Pedras
1 Pedras, pedras por toda parte!
Notas iniciais
Ela estava empolgada e ansiosa.
Era a primeira vez em que realmente saía de viagem a outro país, então já tinha lido sobre tudo que se pudesse imaginar sobre a cultura, locais de passeio, comida, economia e religião. Quanto ao idioma, não tinha dúvidas que seu portunhol era suficiente para qualquer conversação: muitos anos de “hablagem con los patrícios de la Bolivia” iam ser finalmente úteis.
Além disso, tudo facilitava: era uma viagem relativamente simples, rápida e barata, considerando que não era necessário nem passaporte, e que para acreanos o Peru é como ir ao quintal de casa, assim como a Bolívia. Desta, ela estava cansada de ver as bugigangas de Cobija. Mas isso não a impedia de tentar se organizar.
Já tinha programado tudo devidamente organizado em sua cabeça – embora tivesse ampla certeza de que na hora H, ela mudaria tudo para fazer qualquer outra coisa interessante que lhe aparecesse no momento. Tinha fuçado todas as redes sociais sobre o que fazer em Cuzco –só as que lhe importavam- e sentia-se apta a viajar com o namorado, mesmo ele tendo o mesmo zero de conhecimento sobre aquela localidade que ela.
O fato era que eles queriam aproveitar o feriado prolongado naquele ano. Cuzco era relativamente mais perto do Acre do que alguns lugares turísticos, então, decidiram conhecer o local mas a ideia inicial era ir até Machu Picchu. Ela só não contava com uma coisa.
Decidiram fazer um percurso misto: como não iam ter muito tempo disponível para a viagem, pensaram ir de Rio Branco até Puerto Maldonado de ônibus e de lá, pegariam o avião até Cuzco. Partiram de madrugada, num trajeto que levaria quase 24horas. Ela não se importaria com isso e seria um ótimo roteiro se a Estrada do Pacífico, a famosa BR 317, não tivesse o “padrão Brasil” de manutenção e qualidade de buracos, e o fato de estarem no início do Inverno amazônico e seu período de chuvas também não contribuía muito com a segurança e beleza de um longo trecho de crateras lunares com uma paisagem em tons de verde lama.
Nunca teve muito que falar das cidades fronteiriças acreanas, porque para ela sempre pareciam muito iguais. Sempre aquela aparência suja, sem charme de interior, de cidades mal geridas por políticos corruptos que não davam a devida importância ao turismo, que a entristeciam muito, considerando o conhecia de Assis Brasil e sua tríplice fronteira. De Iñapari, cidade peruana, também não esperava muito mas conforme avançavam no ônibus parecia que Puerto Maldonado, a última cidade antes de chegar em Cuzco, também seria sem atrativos como as outras.
A viagem seguiu até o aeroporto de motocar, que é uma espécie de moto com uma cabaninha em que se consegue andar três pessoas, 2 passageiros e o motorista, e ainda dá pra levar bagagem pequena. Achou o máximo!
—São motos que são carros, olha! –ela disse, fazendo o melhor papel de turista. E ele, fez a melhor cara de que “isso não me impressiona, mas vou ficar feliz por ela” que só ele sabia fazer.
—Arequipa! Arequipa! Arequiiiipaa! – dizia uma mulher de voz nasal agudíssima chamando os passageiros para o voo, que insistia em gritar próximo a eles, vestida com um traje que misturava um uniforme de aeromoça com um poncho colorido.
Ela não saberia dizer quanto tempo de voo tinha sido, mas foi só o tempo necessário de subir e descer o avião. E a partir dai, ela chegou com força: a maldita dor de cabeça. O tal mal da altitude ou “soroche”, que ela achava que não iria acontecer com ela. Mas agora tinha uma bigorna na cabeça. E a dor não veio sozinha. Trouxe náuseas, dor no estômago e uma sufocante sensação de cansaço e falta de ar. Algo perfeito para um início de passeio. O namorado tratou logo de vomitar e instantaneamente, melhorou do mal estar. Quanto a ela, sem conseguir vomitar, restava-lhe sentir aquele peso na cabeça como se tivesse um elefante sentado nela.
Para seu azar naquele momento, tinham escolhido ficar em um Hostel que tinha uma boa vista para a Plaza de Armas, mas não tinha ideia de que ele ficava em um local tão alto e que para seu acesso dependia-se de uma grande escadaria, mesmo com o taxi parando próximo. E um lance inteiro de escadas quando lhe falta o ar, não é muito agradável.
