Pele E Lábios
54 Capítulo 54
PdV do Izzy
–Você vai mesmo ir, Flake? – eu disse, tentando esconder a tristeza dentro de mim. Mas eu queria chorar naquela hora.
–Sim, eu tenho que ir. – Flake suspirou tristemente – Eu só acho que eu preciso ir, sabe?
–Hmm... – eu olhei para baixo, tentando conter as lágrimas. Apesar de o nosso relacionamento ter acabado, eu ainda gostava dele e agora mais como um amigo e um irmão. E eu não sei se eu conseguiria viver sem ele. O Flake, nesse ano que passou, se tornou uma pessoa muito especial para mim. Ele tinha me amado e quase dado a própria vida por mim, e eu devia minha alma a ele. Eu ainda usava a aliança que ele tinha me dado, mesmo estando namorando com o Axl.
–Aconteceu alguma coisa, liebchen? – ele me perguntou, segurando minhas mãos.
–Flake... – eu levantei o rosto e olhei para ele – O que é mesmo... isso daí, “liebchen”?
–Significa “amorzinho”. – ele riu suavemente. Eu coloquei as mãos dele contra o meu peito e o rosto dele ficou calmo.
–Uhmm... Flake...
–O que?
–Você não pode ficar mais um pouco?
–Eu já fiquei o tempo necessário. – ele disse, depois de uma pausa. Os meus olhos já estavam molhados e eu o abracei com força – Você vai estar sempre no meu coração, Izzy. E, aliás, eu só vou depois de amanhã. – ele riu.
–Mesmo assim. – eu enterrei o rosto no peito dele – Flakezinho, eu vou ficar com muita saudade.
–Eu também. – ele acariciou minhas costas. Eu me soltei um pouco dele para poder acariciar sua bochecha. Aproximei meu rosto do seu e o beijei, com lágrimas descendo dos meus olhos.
E eu tinha certeza de que aquele ia ser o último beijo.
Paramos de nos beijar e encontramos o rosto um do outro. Flake estava mais calmo do que nunca e eu estava soluçando.
–Se cuida. – ele disse, sorrindo e eu sorri também, ainda acariciando sua bochecha.
–Você também, doktor. Não vou te esquecer.
–Nem eu.
Ficamos em um silêncio constrangedor por um tempo. Eu senti um aperto no coração, de repente.
–Queria te dar um presente.
–Você já me deu.
–Já? – eu levantei as sobrancelhas.
–Sim. A camiseta e o LP do Ramones. – ele riu.
–Aah... – eu sorri – Não é esse tipo de presente. Quer dizer, você me deu uma aliança, eu queria te dar algo em troca.
–Não precisa... – ele sorriu.
–Ah, precisa sim! – eu ri – E pára com isso, de ser muito simples.
Ele apenas levantou os ombros e sorriu. Eu pensei em todos os tipos de presentes, mas todos eles me pareceram muito superficiais. Aí uma ideia brilhou na minha mente. Como eu já estava no meu quarto, foi só abrir a gaveta e procurar um pouco, até que eu achei o que eu procurava.
–Eu gosto muito dele, mas acho que você devia tê-lo. – eu lhe dei a minha boina de couro preto – Não tem muito uma história – eu ri, sem-graça – Eu comprei quando fui num festival de rock que teve lá em Detroit, com o Axl, claro.
Flake riu suavemente.
–Tem certeza? Você não vai sentir falta dele?
–Vou sentir mais falta de você. – eu peguei a boina e a enfiei na cabeça dele. Cobriu quase todo o cabelo loiro e curto dele, ficou engraçado. Eu dei uma risadinha.
–Danke, liebchen. – ele me abraçou. Aí ele saiu correndo para o seu quarto e eu o segui. Ele parou abruptamente e eu quase tropecei em cima dele. Flake riu e me deu um tapinha no ombro – Espera. – ele foi até sua gaveta e pegou um livro – Esse é pra você, então. Eu li esse livro umas 5 vezes já. – ele estendeu o livro para mim e eu peguei. Era o Goethe dele, “Os Sofrimentos do Jovem Werther” – Ainda tem as suásticas desenhadas. – ele começou a rir muito.
–Você se lembra? – eu ri.
–Como esquecer. – ele levou a mão à cabeça num gesto teatral.
–Ah, obrigado Flake. – eu o abracei de novo, dessa vez me concentrando no cheiro dele. Flake tinha um cheiro de roupa nova. Era bom.
Till entrou no quarto, pigarreando. Flake sorriu para ele, indicando que estava tudo bem e se soltou de mim para ir até ele.
–A gente vai daqui a dois dias, você sabe né? – Till olhou primeiro para ele e depois para mim.
–Sim. – Flake respondeu e eu assenti com a cabeça.
–Você já fez as malas?
–Não.
–É melhor fazer, senão não vai dar tempo. – Till sorriu, dando um selinho em Flake.
–Ok, vou fazer isso agora.
–Bom menino. – Till disse. Flake riu e lhe deu um tapa atrás da cabeça.
–O Aljoscha vai com a gente?
–Vai. A namorada dele também.
Flake suspirou.
–O que? – Till disse.
–Não sei se eu gosto dela.
–Você não gosta de ninguém, Flake. – ele riu.
Flake levantou os ombros.
–Espero que ela goste de navios de cargas. E de comida enlatada.
–Como é? – eu me intrometi.
–A gente vai até a Dinamarca em um navio de cargas, acho que é um navio que leva enlatados, pelo que me disseram. – Till disse – Aí é só dirigir até Schwerin e ir para minha casa.
–Schwerin deve ser lindo. – Flake deu um sorriso enorme.
–É lindo sim. – Till sorriu, abraçando-o.
–E vocês vão de penetras? – eu disse.
–Sim. É só arrumar um lugar para se esconder.
–É meio arriscado, não é? Por que vocês não vão de avião?
Till sorriu desconfortavelmente com a minha pergunta e coçou atrás de sua cabeça.
–Eu e o Flake somos assassinos, lembra?
–Ah. – calei minha boca e me arrependi do que tinha dito – Bem, eu vou deixar vocês sozinhos, arrumando as malas.
Saí apressadamente do quarto e fui até o banheiro. Tranquei a porta e me sentei no chão, apertando o livro contra o meu peito. Eu consegui sentir o metal frio da aliança no meu dedo e comecei a chorar novamente. Minhas lágrimas caíram na capa no livro e eu as sequei rapidamente, com medo de estragá-la. Abri o livro, encontrei um nomezinho escrito no canto superior direito da primeira página, em letra cursiva quase que feminina: Christian Lorenz.
Uma frase do começo do livro, antes de começar a história, estava grifada. Ao lado dela, haviam duas suásticas tortas desenhadas com caneta:
“Que este pequeno livro te seja um amigo, se a sorte ou a tua própria culpa não permitem que encontres outro mais à mão!”
–Christian... – eu sussurrei e a minha voz se perdeu.
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