Pele E Lábios
8 Capítulo 8
PdV do Izzy
Eu estava no meu quarto, deitado na cama, ouvindo música, quando minha mãe abriu a porta suavemente.
–Jeffrey, tem visita para você.
–Quem é? – eu estranhei. Ninguém vinha me visitar a noite.
–É o Christian.
–Manda ele entrar… – me senti meio estranho. O que o Flake tava fazendo na minha casa a noite?
Depois de um tempo, Flake entrou no meu quarto. Ele tinha uma aparência horrível, de quem tinha chorado muito. Seu cabelo estava bagunçado e ele parecia cansado.
–Flake! – fui até ele e o abracei com força – O que foi? Por que você tá assim?
Ele começou a soluçar e escondeu o rosto no meu ombro. Eu o conduzi para que ele se sentasse ao meu lado na cama.
–Eu só consegui pensar em você para falar, até porque… – ele desabou a chorar novamente. Suas lágrimas caíam na minha blusa e me molhavam. Eu estava assustado porque eu nunca achei que ia ter que vê-lo chorar assim.
–Fica calmo… – eu sussurrei, acariciando o cabelo dele com minha mão.
Nós só ficamos lá, sem dizer nada. As vezes o silêncio dizia mais do que todas as palavras. Flake, por alguma razão, não parava de chorar e eu só acariciava seu cabelo e seus braços, sem saber o que dizer ou fazer.
–Se você não quiser falar, eu vou entender. Se você só quiser alguém pra te confortar, eu to aqui.
Ele gemeu e me apertou.
–Izzy, te amo… Obrigado…
–Que é isso… – eu sorri.
–Bem… – Flake deu um sorriso suave, mas triste – Acho que você ficou meio confuso…
–Não precisa me contar se não quiser. Se só for te causar dor…
–Eu quero contar. Izzy, as tropas americanas bombardearam Berlim… – foi tudo o que ele disse e olhou para mim como se procurasse alguma esperança. Meu coração se encheu de compaixão e eu suspirei, abraçando-o.
–Vai ficar tudo bem…
–Não vai! – ele gemeu – Eu perdi tudo!
Eu o abraçei com mais força.
–Ninguém sobreviveu, Flake? – eu disse suavemente.
–Pelo que me disseram, a cidade foi destruída.
Pela expressão no rosto dele, eu percebi que ele estava confuso; não sabia se chorava mais, se parava de chorar, se me abraçava… Mas a desesperança já havia se instalado.
–Você… Quer beber alguma coisa, Flake?
–Pode ser… Alguma coisa que me faça esqueçer que eu existo…
Os pensamentos negativos dele não me agradavam nem um pouco. Eu não sabia se o Flake era daquelas pessoas que na primeira grande dificuldade já atiram na cabeça. Fui até a cozinha e fiz um chocolate quente. Chocolate normalmente ajuda a animar. Melhor do que uma vodka. Voltei para o quarto, segurando a xícara grande nas mãos. Flake continuava com aquele olhar vazio, sem esperança de vida. E aí eu notei o quanto os olhos dele eram… Bonitos. Era pequenos, mas bonitos. Me deixavam calmo. Era o mar calmo. Os olhos dele…
–O que é isso? – a voz dele me tirou dos meu pensamentos.
–Chocolate…
Flake sorriu suavemente.
–Eu gosto de chocolate. Vielen dank, liebchen.
Eu dei a ele o chocolate e fiquei observando-o. Ele não era bonito, quer dizer… Depois de conviver com ele e quase beijá-lo, eu percebi que a beleza dele não está no corpo. Não vou mentir, agora mesmo eu só quero dar um beijo nesses lábios finos e rosados e fazer toda a dor ir embora.
–Eu me sinto besser agora. Danke, Izzy. – ele sorriu, colocando a xícara vazia na mesinha ao lado da cama.
–De nada. – eu sorri. Ficamos lá, só nos olhando, igual dois idiotas sem saber o que dizer.
–Mit dir stehen die Sekunden, Lohnen nicht… – ele sussurrou, olhando para mim
–O que é isso? – eu perguntei.
Ele riu timidamente.
–Rammstein. Ohne Dich.
–O que significa?
–Hmm… Com você os segundos não valem a pena.
–Ah, valeu hein. – eu ironizei, meio ofendido. Ele apenas riu suavemente.
–Sem você eu não existo — sem você
Com você eu também estou sozinho — sem você
Sem você eu conto as horas — sem você
Com você os segundos não valem a pena, sem você.
–Ah… – eu senti a vergonha subir pelo meu corpo – Obrigado, Flake. Isso é… Bonito.
Flake apenas riu. Eu tinha conseguido acalmá-lo, afinal. E agora eu sabia que ele gostava de mim mesmo.
–Não precisa ficar tímido. – eu coloquei minhas mãos nas bochechas quentes dele. Ele tentou olhar para baixo, mas eu impedi.
Com um movimento rápido, eu grudei minha boca na dele. Ele tremeu de susto, mas depois relaxou. Minhas mãos saíram das bochechas dele e passearam por seu corpo magro e eu senti cada osso dele. Mas ele ainda estava tímido, porque só me prendeu em um abraço. Nenhum de nós queria acabar com aquele beijo. Eu senti que eu poderia beijá-lo por uma eternidade.
Flake estava um pouco corado quando nós nos separamos, mas tinha um sorriso enorme no rosto.
–Acho que você quer me dizer alguma coisa. – eu tentei arrancar a timidez dele.
–Uhmm… Você beija bem… – ele começou, passando a mão pelo cabelo nervosamente – Obrigado, eu me sinto melhor. Eu… – ele parou de falar e ficou mais vermelho do que um tomate – Eu… Eu…
–Eu já entendi. Eu também, seu fofo. – eu ri e ele também.
Conversamos por mais algumas horas antes de adormecermos, um segurando a mão do outro.
Notas finais
Besser - melhor
Danke - obrigado
Vielen dank - muito obrigado
liebchen - amorzinho
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