um presente

setembro, uma semana depois

—Você parece péssimo — comentou Liz assim que o ouviu.

—Ora, obrigado — agradeceu Calum, puxando uma cadeira para sentar-se. — Você também parece uma maravilha.

Liz riu, esticando a caneca de café para ele antes de pegar outra para si.

Calum assoprou nela e absorveu o vapor, os olhos fechados enquanto aquele cheiro o envolvia completamente. Ele quase podia esquecer o pesadelo que teve, o quão irreal era e verdadeiro.

Abrindo os olhos, Calum sentiu-se um pouco melhor ao ver que Liz fazia o mesmo, deles terem a mesma mania. Sorrindo suavemente ao ver toda a tensão saindo dos ombros dela, a expressão ficando mais leve, Calum queria sentir o mesmo.

—Então por que você acordou cedo? — perguntou Liz depois de um tempo, de tomar um gole, de abrir os olhos e encará-lo amorosamente. — Pesadelos?

Calum concordou, um bolo na sua garganta que fazia ser tão difícil engolir e falar.

—Você quer falar sobre isso? — questionou ela.

Calum balançou a cabeça. Ele não queria. Ele não queria falar sobre seus medos e suas fraquezas, sobre como era fraco e não corajoso, sobre como estava se escondendo e não pretendia não tão cedo enfrentar seus medos. Antes que percebesse, ele estava tremendo.

—Ei, querido. — Liz o abraçou com cuidado, como se ele fosse quebrar. — Não é real, foi apenas um sonho.

—É que... — Calum piscou, sentindo as lágrimas queimando em seus olhos. — Eu sou tão fraco.

—Eu não acho — discordou Liz. — Pessoas fracas não estariam de pé agora na minha frente.

—Pessoas fortes não estariam chorando — murmurou ele.

—Por que? — questionou Liz. — Chorar não te faz menos forte, eu pensei que você tivesse aprendido isso.

Calum murmurou sem comprometimento. Era difícil acreditar nisso quando se sentia tão mal e estava chorando, era difícil não ligar as duas e achar impossível dissociá-las. Chorar, tristeza; rir, alegria — era algo tão intrinsecamente ligados que quem era ele para dizer o contrário?

—Mas fugir de algo? — perguntou.

—Eu diria que, de modo amplo — respondeu Liz — às vezes é aceitável, reconhecer quando não é capaz de fazer algo e não se forçar a mais do que pode. Você não pode fugir sempre — avisou Liz — mas às vezes não tem problema. É saudável. Te faz humano. Te lembra que é humano.

Calum inspirou fundo e exalou e então perguntou:

—Você sabe o que Julie me deu, certo?

—Não — respondeu Liz.

Isso não era algo que ela não devia saber a menos que Calum quisesse que ela soubesse — Liz poderia perguntar a Julie e teria a resposta antes de ter terminado a pergunta, ou convencer Luke a lhe dizer, ou então... perguntar casualmente a Calum e esperar que ele dissesse sem perceber. Mas Liz queria que Calum lhe dissesse porque queria dizer, porque confiava nela para dizer.

—Ela me deu cartas — anunciou Calum. — De Malia. E eu ainda não as li — confessou.

Liz assentiu.

—Certo — disse. Ela assentiu de novo. — Qual o problema? — perguntou. Não parecia ter algum problema. Malia deu cartas para Calum e... E o que?

—Eu ainda não as li — repetiu ele.

—E? Você não precisa lê-las — disse Liz. — Agora. Você não as queimou, certo? Então qual o problema?

—Mas Malia...

—Se Malia quisesse que você as lesse logo, assim que recebesse, ela não teria dado a Julie para te entregar. Você tem de ler quando quiser, Calum, não como uma obrigação, mas um presente. Foi o que Julie lhe deu, não foi? Um presente.