Pela Princesa - Interativa
9 Do Chão às Alturas
Notas iniciais
n i n h o d a á g u i a
Um grupo minguado assistia ao pequeno duelo entre Lorde Arthur Arryn e o jovem Jasper Belmore. O singelo aglomerado sendo constituído basicamente por outros moços herdeiros ou filhos das grandes casas do Vale, escudeiros de nascimento pequeno, alguns guardas, além de algumas poucas damas que viviam no topo da Lança do Gigante. Até mesmo as duas irmãs mais novas do Lorde, Sharra e Catelyn, estavam ali querendo dizer algo, porém teriam que esperar até que o espetáculo acabasse.
Não era uma verdadeira luta, já que Arthur era conhecido por ser um grande guerreiro e seu oponente ainda não tinha mais do que quinze dias de seu nome. Porém, era uma pequena distração na rotina das pessoas que habitavam o topo do mundo. Além de que o Arryn gostava de passar um tempo ao lado dos amigos, fossem eles nobres ou não.
Ele rodeava o oponente como se fosse um verdadeiro inimigo de qualquer forma, não se deixando levar pelo ego e dando ao garoto uma chance de mostrar qualquer habilidade que tivesse. Infelizmente, o rapaz não mostrou muito quando tentou atacá-lo com um corte lateral da espada, algo previsível e fácil de segurar com o escudo forte de Arthur, feito com madeira do Norte e pintado com as cores dos Arryn. O ferro mal se fincou no objeto sólido e o tempo que Jasper levou para tirar a arma foi o suficiente para o senhor protetor daquelas terras.
Ele bateu com o punho da espada contra o braço esticado do rapaz, esse gemeu levemente com a dor repentina, criando uma abertura em sua defesa. Arthur usou aquilo para terminar com aquela breve demonstração de força, sua perna se elevou num chute direto no peito de Jasper que caiu para trás no chão rochoso do pequeno jardim que ficava no centro do Ninho. Seu elmo bateu no chão criando um barulho metálico e aparentemente ele ficou desorientado, pois levou uma das mãos até a cabeça tirando o aço brilhante rapidamente.
Arthur achava Jasper um rapaz bonito, tinha cabelo castanho-claro e com cachos angelicais, quase um tom de mel que combinavam com seus olhos claros. Bem diferente da aparência dele mesmo, com o cabelo castanho escuro curto e olhos azuis esverdeados, eram um verdadeiro contraste. Visível para todos enquanto Arthur levava uma mão até o garoto caído como um bom vencedor faria, mostrando um dos traços que trazia a ele a fama de carismático seja entre os nobres ou ao povo que ele tinha jurado proteger quando recebeu o título de seu falecido pai.
O aperto do garoto foi forte e Arthur o impulsionou para cima, dando dois tapinhas leves no ombro do Belmore para que não saísse da luta de uma forma muito medíocre. Já que seus amigos provavelmente iriam pegar no pé dele pelo resto do dia por conta daquela derrota, mesmo que nenhum dos outros tenha vencido o lorde em treino.
— Cuide da sua defesa. — Aconselhou sem parecer rígido ou como se fosse uma ordem, usando seu tom político que havia aprendido a criar durante sua vida como herdeiro e agora lorde. — Numa batalha de verdade teria sido seu fim.
— Sim… — O garoto murmurou baixo, mas sem desviar os olhos. Não estava ofendido ou triste com a derrota, talvez até feliz por ter tido a oportunidade de treinar com ele aquela tarde.
Arthur deixou o jovem Belmore e os outros, também tirando o elmo, o suor impregnado a pele como mel pegajoso e ele sabia que seu cheiro não era o mais convidativo no momento, mas suas irmãs se aproximaram ainda assim com sorrisos bobos nas belas faces.
— Artie, foi uma luta… — Sharra começou se perdendo nas palavras, já que a mesma não entendia muito sobre espadas ou armas. Uma perfeita dama, bem diferente da prima deles que provavelmente conseguiria nomear qualquer arma que passasse por seus olhos. — Boa.
