Pela Primeira Vez

2 O estranho humano


O meu Alfa ficava agarrado à ponta da ilha, parte dela congelada, como se fosse um parasita gigante. Uma nuvem negra de dragões circulava sobre sua cabeça.

Passamos a noite inteira naquela ilhazinha no meio do nada. Meu mestre humano em cima de mim, esperando os últimos dragões conseguirem sair de suas casas para se juntarem a nós. As pessoas, algumas agarradas aos filhotes de dragão – que o Alfa não controlava –, se escondendo onde podiam: atrás de construções, embaixo de carroças. O pânico se estabelecera no exato momento em que o meu Alfa ficou visível no horizonte, e a partir daí só piorou. Eles não podiam fazer nada para nos impedir. Ninguém impede o Alfa.

Uma movimentação estranha chamou a atenção de meus ouvidos, porque eu não podia virar a cabeça. Os humanos se agitaram. Algo estava acontecendo lá no solo. Eu não sabia o que era, mas meu mestre e meu Alfa perceberam também.

Entendi que meu Alfa queria nos dar uma ordem; sentia meu corpo inteiro formigar quando ele o fazia. Uma corneta forte soou, me impedindo de ouvir qualquer coisa que ele falasse. Ele esperou e então tentou de novo, mas a corneta soou outra vez. E dessa vez, deve tê-lo deixado muito zangado. Ele rosnou para o que quer que fosse, abriu sua boca e soltou uma rajada de gelo. O barulho parou no mesmo instante. O meu Alfa estava distraído.

Enquanto isso, em meu campo de visão limitado, apareceu o motivo da confusão. Era aquele garoto! Será que ele nunca desiste? Ele estava montado em um dragão bem pequeno, um filhote, e se aproximava de mim devagar, meio receoso. Eu desejava com todas as minhas forças que ele caísse, que passasse uma corrente de ar muito forte de repente e o derrubasse. Ele bateria no chão e morreria. Meus problemas teriam acabado. Mas o dragão continuou voando e o quase homem continuou firme em suas costas.

– É difícil livrar-se de você, devo dizer – admitiu o meu mestre humano.

O garoto ignorou-o. Ele estava focado em mim. Eu podia sentir o seu olhar sobre mim, embora não o enxergasse. Ótimo, eu tento matá-lo e agora ele tenta me matar. Muito justo.

– Banguela... oi – disse ele. – Sou eu, amigão.

Quem é esse Banguela de quem ele tanto fala? Eu não entendia muito bem os humanos, mas achava que essa palavra devia significar alguma coisa. Ele ficava sempre repetindo e repetindo isso, toda hora. E ainda me chamava de... amigão. Não se trata estranhos desse jeito. Tinha tanta intimidade comigo que uma ideia brotou na minha mente: talvez ele me conheça. Eu não o conheço, mas talvez ele me conheça.

– Sou eu – ele insistia, com delicadeza, como se temesse que eu saísse correndo. – Eu estou bem aqui, amigão. Volte para mim.

O meu mestre riu com desdém, sua voz rouca.

– Ele não pertence mais a você. Ele pertence ao Alfa. Mas, por favor, ó, grande treinador de dragões, tente levá-lo. Ele não vai errar uma segunda vez.

Percebi o meu Alfa se mexendo, como a grande sombra de uma montanha. Ele se posicionou de modo a ficar exatamente embaixo de mim, me encarando com seu olhar mais frio, que me fazia ter calafrios. Meus sentidos ficaram mais apurados. Eu sabia onde cada um estava ali, onde cada criatura ou objetos se encontrava neste momento. Sentia a asas batendo do pequeno dragão à minha frente. O garoto esticava o braço para mim. As pupilas do meu Alfa se contraíam e se dilatavam repetidas vezes; os espinhos em sua cara balançavam.

Eu sabia o que ele estava fazendo. Estava me controlando. Provavelmente eu errei novamente e ele veio me ajudar e consertar.

"Mate-o", sua voz ecoou dentro de meu crânio, tão alto que meu coração falhou uma batida. Essa foi a primeira vez que eu tive medo de obedecê-lo, que eu hesitei, que eu não queria fazer. Não, eu não ia fazer. "Dessa vez não erre"

– Não foi culpa sua, amigão – disse o garoto, estendendo a mão. – Eles forçaram você a fazer isso.

