Pelo Olhar de Chrissie
62 Ajustes
Antes que o ano acabasse, Brian insistiu muito para que fôssemos assistir Star Wars, ninguém sabia ao certo do que se tratava, apenas se dava pra deduzir que era sobre alguma guerra espacial, naves e, bem, basicamente isso.
Eu gostava de ficção científica (ainda lia Júlio Verne sempre que podia), mas não saber muito bem sobre o que era o filme, sinceramente não me fazia criar expectativa.
—Nós temos que ver, temos mesmo! — insistia o meu marido com a empolgação de uma criança — estão prevendo que vai ser o maior sucesso do ano, e que pode até ser um novo fenômeno cultural!
—Ok, ok — assustei um pouco com aquelas previsões — mas não podemos levar o Jimmy, ele é muito novinho pra ir ao cinema.
—Hã, acha que o John e a Veronica cuidariam dele pra nós por uma noite só? — agora Brian tinha vacilado na empolgação, com medo da minha resposta.
— Eu não quero dar trabalho pros nossos amigos — ponderei, mas percebi algo no meu comportamento — desculpa, estou sendo muito chata, nem parece que eu gosto de ir ao cinema, só tô preocupada com o Jimmy.
—Eu sei, eu também, por que acha que prefiro deixar ele com os Deacon em vez do Roger ou do Freddie? — Brian brincou.
—Olha, Bri, vamos fazer o seguinte — impus minhas condições — se Veronica e John aceitarem cuidar do Jimmy, nós vamos, está bem?
—Combinado — ele sorriu, mas logo depois me deu um abraço espontâneo — obrigado, obrigado, te amo!
—Eu também — eu ri e apenas fiquei apreciando sua alegria.
É claro que os Deacon concordaram em cuidar de Jimmy, e antes que eu me despedisse do meu filhinho, ele já estava entretido com Robert, que o tinha chamado pra brincar. Doeu um pouco deixá-lo e ainda mais ele nem ter ligado direito quando eu saí, mas Jimmy estava crescendo. Eu sabia que nem sempre poderia estar presente em todos os seus momentos, por mais que quisesse.
—Ele vai ficar bem — Brian me lembrou — são só três horas que vamos ficar longe dele.
—Então, por isso mesmo, é muito tempo — me voz saiu mais esganiçada do que queria, sabia que estava fazendo tempestade em copo d'água.
—Ai, minha Chrissie... — Brian riu, me puxando pra mais perto dele — ainda bem que você não muda nunca.
Eu o abracei, confortada pelo elogio. Então ao chegarmos ao cinema, demos de cara com uma fila considerável. Surpreendentemente, ninguém reconheceu Brian, talvez só estavam ali fãs de sci-fi. Confesso que foi emocionante sentar em frente a telona, fazia muito tempo que não fazia isso. E, mesmo não tendo expectativas sobre Star Wars, saí dali tão animada quanto Brian.
A trilha sonora me deixou vidrada, me concentrei pra não perder nenhuma palavra do letreiro, para entender todo o contexto, a princesa Leia podia ser agressiva, mas falava as verdades suficientes pra enfrentar o tenebroso Darth Vader, que me dava arrepios na espinha. Fiquei morrendo de dó do Luke, fiquei triste quando Obi-Wan morreu e tive vontade de puxar a orelha do Han e ter um sabre de luz.
—Então, no final das contas, valeu a pena ter vindo? — quis saber meu marido ao deixarmos o cinema.
—Valeu, valeu sim, eu amei! — disse animada — agora só falta buscarmos o Jimmy pra eu ficar satisfeita.
—Claro, também tô sentindo falta do meu carinha — ele confessou, sabia que ele estava preocupado como eu.
Então foi assim que passamos a primeira vez longe de Jimmy, mesmo que fosse só por três horas. Mas ele sempre estava comigo no trabalho, meu filhinho tinha se acostumado àquela rotina sem nunca dar trabalho em horas indevidas.
O que estava em pauta agora era onde seria gravado o próximo álbum do Queen. John Reid tinha proposto os meninos irem pra França, já que diminuiria algumas despesas com distribuição e direitos autorais, por causa de uma crise vigente.