Catelyn gargalhou abertamente, aproveitando que não tinha sua septã ali para brigar com ela imediatamente dizendo os modos como uma moça nobre deveria se comportar. Arthur também mostrou um sorriso de canto, revelando um lado que mostrava pouco, principalmente quando não estava com sua família e amigos próximos.
— Obrigado. — Respondeu dando a espada e escudo para um dos criados que estavam a disposição, começando a tirar as manoplas leves de treino. — O que vieram fazer aqui? Não me diga que fugiu de suas aulas novamente?
A segunda pergunta foi direta para Catelyn que não conseguia e nem queria esconder a verdade. O rosto ainda vermelho dizia tudo, provavelmente tinha vindo correndo com dificuldade da Torre da Donzela com as saias apertadas impedindo que fugisse facilmente. Sharra não apoiava aquilo e apenas ignorou a irmã mais nova e suas pequenas aventuras rebeldes.
— Eu vim por pedido de mamãe. — Sharra enfatizou dando um leve olhar para Catelyn que levou as mãos para detrás das costas em uma pose boba. — Catelyn deveria estar fazendo suas leituras com a septã a esse horário.
— Mas ela é tão chata! — A mais nova entre os três respondeu com uma voz manhosa, uma que nem o Arryn mais novo faria. Por mais que Brynden não fosse infantil como as outras crianças. — Faz eu recitar as mesmas partes todos os dias.
— Porque você não as decora nunca, seria mais fácil se prestasse alguma atenção. — Sharra tentou aconselhar, como sempre fazia. Mas Catelyn nunca dava ouvidos, fazendo o que podia longe do olhar da mãe deles.
Arthur precisava saber o que Lady Jeyne ter queria com ele, dessa forma cortou as duas antes que ficasse preso em mais uma das pequenas discussões que tinham quase todo dia.
— Nossa mãe está no salão do pequeno conselho?
Ambas pararam com a conversa, se voltando para ele ao mesmo tempo, fazendo com que seus vestidos azulados girassem.
— Não. — Catelyn negou parecendo um pouco incomodada, talvez porque soubesse que ele ficaria perturbado pela resposta que veio de Sharra.
— Ela se encontra no Alto Salão. — Sharra completou fazendo a tarefa que havia sido mandada para fazer. — Junto com os membros do conselho do Vale.
Ele cerrou o queixo delicadamente desenhado e definido.
Sabia que não seria uma reunião para tratar de assuntos agradáveis e que talvez tivesse que passar por algum estresse.
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O Ninho da Águia era o menor dos grandes castelos de Westeros, porém sua construção, por menor que fosse, não podia ser igualada. Os corredores estreitos e escadarias íngremes levaram Arthur com rapidez até o Alto Salão dos Arryn. A grandeza estava estampada no cômodo longo e austero, moldado em mármore branco como o resto do castelo e com ranhuras azuis ao redor. Para o lorde era o lugar mais bonito em que já havia posto os olhos, embora os Tyrell tentassem sempre rebater isso com seu Jardim de Cima.
Ele passou um olhar rápido, mas preciso pelas pessoas que ocupavam o espaço.
Casa Corbray, Casa Belmore, Casa Royce, Casa Waynwood, Casa Shett e é claro, a Casa Arryn representada por sua mãe, Lady Jeyne e ele mesmo. Todos membros de seu pequeno conselho, pessoas que deveriam ter sido separadas após ele se tornar Senhor do Ninho, mas que ele manteve por perto sabiamente. Um líder surdo ao seu povo era um líder falho, e isso ele nunca seria.
Por isso ouvia aquelas pessoas nos assuntos mais importantes que eram de sua responsabilidade como Protetor do Vale e do Leste. Acenou para todos ali com respeito por seus títulos e suas casas, eles fizeram o mesmo, se envergando em uma meia reverência polida. Não porque era necessário, mas merecido. Conquistado desde que Arthur havia se mostrado um senhor nato e preparado, o futuro seguro daquelas terras protegidas do resto bagunçado que eram os outros reinos.
Caminhou a passos firmes em direção ao trono dos Arryn.