Meus dentes saíram das gengivas – eu os recolhia quando não precisava deles. De novo, os fluidos inflamáveis se mexeram em meu estômago ou seja lá qual parte do meu corpo faz isso, se misturando, se preparando para entrar em combustão. Estava pronto para atirar, assim como estava ontem. O diferente era que a sombra do garoto não recuava; ela continuava se aproximando, a respiração tensa, quase me tocando no focinho com a mão.

Ei, espere aí...

Aquele gesto... eu já vi aquilo em algum lugar, vindo de um garoto como aquele, em um lugar bem diferente desse, quando o meu mundo não era rosa-desbotado... Não era possível, o primeiro humano que vi em minha vida foi o meu mestre, me lembro bem. Mesmo tendo certeza disso, aquela ideia de que o garoto me conhecia só me pareceu mais certa. Eu sei que já vi algo assim. Eu...

Mas o que eu estou falando? Eu não conheço você!

"Atire", gritou o Alfa.

Não!

Eu não podia atirar, algo me impedia de modo que nunca me impediu antes. Pela primeira vez, eu não obedeceria ao Alfa. Eu não iria matá-lo. Ele me era tão familiar.

– Você nunca machucaria ele – insistiu o garoto.

Então, eu vi. Foi a coisa mais maravilhosa do mundo. Tudo ainda era extremamente embaçado, mas, bem diante de meus olhos, quando o garoto estava a centímetros de mim, seu rosto entrou em foco. Os olhos verdes dele pareciam ter saído direto da floresta só para encarar-me. Seu nariz era redondo e engraçado. O cabelo era castanho-avermelhado. Uma cicatriz do lado direito do queixo não passava de uma pequena linha branca, iluminada pelo Sol da manhã.

Ele tocou meu focinho.

– Você nunca me machucaria.

A lembrança retornou de uma vez só, eu sabia quem ele era, sabia por que eu não podia matá-lo. Ele me fez voar de novo. Venceu o grande dragão mau. Libertou todos nós. Lutou pelo que acreditava. Trouxe a paz de volta. Nos deu um lugar seguro. Ele foi o primeiro a montar um dragão. Ele era meu amigo.

Ele voltou para me buscar.

– Como consegue fazer isso? – meu mestre deixou escapar. Em seguida, percebeu o que tinha falado e ficou quieto.

– Por favor – insistiu o garoto –, você é meu melhor amigo, Banguela.

Eu conheço você. Mas qual é o seu nome? Não sei... não sei... Eu preciso lembrar. Eu preciso! Como fui capaz de me esquecer de você? Depois de todas essas coisas horríveis que eu fiz, você voltou. Você não me abandonaria.

Minha cabeça doeu como nunca. A pressão fazia meus ouvidos quase explodirem.

"Resista", meu Alfa tentou mais uma vez. Mas ele não me controlava. Eu não tinha que obedecê-lo. Não seria dominado, não me renderia. Nunca mais.

Ora, vamos, eu dizia para mim mesmo. Você consegue.

Fiz um esforço inimaginável, um bilhão de vezes mais difícil do que tentar lembrar de um sonho. Pensei no pai dele, que morreu no lugar de seu filho, e no próprio garoto. Se ele pôde me perdoar pelo que fiz, voar até aqui naquela miniatura de dragão e estar ali na minha frente agora, eu podia lembrar seu nome.

– Meu melhor amigo.

A pressão parou. Respirei normalmente. Minha visão se abriu. O meu mundo não era chato, não era fora de foco, ele não era rosa. Existiam cores, criaturas e objetos, muito mais detalhados do que quando, no fundo de meu subconsciente, sonhei em como seria. O dragãozinho embaixo do garoto era roxo; o que sobrou da ilha era marrom e verde; o céu era azul claro; o Sol era amarelo; o gelo de meu Alfa era verde-água meio transparente; o homem montado em mim – que não era mais meu mestre – vestia uma armadura preta; o oceano azul se estendia até o horizonte. Eu estava tão feliz.

Naquele momento, algo explodiu dentro de mim. Eu sabia tudo. Sabia o nome dele. E eu o amava, porque ele era meu melhor amigo.

Soluço.

Notas finais
Acabou
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!