Notas iniciais
Decide que vou postar apenas nos finais de semana e adivinhem? Antes da meia noite! Agora sou uma garota com hora de dormir.

escolha

CALUM, 9 ANOS.

Devagar, trêmulo, Calum respirou, acompanhando o movimento do peito da sua irmã.

Para cima, para baixo.

Para cima, para baixo.

Uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes – o movimento continuava. Sempre ao mesmo tempo, sempre com a mesma intensidade, sempre com a mesma certeza que sua irmã estava bem agora... Calum sentia-se bem melhor.

Sua irmã estava bem, sua irmã estava respirando e não havia sangue, pouco ou nenhum, não havia gemidos de dor. O quarto estava tão silencioso que Calum escutava seu próprio coração batendo e isso era bom. A máquina ao lado da cama apitava sempre com a mesma frequência, sempre do mesmo jeito, e isso era bem melhor.

Calum inspirou fundo.

Sua irmã estava bem agora. Talvez um pouco pálida, um pouco gelada, um pouco silenciosa demais, mas viva. Ela estava viva. Ela estava bem.

Calum expirou.

—Você está bem? – questionou Andrew, colocando a mão sobre o ombro dele.

Mordendo o lábio, engolindo as novas rodadas de lágrimas, Calum assentiu, perguntando-se se as lágrimas, aquela queimação no seu coração, no seu estômago, aquela sensação... iria acabar. Mas ele não importava, não agora. Sua irmã que havia ido para o hospital por estar sangrando, que ainda estava deitada na cama desacordada.

—Ela está? – questionou ao invés de responder. – Malia está bem?

Seguindo seu exemplo de não responder, Andrew puxou a cadeira e suspirou enquanto se sentava – e Calum viu o quanto ele estava cansado. Os olhos de Andrew estavam fechados e tinham aquela coloração escura ao redor de tão cansado que estavam, os ombros estavam caídos, tensos, contudo, mesmo assim, Calum ainda sentia que ele estava tão presente quanto sempre, prestando atenção em tudo ao mesmo tempo que não via nada.

—Agora ela está bem – disse Andrew, abrindo os olhos e vendo os de Calum diretamente no seu.

Os olhos de Andrew... Calum não sabia explicar. Era mais do que ele podia entender. Todas aquelas bobagens de olhos são a porta da alma, só se ver bem com o coração... tudo parecia falso e real. Os olhos de Andrew estavam escuros como Calum nunca havia visto antes mesmo que ainda estivesse com a mesma coloração azul vibrante de sempre, eram o mesmo azul de Julie e Luke, e eram tão velhos apesar dele não ser; eram...

—Você deveria dormir um pouco, Calum – sugeriu Andrew.

Calum desviou os olhos para sua irmã. Ele deveria, mas não, ele não podia. Enquanto Malia não acordasse, Calum não podia dormir, não conseguiria. Sempre que fechava os olhos ele a via e via, cena por cena em câmera lenta, repetindo-se e repetindo-se como num loop.

—Ela não está assim porque... – começou Calum, encarando-o novamente.

—Não – interrompeu Andrew, firme. Tão firme que Calum não pode desviar os olhos. – Não é sua culpa. E ela está apenas dormindo agora, Calum.

Sim, Calum sabia, mas ouvir aquelas palavras o fez sorrir, talvez um pouco hesitante, mas era um sorriso, porque... Se tinha algo que havia aprendido com seus amigos era que Andrew sabia das coisas. Se Andrew havia dito aquilo, era verdade. Tinha que ser.

Calum acreditou na palavra de Andrew – escolheu acreditar.

—Calum? – ecoou Kora, sua mãe, abrindo a porta. – Quem é Calum?

—Ahn...

Andrew o olhou brevemente, mas Calum já havia desviando o olhar para sua irmã, perdendo o sorriso, não querendo ver a decepção. É, ele não havia contado aos seus pais, mesmo depois de um mês... que bom filho ele era.

—Acho melhor conversamos lá fora – disse Andrew, levantando-se. Mesmo contra sua vontade Calum o seguiu; ele também precisava estar lá, naquela conversa. Mas Andrew parecia não pensar igual. – Por que você não dorme um pouco? – questionou ele, barrando a passagem de Calum. – Não vou contar a ninguém caso você se deite na cama...

—Mas...

—Vai tudo bem – sussurrou Andrew, fechando a porta silenciosamente. – Não se preocupe. Calum.

Olhando para a porta fechada, Calum viu duas opções, visualizou-as desenhadas na porta, numa lista de prós e contras (embora não houvesse prós e contras em nem uma delas), antes de se virar, tirar os sapatos e deitar-se ao lado de Malia com cuidado, fechando os olhos e pensando se tinha feito a escolha certa.

Existiam duas opções: acreditar ou não acreditar.

Calum escolheu acreditar: sua irmã ficaria bem.

Aquela era a sua escolha: sua irmã ficaria bem.

Aquele era seu pedido: sua irmã ficaria bem.

Calum esperava estar fazendo a escolha certa.

Calum esperava estar fazendo o pedido certo para a pessoa certa.

Notas finais
Então... obviamente isso de pensamento positivo não funciona, mas... algumas vezes está além?