Pedras Preciosas
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Quando era uma garotinha, oito anos se não lhe falhasse a memória, Lily tinha um cachorro. Mas não era um cachorro de verdade, não. Era um cachorro de pelúcia. Fluffy. Um lindo cachorrinho de pelúcia que Lily amava mais do que amava suas bonecas ou qualquer outro brinquedo e por não ter um círculo de amizades tão grande assim, muitas vezes se sentia sozinha, o que tornava esse cachorrinho seu melhor amigo.
Um dia, Lily teve uma ideia. Se fizesse algo grande, algo que atraísse a atenção de seus pais e mostrasse que ela não era mais tão criança assim, talvez eles a deixassem brincar com os poucos amiguinhos que tinha porque veriam que ela era inteligente. Motivada por uma lógica infantil de apenas querem brincar com outras crianças ao invés de ficar em casa para sua “segurança”, como sempre diziam seus pais, ela desceu até a oficina de seu pai e pegou tudo o que seus pequenos braços podiam carregar.
Lily passou uma semana daquelas férias de verão trancafiada em seu quarto com a desculpa de que estava lendo e desenhando. Brincadeiras de criança. Mas a verdade? Ela estava trabalhando em seu primeiro projeto. Trazer Fluffy à vida. Ou o mais próximo da vida que conseguisse. Com apenas oito anos, Lily estava criando um mecanismo robótico que fazia Fluffy se mexer, abanar o rabo e latir.
Nesse momento, ela devia ter percebido que era uma criança diferente das outras. Afinal, quantas crianças podem fazer seus brinquedos inanimados se mexerem? Mas para Lily aquilo não era grande coisa. Ela só queria impressionar seus pais e poder passar o verão se divertindo com as outras crianças. E quando terminou seu projeto, para ela, Fluffy estava vivo. Porém, ela nunca teve a chance de mostrá-lo a seus pais, quer dizer, nunca teve a chance de mostrá-lo a seus pais como um projeto seu.
Aquele tinha sido seu primeiro projeto. A primeira coisa que ela fazia sozinha e por uma iniciativa sua. Porque mesmo que ela visse seu pai ensinando seus irmãos as funções básicas das ferramentas que usava, mesmo que gravasse tudo aquilo tendo ouvido apenas superficialmente, mesmo que sua memória fosse excelente sem ela sequer perceber, Lily nunca quis realmente construir algo. Ela ficava feliz em ser apenas uma telespectadora. Ela gostava de assistir seu pai e seus irmãos. Mas aquele era seu projeto. Seu primeiro projeto. E Alex e Jai receberam todo o crédito.
A lembrança veio tão rápido quanto se fora. É, aquele deve ter sido o início dos seus problemas familiares. Talvez esse episódio tenha iniciado todos os sentimentos que agora ela guardava sobre seus irmãos. O início de tudo. Um sorriso triste e ao mesmo tempo irônico brincou em seus lábios enquanto caminhava em direção à casa de Jade.
Já estava andando sem rumo há horas, mas ela precisava ouvir alguém que pudesse entender pelo o que ela estava passando. Todos esses confrontos familiares... E Jade era a mais apta. Sim, ela estava com medo de que as outras ficassem bravas ou algo do tipo por ela ter revelado um segredo que não era só seu para guardar, mas ela sabia que Jade entenderia. Porque Jade entendia como era dizer coisas que não deveriam ser ditas quando não se está pensando direito.
Os pais de Jade não eram nada fáceis. O pai dela era senador. Sorriso simpático no rosto fora de casa, uma boa conversa fiada e um terno caro. A mãe dela era uma estilista. Sorriso simpático no rosto fora de casa, uma boa conversa fiada e uma roupa cara. Ou seja, existia um padrão. E Jade nunca esteve dentro desse padrão. Por um tempo, seu irmão, Newt, também não esteve, mas depois de muitas brigas e discussões, ele foi coagido e se tornar aquilo que seu pai queria que ele fosse.
Porém, Jade nunca concordou em fazer parte do padrão da família, então se rebelava na forma como podia. O piercing no umbigo que fez ano passado foi uma dessas formas. Lily se lembrava de como o pai dela ficou furioso quando soube, afinal ela tinha acabado de fazer 14 anos na época. Assim, Jade poderia ser uma das poucas pessoas que conseguiam entender como é não estar nos padrões da família.
– Quem é? – A voz de Jade saiu do interfone.