A casa de Arthur não eram mais donos de uma coroa desde o dia em que Visenya Targaryen voou com seu dragão até o topo daquela montanha, porém uma relíquia daquele passado ainda permanecia intocável em uma das extremidades do salão. O trono era branco como a primeira neve do inverno, feito da madeira de represeiros que não existiam mais ao sul. Com exceção do Ilha das Faces, mas ninguém ia até aquele lugar próximo a Harrenhall.
Seu corpo completou o trono perfeitamente e ele descansou os braços, porém ainda com a postura impecável, pronto para o que viria a seguir.
— Senhores e senhoras. — Cumprimentou formalmente enquanto eles pareciam ansiosos para falar o que queriam. — Se não me engano, ainda faltam algumas luas para nossa próxima reunião.
— Milorde, o senhor não está errado. — O velho e parrudo Lorde Royce tomou a frente, um dos homens mais poderosos do Vale. Sempre achava que sabia mais do que os outros e isso incomodava o jovem Lorde do Ninho. — Porém, temos que tratar de assuntos importantes.
Arthur juntou as mãos e apoiou o queixo nelas, pronto para ouvir.
— Pois então diga.
Lady Corbray deu um passo à frente, era a representante de sua casa já que seu marido era acamado e seus filhos jovens demais para subirem até o Ninho. A mãe de Arthur revirou a boca incomodada e ele a olhou por um segundo, sabendo que nem lady Jeyne não gostava do que viria a seguir.
— Milorde, desde que soubemos do… sumiço da princesa. — A mulher começou tentando achar as melhores palavras, já que sabia que Arthur não queria mais uma vez tocar em tal problema depois de muitos encontros em que ele foi ríspido naquele assunto. — Pedimos para mandar homens até Porto Real, para representar o Vale e a casa Arryn.
— E eu fui contra tal ideia. — Arthur cerrou os punhos, um pouco irritado por ver tais pessoas indo contra sua vontade mais uma vez. — Os Arryn não se envolvem nas tramas de Porto Real e eu não irei desperdiçar nenhum homem meu em uma busca por uma garota que pode muito bem estar perdida para todo o sempre. — Ele tratou de não usar a palavra “morta”, sabendo que era o mesmo que traição. Vassalos não podiam desejar a morte ou perda de seus soberanos, ele sabia que não era inteligente cutucar os dragões. — Não irei intervir até que seja necessário.
Lorde Royce voltou a tomar a palavra.
— E isso não seria problema algum, até que milorde praticamente ordenou que nós não nos envolvêssemos também. — O homem mais velho respondeu indicando os chefes das casas ao redor. — Se não pretende intervir, ao menos deixe que os bravos homens do Vale possam prestar seu valor na busca da Princesa Alyssana.
Arthur apertou o maxilar incomodado.
Virou o rosto na direção da mãe, não em busca de apoio ou aprovação, mas para saber o que ela pensava. Tinha o rosto severo e fechado, afastada dos outros. Isso significava que ela mantinha a mesma opinião de antes, a mesma que ele, o que era incomum entre os dois quando o assunto era política. O Vale de Arryn não deveria se envolver com os problemas da corte de Aerys. Entretanto, parecia que seus lordes e seu povo não tinha a mesma ideia que ele e Arthur precisava dar uma decisão final, não poderia continuar tendo os nobres o desafiando.
Lorde Shett de Vila Gaivota também deu um passo à frente.
— Meu senhor, tenho informações concretas que quase todas as casas nobres estão indo ou enviando alguém até Porto Real. — O lorde também era velho como o Royce, entretanto não tinha o mesmo porte físico. Com uma barriga saliente por debaixo da túnica fina e com as bochechas vermelhas se mexendo enquanto falava rapidamente, o medo de se dirigir diretamente para com Arthur era visível. — Os Baratheon já debandaram com grande parte de sua força militar, os Tyrell também deixaram a Campina…
Lorde Royce voltou, muito mais firme do que o outro homem.
— Todos estão aproveitando a oportunidade e nós não podemos deixar fazer o mesmo. — Ele olhou para os outros aristocratas ao seu redor com a face dura, todos com exceção de Jeyne o apoiavam. — O Vale já se afastou da coroa por tempo demais, é hora da mudança acontecer e pararmos de nos esconder em nossas montanhas.
