Pedaços Transformados
5 Tentar
Notas iniciais
tentar
CALLIE, 4 ANOS.
—Primeiro dia de aula – comemorou Malia.
—Primeiro dia de aula no inferno – completou Callie numa falsa animação, não tão exultante quanto sua irmã.
Puxando a gola do vestido, Callie sentia-se sufocado. Vestidos era a primeira coisa que odiava, logo depois vinha saias; qualquer coisa solta que deixava suas pernas nuas e livres, e sua parte superior apertada, era odiado. Quem gostava de se vestir como uma boneca? Não Callie.
Enfrentar o primeiro dia de aula com aquela roupa era o anúncio que aquele dia não seria nada bom. O fato daquele dia ser o primeiro dia de aula apenas para Callie e Malia era a comprovação de que aquele dia não seria nada bom. Entrar numa sala cheia de crianças que se conheciam a sei lá quanto tempo, que já tinha seus amigos formados? Callie não podia estar mais feliz, poderia até pular de felicidade se não fosse o fato de estar vestido e não querer mostrar sua roupa de baixo.
—Preparada? – questionou Malia, olhando-a ansiosa.
—Ahn... – Callie queria dizer não. Não. Porque não estava preparada e nem nunca estaria, mas se ouviu dizendo "sim", porque Callie Hood não estava preparado e nem nunca estaria. – Vamos acabar logo com isso.
—Eu sempre me surpreendo com sua iniciativa – murmurou sua irmã, impressionada, com algo parecido com orgulho em seu tom de voz.
Callie bufou, não compreendendo de onde vinha aquele orgulho de Malia. Do que ela se orgulhava? Todos aqueles sentimentos desconfortáveis e angustiantes e a vontade chorar voltavam assim que Callie pensava em abrir aquela porta e entrar naquela sala, mas o que podia fazer? Callie tinha desistido e nada havia mudado; Callie havia desistido e ainda sentia-se mal. Callie estava cansado de desistir, desistir não era... não fazia bem, não mudava nada, e Callie queria que as coisas mudassem.
—Obrigado – agradeceu Callie, mas a resposta saiu mal humorada e sarcástica até para os seus próprios ouvidos. – Eu tento.
—Tentar é a resposta – concordou Malia, solidária, alheia ao tom. – Tentar é o primeiro passo.
Respirando fundo, Callie colocou a mão na maçaneta e a girou rapidamente, abrindo a porta mais rápido ainda, como se ser rápido fosse impedir que algum monstro surgisse e atacasse. A porta foi aberta tão rápido que Callie esperava que ninguém notasse os alunos novos, mas, quando olhou para frente, tirando os olhos dos seus pés em suas adoráveis sapatilhas, todas as cadeiras estavam viradas e os olhos presos na porta; neles.
Callie estava paralisado, não conseguindo, não podendo, se mover.
—Vocês devem ser as alunas novas – disse uma mulher, sorrindo gentilmente para ambas. – Estávamos esperando. Eu sou a professora Blanca e vocês são...
Todos aqueles olhos encarando, fixos em si, olhando para tudo, para seu corpo completamente, de cima a baixo, era desconfortável. Callie sentia-se mal, invadido, obrigado a algo que não queria. Caliie queria dar um passo para trás e correr, fugir, mas o corpo quente da sua irmã estava atrás de si e logo depois a mão dela repousava no seu braço, como se temesse – sabiamente – uma fuga se retirasse os olhos.
—Oi – acenou Malia atrás de si com a mão livre. – Eu sou Malia, ela é Callie.
Callie mordeu o lábio, querendo recuar, mas se manteve firme. Não iria fugir, iria tentar. Não iria chorar, iria ficar. Iria tentar ser... Ela. Que nem sua irmã Malia.
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