Pelo Olhar de Chrissie
27 A noiva do guitarrista do Queen
Era bem no meio da semana e um fim de tarde quando chegamos aos estúdios do programa Parada de Sucessos na BBC. Quando Brian me disse que nós poderíamos assistir a gravação, senti uma sensação de pânico e vergonha, eu sempre fui uma pessoa insegura e pensava que eu não era tão importante assim, então nesse caso, pensava que eu era muito insignificante pra estar dentro de um estúdio da emissora mais assistida do país, mas aí me lembrei que não estaria ali por minha causa, e sim pelo meu futuro marido e nossos amigos.
Foi o primeiro clique que tive nesse processo novo que estava passando na minha vida. Eu em breve seria esposa de Brian, que não era apenas o meu Bri, mas o guitarrista do Queen, e eu, como sua esposa, deveria ter a postura que a ocupação do meu marido exigia, que era acompanha-lo e apoia-lo na sua carreira artística. Aos poucos teria que me acostumar com isso, e, enfrentar minha insegurança e constrangimento era a minha maneira de demonstrar que estaria sempre com ele, algo grande que eu poderia fazer para mostrar que eu o amava.
Apesar de eu estranhar o ambiente de bastidores do estúdio, cheio de produtores pra lá e pra cá, câmeras captando tudo, (graças a Deus, menos eu) ter a companhia de Mary e Veronica que também faziam o mesmo que eu, apoiando os meninos, e vê-los se aprontando prestes a tocar, como eu tinha visto tantas vezes antes, me ajudou a lidar com aquela nova experiência, me lembrando de coisas familiares que eu amava.
Eu reparei o quanto Freddie conversava animado com Mary pouco antes de irem gravar, eles sempre foram muito ligados desde que começaram a namorar, ela era a confidente dele, a primeira a saber e entender suas ideias, eles já moravam juntos há um tempo, mas nos últimos dias, havia algo mais diferente e especial quando Freddie estava com Mary. Me lembrei de ter visto essa mesma coisa em Brian. Deduzi o que nosso amigo estava pensando, e se eu estivesse certa, não seria a única noiva da turma por mais tempo.
Eu parei de prestar atenção no casal quando os meninos finalmente começaram sua apresentação, tentando conter sua irritação por terem que fingir tocar e cantar, pelo jeito só John não ligou muito pra isso.
Ao término de tudo, a banda foi dispensada e tudo que tínhamos que fazer pra ver o resultado era esperar o clipe ser transmitido no fim de semana. Reunimos todo mundo no nosso apartamento pra conferir em primeira mão.
Eu estava com os olhos atentos no clipe em si, cantando Killer Queen baixinho junto com a televisão, mas os meninos insistiam em comentar nos trejeitos um dos outros.
—Não, a cara do Brian e do Roger não ajudou muito, definitivamente — Freddie fez sua crítica.
—Como assim não ajudou? — Roger se ofendeu antes do meu noivo.
—Dá pra ver que vocês estão incomodados — John apoiou o vocalista.
—E me admira você ter aceitado essa farsa — Brian cruzou os braços.
—Gente, o importante não era se apresentar na televisão? — Veronica lembrou — pensem que uma coisa leva a outra, se todos verem vocês na televisão, vão ficar curiosos pra verem vocês ao vivo, e vão ver que realmente vocês sabem tocar.
—É exatamente o que eu pensei — completei, concordando com minha amiga.
E Veronica tinha razão, nos dias seguintes, "Killer Queen" era a música mais ouvida do país, e, pra minha surpresa, até nos corredores da escola em que trabalhava, cheguei a ouvir algumas alunas cantando a música. Aquilo me fez ter a mesma sensação de medo pelo sucesso dos meninos, mas ao mesmo tempo estava tão orgulhosa e dentro de mim vi que não precisava nem queria ir até lá e contar que ia me casar com o guitarrista da banda que tinha criado a música que elas estavam cantando.
Falando no casamento, as horas que eu e Brian tínhamos livres era para planejar tudo, já tínhamos marcado a data, distribuído os convites, pagado terno e vestido, encomendamos o buffet mais barato que encontramos, porém só tinha uma coisa faltando.
—Eu amaria fazer a festa aqui, pequena e discreta só com os amigos, mas é inviável — reconheci que não dava pra dar uma festa de casamento no nosso apartamento pequeno.
—Alugar um lugar não é uma opção também — Brian suspirou, um pouco frustrado — sabe Chrissie, não me importo de não fazer festa, mas sabe os caras nunca iriam nos perdoar.
—E se não tiver festa nem vamos aproveitar que temos uma banda pra tocar de graça — tentei brincar para animá-lo.
—Eu vou ver o que posso fazer quanto a isso, tá bom? — meu noivo prometeu — não se preocupa com isso.
—Se estiver com dificuldades, não hesite em pedir minha ajuda — falei, séria.