Arthur observou o lorde com certo orgulho, que poderia ser considerado arrogância.
Sabia que aquele homem não pararia até ter o que queria, levando todos os outros com ele. Também tinha noção de que ele algumas vezes teria que se inclinar para a opinião geral. Porém, se fosse ir contra o que acreditava, que fosse do jeito dele e da forma que menos traria problemas para sua casa e sua família.
— Pois bem. — Respondeu levantando-se de seu trono, acima de todos ali e encerrando o assunto finalmente. — Parece que amanhã terei de descer a montanha.
♖
p o r t õ e s d a l u a
O desjejum aquela manhã era um mingau de aveia grosso e doce, ainda quente por ter acabado de ser servido na mesa do lorde e sua família. Erinya Arryn pegou metade de um pão para molhar dentro de sua tigela e seu irmão mais velho, Harrion, pegou a outra metade. O pequeno salão estava em silêncio, especialmente na mesa principal devido a grande discussão que havia acontecido na noite passada.
Ela ainda estava com raiva, por isso que segurava a colher com força e comia o pão molhado a mordidas brutas. Ainda se lembrando da confusão que havia prosseguido ao pedido dela e de seu irmão para irem até Porto Real, em busca da princesa. O pai deles, o senhor dos Portões da Lua, havia sido contra a ideia de deixar seu herdeiro e sua filha favorita irem embora. Até mesmo a madrasta que ela tanto odiava foi em oposição, talvez apenas para impedir que Erinya e Harrion saíssem de seus olhos gélidos.
A Arryn estava realmente furiosa, já que tudo o que mais queria era poder sair de perto de Havenna e de seus filhos, mas o pai dela parecia disposto a destruir seus objetivos. Nunca acreditava no quão a esposa podia ser odiosa e no que era capaz para conseguir seus objetivos, que no momento pareciam se livrar de seu irmão, o herdeiro, e dela mesma.
Ainda se lembrava da cobra que havia aparecido misteriosamente dentro de seu quarto e feito ela temer tal criatura até os dias atuais. Ainda culpava a madrasta em seus pensamentos, embora ninguém acreditasse nela além de Harrion.
Deu mais uma mordida no pão sem delicadeza.
— Sabe irmã… — Harrion começou se inclinando e aproximando a boca do ouvido dela. — Por mais que eu desgoste da opinião de nosso pai, ficar com essa cara emburrada não vai ajudar em nada.
Ela apenas lançou um olhar cortante para o rapaz mais alto do que ela uma cabeça.
— Era a nossa chance. — Ela respondeu ainda se lembrando do que poderiam ter ganhado indo embora do Vale. — Mesmo que não achássemos a princesa, pois eu sei que as chances são poucas, mas ainda assim poderíamos ao menos ficar alguns meses longe de casa, longe dela.
Harrion não precisou se virar para saber que Erinya falava de Havenna.
— Vamos dar um jeito.
— Você sempre diz isso. — A garota rebateu prontamente.
— E alguma vez eu já menti para você?
Ela engoliu mais do mingau sem uma resposta.
— Acalme-se, as coisas vão melhorar.
Harrion prometeu voltando a se recostar em sua cadeira e ela voltou sua atenção para seu desjejum, ainda contrariada.
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Harrion havia ido acompanhar o pai deles até uma vila próxima que necessitava da justiça do lorde. Havenna havia se enfiado em algum lugar do castelo com os meio-irmãos dela. Erinya por fim tinha ido para um de seus lugares favoritos.
O pátio não era muito grande, mas era o suficiente para ela praticar, fosse com a espada ou com sua lança. Aquele dia ela estava afiada com a segunda, descontando toda sua frustração e emoções contra o boneco de palha que era um dos companheiros de treino dela desde que era uma moça, ainda aprendendo como manusear uma lâmina sem deixá-la cair com o peso. Hoje Erinya segurava o cabo com força e precisão, dando cortes laterais e retos no que deveria ser o abdômen de um inimigo de verdade.
