Notas iniciais
Eu me desculpo por ter demorado, tanto tempo, para postar a continuação. Não há palavras pra expressar o quão mau eu fui, mas eu me desculpo. Vamos caminhando para o fim. Por favor, não desistam da história; apesar de eu tê-lo feito, espero não decepcioná-los daqui pra frente.

\"\"

Ele gemeu de dor e nem as lembranças que eu acabara de fazer presentes foram suficientes para aliviar as minhas preocupações com o Mogli.

A noite cedia lugar para a luz do amanhecer, e ele não pegara no sono por um instante sequer, bem como eu, vinha fazendo vigília ao pé da cama. Passaram-se alguns minutos, e sua mãe irrompera o silêncio do quarto:

— Filho, como você está? – perguntou

— Estou na mesma, mãe... – ele disse com as palavras pesando em sua boca.

— Vamos ao médico hoje, sem falta. Você acha que consegue ir para a escola?

— Sim, mãe. Eu tenho um trabalho para entregar, é melhor eu ir e logo depois do intervalo a senhora me busca para irmos ao médico.

— Tudo bem – disse ela afagando os cabelos dele – arrume-se que seu pai o levará para a escola, como de praxe. Vou arrumar seu café...

— Mamãe, mamãe... Maninho ta dodói? – Disse o filho mais novo, entrando no quarto do Mogli, correndo na cama dele.

— Oh, meu filho ele está sim, mas logo logo estará bem.

— É, shiuuu neném, não pode fazer barulho, maninho ta dodói. Mick, Mick, mimi, pode mimir... – Disse o garotinho, talvez reproduzindo as ordens dos pais para não fazer barulho por causa do irmão mais velho.

— Hey, garotão, tudo bem! Pule aqui na cama com o maninho, venha cá.

O garoto, mais que depressa subiu na cama, e foi recebido com um abraço pelo irmão. Eles riam enquanto a mãe observava a cena com afeto nos olhos e mãos em concha envolvendo o queixo. Ver os dois juntos, sorrindo, brincando, dava a certeza para quem não os conhecia de que eles eram, de fato, irmãos: ambos com os mesmos cabelos escuros, pele morena; mesmos lábios vermelhinhos, mesmos traços.

O pai entrou no quarto, logo em seguida e se juntou à esposa para observar a cena, abraçando-a pelas costas.

— Em pensar que virá mais um!– sussurrou ele no ouvido da esposa, de tal modo que os garotos dificilmente teriam conseguido ouvir.

— Ou uma – sorriram.

— Como cresceram, não?

— Sim, já estão dois rapazinhos!

— Hei mãe, pai... Vocês não vão vir? Só faltam vocês – Disse-lhes Mogli, convidando os pais para participarem do abraço familiar.

De repente, lá estavam todos sorrindo e brincando de cócegas. Por um instante, senti como se tudo estivesse bem, como se aqueles raios de sol que incidiam naquele abraço compondo um halo de paz e tranqüilidade pudessem purificar o ar e curar qualquer enfermidade que tentasse ir contra essa idéia.

Por mais que eu estivesse de fora, observando, eu não me sentia como um intruso no porta-retrato da família perfeita, pelo contrário, eu me sentia ali, envolto naquele abraço, de alguma forma. Era como se eu nunca tivesse pertencido a outro lugar e aquelas pessoas fossem tudo o que eu tinha: repentinamente, era como se eu não pudesse existir sem eles.

Logo o celular do pai tocou e a alegria se diluiu por conta da voz do outro lado da linha que estipulava injunções. O trabalho. Em poucos instantes, eles tomaram café – eu acompanhando cada movimento do Mogli – e, na mesma rapidez, todos sumiram dos meus limites. A casa era um silêncio, assim como fora antes deles chegarem. Minha angústia era rompida na mesma hora em que começava, pela certeza de que a mãe, voltando da feira com o irmão mais novo, prenunciaria o almoço colocando as panelas no fogo, cantarolando alguma canção.

Desta vez não fora diferente. Logo ouvi a porta da sala se abrindo, o barulho de sacolas plásticas se chocando contra a superfície; a voz infantil e a voz infantilizada — dessas que fazemos para conversar com as crianças -.

Panela de pressão no fogo, risos de criança, campainha... Campainha? Desci pra conferir, isso é algo que, definitivamente, não faz parte da rotina dos meus pensamentos.

