao encontro do pai, eu apenas troquei um sorriso com meu marido, enquanto segurava Louisa no meu colo, ambos aliviados por nos vermos um na frente do outro, tão de pertinho novamente.

—Ei, meu carinha! — Brian ergueu Jimmy e o abraçou, o deixando em seu colo — como você tá?

—Eu tô bem — Jimmy deu um sorriso lindo, tão feliz por finalmente conseguir o que tanto queria nesses dias.

Ao me aproximar dele, antes que nossas palavras se encontrassem, nossos lábios se encontraram, durante tempo suficiente para que eu sentisse vergonha de um beijo em público.

—Oi... — eu suspirei, admirando o lindo rosto do meu marido, com um pouco de cansaço aqui e ali, pela viagem, por algum estresse ao longo dos anos, mas lindo como sempre.

—Oi, nem acredito que estou aqui — ele me deu outro abraço e riu — tudo que eu quero é ir pra casa...

—Nem me fale — concordei e então fomos pra casa.

Apesar do cansaço, Brian estava entusiasmado e, antes que desfizesse as malas, se pôs bem na minha frente, com as mãos na cintura, me olhando animado.

—Bri...? — apenas tentava entender qual era a ideia inusitada dele, agora.

—Chrissie, minha querida esposa Chrissie — ele disse com um ar solene, ainda com as mãos na cintura.

—Sou eu — confirmei, meio suspeita.

—Acabou Chrissie, finalmente acabou! — ele riu e segurou meus braços com cuidado, sem perder o entusiasmo — Hot Space está gravado, mixado, e só falta lançar, mas acabou!

—Parabéns? — tentei, dizendo a melhor resposta que encontrei.

—Eu sei que é exagero, mas eu tô aliviado, sério — Brian tinha se acalmado agora — mas, espera, eu trouxe um presente pra você.

—Presente? — estranhei ainda mais — faz tempo que eu não ganho um presente seu...

Ao ouvir isso, o rosto de Brian se encheu de preocupação genuína, e eu tive que rir.

—É brincadeira, Brian, sabe que eu não ligo pra essas coisas — explique melhor e ele ficou tranquilo, me entregando o embrulho, logo reconheci que era um disco novo.

—Hã... — murmurei ao inspecionar a capa colorida, um desenho simples que ilustrava as feições do rosto de Freddie, John, Roger e Brian — até que ficou bonita a capa, mas eu pensei que nem queria ter uma cópia desse disco em casa, então...

—Não, não é o disco todo — ele explicou — lembra que você queria ouvir "Under Pressure"? É so o single e o lado-B. Agora, põe pra você ouvir.-

—Ok — fiz o que ele pediu, e então nos sentamos lado a lado pra ouvir.

A primeira coisa que chamava atenção era o riff do baixo, marca registrada de John, sem dúvida, e então a canção que começou simples foi ganhando mais peso, não só pela adição dos instrumentos, mas pelo conteúdo da letra em si, era realmente um desabafo, um grito de socorro, um apontamento para problemas que todos tinham e ainda assim ignoravam. Então aos poucos e suavemente a canção se finalizou. Acho que só não chorei a ouvindo porque o ritmo dela não era melancólico.

—O que achou? — perguntou Brian.

—Incrível, definitivamente uma das minhas favoritas, mesmo — dei minha sincera opinião.

Então, nos dias seguintes, voltei ao trabalho com força total, organizando a divulgação de Hot Space, indo aos shows, acompanhando as entrevistas, enquanto Louisa e Jimmy ficavam sob os cuidados de Gracey. Gracey, que por sua vez, finalmente conseguiu fazer a pergunta que queria.-

—Sra. May, eu sei que é meio impertinente — ela começou com seus rodeios de sempre — mas é que, esses dias eu parei pra comprar uns discos e, tinha um que chamava "The Game" da banda Queen, e... olha, definitivamente, um dos músicos da banda é a cara do Prof. May, então, a banda que ele toca é a banda do Freddie Mercury, tipo, o sr. May é super famoso?

—Super famoso, não sei — eu tive que responder a coitada, já que ela parecia tão agoniada com a questão — mas olha, teve vezes que era difícil sair na rua com ele, sem ele ser reconhecido, então é, você não está errada, Brian é guitarrista do Queen, sim.

—Ok... — Gracey só fez uma careta confusa, claramente tentando processar a informação.

—Mas isso não muda nada Gracey, ele ainda é um ser humano normal, tá? — me senti na obrigação de aconselhar.

—É claro — ela assentiu — até porque, sra. May, não consigo associar o Prof. May com uma banda de rock, então da minha parte, tá tudo bem, mesmo.

—Sabia que seria bom trabalhar com você — sorri, tirando mais aquele pequeno fardo da consciência.

Mais tarde, naquele dia, encaramos uma coletiva de imprensa. Às vezes, podia ser um dos meus tipos preferidos de evento ligado ao Queen, quando os jornalistas eram respeitosos e faziam perguntas realmente inteligentes e interessantes. Mas isso acontecia muito raramente, no entanto, o ataque da mídia me ensinava a ser esperta, a antecipar o que diriam, a pensar numa resposta que os deixassem satisfeitos, mas que não entregaria o que os meninos não queriam responder. Mesmo assim, às vezes era impossível fugir de certas questões. Acho que era por isso que ao longo dos anos Freddie acostumou-se a ser muito áspero com certos jornalistas insensíveis. E não foi diferente na conferência de imprensa do álbum novo.

Eu sentei num lugar para observar tudo, meu olhar estava conectado ao de Brian, ele deu um suspiro antes que começassem a fazer as perguntas, e eu sorri, desejando que tudo corresse bem. Mas, nem sempre o que esperamos acontecesse, e os jornalistas atacaram Freddie com todo furor, dispostos a arrancar informações sobre sua vida pessoal. Ao olhar pra ele, percebi que meu amigo se sentia sufocado, tanto no físico como em seu interior. Por mais que Brian tentasse focar na razão pela qual eles estavam ali, divulgar o disco novo (disco que ele ainda odiava, mas estava disposto a falar sobre ele pelo bem de Freddie), não deixaram o vocalista da banda em paz. Sempre sendo nosso herói, Jim Beach encerrou a conferência, dispensando a todos.

Eu vi Freddie ir embora o mais rápido que pôde, parte de mim quis alcançá-lo e consolá-lo, mas eu sabia melhor do que ninguém, que aquele momento ele preferiria passar sozinho. Temi que ele não nos procurasse para sentir um pouco de conforto, depois do bombardeio que havia acabado de sentir.