—Tá bem? Quer vomitar? –solícito, o namorado perguntava.
—Não... vai passar...
—Aqui, senhora. É bom, vai ajudar a melhorar. –dizia a simpática dona do hostel, que falava até bem o Português, oferecendo o famoso Chá de Coca, que supostamente alivia os efeitos da altitude.
O gosto era estranho, um tanto amargo demais. Odiou tomar aquilo, mas tomou um gole para não ser mal agradecida, sem conseguir disfarçar a careta, algo notado pela mulher.
—Ruim? –ela riu. –Tem esses doces para chupar. Bom também! Tem um gosto melhor, se quiser.
E foi assim que ela se viciou em balinhas doces de coca com mel.
O hostel pertencia a um casal de jovens bem simpáticos e tinha uma vista linda. Era possível ver os telhados das casas feitos de telhas de barro que lhe davam o aspecto colonial de cidade antiga. Ao longe, podiam-se ver as pessoas andando livremente pela Plaza de Armas, algumas tirando fotos nas igrejas antigas, crianças correndo brincando. Ao fundo, uma grande montanha cercava a cidade. Mas a cor cinzenta daquele fim de tarde levemente frio, era o que lhe agradava. Amava dias nublados e frios!
Só odiava a falta de ar que estava sentindo que lhe impedia de curtir melhor seu clima favorito.
À noite, decidiu que não ia ficar presa trancada no quarto por causa de uma falta de ar qualquer! Nenhuma crise pulmonar e um sino tintilando na sua cabeça iriam lhe impedir de sair e curtir as baladinhas de Cusco, que diziam que eram ótimas. Talvez não uma baladinha, mas um pubzinho com música baixa e umas cadeiras talvez.
—Tem certeza que quer sair desse jeito? –perguntou o namorado, achando que o cansaço estava pior.
—Tranquilo! –mentiu, tentando não parecer uma senhora cansada de 80 anos que quer dormir nos passeios. E depois, só tinham quatro meses de namoro: não queria estragar a primeira viagem que faziam juntos.
O ar ficava ainda mais rarefeito a medida que a temperatura caia. Então, respirar estava cada vez mais complicado. Colocou uma nova balinha de coca na boca, das muitas que já tinha comprado, e saíram.
Não foram muito longe porque ela não conseguiu andar muito. Ainda assim, caminharam pela Plaza das Armas a procura de algum restaurante.
O restaurante que escolheram era algo bem para turista mesmo: cheio de uma decoração alternativa, com uma música e culinária excêntricas e diversos gringos descolados sentados nos banquinhos tentando se comunicando em diversas línguas diferentes.
Pediu um prato com alpaca, que estava relativamente delicioso, se não fosse o tempero muito forte. O namorado não quis beber “Pisco peruano”, limitando-se a uma garrafinha de Inka Cola, mas ela quis se arriscar. Clima frio, bebida quente, um atordoamento na cabeça. Não demorou quase nada para que a bebida de alto teor alcóolico e gosto de uva verde subisse.
Na volta ao hostel, totalmente alterada pela bebida intensificada pela falta de oxigênio, ainda quis atacar o namorado.
—Meu deus, mulher, você não consegue nem respirar. – ele riu.
—E dai? –respira — Eu quero transar nos Andes, ué!
No dia seguinte, ela parecia estar melhor do cansaço e da dor de cabeça, provavelmente seu corpo estava se acostumando ao ambiente menos oxigenado. O tempo também parecia ter melhorado, já que o dia estava bem mais ensolarado, mesmo com o vento fresco. Isso lhe animou muito porque iria aproveitar bem mais os passeios à cidade “umbigo” que tinham programado.
Enquanto esperavam o ônibus da agência na Plaza das Armas, perceberam o quanto o local era agitado também durante o dia, mas com outro tipo de pessoas: vendedores –de pacotes de turismo a artesanato – enchiam o lugar, deixando agora uma atmosfera de praça de compras. Haviam também muitos turistas.
Também havia vários grupos de crianças fofas e senhoras exibindo seus trajes típicos peruanos, chapéus de feltro amarrados com fitas decoradas coloridas, suas mantas que carregam de tudo, as “keperinas”. Algumas crianças seguravam filhotes de lhama/alpaca, que são bichinhos extremamente fofos e fedidos, porém fofinhos demais para não se tirar uma foto.
—Lhamas! –ela mesma parecia uma criança feliz segurando o bichinho fofinho e fedorento.