Antes que alguém argumentasse, eu e Roger trocamos um olhar significativo. Faltava pouco para que o bebê dele e de Dominique nascesse, o que significava que ele não deixaria Londres por nada.
—Não tem como adiarmos a gravação? — Roger apresentou a questão — sabem que o meu filho vai nascer logo, não posso deixar minha esposa aqui e muito menos viajar com ela nessas condições.
—Nós sabemos Roger, mas também temos cronogramas a cumprir — ponderou Reid — no entanto, vou ver o que posso fazer.
—Ela sabia da sua agenda lotada, deveria te entender, ou nem ter casado com você, mas ela não resistiu a se casar com um artista famoso, sabe-se lá por qual motivo... — Paul teve que abrir aquela boca suja.
Roger levantou na hora, bem como eu esperava que ele faria. Querendo ou não aquele comentário me ofendeu também, embora eu tivesse namorado com Brian antes da fama, me casei com ele quando o Queen já existia e nós também tínhamos um filho juntos, a mesma situação que Roger e Dominique estavam agora.
—Cala a sua boca, Prenter! — Taylor bateu na mesa, completamente bravo — minha esposa não é interesseira, e eu tenho o dever de cuidar da minha família, e é o que eu vou fazer você querendo ou não, aliás você não tem nada a ver com isso, e eu não devo nada pra você, então fica na tua!
—Só trouxe os fatos — Paul tentou se justificar — família ou não, o álbum tem que ser gravado, é o trabalho da banda.
Roger ameaçou se levantar, mas Deaky o segurou, apenas balançando a cabeça. Não sabia como John conseguia ficar tão calmo, ele também tinha sua família, e tinha certeza que também ficou ofendido. Brian e Freddie pareciam não saber como reagir, apenas ficaram em silêncio. Diante daquele atrito todo, me veio um estalo.
—Sr. Reid — limpei a garganta, chamando a atenção de todos — e se a banda trabalhasse nas músicas novas aqui mesmo? Digo, trabalhasse numa versão demo das canções, e depois só gravassem a versão final no estúdio em Paris? Pomparíamos tempo na França.
—Não é uma má ideia, sra. May — Reid sorriu pra mim, dava pra ver que ele estava agradecido por eu ter controlado a situação — podemos trabalhar assim, e depois que o pequeno Taylor nascer podemos falar em Paris de novo, está bem assim, rapazes?
Os quatro membros do Queen concordaram, e depois da decisão tomada, não tinha nada que Paul pudesse fazer para fazê-los voltar atrás.
Mesmo com todo cuidado do papai Roger de estar presente nos últimos estágios da gestação de Dominique, seu filhinho veio numa hora inusitada, bem como o pai dele fazia na maioria das vezes. Estávamos num show do Queen num teatro em Londres, quando vi uma estagiária correr até nosso camarote.
—Desculpa interromper, mas ligaram na recepção, e era muito urgente — disse ela a mim- era uma sra. Taylor, pedindo pra avisar que ela entrou em trabalho de parto pra sra. May, é a senhora, não é?
—Sou, sou eu sim, obrigada por me avisar — agradeci, tentando não entrar em pânico.
A mocinha voltou pro seu posto, e eu fiquei sem saber o que fazer naquele primeiro momento de choque.
—John, Jim, o bebê da Dominique vai nascer agora! — me virei pro dois, e depois saí pra colocar meu plano desesperado em prática.
Saí dali, usando as saídas de emergência, me esgueirando aqui e ali, até chegar perto dos assistentes de palco. Passei o recado pra frente, como numa brincadeira de telefone sem fio, esperava que a notícia chegasse a Roger. Vi que a pessoa encarregada de contar ao baterista teve o bom senso de esperar a música que tocavam terminar.
Roger deu um pulo e entendi que ele entendeu. Gesticulou como um louco pra que Freddie, John e Brian se aproximassem. Ele disse alguma coisa a eles, o que fez os meninos se assustarem e logo em seguida, tocaram "God Save the Queen". Eles encerraram o show pra que Roger pudesse ir embora.
Não demoraram muito nos bastidores, e assim, no meio daquela correria, fomos conhecer o bebê Taylor.
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