– Jade, sou eu.
– Lily! – No segundo seguinte o som do portão sendo aberto foi ouvido.
Lily entrou e seguiu pelo caminho de pedra que levava até a porta da frente da casa de Jade e antes mesmo que parasse, a porta já havia sido aberta e Jade esperava por ela encostada no batente.
– Achei que as coisas fossem ficar feias o bastante na sua casa para que você não saísse por um tempo. – Disse após fechar a porta.
– E ficaram. Ficaram tão feias que eu precisei sair de lá.
– O que aconteceu? – Jade perguntou preocupada. Lily suspirou.
– Ah, Jade... Eu estraguei tudo. – Confessou sentando-se no sofá e apoiando o rosto entre as mãos. A consciência do que tinha feito, voltando.
– Tá legal. Respira fundo e então me conta o que aconteceu. – Pediu sentando-se ao lado de Lily.
– Onde estão seus pais? – Não seria legal caso alguém ouvisse.
– Onde você acha? Trabalhando é claro. – Jade respondeu da maneira como sempre respondia. Mágoa e rancor escondida em sua voz. Nesse momento, mais rancor do que mágoa.
– E seu irmão?
– Meu pai arrastou ele para o trabalho também... Não tem ninguém em casa além de mim, Lily. Fala logo o que aconteceu.
– Eu contei ao Jai e ao Alex. – Confessou de uma só vez. – Bem, eu não contei. Eles descobriram e no meio da discussão eu acabei contando.
E então Lily desabafou. A intenção não era contar absolutamente tudo o que tinha acontecido, mas foi o que ela fez. Contou o que aconteceu desde que voltou para casa naquela manhã. Sua mãe lhe colocando de castigo injustamente, seu pai não fazendo nada para lhe ajudar, seus irmãos a encurralando em seu quarto, a verdade, a discussão e então ela falando boa parte do que vinha guardando. Lágrimas escorreram pelo seu rosto sem que ela percebesse.
– Lily... Caramba... Você não precisa chorar. Quer dizer, se está preocupada que uma de nós fique chateada porque Alex e Jai agora sabem... Não fique. Posso dizer por mim e pelas outras que isso não é uma grande coisa. Relaxa. – Jade disse apertando seu ombro.
Jade não era muito dada a demonstrar sentimentos abertamente. Ela brincava e era por meio das ironias que Lily percebia quando ela se importava com algo ou alguém. Por isso ela também sabia o quanto Jade estava sendo sincera. Ela não estava irritada.
– As coisas não deveriam estar acontecendo assim. – Lily murmurou.
– Vamos ter que lidar com elas da maneira como estão vindo, não tem jeito. – Comentou Jade. – Olha, Lily... Volta para casa. Pelo o que você me contou, sua mãe vai querer te comer viva quando você voltar e é melhor não arriscar perder o controle e acabar revelando a verdade para ela, muito menos para o seu pai. Podemos lidar com Jai, Alex e Charlie. Não tem problema.
– Não sei não, Jade.
– Lily. Vai para casa, ok? Você só está sobrecarregada. Dorme um pouco e amanhã, quando acordar, vai ver que nada está tão ruim quanto você acha que está. E se isso te fizer sentir melhor, eu converso com as meninas e explico a nossa atual situação.
– Eu não...
– Lily. Elas vão entender. – Jade a interrompeu.
Depois de alguns segundos de silêncio, Lily suspirou derrotada.
– Ok, você venceu. Talvez até mesmo esteja certa.
– Ah, se o momento fosse mais oportuno... Eu gravaria essa frase. – Lily riu levemente enquanto se levantava.
– Sim, porque “Jade” e “certa” são palavras que não coabitam a mesma frase.
– Aparentemente isso está mudando.
– Tchau, Jade. – Disse Lily interrompendo-a e abrindo a porta. Esse era o tipo de intimidade que elas tinham uma na casa da outra. Jade sorriu. – E obrigada.
O caminho de volta para a Torre Stark não foi fácil. Já estava anoitecendo e o vento frio ironicamente a aquecia. Se ela se trancasse em seu quarto, Jai e Alex e deixariam ter uma noite de suposta paz? Porque ela não conseguiria enfrentá-los. Não mesmo. Jade tinha razão, e que não ficasse sabendo disso, mas ela realmente precisava dormir. O dia tinha sido longo e dos piores. Só que ela deveria saber que não seria tão fácil assim.
