Peggy
1 Capítulo 1 - Um Resgate Inesperado
Do lado de fora do prédio, Jéssica e Eduardo seguravam a respiração num silêncio quase absoluto, quando Danilo empurrou lentamente a janela de correr, revelando, naquela escuridão, um odor distinto e acentuado.
— São porcos! — gritou Danilo, ecoando pelo pavilhão.
Em seguida se ouviram alguns alguns roncos e grunhidos que pareciam confirmar: eram porcos!
— Shhh! Tá maluco! Fala baixo! — sussurrou Eduardo, olhando da esquerda para a direita e vice-versa, antes de concluir que a área estava limpa.
Os três jovens ativistas ficaram ali, quietos, aguardando imóveis, enquanto um por um, os sons diminuíam. Aos poucos os ruídos começaram a se dispersar, e o silêncio voltou a prevalecer.
— Ninguém falou nada sobre porcos! — sussurrou Danilo, irritado.
— Meu, tô tão surpreso quanto tu! — respondeu Eduardo.
No início daquela semana haviam recebido uma denúncia anônima de maus-tratos a chimpanzés que fez o estômago de Jéssica revirar e o sangue de Eduardo ferver. Motivados a agir, mas sem saber como, o casal de veganos procurou Danilo, que havia participado de um resgate de beagles numa universidade, havia alguns anos. Planejaram os detalhes às pressas, recrutando também Zeca, que naquele momento aguardava em seu furgão junto à porta, com o motor ligado. Nenhum deles imaginava encontrar suínos naquele local.
— Macaco, porco, que importa? Agora que tamo aqui, vamo salvar os bicho, né! — murmurou Jéssica.
— Vocês tão louco? Vai dá merda! — disse Danilo, que parecia não saber falar baixo.
Alguns animais começavam a se agitar novamente.
— Shhh! — responderam, dessa vez, Eduardo e Jéssica juntos.
Mais uma vez os três aguardaram imóveis, naquela penumbra, até que os porcos se acalmassem.
— Mano, não faz sentido! Se fosse pra resgatar porco, a gente podia ter ido pra uma fazenda. Era só abrir a porteira duma pocilga, sei lá. Soltava uns oitenta bicho e não ia ter toda essa função com alarme, câmera, e o diabo a quatro. Vamo corre mó risco pra salvar meia dúzia de porco! Não foi isso que planejamos! — resmungou Danilo, agora sim falando um pouco mais baixo.
— Cara, tu sabe que a Jéssica tá certa. Vai ter coragem de deixar os bicho aí agora? Zeca tá lá, é questão de abrir as jaula, tocar os bicho pra dentro do furgão, e sair todo mundo num tapa. Chimpanzé, porco, avestruz, não muda nada.
Naquela escuridão, se ouviu Danilo dar um longo suspiro seguido por um longo silêncio.
— Tá bom porra, mas vamo logo então, senão os vigilante volta, e a gente não consegue mais salvar os bicho!
Danilo se aproximou da jaula, o coração acelerado. O cheiro forte dos suínos invadia suas narinas enquanto ele trabalhava cuidadosamente para soltar o trinco, tentando ser o mais silencioso possível. Ele podia sentir a pulsação forte e rápida do seu coração, enquanto se movia com cautela, como se estivesse desarmando uma bomba. Cada passo era uma batalha, cada som parecia ampliado em sua cabeça enquanto ele lutava para libertar os porcos do laboratório. Ele se concentrou e continuou, até que finalmente, com um clique baixo, soltou o trinco e pôde abrir a porta da jaula.
Quando finalmente abriu a porta, os porcos soltaram uma série de grunhidos. Danilo congelou, o coração na garganta. Ele podia ouvir o som de passos se aproximando e o baixo murmurar de vozes. Seriam sons de outros animais à distância? Ficaram todos quietos, aguardando a situação acalmar. O tempo se arrastava, cada segundo parecia uma eternidade.
— Agora, rápido! — sussurrou Jéssica, empurrando os ombros de Danilo.
Danilo começou a guiar os porcos para fora da jaula e em direção à porta, onde Zeca aguardava com o furgão, do outro lado. Jéssica e Eduardo seguiam atrás, tentando acalmar os animais e mantê-los se movendo na direção correta. Cada vez que os porcos grunhiam, se perguntavam se os guardas os teriam ouvido, se estariam a caminho.
Eles sabiam que as portas de aço eram pesadas e barulhentas, não havia como abri-las de forma silenciosa. Este seria o momento em que eles seriam notados.
Danilo tirou uma pequena ferramenta do bolso — A gente abre as portas rápido e sai correndo. Antes deles perceberem o que está acontecendo, já estamos na estrada.
Jéssica e Eduardo concordaram, mas com os nervos à flor da pele. Danilo contou até três e eles puxaram as portas juntos, abrindo-as com um rangido alto, seguido por uma sirene que ecoou pelo laboratório. Quando corriam para o furgão, podiam ouvir o som de passos dos guardas se aproximando e ficando mais altos.
— Temos que ir agora! — gritou Eduardo, ofegante do esforço.
Todos saltaram para dentro do furgão e Zeca saiu com tudo, fazendo os pneus cantarem. Enquanto fugiam, eles podiam ver pelo retrovisor as luzes piscantes da viatura da segurança particular estacionada, ficando cada vez mais distante. Eles já sabiam que o serviço de segurança não faria perseguições e a polícia levaria muito tempo para chegar.
Zeca mantinha o foco na estrada à frente enquanto dirigia o furgão velho, sabendo que não podiam se permitir distrações. Danilo, sentado ao seu lado, tinha seu olhar atento aos retrovisores. Jéssica e Eduardo se abraçavam na segunda fileira de bancos. Ninguém falava, cada um perdido em seus próprios pensamentos enquanto seguiam pela estrada escura. Os odores dos animais se espalhavam pelo veículo, e se combinavam ao som das respirações pesadas dos porcos e ao ruído do motor cansado, criando uma sinfonia desagradável que afetava os nervos de todos.
— Não acredito que conseguimos! — disse Danilo, descontraindo a expressão tensa do rosto.
Enquanto o furgão avançava pela escuridão, o grupo seguiu em silêncio, aliviados pela missão ter sido um sucesso. A adrenalina foi diminuindo lentamente, permitindo que a realidade da situação se instalasse. O medo que os havia consumido durante o resgate começou a se dissipar, deixando apenas uma sensação de alívio e cansaço. Pela primeira vez em horas, os quatro se permitiram relaxar um pouco, sabendo que haviam conseguido sair ilesos daquela loucura.
De repente Zeca quebrou o silêncio — Bem, galera, talvez eu tenha entendido algo errado, a gente não ía resgatar macacos? — perguntou. Percebendo o olhar confuso de Zeca, que os observava no retrovisor central, Jessica, Eduardo e Danilo riram juntos, sem explicar.
— Porco come banana? — perguntou Eduardo, após uma breve pausa.
— Não tenho ideia — respondeu Danilo — Acho que vamos descobrir.
— Vamo precisar descascar pra eles — completou Jéssica.
O grupo explodiu em risadas com o absurdo da situação e assim seguiram dirigindo pela madrugada.
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