Pelo Olhar de Chrissie
90 A entrevista
Os estúdios da BBC já não eram tão estranhos pra mim, embora estivessem muito diferentes da última vez que me lembrava estar ali. Eu e Brian andávamos lado a lado, em silêncio, apenas concentrados em encontrar o produtor do programa, que nos daria as orientações sobre como tudo funcionaria, outra coisa que eu também já conhecia, devido às apresentações anteriores do Queen ali.
Apesar dessa primeira prioridade, nossa preocupação também estava voltada para as perguntas em si, e como Brian responderia se o tópico que temíamos surgisse.
Esperamos pelo produtor, Jack Sutherling vir falar conosco numa sala de espera relativamente pequena. Observando meu marido, vi em suas expressões todo sinal de nervosismo.
—Você vai se sair bem, Bri — disse, sincera.
—É que não é fácil sozinho, digo, eu te amo e sou grato por estar comigo aqui, é que nós quatro... — Brian suspirou — sempre estivemos juntos, e sempre fizemos isso juntos, mas, bom, estamos aqui, vamos encarar isso.
—É, e olha, tenho mais umas observações pra fazer — falei, pensando em todas as ideias que tive para ajudá-lo.
—Diga tudo que achar que é útil — pediu ele com boa vontade.
Mas antes que pudesse falar mais, fomos interrompidos por Sutherling.
—Ah fui avisado agora que chegaram — disse ele um pouco constrangido, estendendo uma mão pra Brian — é um grande prazer tê-lo conosco, sr. May, fico feliz que tenha aceitado o convite.
—Eu que agradeço, obrigado — Brian foi educado, mas sua preocupação ainda estava lá.
—E sua assistente, a sra. May — Jack sorriu pra mim — seja igualmente bem vinda.
—Obrigada — retribuí, cordialmente.
—Bom, vocês ainda tem meia hora antes de começarmos a entrevista — retomou o produtor — mas um assistente de palco vem avisá-los.
Nós assentimos, entendendo tudo, e eles nos deixou.
—Bom, como eu dizia — voltei a falar, sem perder tempo — é um talk show, eles tem outras atrações além de você, então é provável que a entrevista dure de 15 a 20 minutos. Se você ver que vão começar com qualquer outra pergunta que não envolva o Freddie, dá uma enrolada na resposta.
—Enrolar? E eu falo o que? — Brian se alarmou um pouco — estou meio que treinado em respostas curtas e objetivas.
—Não é o caso aqui — lembrei ele — e você divaga muito bem quando quer.
—Mas tem uma contradição aí — ele ergueu um dedo indicador pra dar ênfase — temos que dar as respostas sobre o Queen que eles querem.
—Pois então — assenti — responda divagando, sem dar os detalhes pessoais. Pensou em alguma resposta assim?
—É, eu acho que sim, tenho algo em mente já, mas sabe o quanto essas coisas são imprevisíveis — argumentou Brian.
—Bom, nesse caso, só resta dar uma improvisada — dei de ombros, um pouco sem graça.
—Eu vou olhar pra você e seguir suas deixas — Brian propôs.
—Estamos combinados — assenti, entendendo que tínhamos um plano formado.
Passada aquela meia hora de espera, fomos chamados ao estúdio. Trocamos um olhar antes de nos separarmos, eu o beijaria desejando sorte (mesmo que não fosse antes de um show), mas estávamos num lugar cheio de estranhos. Tomei meu lugar na plateia, bem visível a Brian. Ele se sentou no sofá dos convidados. Ouvimos uma campainha, alertando que o programa voltaria ao ar dentro de instantes. E outra vez nos olhamos, reafirmando tudo que tínhamos combinado.
—Voltamos agora com o "Bom Dia Britânia" — anunciou a apresentadora Janine Bunker — e esse é um bloco muito especial, já que estamos recebendo o primeiro e único Brian May, guitarrista da extraordinária banda Queen, liderada pelo incrível Freddie Mercury. Obrigada por vir, Brian.
—Ah sim, obrigado — meu marido sorriu pra ela e pra plateia — obrigado por seus elogios.
