-Filha, não brinque muito longe de casa, já está escurecendo. –dizia enquanto me olhava assustada – E não entre na floresta.

-Sim, mamãe.

A floresta era proibida. Não havia uma pessoa em nossa cidade, que fosse a favor de entrar na floresta densa, a menos que fossem em grupos para buscar lenha.

A vovó morava lá dentro, em uma pequena casa próxima a um lago imenso, onde alguns corajosos se aventuravam em busca de peixes para alguma data importante do ano.

Não encontrei perigo algum quando resolvi entrar sozinha naquela floresta escura, enquanto minha mãe erguia a roupa no varal atrás da casa, feito de bambus e alguns arames velhos. Minha casa era na entrada da floresta, um belo convite para procurar por alguma coisa diferente, talvez um coelho de estimação.

Meus seis anos pareciam nunca passar, eu precisava ter idade para entrar e procurar por alguém ou alguma coisa a me dar afeição. Nenhuma criança da aldeia me olhava como igual. Eu era apenas a menina estranha que vivia perto da floresta.

-Venha para casa, filha. Está na hora do jantar.

-Sim mãe.

Entrei correndo aquele dia, ainda impaciente com a descoberta que havia feito. Haviam mesmo coelhos lá dentro, de pelo branco como a neve, olhos e narizinhos rosa, com filhotes aprendendo a conhecer o mundo.

Me lembro como se fosse ontem, que aquela aproximação até a floresta não foi por acaso. Ouvi os coelhos vindo e fui até lá chama-los, era um pouco escuro lá dentro, com aquelas árvores gigantes que chegavam a tocar os céus e esconder a luz da lua.

Foi nesse dia, apenas nesse dia, que perdi o medo de andar pela floresta, mas nunca contei a minha mãe que havia feito um novo amigo. Ele não era um coelho ou uma árvore. Se eu tivesse contado, ela teria se assustado tanto e me proibido de vê-lo. Mas tínhamos uma ligação e isso ela nunca entenderia.

Todas as manhãs, após o café, eu corria até perto da floresta e o chamava, mas ele não respondia. Então, escondia doces em uma cestinha e colocava atrás de alguns arbustos na floresta, enquanto minha mãe não me olhava. Voltava no outro dia e os doces haviam sumido, apenas a cesta estava lá.
Ficava feliz e voltava a pegar mais doces, pensava que meu amigo era tímido e apenas falaria comigo após confiar em mim.

-Aonde pensa que vai, mocinha?

-Brincar com uns coelhos que vi ali perto daqueles arbustos.

-Ali é muito perigoso filha, pode ter alguma cobra ou um outro bicho venenoso.

-Mas mamãe...

_Sem mais. Venha para dentro e não faça mais essas coisas imprudentes. Aliás, acompanhe-me até a cidade, preciso fazer algumas compras.

Logo que recolheu a remessa de roupas do varal que já estavam lá a uns dois dias para secar bem, já que a sombra das árvores dificultavam esse detalhe, fomos andando de charrete até a cidade, onde minha mãe passava boa parte do tempo comprando comida e alguma outra coisa para melhorar nossa pequena casa de madeira. Meu pai morreu quando eu tinha três anos, mas nunca soube o porquê de sua morte não ser relatada.

Prometi a mim mesma uma outra coisa, iria visitar a vovó. Não há vejo desde a morte dele, preciso de respostas e ela pode me dizer. Mesmo a mamãe não querendo ir até lá comigo.

Quando crescer, entrarei na floresta e andarei pela estrada de terra batida até lá, ignorando histórias bobas de crianças... Como o Lobo Mau!