Pedaços Transformados
245 Mamães corujas
mamães corujas
setembro, três dias depois
—O que vocês estão fazendo? — engasgou Calum, surpreso por vê-los. — Aqui? — Na frente da sua casa.
Na frente da sua casa.
Calum não sabia porque estava surpreso, porque aquilo não o surpreendia, mas ainda aquecia seu coração e o deixava morno por dentro.
Julie deveria ter se acordado mais cedo para que estivesse pronta — ela ainda parecia que dormia, deitada no banco de trás.
Liz se atrasaria para ir aonde que fosse o trabalho dela naquela dia — estava sempre mudando e Calum nunca tinha certeza do que era.
E Luke... Luke tinha um cronograma rígido que o mandava acordar Julie, se arrumar, fazer o café, acordar Julie novamente (ele precisava acordá-la duas, às vezes três vezes por dia) e acordar Liz antes de pegar carona com Michael para a escola.
—Viemos te buscar — disse Luke, sorrindo para ele.
—Eu estou me sentindo uma mãe coruja — murmurou Liz. — Desde quando eu sou?
—Desde quando você não é? — retrucou sua filha em pensamentos e oralmente, rolando no banco traseiro para que pudesse olhá-la — Mãe, você mastigaria a comida e cuspiria em nossa boca como uma mamãe pássaro, com medo da gente engasgar, se não fosse nojento de mais.
—Urg. — Calum tremeu, abrindo a porta do carro. — Isso é... nem pense em fazer isso, Liz.
—Não sei porque a cara de nojo — comentou Liz. — Vocês, garotos, fazem pior.
—Isso é tão sexista — murmurou Julie, levantando-se apenas para Calum sentar-se antes de voltar a deitar-se com a cabeça nas pernas dele.
—Julie faz pior — ajudou Luke.
—Pois é — concordou sua irmã. — Sexista. Luke é mais limpo em um ano do que serei em um dia.
—Isso parece lindo — refletiu Liz. — E sem sentido. Você ser mais limpa em um dia do que ele será em um ano, não quer dizer apenas que ele é imundo?
—Não pense demais, mamãe — interrompeu Luke. — Aqui, Calum. — Luke empurrou nas mãos dele um sanduíche e uma garrafa térmica.
—O que...
—Se você não vai se alimentar direito — disse Liz — isso significa que você ganhou o pacote completo de mamães corujas e vai ter sempre alguém para de lembrar de comer.
—Isso é horrível — lembrh Julie. — Eu lembro da minha fase pós-pós-hospital que eu não tinha mais fome, porque não tomava mais remédio, e a fome que eu tinha era medíocre comprada antes que eu pensava que não tinha fome, e vocês me perseguiam com comida direto.
—Você se sentiu nos céus — murmurou Calum.
—É verdade — concordou Julie. — Mas só quando eu percebi que tinha fome, mesmo que não fosse tanto quanto antes.
—E alguém para ficar de olho em você para não se esforçar mais do que deve — completou Luke, com um olhar que dizia "você sabe do que estou falando".
—Hum... — Calum desviou os olhos e mordeu um pedaço do sanduíche, porque não tinha nada para fazer (e não porque não havia comido nada ainda e estava com fome), e mastigou.
—Cadê o violino, querido? — questionou Liz. — Segunda não é o dia da prática? Ou mudaram?
Calum mastigou um pouco mais, bebeu suco, mas quando ficou óbvio que sua boca continuaria cheia e precisava de mais tempo para, ele abriu a boca para...
—Não fale de boca cheia — anunciou Julie, balançando a cabeça com os olhos fechados. — Não quero migalhas em cima de mim. E saliva. Basta a de...
—Hoje vai ser o dia de aconselhamento vocacional com a psicóloga — interrompeu Luke. Ele não queria saber que saliva bastava (e onde), seus pesadelos já eram suficientes. — O horário de Calum é na mesma hora que o ensaio.
Calum assentiu, de acordo. Hoje era o dia de aconselhamento vocacional. O primeiro encontro de muitos que ele teria com a psicóloga, porque era o último ano escolar e ele precisava decidir para qual universidade iria. E o que faria.
Calum já sabia.
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