PdV do Flake

–Vai voltar para a Alemanha, Flakechen? – Paul me perguntou.

Eu engoli a seco.

–Olha... Eu queria voltar, até porque eu não me sinto seguro aqui... – eu comecei.

–Seguro? – ele disse, rindo – Que tá pegando?

–Ah, tem um professor na escola que tá dando em cima de mim.

–Você tá com medo?

–Um pouco. Sei lá, o Izzy foi estuprado uma vez. E esse cara, Lindemann, é meio louco pra falar a verdade.

Paul levou a mão ao rosto, parecia pensar.

–Qual é o sobrenome dele?

–Lindemann.

–Till Lindemann?

–Sim... – eu levantei uma sobrancelha – Como você sabe?

Paul apenas olhou para mim e depois explodiu em gargalhadas. Dei um sorrisinho, confuso.

–Flake! – ele disse, entre um acesso de riso – Esse cara é um punk!

–Como é? – meu coração bateu mais rápido e eu comecei a suar frio.

–Esse Till era baterista de uma banda punk aí. Não acredito que ele virou professor... – Paul levou a mão à testa, ainda rindo muito.

–Não só um professor. Um professor de religião e ele usa batina. – eu cruzei os braços e sorri.

–Não acredito... Esse cara tá zuando de você. Claro que ele não quer nada. E você nem é gay.

Um calafrio percorreu o meu corpo. Eu tinha esquecido... Esquecido de falar pro meu melhor amigo! Nossa, que vergonha!

–Uhmm, Paulchen... – eu passei uma mão nos cabelos – Esse cara tentou me beijar uma vez e fodeu o Axl...

–O Axl é gay?! – ele arregalou os olhos. “Oh Gott...” eu pensei.

–Um pouco. – eu ri – Mas isso nem vem ao caso. Paul... – algo travou minha voz. Se já era difícil falar para o meu melhor amigo, imagina como seria falar para minha família, se ela ainda estivesse viva – Eu e o Izzy...

–Aaaaahahaa... – Paul disse, pousando uma mão no meu ombro – Você é tão jovem, Flake... E tão discreto... Não sabia que realmente rolava algo entre você e o Izzy. Bem, felicidades para vocês dois. Estou com ciúmes. – ele riu.

–Ciúmes de mim? – eu ri.

–Claro, eu viraria gay para ter um namorado tão bonito e legal com você.

–Legal até pode ser, mas bonito não. – eu torci o nariz e sorri.

–Você... Não é feio, Flake. Você tem até uma beleza. Só que é muito magrinho. – ele me cutucou na barriga e eu me contorci, rindo – Bem... Então suponho que você não volta comigo?

Eu gelei e senti as lágrimas querendo se formar nos meus olhos.

–Não. – eu o abracei, apertando-o com força, como se quisesse enterrá-lo no meu peito. E eu queria – Mas fique bem lá em Leipzig. E continue me escrevendo de vez em quando.

–Sim... – Paul começou a chorar – Ah, Flake! Por que você não vai?

–Eu queria ir, mas eu tenho que estudar. Além disso, eu tenho que ficar com o Izzy. – eu o soltei para poder ver seu rosto. Ele parou de chorar um pouco e enxugou as lágrimas da manga da camisa.

–Se a gente se perder de novo, saiba que você vai estar sempre no meu coração, Flakechen.

–Ai, Paul... – eu sorri suavemente – Te amo.

–Eu também, Flakechen.

Foi uma semana exata. Estávamos no aeroporto, eu, Izzy e Paul. Eu e Paul choramos como duas crianças perdidas num parque, como se nunca mais fossemos ver a cara um do outro. Alguma hora nós íamos nos reencontrar, mas ia demorar um tempo. Não ia ser a mesma coisa, quando eu o encontrava todos os dias na escola e conversávamos até sermos expulsos da sala.

Eu tenho o Izzy agora, mas ele parece tão confuso tentando escolher entre eu e o Axl. Eu queria voltar para a Alemanha e deixá-lo com o Axl, mas ele pareceu tão desolado quando eu falei isso que eu achei mais justo ficar. Eu queria muito voltar para a minha terra e ver como estavam as coisas lá. Mas eu resolvi ficar em Lafayette e acho que eu não vou me arrepender.

–Por que o Axl não veio com a gente? – eu perguntei para Izzy quando nós já estávamos dentro do ônibus para voltarmos à cidadezinha.

–Ele tá estudando. – Izzy respondeu, coçando o nariz.

Eu ri.

–Sério? O Axl tá estudando?!

–Claro que não. – Izzy sorriu para mim – Foi só a desculpa que ele arrumou para não ter que ficar cinco horas dentro de um ônibus e... É, você sabe...

–Eu não entendo o que ele tem contra mim. Quer dizer, eu entendo, mas não precisava ser assim...

Izzy colocou a mão nas minhas costas.

–Relaxa, é só um ciúme passageiro. Ele vai voltar a falar com você.

–Ah, Izzy! – eu levantei a cabeça – Ele... Ele e o Till...

–Till?! – Izzy falou em voz alta sem querer. Todas as pessoas que estava no ônibus se viraram para nos olhar – Desculpa! – Izzy levantou as mãos. Sussurrou para mim, continuando – Quem é Till?

–Till é o professor de religião.

–Aaah! – Izzy falou alto de novo, mas dessa vez só alguns olharam – Não vai me dizer que eles...

–Eles foderam. – eu disse na voz mais baixo possível.

Izzy começou a rir quase histericamente.

–Ele realmente acha que... Nossa, mano... Eu to com ciúmes?!

–Você tá?

–Não! Foi idiotice isso que ele fez!

Eu ri suavemente. De repente, eu senti um aperto no coração. Era saudade. Saudade do Paul. Apertei os lábios. Izzy me abraçou para tentar me confortar, enquanto eu começava a chorar.

–Vocês vão se ver de novo... – ele disse suavemente, passando uma mão no meu cabelo, que por acaso precisava ser descolorido de novo, na raiz. Eu apenas balancei a cabeça negativamente.

Não falamos nada durante um bom tempo, quase meia hora eu acho. O resto do tempo da viagem nós dormimos, um em cima do outro. Izzy era tão quentinho, naquele frio estranho e confortável. O Outono chegava.


Notas finais
GLOSSARIO:
Oh Gott - Oh Deus