Quando o elevador parou no andar de sua casa, Lily imediatamente ouviu vozes. Preparou-se mentalmente para a baita bronca que receberia de sua mãe por ter saído da Torre mesmo estando de castigo enquanto se aproximava, porém algo que ouviu a fez gelar.
– Espera, o quê? – Perguntou olhando para toda a sua família que estava reunida na sala.
Ignorou imediatamente os olhares de Alex e Jai que caíram sobre si e focou em seus pais. Seu pai estava com um copo de Wisky na mão e sua mãe estava sentada ao seu lado, com um olhar aparentemente preocupado no rosto.
– É, foi isso o que você ouviu, Lia. Fury vai começar uma busca pelas garotas de ontem à noite e escalou todos os Vingadores para isso. Não acredito que vou ter que passar meu tempo tentando encontrar seis garotas que resolveram brincar de super-heróis. – Respondeu seu pai tomando um gole da bebida.
Sua mãe parecia que já havia se esquecido que Lily supostamente deveria estar em seu quarto, de castigo, e não chegando da rua porque se voltou para ela.
– Os noticiários só estão falando dessas garotas. Não vai ser fácil encontrá-las. – Falou.
– E como se já não bastasse, ainda preciso aguentar ouvir aquele idiota do Jacobs. – Continuou seu pai e Lily sentiu seu coração parar uma batida.
– Jacobs? Diretor da TUR? – Perguntou nervosamente. Isso estava mesmo acontecendo?
– Sim. Ele foi até a base da S.H.I.L.D hoje. Acreditam que ele é o responsável por isso? O idiota não teve a capacidade de conter a radiação em uma de suas salas e aparentemente quando o sistema sobrecarregou, explodiu.
– Expondo as seis garotas à radiação, não é, pai? – Perguntou Jai e Lily quis esganá-lo. Ele estava fazendo de propósito?
– Sim. – Concordou seu pai. – Mas sabe... Algo nessa história não está me cheirando bem.
– O que quer dizer, Tony? – Perguntou sua mãe. Lily ignorou a vontade de correr e se esconder em seu quarto e se aproximou mais.
– Quando ele foi até a base de operações hoje... Eu não comprei aquela cara de preocupado dele. E nem Fury comprou, se querem saber. Ele foi até lá e contou que as garotas da noite passada estavam envolvidas no acidente que aconteceu em uma de suas empresas. E, que estava disposto a fazer o que estivesse ao seu alcance para nos ajudar a encontrá-las antes que elas se machucassem ou machucassem alguém.
– Isso prova que ele quer ajudar, não? – Perguntou sua mãe. Lily olhou rapidamente, sem conseguir evitar, em direção a seu Alex e Jai e os viu encarando-a. Quis pedir para que eles disfarçassem pelo menos.
– Sim, mas sinto que há algo mais. Vejam... Quando ele saiu, ninguém realmente acreditou que ele estava querendo nos ajudar porque estava se sentindo culpado ou algo do tipo. Ele definitivamente não se culpa por ter exposto seis garotas à radiação, isso eu posso afirmar. Em todo caso, quando ele saiu, invadi o sistema de segurança da TUR e copiei todos os arquivos que pude encontrar sobre o que havia na sala onde o acidente aconteceu. Algo que pudesse nos ajudar a entender o que aconteceu com aquelas garotas.
– E o que achou? – Lily perguntou sem poder evitar.
Será que seu pai encontrou respostas para o que aconteceu com ela e as outras? Até agora vinha achando que foi apenas radiação que alterou seus DNAs, mas a forma como seu pai falava estava fazendo-a duvidar disso.
– Nada. – Respondeu seu pai.
– O quê? Como nada? – Perguntou Alex. Lily estava realmente tentando ignorá-los, mas assim ficava difícil.
– Todos os arquivos foram apagados. Não havia nada. Parece que o diretor apagou tudo que pudesse levar ao que havia naquela sala. Mas eu não me contentei com isso, claro. Então ativei um programa para tentar recuperar alguns dados. Jarvis ainda está decodificando tudo o que eu encontrei, mas o que eu mesmo pude decodificar lá, na base, foi que seja lá o que havia naquela sala, irradiou radiação suficiente ao explodir para destruir uma cidade como Nova York. Aquelas garotas... Elas não deveriam estar vivas.
Não deveriam estar vivas.
Não deveriam estar vivas.
