Pela Primeira Vez, Felicidade
1 Momento Único
Uno definitivamente não estava acostumado com aquilo.
Para alguém que passou toda a existência indo contra seus instintos sedentos por sangue, alguém acostumado com desgraças por todos os lugares onde passava, e acostumado a ser responsável por essas desgraças, estar em um lugar como aquele era inacreditável.
Os membros da caçada o acolheram bem (até mesmo Sieghart, que quase chorou ao reconhecer sua presença, coisa de highlander, algo assim), mas mesmo com toda a boa vontade que sentia vinda de todos, nunca nem passara pela cabeça que um dia se sentiria tão bem em algum lugar com outras pessoas na sua vida.
Sabia que a admiração estava explícita em seu rosto, a risada que escutou vinda de Lin e Sieghart atrás de si deixava claro que eles sabiam o que pensava. Mas mesmo assim era impossível não se surpreender com o lugar.
Lin havia dito que queria leva-lo até o “pedacinho abençoado”, como ela mesma chamou, um lugar onde a menina gostava de ir para pensar ou simplesmente descansar a mente dos problemas como reencarnação de uma deusa. Coincidentemente, Sieghart conhecia aquele lugar de suas aventuras ao redor de Ernas – de algumas décadas atrás, de acordo com o Imortal, mas conhecia – e se ofereceu para ir junto.
E todos sabiam que o Imortal só estava sendo tão prestativo por se sentir responsável por Uno, já que se não fosse por ele, o garoto não existiria. Mas a motivação que os levou até ali não tirava o encanto do lugar. Lin tinha motivos para chamar aquele lugar de abençoado.
Um campo verde, florido e com árvores frutíferas que cercavam um pequeno lago, de água límpida o bastante para que os peixes e outras criaturas fossem vistas com facilidade. A simplicidade do lugar era o bastante para que Uno se sentisse bem.
Pássaros e roedores pequenos pareciam habitar o lugar, e não soube reagir quando Lin tomou a frente, sorrindo para si antes de tirar os vestido e revelar um biquíni verde-esmeralda por baixo da roupa. Ela piscou um dos olhos, divertida, antes de correr até a borda e se jogar na água, sorrindo ao emergir e chamar os dois.
Uno não queria – na verdade, não se sentia no direito. Mesmo que Lin se mantivesse chamando, uma parte de sua mente sussurrava que não era merecedor daquela gentileza.
Ouviu a risada de Sieghart atrás de si e se assustou quando a bainha da espada que carregava consigo se desprendeu de seu cinto e caiu na grama. O Imortal o surpreendeu ainda mais ao pegá-lo no colo em estilo noiva e correr para a água o carregando.
Foi jogado na água e ouviu as risadas divertidas dos dois ao emergir e nem percebeu que também sorria, a sensação de pertencimento fazendo seu peito se aquecer. Nem percebeu quando as lágrimas quentes começaram a escorrer por seu rosto, feliz demais para conseguir impedí-las.
Estava feliz e não sabia como reagir. Era a primeira vez que se sentia daquele jeito, e não tinham vozes na sua cabeça falando que aquilo era errado, simplesmente porque as únicas vozes que escutava no momento eram as de Lin e Sieghart lhe dando atenção e o fazendo se sentir amado.
É, poderia se acostumar com aqui com facilidade. Queria se acostumar com aquilo.
Simplesmente porque não era errado. Não mais.
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