Pele E Lábios
23 Capítulo 23
PdV do Flake
“Ok. Não tem aula pra mim hoje. O que eu vou fazer?” Eu pensei, enquanto andava pelas ruazinhas. Eu tinha saído da casa do Izzy, já que não queria ficar sozinho lá (ele tinha ido à escola) e não estava muito afim de voltar para a casa da Beth. Eu não fui à escola hoje porque... Sei lá, fiquei com medo. É, medo do Till. Eu não quero que ele me bata de novo. Não que ele fosse necessariamente me bater, mas ele tentaria me pegar de novo, eu bateria nele e ele revidaria. Ele não podia achar alguém do tamanho dele pra brincar de vadia? Eu sou um palito de dentes comparado a ele, que mais parece um titã furioso encarnado num alemão supostamente “religioso”. Hmpf. Pedófilo.
Fui até uma pista de patinação em um shopping. Era outono, mas o frio não tinha força para congelar o lago ainda. Paguei para ficar duas horas lá. Eu não sabia patinar muito bem (até porque eu preferia tocar piano a patinar), mas eu achei que seria legal para relaxar, esquecer das coisas por um tempo. Eu pisei na pista e já escorreguei pateticamente. Antes que eu pudesse cair no chão, me agarrei no corrimão que tinha nas bordas da pista. Fiquei andando me apoiando lá. Não era bem o que eu tinha em mente. Eu tinha me imaginado deslizando graciosamente pelo meio da pista. Mas eu estava no canto, rastejando estranhamente, agarrado no corrimão.
Ouvi uma risada grave, mas fraca atrás de mim. Virei a cabeça.
–Precisa de ajuda?
Meu coração queimou, de raiva e susto. Era o Till. Eu gemi com desprezo.
–Você não tem nada melhor pra fazer?
–Não. – ele levantou os ombros – Acabou meu horário na escola, então eu vim para cá.
–Você sabia que eu vinha?
–Não. Mas foi uma surpresa agradável te encontrar por aqui, Schatzi. – ele sorriu. Notei que seus dentes eram curtos demais para dentes normais.
–Schatzi... – eu disse, me arrastando pelo corrimão, tentando andar.
Till segurou no meu braço. Eu gelei.
–Me solta. – eu disse numa voz baixa. Olhei para os lados. A pista não estava muito cheia, e as pessoas que estavam lá estavam cuidando de suas próprias vidas. Nem olhavam para nós – Till, eu vou gritar. – eu provoquei. Ele apenas sorriu e me deu um puxão, conseguindo me soltar do corrimão.
Antes que eu conseguisse gritar, o braço dele já estava na minha cara e eu mal conseguia respirar. Nós deslizamos para o meio da pista. Lá, eu não tinha aonde me agarrar e só podia me apoiar nele.
–Se segure em mim e você não vai cair. – ele disse suavemente.
–Tira a mão de mim, seu escroto! – eu tentei dizer, mas a minha voz estava totalmente abafada na maga comprida do casaco de moletom dele.
–Flexionar os joelhos pode ajudar. – ele disse, ignorando meus resmungos. Tentei me soltar dele novamente, mas perdi o equilíbrio e quase caí de costas no gelo. Till me agarrou antes que eu caísse – Confie em mim.
“Me obedece” eu achei que ele ia dizer ao invés de “confie em mim”. Dobrei os joelhos, sem mexer os pés e deixei que ele me conduzisse. Eu estava me sentindo patético naquela hora.
–Agora... – Till começou – Imite o que eu fizer. Olha.
Eu fique olhando para o jeito que ele andava, tentando acompanhar. Logo, eu fui pegando o jeito. É como andar normalmente, mas numa pista de gelo. Então você tem que ter equilíbrio. Minhas mãos estavam começando a doer, de tão forte que eu apertava o braço de Till. Ele parecia não se incomodar. O braço dele era musculoso demais.
–Eu era nadador, antes de virar professor. – ele disse, sorrindo – O que você fazia?
Isso explicava os músculos...
–Ah, eu... Tocava, ainda toco, piano.
–Que fofo. O que você toca?
–Bem, o meu pai me ensinou a tocar jazz e essas coisas mais clássicas. Mas eu queria comprar um teclado para tocar punk.
Ele riu suavemente.
–Eu era baterista de uma banda punk aí. Mas vim pra cá com um amigo e resolvi dar umas aulas. Mas eu ainda curto punk. Que bandas você curte?
–Eu curto Ramones. E você?
–Die Ärzte.
–Nina Hagen? – eu arregalei os olhos. Eu nunca tinha achado alguém que também conhecesse punk alemão.
–EIN FREIER RRRREBEL! – ele cantou alto. Por causa da sua voz grave e forte, todos se viraram para olhá-lo, meio assustados. Eu gostei do jeito que ele puxava os “r’s”. Bem... Atraente.
