falha

setembro, um dia depois

Michael estava impaciente, não que fosse uma surpresa – impaciência era um dom e ele era abençoado por ela constantemente. E não era fácil dizer a si mesmo para se acalmar, para respirar fundo e parar, porque sua mente nem o seu corpo podiam, nem um dos dois parava quieto, não num dia qualquer, não num dia como aquele, como hoje.

—Acalme-se, Michael – pediu Demi, levando um copo de café a boca, como se fosse a pessoa mais calma e paciente da história, como se seus próprios dedos não estivessem tremendo tanto que ela não conseguia nem beber corretamente. – Droga – praguejou, desistindo. – Mas que merda.

Michael sorriu para si, atrás de sua mão, suspirando cansado. Ver Demi praguejar não era algo inédito, mas ainda sim era algo que o surpreendia, algo que entendia, era algo que a tornava humana e falha e ao alcance da suas mãos – ele gostava disso, do fato que podia tocá-la se quisesse, que sua melhor amiga, sua amiga de infância, estava ao seu lado agora.

—Pare de sorrir – reclamou ela.

—O quê? – murmurou. – Eu não disse nada.

—Pare de sorrir – repetiu Demi. – Eu sei que Calum e eu não somos os melhores amigos do mundo, talvez nem sejamos amigos, mas eu gosto dele e sou amiga de Julie e ele é quase um irmão para ela, então. Pare. De. Sorrir.

—Eu não disse nada – repetiu ele.

—Pare – avisou Demi, chorosa, levando as mãos aos olhos lacrimejosos. – Eu... Eu não...

—Venha aqui – disse Mike, esticando as mãos e puxando-a para os seus braços. – Vai ficar tudo bem – prometeu, sussurrando contra o seu ouvido. – Calum é muito teimoso para estar doente.

—Se teimosia é uma vacina – murmurou ela contra seu tórax, sem se afastar – então por que Julie fica doente tão fácil?

—Vacinas são feitas com vírus mortos ou enfraquecidos, Demi – respondeu ele, lentamente, como se não acreditasse naquela pergunta, como se fosse óbvio. Demi revirou os olhos, nem todos eram gênios como ele ou simplesmente lunáticos atrás de conspirações governamentais. – Não é 100% de certeza que não vamos ficar doente quando recebemos alguma vacina.

Demi assentiu para si mesma, porque não tinha mais nada a fazer, porque ela não era um gênio, ela era apenas uma garota que gostava de dançar, e se Michael estava dizendo aquilo devia ser verdade – devia.

—Michael? – chamou Demi, um pouco depois. – Somos amigos? – perguntou, baixinho. – Eu sei que... nós não... você... você me considera sua amiga?

Ele considerava?, pensou Michael. Sim, ele não precisava pensar muito, ele a considerava. Demi era... Demi era alguém que ele não conversasa há muito tempo, mas ela ainda era sua amiga – talvez não fosse amigo dela ainda, Mike não a culpava, contudo ela ainda era sua.

Demi era uma pessoa justa e leal e cabeça quente, mas sempre fazia o certo, sempre voltava atrás com sua palavra quando sabia que estava errada e fazia o certo – ele a admirava, confiava nela, e confiança era o mais importante numa amizade.

—Sim – zumbiu ele, simplesmente.

—Então, por que...

—Eu ano quero falar sobre isso – interrompeu Michael.

Engula as palavras, Demi, pensou ela. Não pense sobre isso, não o atire fora dessa janela agora.

Mas ela estava frustrada, irritada, com sono, e Michael ainda lhe tirava dos sérios e mentia na sua cara, como se ela não soubesse que ele sabia que ela sabia que era mentia. Será que ele não se lembrava que ela era um polígrafo humano de mentiras especializado em Michael Clifford? Idiota.

Era obvio que ele não a considerava como uma amiga – você não considera alguém como sua amiga e para de um dia para o outro de falar com ela, a ignora, finge que ela não existe, não a defende quando precisa, não... não... não... você não fazia nem uma dessas coisas e depois dizia que era seu amigo! Amigo não fazia, não faria, nada do que Michael tinha feito a ela!

Mas, mesmo que fosse uma mentira, Demi queria acreditar nela um pouco – ela queria acreditar em Michael, acreditar que eram amigos, acreditar que Calum estava bem... ele não mentia para ela sobre tudo, certo?

—Me desculpe – completou Mike depois de um tempo.

—Só... só não faca isso de novo – Demi tentou ameaçar, mas saiu como uma súplica, um desejo, uma fraqueza. – Eu... – Ela engoliu em seco. – Eu não acho que posso olhar na sua cara de novo, todo dia, quando sair do meu quarto, se você for um idiota toda vez que eu te ver. Ou melhor – ela sorriu, sentindo os lábios congelados – toda vez que você estiver na frente de alguém que não te conheça.

—Eu não vou – concordou Michael. – Eu aprendi a minha lição. E prometi a Nathan que seria um bom irmão para você.

—Eu espero que sim.

—O horário de visita já está disponível – anunciou uma voz monótona e Demi sabia que o sentimento de estar com o coração na mão era o de todos ali.

Ela estava, ao menos.

—Demi?

O que ela fazia ali?

—Por favor, formem filas e dirigam-se para a recepção, para serem informados sobre os quartos.

E não era como se fosse amiga de Calum?

—Demi?

—E se ele não a quisesse ali?

—É claro que ele vai querer você, Demi – respondeu Michael, esticando a mão.

—Mas eu e ele... – Demi puxou a mão que levava a de Michael de volta para si, protegendo-a, protegendo seu coração, protegendo a si. – Nós não...

—Sim, vocês não são melhores amigos – concordou Michael, arrancando a mão para ele e puxando-a para cima. – Mas vocês, ainda sim, são amigos. Você não estaria aqui, se preocupado, se não fosse. Calum vai querer. Quer. Você aqui.

—Eu espero que sim – sussurrou Demi para si.

“Eu iria”, seus dedos seguram os seus e não soltaram disseram.

Demi não acreditava nele, porque todas as pessoas que estaria dentro daquele quarto o conhecia, sabia quem ele era, sabia de suas falhas, mas ela queria acreditar que sim, que talvez seu melhor amigo não estivesse de volta, mas que ao menos tivesse um amigo, tivesse Michael, ao seu lado.

Notas finais
Claro que eu escrevi uma parte disso ontem, dentro da sala do Enem. Eu queria minha prova e o que fazer com 30 minutos restantes? Escreva.