Na porta, Núbia tinha o braço segurado pela mãe, que a empurrou para dentro. Ela estava chorando, e a mãe possuía o rosto ansioso, a boca contorcida num fecho que estava prestes a se abrir.

- Celina, que surpresa – disse a mãe de Mike, sem entusiasmo algum na voz.

- Temos de conversar, é sobre seu filho...

- Mike? Sim, claro. Ele está melhor, mas decidimos levá-lo ao médico hoje – se colocou entre a porta e a casa, tentando limitar o diálogo, por conta das ocupações domésticas.

- Ande, deixe-me entrar. Núbia me disse algumas coisas, segredos, do Mike. Você deveria saber.

- Olha, Celina. Não gosto de me intrometer nas conversas das crianças...

- Seu filho está namorando um rapaz! – Disse exaltada.

“Não pode ser! Essa pentelha entregou Mogli”, pensei.

Sob o obstáculo que estava em pé, na porta, petrificada, Celina puxou Núbia para dentro.

- E agora, vai me ouvir?

- ...

Fechou-se a porta.

- Núbia, fale.

E Núbia contou tudo. Contou sobre mim, sobre ele, sobre nós. Os olhos da mãe de Mike vidrados, segurando o menino pequeno que brincava com um carrinho, sem nada perceber. Mecânica, lábios entreabertos. Eu não me movia, não tinha o que fazer. A sensação de inutilidade corrói, destrói. Esse não era um justo descanso eterno.

- Tia, eu não queria ter dito. Era um segredo...

As mães se olhavam e pairava no ar um silêncio mortífero, quando a porta se rompeu.

- Oi querida!

- Mãe, tia! Oi!

- Oi Mike, disse Clarice – quase irônica, talvez cruel.

Núbia correu para abraçá-lo e desandou a chorar em seu peito.

- O que aconteceu?

- Vamos para seu quarto, por favor, Mike?

- Ah... Vamos?!

Ela o pegou pela mão e subiram as escadas. Mike notando a aura de desconforto. Chegaram ao quarto, eu estava lá com ele.

- Mike, eu contei sobre seu namorado para minha mãe – as palavras pausadas, interrompidas por soluços de choro.

- Espere... Eu não acredito! Você não conseguiu segurar sua boca de matraca por alguns dias, ao menos? Sei lá, ontem eu te contei sobre isso e hoje... Eu não sei por que fui desabafar logo com você. Nós já fomos melhores amigos; veja no que você se tornou. Que droga!

- Me desculpa, por favor! – disse abraçando-o pelas costas.

- Não é assim, deixe-me pensar... – se desvencilhou.

- Eu tive de contar tudo para sua mãe.

- O que? Você se superou dessa vez! Seu monstro! – se jogou na cama em prantos.

Eu estava dilacerado. Nunca havia me sentido deste modo; nem em vida, nem em morte. Queria morrer, mas não queria deixar Mogli sentir todas as conseqüência viriam pela frente. Queria levá-lo para longe, comigo. A porta do quarto se abriu violenta.

- Mike, seu moleque! Como você faz isso com sua família? Namorado? Você tem um namorado? Onde na sua educação eu errei, seu ordinário? – disse o pai, que, após trazer Mike para casa, se sentou para ouvir, sem delongas, o que havia Celina de dizer.

Por impulso, avançou para cima do filho, esmurrando-o e depois jogando-o no chão. Eu, neste ínterim, tentei proteger o agressor de um remorso maior e o agredido, a quem, me aninhei por instinto. Sem controle — eu também — acabei por quebrar o espelho e os vidros da janela, através de algum poder que eu nunca soube como, nem em qual direção usar. Apenas fiz.

Na trilha sonora dos estilhaços, o silêncio sucessor só cedeu aos soluços estancados de Núbia, que permaneceu imóvel e perplexa. O pai de Mike tentava dominar suas mãos que estavam banhadas de um fel invisível, numa respiração trepida, descompassada. Num átimo, Mike se levantou, rubro. Empurrou Núbia que, inconscientemente, guardava a porta, e saiu correndo, escada abaixo. Eu fui atrás. Sem qualquer vislumbre de esperanças, Mike saiu pela porta da frente, e cego de dor, partiu para destino, para o seu destino. Mais pra perto de mim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.