Não deveriam estar vivas.
Mas Lily estava viva. Lily e as outras. Todas estavam vivas. Vivas e melhores do que nunca, considerando tudo. Não. Seu pai deveria estar errado.
Irradiação suficiente para destruir uma cidade como Nova York.
Ah, Lily não era burra. Ela sabia o quanto de radiação era necessário para fazer algo assim. Mas não fazia sentido! Essa quantidade de radiação não poderia ser contida em uma caixa retangular como a que havia naquela sala e ela se lembrava perfeitamente de ter visto uma caixa retangular brilhando. Primeiro pensou que fosse um gerador, mas quanto mais se lembrava daquele dia, mais se lembrava de ter visto uma caixa retangular na realidade. Ok, ela sabia que o tamanho de um suporte não significava a quantidade real de radiação que ele podia conter, até porque é radiação. Mas ainda assim, a TUR não poderia ter acesso a essa quantidade de radiação.
Algo definitivamente não estava certo.
– Mas... Como? – Perguntou hesitante. – Como elas podem estar vivas se foram expostas a tanta radiação assim? – Seu pai deu de ombros.
– É isso o que queremos descobrir também. – Respondeu. – Está na cara que Jacobs está escondendo algo.
– E ele disse que ia ajudar vocês a encontrá-las? Pai, está na cara também que ele não pretende deixar com que a S.H.I.L.D as ajude. – Alex falou e Lily precisou concordar com ele internamente. Ela sabia o que isso significava.
– Eu sei, Alex. Na verdade, todos nós sabemos. Ele teve muito trabalho para esconder o que havia naquela sala... E ninguém esqueceu seu pequeno discurso logo após o acidente dizendo que elas deveriam ser eliminadas.
– Mas são meninas! Como ele pode querer matar seis meninas que não tiveram culpa do que lhes aconteceu? Se alguém tem culpa é ele, por ter tido algo tão perigoso em sua posse. – Sua mãe falou, mas Lily estava ocupada demais pensando desesperadamente em uma saída para se importar com a aparente preocupação. Afinal, não era preocupação dirigida a ela de qualquer jeito.
– Sim, Pepper. Todos pensam a mesma coisa e chegamos à decisão, depois que ele saiu, que iríamos aceitar qualquer ajuda que ele pudesse dar, mas que quando as encontrássemos, não o deixaríamos machucá-las. Fury quer ajudá-las.
Fury quer ajudá-las... Rá... Tá bom que Lily iria acreditar que Fury queria ajudá-las. No máximo, o que ele realmente quer é prendê-las. Deixa-las fora de circulação. Elas seriam ratos de laboratório até que ele entendesse o que foi que aconteceu com elas de fato. Não. Elas não podiam confiar nos Vingadores. Não podiam confiar em ninguém.
– Ajudá-las como? – Ouviu Jai perguntar. Sabia que sua expressão deveria estar entregando seus pensamentos. Claro que seus pais não entenderiam, mas por um segundo esqueceu que seus irmãos sabiam a verdade.
– Treinamento. – Seu pai respondeu de imediato e Lily franziu a testa levemente. – Fury quer ensiná-las a usarem os poderes que ganharam sem que corram o risco de se machucarem ou machucarem alguém.
Fury, bom samaritano? Não mesmo. Lily conhecia seu pai o suficiente para saber quando ele estava mentindo. E naquele instante, Tony Stark estava mentindo. Mas era uma mentira tão sútil que ela até poderia acreditar ser verdade se não fosse, bem, filha dele.
Seu melhor palpite? Essa era a ideia inicial. Talvez a ideia antes de Jacobs ter ido até a base. Algo mudou. Ela podia sentir. Não sabia explicar, mas algo estava lhe dizendo para não acreditar que Fury queria apenas treiná-las. Talvez até mesmo seu pai acreditasse que era isso o que ele realmente queria fazer, afinal, não é como se Fury nunca tivesse feito nada sem que os Vingadores soubessem, ou talvez agora estivesse apenas querendo acreditar que seu pai não compactuaria com algum plano para prendê-la em algum lugar.
Ah. Agora sua cabeça estava doendo.