Os poucos moradores do castelo que estavam no pátio não se importava com ela ou sua aparência nada nobre, seguindo com seus afazeres rotineiros. Seu cabelo grudando na testa por conta do suor, junto de suas roupas folgadas e remendadas por conta do o treino, e suas botas enlameadas deveriam fazer suas primas do Ninho olharem para ela como se fosse uma mulher dos clãs das montanhas. De qualquer forma, ela não se importava, sendo que provavelmente apenas veria as duas e o resto de sua família por parte de pai quando o inverno tocasse o pico da montanha.
Isso ainda poderia levar anos para acontecer.
Ou bem menos do que isso. Pensou enquanto via o portão principal se abrir e uma figura imponente entrar sendo seguido por uma pequena comitiva. As roupas prateadas, o broche do falcão, junto da meia capa azulada indicava que Arthur Arryn estava mais uma vez na base da Lança do Gigante. Agora ela se perguntava o motivo de tal visita sem qualquer aviso.
— Primo. — Cumprimentou deixando seu boneco de palha para trás.
Os rapazes nobres que acompanhavam o jovem lorde olhavam para ela com desgosto ou até curiosidade. Não era todo dia que conseguiam ver uma moça descabelada e usando roupas tão impróprias para o sexo feminino. Ela ignorou a todos e Arthur também.
— Prima! — Ele respondeu tirando as luvas de montaria e descendo do cavalo com agilidade. — Que bom que te encontrei rapidamente, mais do meu tempo será poupado.
Ela ergueu uma sobrancelha castanha.
— Veio me procurar? — O aceno positivo dele a deixou ainda mais confusa. — Isso é novidade.
— Trago mais do que novidades, prima. — Ele olhou ao redor e para as pessoas que começaram a parar com o intuito de observar os visitantes, sendo que não era todo dia que recebiam visitas do Lorde do Vale. — Onde podemos conversar sem olhares curiosos?
— Me siga.
Ele obedeceu sem questionar, Erinya o levou por um caminho de corredores silenciosos e algumas escadas curtas até o pequeno salão do Lorde dos Portões. Ela não deveria entrar ali sem o consentimento do pai, mas achava que a visitava do primo era motivo suficiente para quebrar tal regra, sendo que ali não seriam incomodados por ninguém.
Nem mesmo por Havenna.
— E então? Qual o motivo de vir até mim? — Foi direta, como era na maioria das vezes. Ainda incomodada por não saber do que se tratava tal visita.
O primo levou a mão até as costas, mantendo a postura ereta e acima dela.
— Por mais que eu não goste de depender dos outros, preciso de você.
Erinya olhou para Arthur ainda perdida, já que não conseguia ver o que tinha para oferecer.
— Veja bem, meus lordes e ladys, por mais que saibam de minha opinião sobre envolver o Vale de Arryn na corte, ainda assim querem que eu faça algo em relação à Princesa Alyssana. — Ele começou escondendo o pouco de raiva que ainda possuía. Não que ela soubesse disso, pois era difícil ler alguém como Arthur.
— Pois, eu penso o mesmo. — Ela respondeu prontamente, sem se abalar pela face pétrea do primo a sua frente. — Precisamos agir também e não apenas ver Westeros girar ao nosso redor sem mover um dedo sequer.
Ela começava a entender um pouco da situação e imaginava talvez o que o primo queria sugerir com tal encontro. A Arryn esfregou as mãos calejadas, já animada pelas próximas palavras do Lorde do Ninho da Águia.
— Que bom prima, afinal eu quero que você vá para a capital. — Ele levantou o queixo, dando ênfase para as próximas palavras. — Irá com um grupo pequeno, para representar o Vale e nossa casa, por isso precisará ser menos… eufórica. — Um sorriso passou rapidamente pela face do primo dela, antes de voltar a sua face natural. — Não deixarei que meus vassalos mandem tolamente nossas forças para fora do Portão Sangrento, mas enviarei você, uma filha da Casa Arryn para apaziguar os ânimos gritantes deles.
Ela cruzou os braços.
— Não acha que eles ainda ficaram inquietos?