Ficamos uns vinte minutos, patinando suavemente. Till gentilmente tentou soltar seu braço, mas eu o agarrei de volta como uma criança agarrando um brinquedo que um adulto tenta tirar dela. Ele riu.
–Acho que você está pronto para soltar.
–Não. – eu disse. Eu estava, mas só queria ficar sentindo o calor dele.
–Você não se sente seguro?
–Não. – eu menti. Mas por um lado eu não queria cair de novo. Era vergonhoso.
Ele sorriu e segurou suavemente no meu braço. Nós deslizamos para o corrimão e eu me apoiei lá.
–Você vai embora?
–Não. Por que?
–Por nada.
Ficamos em um silêncio constrangedor. Till suspirou quase que tristemente.
–Me desculpa por ter batido em você.
–Não foi nada. Eu mereci. Me desculpa por ficar te xingando.
Ele riu suavemente.
–Não precisa se desculpar. Deve ser estranho ter um cara de vinte anos indo atrás de você em todos os lugares.
Eu engasguei.
–Você tem vinte anos?! E é professor?
–Sim. – ele riu – Me deixaram exercer a profissão porque eu era bom aluno e já fazia cursinho.
–De professor de religião?
–Não. De educador mesmo.
Eu ri.
–Gosto mais de você assim do que de você de batina. Parece mais normal.
–Você gosta de mim?
Senti meu rosto formigar.
–N-Não... Quer dizer, gosto, mas... É que você fica mais estiloso assim.
–Também gosto do seu estilo. – ele pegou uma mecha do meu cabelo e ficou enrolando-a entre dois dedos. Aproximou o rosto do meu. Eu o empurrei suavemente.
–Till, eu tenho o Izzy. – eu disse, tentando me afastar, mas ele me segurou.
–Flake... – ele começou. Fiquei feliz por ele ter me chamado de “Flake”. A sua voz grave fazia esse apelido estranho soar sexy – Só um beijo. Ninguém precisa saber.
Vocês podem namorar escondidos. Ninguém precisa saber. Nem eu preciso saber. Foi o que eu disse para o Izzy. Ninguém precisa saber.
Pressionei os meus lábios contra os dele. E o beijo dele era tão maravilhoso que eu podia ficar lá para sempre. Era quente e gentil, bem diferente da figura musculosa e assustadora dele. Eu segurei a cintura larga dele, enquanto suas mãos grandes apenas acariciavam os meus ombros.
De repente, ele me empurrou bruscamente. Quando eu abri os olhos, surpreso, eu vi que seu rosto estava contorcido numa expressão de dor. Ele tirou a mão de trás de sua cabeça e seus dedos estavam molhados com sangue.
–Pedófilo! – um homem atrás de mim rugiu, tentando acertar Till com a lâmina dos patins de gelo.
–Não! – eu gritei, me arrastando para fora do pista, enquanto umas pessoas avulsas levavam Till para fora. O olhar dele era de pânico e confusão – Não foi culpa dele!
Eu tirei meus patins e saí correndo atrás deles.
–Christian! – Till gritou, tentando olhar para trás. Eu vi um homem socando o estômago dele e ele gemeu dolorosamente.
–Pára, por favor! – eu conseguia sentir as lágrimas queimando meus olhos – Ele não fez nada! Eu deixei que ele me beijasse! Não o levem!
Mas as pessoas nem me ouviam. Estavam muito preocupadas em bater no Till e levá-lo para a cadeia.
–Sua bicha imunda! – um deles gritou – Vai queimar no inferno!
–Pára com isso! – eu berrei, me atirando em cima de Till. Mas me tiraram de cima dele e o levaram – Till! Till! Eu vou te tirar da cadeia! Eu prometo!
Me joguei no chão, chorando desolado. As pessoas tentaram me confortar, mas eu as empurrei e fui correndo para casa.
–Christian, o que aconteceu? – Beth me perguntou, quando eu entrei.
–O Till foi preso! E foi minha culpa! – eu solucei.
Ela me abraçou.
–Quem é Till?
–Meu professor...
–E porque ele foi preso?!
–Ele me beijou, mas eu tinha concordado! Não é justo isso! Eu nunca...
Comecei a chorar desesperadamente. Acho que para alguém que eu odiava, eu nunca tinha me preocupado tanto. Ele tinha sido preso, e isso era minha culpa. Quando o Izzy souber, ele vai me matar. Mas foi só um beijo! Não. Não foi só um beijo. Eu queria mais. Aquele homem musculoso, que eu tinha botado atrás das grades, tinha me conquistado.
Fui para o meu quarto. Eu passei a noite em claro. Me cortei com a ponta de uma chave, na verdade a chave do meu armário na escola e os meus braços ficaram cheios de mini arranhões que sangravam um pouco. Me chamem do que quiserem, mas eu estava sofrendo. Às 5 da manhã, eu consegui dormir. Mas às 6 da manhã eu já tinha que ir para a escola. Eu fiquei pensando em como explicaria tudo para o Izzy.
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