Levantou-se do braço do sofá no qual acabou sentando-se para ouvir e saiu andando em direção ao seu quarto. Seus pais não perceberiam. Seu pai parecia ocupado demais odiando a ideia de ter que sair a procura de seis garotas, o que a lembrava de ter que ficar esperta com o que quer que ele fosse fazer de agora em diante. E sua mãe apenas parecia cansada, embora preocupada com o possível desenrolar dessa história. Mas não importava. Nenhum dos dois sabia que ela era uma das seis garotas. Precisava manter isso em mente.
E precisava dormir.
Mas mal abriu a porta de seu quarto para entrar e logo sentiu seu pulso sendo segurado. Virou-se e não pode evitar suspirar cansada.
– Jai, por favor, não vamos...
– Precisamos conversar. – Ele a cortou.
Lily encarou os olhos de seu irmão. Eram a única semelhança que de fato se destacava. Os mesmos azuis de Pepper Stark. E a fitavam decididamente. Assim como Alex, que estava ao seu lado. Puxou seu pulso e se virou.
– Eu não sei se vocês perceberam, mas hoje foi um longo, longo dia. – Falou entrando em seu quarto. Ouviu ambos fazendo o mesmo e virou-se a tempo de ver Alex fechando a porta.
– E é exatamente por isso que precisamos conversar. – Disse Alex. Lily balançou a cabeça.
– Eu só quero dormir antes de ter que me preocupar em lidar com o fato de que vou estar morando sob o mesmo teto que alguém que quer me encontrar sabe-se lá para quê.
– Você sabe para quê. Nosso pai disse.
– Vamos lá, Alex. Você realmente acreditou? – Lily perguntou.
– Você não? – Jai respondeu com outra pergunta e Lily hesitou.
– Eu não... Não sei explicar como, mas... Sinto que tem algo mais. – Confessou em um sussurro sem saber ao certo se estava fazendo a coisa certa conversando com seus irmãos. Mas ela iria enlouquecer se não falasse com alguém logo e não podia correr o risco de ligar para alguma das outras agora.
– Como assim? – Jai perguntou.
– Não sei. – Repetiu. – Só acho que tem algo mais do que nosso pai falou.
Silêncio.
– Você precisa tomar cuidado, Lia. – Alex falou de repente. Lily o considerou por um segundo.
– Eu sei. – Disse por fim. – Eu e as meninas vamos precisar tomar muito cuidado com o que vamos fazer de agora em diante. Se Jacobs foi falar com os Vingadores...
– É, é possível que ele esteja planejando algo. – Concordou Jai.
Lily sentou-se em sua cama e apertou os olhos.
– Eu gostaria de entender como é possível estarmos vivas. – Comentou sem perceber referindo-se a si e as outras. – Talvez se eu entendesse isso, poderia descobrir o que Jacobs tem em mente. – Abriu os olhos bem a tempo de vê-los se entreolhando. – O quê?
– Se você quiser podemos tentar descobrir. – Alex respondeu. Lily piscou atônita.
– Nosso pai disse que Jarvis está decodificando o resto dos dados que ele recuperou. Se você quiser, podemos ficar de olho e quando Jarvis terminar de decodificar, podemos copiar os dados para outro servidor, então você também ficaria sabendo o que ele descobriu. – Jai falou e Lily levou alguns segundos para assimilar tudo.
– Vocês fariam isso? – Perguntou surpresa. Não que ela também não pudesse fazer, mas ainda não tinha pensado nessa possibilidade ainda. E agora eles estavam se oferecendo.
– Claro. – Disse Alex. – De um jeito ou de outro estamos envolvidos nisso agora, então se pudermos ajudar de alguma forma...
– Vocês não precisam se envolver nisso. – Falou rapidamente. – Eu e as meninas podemos dar um jeito.
– Você é nossa irmã, Lizzie. É claro que precisamos. – Disse Jai.
Lizzie... Qual foi a última vez que ele a chamou assim? Quando era criança, Lily se lembrava de que ele e Alex costumavam chamá-la assim. Até mesmo seus pais, às vezes. Mas então ela foi crescendo e se afastando cada vez mais de sua família e se tornou a Lia. Para seus amigos, Lily. Ela nunca mais foi a Lizzie.
Sorriu. Porque era a única coisa que ela podia pensar em fazer naquele momento.
Estava temerosa de que eles fossem tentar voltar no que aconteceu um pouco mais cedo, mas parece que eles também perceberam que ela tinha outras coisas mais importantes com as quais se preocupar. Ela não era burra para imaginar que eles deixariam passar quieto. Por favor, Jai já havia provado que não se esquecia de um assunto facilmente e ela não tinha dúvidas de que Alex era exatamente igual. Mas, por aquele dia extremamente longo, ela estava agradecida que eles não estivessem tentando fazê-la falar mais do que ela estava disposta.