— Felizmente, não preciso me preocupar com o que eles acham. — Respondeu mostrando um pouco de seu lado rígido e inflexível que ela havia percebido ao longo dos anos. — Sou o Lorde Suserano deles e fiz minha decisão, apenas você e seu grupo sairão do Vale, o resto permanecerá como é o certo. Creio que será o suficiente, não poderão dizer que não mandei ninguém e também não terão a oportunidade me questionar novamente.
Erinya concordou sem se importar com os lordes daquelas terras, mas com a missão que foi incumbida a ela.
— E o que eu vou ganhar?
— Como? — Arthur não pareceu feliz com a pergunta e enrijeceu o maxilar, irritado.
— Primo, você sabe tão bem quanto eu que as chances de eu achar a princesa são pequenas, quase nenhuma, na verdade. — A garota falou com sinceridade. — Não com todos os reinos atrás dela, mas eu ainda assim quero uma recompensa.
Arthur pareceu ponderar, mesmo que a contragosto, antes de acenar positivamente.
— Justo. — Concordou com um aceno leve. — O que deseja?
Ela abriu um sorriso largo.
— Terras, um castelo só meu e ninguém para mandar em mim, ou um marido decidido por meu pai. — Praticamente cuspiu tudo rapidamente, todos os desejos que tinha guardado há muito tempo. — Concorda?
O primo pareceu ponderar mais do que devia e ela achou que fosse recusar por um segundo, ou quem sabe obrigá-la de qualquer forma. Afinal, ele era lorde e ela não era nada comparada ao poder que o primo possuía. Se Arthur disse que ela deveria ir, como poderia negar?
— Pois bem, vou aceitar seus pedidos, mas trate de não causar nenhum problema enquanto estiver fora. — Ele avisou parecendo ainda tentado a negar o que ela havia pedido. — Um deslize seu e tudo o que foi concedido pode ser retirado.
Erinya poderia rebater ou criar alguma confusão com seu temperamento explosivo, porém estava feliz demais por ter conseguido o que realmente queria. Seu pai não poderia negar um pedido de Arthur, ninguém podia, fosse por conta do título ou do poder que ele emanava naturalmente, apenas com a postura ou o olhar direto. Ela poderia ir embora e no fim viver mais livre do que foi a vida toda.
— Obrigada, primo. — Agradeceu genuinamente, mostrando mais uma vez o sorriso que ela tinha dificuldade em criar. — Eu e Harrion vamos ser úteis e…
— Harrion?
Agora foi a vez dele levantar uma sobrancelha em dúvida.
— Eu nunca disse que seu irmão poderia partir com você.
— Como assim? É claro que ele irá vir comigo! — Respondeu com mais emoção do que deveria, por isso deu um passo para trás, esperando não ter contrariado o primo. Ela já havia visto o que ele poderia fazer em seus momentos de fúria e não era nada bonito.
— Não, ele não irá. — Arthur decidiu ali mesmo, colocando um ponto final com qualquer adendo que ela pudesse acrescentar. — Seu irmão é o herdeiro dos Portões da Lua, é valioso e importante. Não irá sair por aí com o risco de não voltar, principalmente com os seus outros irmãos sendo peões de sua madrasta nada confiável. Não posso ter pessoas que não confio protegendo a entrada de minhas terras quando seu pai perecer a velhice.
— Deixar ele ali seria o mesmo que ainda mantê-lo em perigo. — Ela respondeu em um tom mais comportado, porém ainda cheio de sentimento. — Você não sabe do que ela é capaz, Havenna vai fazer de tudo para colocar os filhos dela na linha de sucessão, como inclusive já fez.
— Tem provas?
Ela abriu a boca, porém fechou novamente.
— Não? — A cabeça de Arthur se inclinou levemente, ainda esperando uma resposta.
— Meu pai nunca acreditou em mim, mas…
— Não posso fazer nada sem provas, meu poder tem limites, Erinya.
Ela apertou os braços na frente do corpo.
— Agora, está decidido, você irá para a capital o mais rápido possível. Sem seu irmão. — Arthur seguiu para a porta. — Se fizer sua parte terá tudo o que foi prometido, apenas não me decepcione prima.
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