Inocentemente, eles acharam que a foto seria de graça. Nada era de graça ali. A foto custava 5 soles.
—Gringo! Marijuana? –gritou um vendedor próximo.
—É o que?! –a evidente cara de surpresa não passou despercebida pelo rapaz que lhe oferecia drogas como um artesanato de rua.
—Ah, Brasileños? Quer farinha?
—Cocaína?!
—Si, si!
—Não! No, “patrício”! No! –respondeu, procurando disfarçadamente algum policial na rua que estivesse vendo a cena. Ser presa no Peru por usar drogas não estava no seu planejamento furado. Se bem que, para um local onde mascavam folha de coca na rua, a coisa devia ser mais liberal.
O vendedor deu de ombros, já atacando outro turista.
—Nossa, eles são rápidos... a polícia não vê isso?
O namorado não respondeu, tentando se desvencilhar de outro vendedor que lhe oferecia maconha.
Os passeios incluíam as visitas aos Valle Sagrado, onde conseguiram ver ruínas antigas de Pisaq a Ollantaytambo e algumas feiras de venda e confecção de artesanato – e mais crianças com lhamas — além de cemitérios nas montanhas, que segundo o guia era porque os povos antigos acreditavam que assim poderiam voltar ao ventre da Pachamama, a divindade mãe terra. Haviam também algumas estruturas que pareciam escadarias para gigantes mas que eram usadas para agricultura. Algo incrível que demonstrava a capacidade de engenharia e arquitetura Inca.
—Era legal que esses povos antigos não tinham tanta tecnologia mas faziam as coisas funcionarem perfeitamente.
—Mas não foram eles que construíram. Foram os alienígenas, você sabe.
—Tá vendo muito History, amor.
—Ah, vai. Isso seria bem mais legal se fossem mesmo alienígenas. Tanto que eles até tentaram esculpir seus rostos nas pedras.
—...”e así, los espíritus de las montañas elevarían sus cuerpos a la Vía Láctea donde serían estrelas” – dizia a guia turística.
—Viu?! Estrelas! Aliens! – ela disse, na melhor incorporação de Giorgio Tsoukalos que ele já viu. Teve que concordar. Gostava mesmo daquela maluquinha.
Em meia-hora de caminhada em meio as ruínas, os pulmões gritavam por mais ar. As pernas e a cabeça também doíam mas chegaram em um restaurante pequeno onde ela teve o prazer de se entupir de balas e chá de coca. Do gosto do chá, já nem reclamava: era um gole de chá com a balinha que tudo descia melhor.
No segundo dia de passeio, a sensação de sentir-se melhor parecia ter diminuído e o cansaço tomara totalmente seu corpo, tanto que só conseguiu levantar quase na hora do almoço. Não conseguiu comer quase nada porque ainda sentia o gosto da alpaca na boca.
Para não perderem o dia, foram ver o passeio do City Tour, que incluíam o museu de Qoricancha, uma complexa arquitetura inca antes totalmente coberta de ouro, que transformava gigantescos blocos de pedras, simetricamente cortados, encaixados como quebra-cabeças em uma harmonia perfeita; as ruínas do banho cerimonial de Tambomachay; o sítio sagrado para rituais religiosos de Qénqo e a fortaleza de Saqsayhuamán, onde possivelmente foi o palácio dos imperadores, com suas pedras de mais de 100 toneladas alinhadas perfeitamente. Segundo a guia, os próprios espanhóis exclamaram, ao ver a fortaleza que que não era um lugar construído por homens, o que corroborava ainda mais a sua teoria dos aliens.
Em cada um desses lugares, tinham alguns minutos para fotos.
— Você tem que se conectar com a natureza... sentindo as ondas místicas... desse lugar incrível... –ela disse, tentando ser uma turista descolada sem ar.
—Sério?!
—Nem... não aguento mais... ver pedras amontadas. – dizia, entre pausas para respirar.
—Ah, bom pelo menos é bonito. E pensa, milhares de anos gente habitavam pedras, formavam casinhas no chão... tipo tocas...
—Que tocas? Tipo coelhos?
—Tipo hobbits. Só que não no chão, mas... nas pedras.
—Ah, sim... E em um buraco na pedra morava um inca hobbit.
Ela teria rido demais disso se pudesse rir e respirar ao mesmo tempo.
—Chega, não vamos mais falar sobre pedras.
Mas só haviam mais e mais pedras ali para serem vistas e faladas. Amontoados de pedras. O cúmulo foi ter que pagar 20 soles –uma fortuna – para ver uma pedra.