–Bom, acho que agora podemos te deixar dormir. –Alex falou cortando o silêncio que ali se instalou.
– É, essa provavelmente é uma boa ideia. – Concordou Jai indo até a porta. Lily também se levantou.
– Vocês vão me falar assim que descobrirem o que Jarvis está decodificando, não é? – Perguntou antes que eles saíssem porque aquilo era algo muito importante e ela não podia se esquecer ou deixá-los se esquecer.
– Sim. – Jai respondeu.
– Certo. Obrigada. – Agradeceu sinceramente.
– Ei, não esquece que amanhã temos aula. – Alex falou de repente e Lily percebeu que realmente tinha se esquecido. O final de semana tinha sido realmente exaustivo.
–Ah, verdade. – Maravilha.
– Não se atrase, Lia. – Completou divertido, sem entender que a decepção dela não tinha nada a ver com o fato de ter que acordar cedo. Jai apenas a observava e isso a fez imaginar o que se passava em sua mente agora.
– Não vou. Boa noite. – Despediu-se. Esperou-os falarem algo e quando também disseram boa noite, fechou a porta.
Não percebeu que um pequeno sorriso brincava em seus lábios. Ok, quem ela queria enganar? Não podia enganar a si mesma. Estava se sentindo melhor. Talvez mais leve? Só sabia que estava realmente grata pela aparente preocupação e ajuda sinceras que seus irmãos demonstraram. E podia até mesmo confessar que havia sentido falta de conversar com eles.
Mas ela não cometeria o erro de se alegrar demais, não. Um passo de cada vez. Ainda não confiava totalmente neles como uma irmã deveria confiar. Mas não deixaria que isso estragasse o significado que a conversa de agora teve, pensou enquanto se jogava em sua cama.
~*~
Aquele era o lugar mais estranho que ela já havia visto. Onde ela estava? Olhou ao redor tentando se localizar, mas aquilo era uma floresta realmente densa. As árvores se fechavam ao seu redor e havia apenas uma trilha que adentrava a escuridão. Algo estava errado. Ela podia sentir. Como se não houvesse um único ser vivo ali, nem mesmo as árvores. O vento soprou e o som a fez tapar os ouvidos. Era como se centenas, talvez milhares de gritos de socorro invadissem sua mente.
E o que diabos ela estava vestindo? Olhou para si mesma e se viu usando um vestido muito estranho. O tecido era vermelho e macio, fitas douradas o amarravam na frente de seu torso, apertando-o como um corpete, a manga se abria á medida que se aproximava de seu pulso e também era possível ver dourado enfeitando-a. Levantou-o apenas um ponto para ver que usava uma sapatilha preta. Pelo menos estava usando algo que conhecia. Mas isso não tornava tudo menos estranho.
O vento soprou de novo. Ouviu novamente os gritos e dessa vez pode identificar de onde vinham. Quis rir da obviedade. Claro que vinham da trilha que adentrava a escuridão assustadora daquela floresta. Olhou ao redor. Não conseguia ver nada além das árvores que a cercavam, apenas aquela trilha.
Ela sabia que estava sonhando, estranhamente sabia que tudo não passava de um sonho, então também tinha plena consciência de que conseguiria acordar caso tentasse. Mas algo a impedia. Lily não sabia explicar. Algo a estava fazendo olhar fixamente para aquela trilha, como se a impulsionasse a se aproximar. E mesmo sabendo que era loucura, foi o que ela fez.
Começou a andar, seguindo a trilha. O vento de repente pareceu aumentar, fazendo com que os gritos se tornassem mais altos. Tapou os ouvidos novamente. Não funcionou. Ou gritos invadiam sua mente, pedindo, implorando por ajuda. Ela queria ajudar. Sentiu essa necessidade de ajudar. Sua garganta secou. Lily apertou os olhos com força. Ela estava sentindo o desespero daquelas vozes. Um desespero agonizante. De repente, ela também queria gritar.