—Bom, esse último ano foi bem diferente pros fãs do Queen — Janine começou — seu último álbum foi "The Works" que teve grandes hits. Mas os fãs sempre querem mais, então o que pode nos dizer sobre o que o Queen está preparando pro próximo ano?
Brian olhou pro chão por um segundo, disfarçando aquele sentimento de perda de direção, de não saber o que fazer agora.
—Bom, como todos os anos, nós... — ele parou um pouco pra olhar pra mim — nos reunimos, pensando nas ideias que cada um tem, e juntos nós fazemos sugestões uns aos outros, pra aperfeiçoar a canção como um grupo, e no nosso próximo trabalho, não será diferente, vamos seguir esse mesmo caminho.
—Certo — Janine pareceu satisfeita com a resposta — então o fato de seu companheiro de banda Freddie Mercury estar trabalhando num disco solo não atrapalha o cronograma do Queen? Como está tudo agora que Freddie se dedicou à carreira solo? Como o Queen fica agora diante dessa mudança?
Brian me deu um olhar que dizia "fica tranquila, eu sei responder essa". "Confio em você" respondi em silêncio.
—Freddie está experimentando novas formas de arte, de expressão — ele falou com naturalidade, mas percebi que tinha treinado aquilo — às vezes como artistas e sob a pressão de criar algo novo, e até mesmo por diferentes tipos de inspiração, tentamos coisas diferentes, pra suprir a dúvida dos "e se" que ficam na nossa cabeça, é isso que Freddie está fazendo, e todos nós estamos aproveitando esse tempo pra descobrir coisas novas.
E depois que Brian terminou de falar, lhe dei um sorriso de "tá aí a divagação de que eu falei". Ele sorriu de volta, contente por eu ter aprovado.
—Bem, Brian você disse algo muito interessante sobre inspiração — disse Janine — e com certeza inspiração variada é um elemento que faz parte das músicas do Queen, e os fãs sabem de canções dos seus companheiros de banda que foram inspiradas por suas amadas. Você já escreveu uma música para sua amada? Hã... (Nisso ela fez uma pausa pra ler um bilhete em cima da mesa) Christine, não é?
Por aquela eu não esperava, minhas bochechas e de Brian coraram simultaneamente.
—Sim, sim, é a minha esposa — Brian prosseguiu no automático, já que sabia que não podia deixar a apresentadora falando sozinha — embora ela prefira Chrissie, ou sra. May. Sra. May é melhor.
—Sim, e ela está aqui, não é? — nisso Janine se virou pra mim e as câmeras com ela, só me restou dar um sorriso educado e minha melhor cara de esposa do guitarrista do Queen — olá, seja bem vinda!
Ela me olhou por mais um segundo e prosseguiu com a entrevista.
—E ela tem sido sua assistente pessoal por quanto tempo agora? — Janine quis saber.
—Hã, por 8 anos, oficialmente, mas eu acho melhor dizer que é por 14 anos, é o tempo que estamos juntos — Brian sorriu pra mim e depois pra apresentadora.
—É realmente muito tempo, e é claro que vocês são um casal adorável porque todos nós percebemos a cumplicidade de vocês, então volto a perguntar, já fez alguma canção pra sra. May? — insistiu Bunker.
—Bom, não foi por falta de ideia — Brian fez uma pequena piada — mas Chrissie é uma pessoa muito tímida e reservada, não penso que ela gostaria que eu a expusesse assim, tão claramente, mas é claro que toda vez que escrevo uma canção romântica a inspiração com certeza vem da minha esposa.
—Isso é lindo e adorável — comentou Janine — infelizmente nosso tempo acabou, mas agradeço muito sua atenção. Senhoras e senhores, esse foi Brian May do Queen! Voltamos logo mais com "Bom Dia Britânia".
As câmeras pararam de gravar, Brian cumprimentou Janine e eu me levantei para acompanhá-lo.
—Aquilo foi bem inesperado — sussurrei pra ele, baixinho — mas eu amei cada resposta sua, inclusive as que tinham a ver comigo.
—O objetivo foi esse — ele sorriu de lado e me deu um beijo rápido na bochecha, o que fez meu coração derreter mais um pouquinho.
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