—...”y esta piedra tiene sus 12 ángulos que coinciden perfectamente con las otras piedras, representa la perfección de la técnica inca...” – continuava a guia, numa empolgação incrível.
—Olha, amor: Pedras!
—Meu Deus!! Que lindo! Olha isso aqui então, que maravilhoso: outra pedra!
—Oh! Tudo que eu queria ver de novo!
Não saíram mais naquela noite, porque a alpaca estava lutando com seu estômago e as balinhas doces de coca pareciam ter pausado o efeito de aliviar o cansaço. Precisava mesmo –e muito – descansar.
No terceiro e penúltimo dia de viagem, iam fazer o grande passeio a Machu Picchu: a cidade perdida dos Incas. Compraram o bilhete para irem de trem ao local, uma viagem que duraria cerca de 1 hora e meia de trem, se não fosse pela maldita falta de ar.
Dizem que por volta do terceiro dia, sua condição estaria melhor, o corpo mais adaptado a altitude, o cansaço e a falta de ar iriam diminuir. Ledo engano. A cabeça não passava nunca, o estômago queria devolver tudo, e agora a tosse. Respirar era a coisa mais difícil do mundo, pior do que carregar qualquer pedra de 100 toneladas de vários ângulos.
—Tem certeza que quer ir? –ele perguntou, totalmente descrente.
—Eu... sim. Aham. –dizia enquanto, tentava tomar mais chá de coca, oferecido por uma mulher que parecia enfermeira na estação de trem.
—Não... cê não tá bem! Melhor te levar a algum hospital.
—Não.. eu quero... ver ...
—Sem chance! Você vai no hospital sim! –firme, ele disse.
Rapidamente, buscou um taxi.
“Meu Deus, eu vou morrer em um hospital no Peru, ninguém fala bem minha língua, levarão semanas até meu corpo chegar pra minha família! Vão achar que ele me matou”, pensava.
Menos de 15 minutos, o motorista chegava ao hospital mais próximo, que na verdade era um complexo de conteiners em que cada especialidade médica ocupava um espaço. Para suas surpresas, o equivalente hospitalar do SUS andino era minimamente organizado: ao verem a situação de urgência, a equipe prontamente já a colocou em uma maca e em oxigênio.
Rapidamente, uma enfermeira já colocou o oxímetro de pulso em seu dedo, enquanto providenciava o aparelho de pressão. Deviam estar bem acostumados com turistas morrendo de hipóxia, mas ainda assim ela não se sentia segura.
73% SPO2, mostrava o monitor de oximetria. E ela só conseguia pensar em ter que ser entubada ali.
—Quanto... a... pressão?! –entre tentar absorver todo o oxigênio inalado pela máscara, preocupava-se com os valores.
E a enfermeira disse algumas palavras que ela só conseguiu entender como “acalmate todo... bien... dieciocho... trece”
“Meu Deus! Dezoito por treze! Eu tô tendo um Edema Agudo de Pulmão!”, já conhecia isso pelo que tinha lido antes mas agora estava totalmente aterrorizada com a real possibilidade de morrer de edema pulmonar no Peru.
Próximo, o médico perguntava ao namorado sobre o que ela já havia ingerido.
Não soube dizer o que mais aconteceu ou quanto tempo ficou ali. Quando acordou, a cabeça doía bem menos, e quando conseguiu se localizar no tempo e espaço, levou as mãos a boca, na tentativa de conferir se havia um tubo na sua garganta. Não havia. No rosto, só sentiu o cateter de oxigênio no nariz. Respirou com alivio. O namorado estava lá sentado, bem mais tranquilo do que a última vez que o tinha visto.
—E então...?
—Não, você não morreu e nem vai morrer aqui. –respondeu, já sabendo a pergunta. – Só te deram uns remédios ai e te colocaram no oxigênio... tá se sentindo melhor?
—Mais ou menos... parece que tem duas cabeças dentro da minha. Sei lá.
Ele riu, sabendo que ela estava se sentindo melhor.
—Parece que você teve um aumento súbito de pressão. O médico disse que foi por causa do chá de coca. A única coisa que melhora e você tá proibida disso.
—Ou seja, não posso me drogar.
—Não mesmo.
Logo na saída do complexo de conteiners chamado hospital, um vendedor de artesanatos lhe ofereceu um mimo: uma caixinha contendo várias pequeninas, coloridas e uniformemente redondas... pedras.
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