tchau

LUKE, 12 ANOS.

Luke suspirou e tentou sorrir, porque não era o fim do mundo por mais que quisesse ser dramático e dizer que sim. Não era como se nunca mais fosse ver sua irmã, eles apenas... não iriam... ficar juntos nas férias.

—Pare, Luke – pediu Julie, revirando os olhos para ele. – Venha. – Ela abriu os braços. – Dê-me um abraço, despeça-se e vá-te, vá-te antes que... – Sua irmã fungou, esfregando o nariz no ombro sem abaixar os braços e Luke riu, sentindo seus próprios tremores assim como os delas quando a abraçou. – Eu já estou chorando – reclamou ela, empurrando o rosto no seu ombro para limpar o nariz.

—É – riu Luke novamente, sentindo cócegas quando Julie respirou em seu pescoço. – Não é você que ama um clichê?

—Sim, claro. – Ela revirou os olhos enquanto se afastava. – Mas adivinhe? Eu te amo mais!

—Uh – disse Luke, surpreso pela declaração de amor pública. E então sorriu, presunçoso. – Parece que alguém está apaixonada por mim.

—Hum, sim, claro – murmurou sua irmã, tateando até encontrar Calum e puxá-lo para o abraço também. – Eu vou sentir sua falta.

—Julie... – disse Luke.

—Não você, Luke, estou falando com Calum.

—Eu sei – disse ele para sua irmã.

Não era porque o “vou sentir sua falta” não era para ele, que Luke não podia ficar sentido do mesmo jeito. Importava para quem era? Julie sentiria sua falta e, sendo ou não para ele aquelas palavras, ela ainda havia dito – e Luke podia fingir que era para ele. Importava para quem era?

—Eu não vou... – começou Calum.

—Eu sei – interrompeu Julie novamente. – Eu estou apenas ajudando vocês, porque falar de sentimentos não faz parte do estereótipo de garotos, então...

—Eu vou sentir sua faltar – confessou Luke.

—Luke... – disse Julie, emocionada, passando a mão no nariz antes de enfiá-la entre os cabelos do seu irmão e puxar a cabeça dele contra sua.

—Uhh – gemeu Luke, enojado demais para falar mais ou se mexer um pouco.

—Eu sei, não é comigo – continuou ela, nariz contra nariz, quase dando a ele um beijo de esquimó. – Mas estou tão orgulhosa de você. Calum? – Julie piscou de volta para seu amigo, mantendo a mão esquerda no cabelo de Luke e sorrindo tentadora enquanto passava a outra mão lentamente no nariz, levantando-a mais devagar ainda numa ameaça... – Você não tem nada a dizer, Calum?

—Não se você me tocar com essa mão – respondeu ele, resignado. Julie podia não ter os olhos de Luke, mas tinha suas próprias táticas maléficas, aterrorizantes e nojentas, por isso Calum confessou sem pensar duas vezes. – Eu vou sentir sua falta.

—Ótimos garotos, ótimos – aprovou Julie. – Estou tão orgulhosa de vocês.

E apertou as bochechas de ambos, beliscando e limpando seus dedos antes de bater no ombro deles, para ter certeza que seus dedos ficariam limpos.

—Urg, Julie – reclamaram, sentindo algo frio e melequento escorrer em suas peles.

—O que? – Ela sorriu, os olhos brilhando, antes de beijar a ponta dos seus próprios dedos e pousá-las no nariz do seu irmão. – Tchau, Luke.

—Apesar de tudo... – Luke suspirou, dando um pequeno sorriso ao tocar seu nariz, vendo sua irmã se aproximar do seu pai e abraçá-lo, tão forte que parecia que era ela que iria embora. – Ela está certa.

—Não a deixe ouvir isso – avisou Calum, ondulando-se sobre seus pés, pensando profundamente se iria ou não. – Mas... sim – ele confessou num sussurro, perto do seu ouvido. – Tchau, Luke – despediu-se, beijando sua bochecha não contaminada por Julie, antes de se virar e seguir sua amiga.

Luke parou.

Calum o beijou.

—Vamos, Luke? – chamou seu pai.

—Sim – concordou Luke, sem realmente ouvir o que concordava, andando sem enxergar nada a sua frente, abrindo a primeira porta que viu.