—Tudo bem — ele acabou aceitando.
Fomos interrompidos por uma batida na porta, eu conhecia muito bem quem batia a porta daquele jeito.
—Oi, Roger? — ouvi Brian hesitar e corri para ver o motivo.
O baterista tinha o lado esquerdo do rosto vermelho e inchado, a marca de uma mão bem definida na sua bochecha.
—Meu Deus! — me assustei ao ver o machucado — o que aconteceu, Rog?
—É, se não for muito incômodo, tem gelo aí? — Roger pediu meio sem graça — é que tá doendo demais, mas eu conto o que aconteceu.
Providenciei o que ele pediu, ele colocou a bolsa de gelo no rosto e entre gemidos, começou a contar o que houve.
—Eu e a Rosey brigamos feio — disse Roger — ela disse que me viu paquerando uma das moças da produção da BBC...
—O que é verdade — apontou Brian, lamentando.
—Eu pensei que fosse meu melhor amigo e fosse me defender — reclamou Roger.
—Não quando você tá errado — retrucou meu noivo.
—Deixa eu terminar? Ainda não acabei — o baterista provocou — eu só tava tirando uma dúvida com a moça e a Rosey achou que eu tava jogando charme demais, reclamou que eu deveria era dar atenção pra ela e não pra outra garota, e que eu sempre faço isso, e me deu um tapa na cara.
—Eu sinto muito Roger, mas foi merecido — me manifestei sentindo pena, mas também um pouco de frustração.
—Não, você também não, Chrissie — o baterista estava começando a se irritar.
—Olha é que você é um conquistador irremediável — fui dizendo com cuidado — e talvez esse seja seu jeito de tentar encontrar a garota certa, mas, fazendo isso você passa a mensagem errada.
—Mensagem errada? Que mensagem errada? — Roger não estava entendendo nada, enquanto que Brian me olhou e entendeu tudo que eu estava dizendo.
—Não te incomoda eu e Chrissie nos casarmos, John e Veronica, e Freddie e Mary estarem juntos por tanto tempo e você estar sempre com uma namorada diferente? — Brian foi sincero.
—Cara, eu não tenho culpa de elas não resistirem ao meu charme — Roger deu de ombros.
Não era a resposta que eu e Brian queríamos ouvir.
—Um dia, você vai se apaixonar e amar de verdade e eu te garanto meu amigo que vai ter que mudar essa atitude pra dar certo — eu aconselhei.
—É, Chrissie, vocês tem razão em parte, mas esse dia ainda não chegou — e assim o teimoso deu o assunto por encerrado.
Deixamos Roger com suas conquistas passageiras para nos voltar a preocupar com o casamento, que estava chegando cada vez mais perto da data. Ainda estávamos pensando onde faríamos a festa, quando depois de uma das reuniões com John Reid e Jim Beach, Brian voltou para casa pegando carona com alguém que me assustou, por ver o quanto o carro que trazia meu noivo para casa era relativamente caro e chique.
Reconheci Jim Beach chegando com Brian em casa, e troquei um olhar com meu noivo que dizia "por que não me avisou que ele vinha?", no que Bri apenas respondeu olhando de volta, "eu não sabia, foi de última hora, ele insistiu em me trazer, o que eu posso fazer?". Então dei mais uma olhada que significava "tudo bem, tá tudo certo se não foi culpa sua".
—Como vai Chrissie? — o advogado me cumprimentou — é um prazer revê-la, já faz um tempo que não nos vimos.
—É, é verdade — concordei — ando ocupada com o trabalho e o casamento agora.
—Ah é, a propósito, meus parabéns, foi tudo tão corrido e surpreendente no dia em que Brian fez o pedido que nem tive tempo de os parabenizar — Jim falou, e eu senti que tinha algo mais na sua visita.
—A gente agradece Jim — Brian sorriu enquanto pôs um braço ao redor dos meus ombros.
—Bem, vocês devem estar se perguntando o que eu vim fazer aqui — retomou Jim — eu vi que Brian está com dificuldades de encontrar um lugar pra festa, então é por isso que quero oferecer a minha casa pra receberem os convidados.
—Uau... Jim... Nossa... Eu... — meu noivo perdeu as palavras e assim soube que ele não tinha pedido ao advogado esse favor.
—Não sabemos nem o que dizer — tentei salvar Brian do silêncio — eu só agradeço, muito obrigada mesmo sr. Beach.
—Eu que agradeço por aceitarem e espero que continuem cuidando um do outro como fazem sempre — Jim sorriu pra nós — vocês são jovens com o coração de ouro.
—O senhor também tem o coração de ouro — completei agradecendo mais uma vez.
Então assim fechamos todos os detalhes do nosso casamento. Era difícil conter a ansiedade e a alegria enquanto esperava o dia em que Brian se tornaria meu marido.
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