Caiu de joelhos. Os olhos ainda fechados. Podia sentir as lágrimas se formando. O que era aquele desespero que ela estava sentindo? Estava prestes a gritar. Implorar por ajuda como aquelas vozes. Mas então de repente... Nada. Silêncio. O vento parou e os gritos se foram. Lily abriu os olhos e foi abaixando as mãos dos ouvidos lentamente enquanto se certificava de que não havia mesmo mais nenhuma voz. Nada. A sensação de desespero continuava e isso ainda a queria fazer chorar, mas conseguiu se controlar. Olhou ao redor.
Agora ela parecia estar em uma campina. Será que a trilha a levou até lá e ela sequer percebeu? Levantou-se lentamente enquanto mirava a caverna que ali havia. Não conseguia enxergar nada além daquela caverna. A escuridão era muito forte. Mal entendia como podia estar enxergando aquela caverna se não havia nem mesmo uma lua no céu. De repente, um brilho vermelho se fez presente no interior da caverna e Lily sentiu a mesma força que a impulsionou a seguir a trilha. Ela só sabia que precisava entrar naquela caverna e foi o que fez.
O interior estava tão escuro quanto o lado de fora. Na verdade, mais. Porque agora não havia luz nenhuma. A luz vermelha que ela viu, havia desaparecido. Será que ela tinha mesmo visto algo vermelho aqui dentro? Estava começando a duvidar. Não havia nada. Apenas o breu. E isso estava começando a assustá-la. Ela queria sair. A escuridão estava sufocando-a. A falta de ar se fez presente. Como se mãos invisíveis estivessem apertando seu pescoço. Lily nunca teve medo do escuro, mas aquele escuro estava fazendo-a sentir vontade de gritar por ajuda.
Porém, antes que pudesse verbalizar o que estava pensando. Algo se acendeu atrás dela. As paredes ganharam sombras e o escuro que a rodeava, antes tão assustador, agora se iluminava por uma luz que aquecia o ambiente. De repente, Lily não estava mais com medo. Ela não queria mais gritar. Ela estava se sentindo bem.
Lily virou-se lentamente para encarar a fonte daquela luz e precisou fechar os olhos imediatamente. A luz brilhava fortemente, incapacitando-a de enxergar. Colocou a mão na frente de seu rosto na esperança de que isso fosse ajudá-la e então...
– Lily.
Uma voz.
– Lily.
Uma voz estava chamando-a.
E ela sentiu que conhecia essa voz.
Tomada por essa sensação, Lily foi abaixando a mão lentamente, tentando se acostumar a qualquer custo com a claridade que a cegava, mas não foi preciso. A luz foi diminuindo sua intensidade até que Lily finamente pôde identificar qual era sua fonte.
Uma mulher.
Uma mulher estava parada bem na sua frente. A luz já havia sumido, mas o ambiente ainda continuava iluminado e era possível ver um fraco brilho vermelho ao redor dessa mulher. Ela era jovem, embora fosse mais velha do que Lily, e era realmente linda. Possuía cabelos loiros, quase brancos de tão claros que eram e olhos violeta. Sim, os olhos dela eram realmente violetas e supreendentemente isso não surpreendeu Lily porque ela sentia que conhecia essa mulher. Um sorriso triste enfeitava seus lábios enquanto ela fitava Lily com um misto de alegria e tristeza nublando seus olhos.
Ela usava um vestido semelhante ao de Lily, mas ao invés de vermelho, seu vestido era violeta, da mesma cor de seus olhos. E... Aquilo era uma coroa de prata em sua cabeça? Uma pequena pedra roxa enfeitava essa coroa no meio de sua testa. Por que Lily sentia que a conhecia?
– Por que eu sinto que te conheço? – Perguntou em um sussurro antes mesmo de pensar no que estava fazendo.
O sorriso da mulher aumentou levemente, mostrando traços de gentileza em suas feições. Agora, ela a olhava com carinho. Lily observo-a levantar a mão direita e apoia-la no que parecia ser um muro invisível. Algo impedia que a mulher se aproximasse mais. Algo as separava.
Um anel adornava seu indicador. Um grande anel também de prata e Lily apostava que ali também havia uma pedra roxa.
Sem saber o que estava fazendo, Lily se viu levantando sua mão direita também e quando tentou alcançar a mão da mulher, sentiu o muro. E de repente, um sentimento de tristeza se apossou dela ao perceber que não poderia alcançar a mulher. Ela estava presa. Lily olhou para ela com tristeza e a mulher agora não mais sorria. Havia apenas tristeza em suas feições.
– Ajude-me, Lily. Ajude a todos nós.
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