—Isso é um táxi? – questionou Andrew quando seu filho abriu a porta de trás para se sentar. – Vamos, sente-se ao meu lado.

Luke sentou-se.

Luke colocou o cinto.

Luke ouviu seu pai dar a partida.

Luke estava e não estava ali, porque...

Calum o beijou.

Luke piscou, tocando sua bochecha-não-tocada-por-Julie e percebendo a diferença – a que Julie limpou os dedos estava gelada e grudenta e nojenta, a que Calum beijou queimava sua pele e Luke sentia-se como uma bússola com dois polos de temperatura diferente.

Calum nunca havia beijado-o na bochecha.

Calum nunca havia beijado-o.

Calum o beijou.

Luke piscou novamente, deslizando os dedos por sua pele quente, sentindo-a aquecer ainda mais.

Calum o beijou.

Na bochecha.

—Você está bem? – perguntou seu pai, olhando-o de canto de olho, preocupado.

Luke sentiu sua bochecha tocada por Julie aquecer e a beijada por Calum virar uma fornalha, e disse, torcendo que seu pai achasse que era raiva e não vergonha o que sentia:

—Eu não entendo porque eu tenho que ir para o acampamento de verão sozinho – disse. E a raiva que ouviu sair da sua boca era real, porque... ele não entendia. – Por que Julie não vai vir comigo? O-ou Calum? Por que eu não posso ir para as aulas de defesa pessoal também?

—Sua vida não gira ao redor deles, você precisa ficar... longe.

—E eles não precisam? Parece até que você está jogando Calum em cima da... – Luke parou, porque, uau, não. – Não, Julie em cima do Calum parece uma definição melhor.

—Ciúmes? – Seu pai sorriu, trocando a marcha.

—Não. Talvez – pensou, pensando se... — Não. Não – repetiu, tentando se convencer que não. – Eu não estou – disse, firme. – É só que... Parece que você está preferindo eles a mim e...

—Eu nunca iria preferir algum de vocês em cima do outro, Luke. Eu amo vocês três igualmente. E você precisa ficar longe de Julie, parece até que vocês nasceram grudados. Qual foi a última vez que vocês ficaram longe um do outro?

—Na quermesse – respondeu Luke rapidamente, a resposta na ponta da língua, esperando sair, lutando para não ir.

—Hã, sei – bufou Andrew, cético. – Isso não conta.

—Por que não? – insistiu Luke.

—Porque eu disse que não – respondeu Andrew, pondo fim naquela argumentação.

—Mas por que eu tenho que ir para o acampamento? – Luke tentou novamente quando seu pai estacionou o carro. – Por que não Julie?

—Você acha melhor você ir ou a Julie? – questionou Andrew, virando-se no banco para olhá-lo. – Pense nisso – disse calmamente (e Luke sentiu que estava sendo hipnotizado, que nem que se piscasse conseguiria acordar e fazer o que realmente queria) – você aqui com Calum e Julie lá, sem ninguém, qual você acha pior?

—Eu vou para o acampamento – disse seu filho, virando-se para pegar sua bolsa no banco traseiro e então o encarando. – Mas eu não estou gostado disso – avisou, batendo a porta do carro com força.

—Eu também não – disse Andrew suavemente, sem levantar a voz, sem se sobressaltar com a batida. – E que modos são esses? Abra a porta e a feche corretamente, não foi assim que Liz te ensinou.

Luke suspirou, dando meio volta e voltando para o carro, sentindo seus ombros baixos, derrotados. Qualquer um podia pensar, pelo tom do seu pai, que ele estava brincando, mas Luke sabia que não era brincadeira – sua mãe não havia ensinado aqueles modos e seu pai não gostava de mal educados.

—Tchau, pai – disse Luke, fechando a porta corretamente, como se fosse a primeira vez que fazia aquilo, como se quisesse ir para o acampamento e estivesse se despedindo apropriadamente.

Andrew sorriu e Luke retribuiu, porque, por mais que ainda estivesse com um pouco de raiva, aquilo era muito engraçado e ele não podia ficar com raiva por muito tempo – era uma das maldições dos Hemmings: a falta de memória.

—Tchau, filho – disse seu pai, sorrindo para ele. – Eu te amo.

—Eu também.

Notas finais
Até semana que vem!