Pedaços Transformados

173 Ela era, ela tinha que ser


ela era, ela tinha que ser

setembro, hoje

—Ei, crianças.

Liz sorriu, cansada, abrindo os braços e sentindo seus dois filhos chocando-se contra si. Ela fechou os olhos, desejando que tivesse lágrimas para chorar e não aquele imenso vazio dentro de si, que parecia sugar tudo que se aproximava.

Era como se fosse a escuridão, era como se fosse um buraco negro, era como se fosse só dor e sofrimento de hoje até a eternidade.

Liz afastou-se.

—Calum está bem agora – comentou, olhando para seu filho deitado na cama. Ele não parecia bem, ele parecia fraco e doente, mas ao menos não precisava de uma máquina para respirar ou outra para dizer que vivia, que seu coração ainda batia. – Ele está tomando soro e arrependendo-se por não ter falado das tonturas ou comido ou dormido direito. – Liz suspirou, esfregando os olhos. – Mas agora ele está bem.

—Bem? – ecoou Julie, cética, a voz embargada de lágrimas. Bem? Bem? Ela havia ouvido bem? – Temos definições diferentes de bem.

—Não, não temos – discordou sua mãe.

Julie suspirou. Não, elas não tinham. Calum estava vivo, então Calum estava bem. Ele não corria riscos imediatos de morte, então estava melhor do que bem.

—Então... Então...

Julie piscou, desesperada, tentando afastar as lágrimas e ser, ainda ser, a pessoa que só chorava por dor física, por machucados, mas... Seu coração doía tanto que a dor parecia estar realmente nele, que ele parecia estar sendo obliterado até o pó, que estava sendo difícil para Julie ser racional e acreditar que as emoções eram produzidas no cérebro e não numa máquina que só bombeava sangue.

—Então por que...

Se Calum estava tão bem assim, então o que ele ainda estava fazendo ali? Pessoas bem não estavam num hospital ou ficavam deitadas em camas enquanto recebiam soro direto na veia. Pessoas bem não a faziam desconfortável daquele jeito.

Pessoas bem a fazia querer colocá-las num hospital, não tirar deles.

—Procedimento padrão – respondeu sua mãe, mecanicamente.

—Para o quê? – Julie duvidava que toda pessoa sobre suspeita de câncer era internada.

—Por ele ter desmaiado.

—Hum... – Julie franziu a testa, duvidando. Isso também não parecia ser verdade. – Tenho certeza que ele não quer ficar aqui.

—Tenho certeza que não me importo com a opinião dele – retrucou Liz, levemente irritada.

Ela era a mãe ali! Era ela que decidia quem ficava ou não internada, não sua filha, não um médico qualquer! Ela estava pagando por um quarto, então ela teria um quarto! Se ela achava que não faria nada de mal manter seu filho por mais algumas horas ali, onde estaria sendo monitorado, pois bem, Calum ficaria ali.

—Hum... – murmurou Julie novamente, estreitando os olhos. – E, sobre o...

—A máquina está quebrada – interrompeu Liz.

—Você está falando sério? – balbuciou Julie. – A máquina está quebrada? Estamos aqui, desesperados para saber, e a máquina está quebrada?! – exclamou ela, um pouco quanto revoltada. – Mas que diabos esse povo está fazendo ao invés de...

—Julie – disse Liz, franzindo a testa. – Você dormiu? – Ela aproximou-se, pegando o queixo da sua filha e inclinando-o até poder encará-la profundamente, através dos seus olhos azuis, dos seus olhos azuis irritados e vermelhos. Sim, sua filha dava chiliques, mas não desse jeito. – O que você fez?

—Mas que pergunta, mamãe – zombou Julie, virando a cabeça para estar livre. Ao menos um pouco. – Você sabe. Por que eu iria? Dormir – completou, sem encará-la, sentando-se na poltrona no canto do quarto, que tinha uma visão privilegiada da cama, e suspirando.

Calum, Calum, Calum... Por que ela tinha sentando-se ali e não deitado ao seu lado? Porque seu irmão havia chegado primeiro e ela estava tão cansada que queria um lugar apenas para si, para ser tão espaçosa quanto queria e porque vê-los juntos a acalmava.

As duas pessoas que mais amava em sua vida.

Não.

Julie gostava de estar ali, sentada naquela poltrona, porque tinha uma visão de todo o quarto, de todas as pessoas que mais amava. Todas as pessoas que mais amava juntas, no mesmo quarto – isso, sim, a acalmava.

Liz estreitou os olhos. Malditos e malditas todos os antecedentes de Andrew Hemmings, que sabiam manipular daquele jeito as palavras e os sentidos das frases. Malditos. Ela realmente, verdadeiramente, profundamente, odiava isso em Andrew, odiava isso na sua filha, odiava como sempre suspeitava de segundas palavras e sentidos escondidos em baixo de tudo que diziam.

Liz odiava como não conseguia acreditar em nem uma palavra que eles diziam quando tinham esse olhar no rosto, esse olhar que era melancólico, como se arrependesse de todas as mentiras que não contavam, que eram incapazes de dizer.

—Eu espero que você saiba o que está fazendo – desejou ela, sinceramente. Antes que sua filha pudesse confessar a ignorância, Liz virou-se para o seu genro. – Ashton, você por aqui.

—Sim – concordou ele. E, pegando-a de surpresa, ele a abraçou. – Sinto muito.

Seus olhos queimaram.

—Eu também – sussurrou. – Então... – Liz coçou a garganta, afastando-se. – Você já ligou para Anne? Não quero outra mãe desesperada na minha vida, basta uma filha desesperada – salientou ela, piscando de volta para sua filha que parecia mais centrada agora, encolhida em si mesma, quase dormindo. – Agora vamos, Julie, casa.

Julie a encarou, sonolenta, como se ela fosse louca.

Liz.

Porque ela era.

Porque ela tinha que ser.

Porque nada a faria sair dali.

Principalmente não a sua mãe.

—Eu não vou para casa.

Liz a encarou por um minuto. Elas encararam-se por mais um segundo. Ok, ela devia ter esperado por isso, ela esperou por isso – sua filha não era centrada, nem um pouco.

—Luke? – Liz virou-se para ele.

Luke sentia como se estivesse perdendo algo. Ou todo o sentido da conversa, decidiu, olhando entre ambas. Do que elas estavam falando? Ele sentia como se houvesse algo mais no meio de tudo aquilo que não entendia.

—Oi? – piscou ele para sua mãe, concentrando-se exclusivamente nela.

—Cinco minutos – sentenciou Liz. – Talvez dez – reconsiderou, olhando para Calum quieto e silencioso e pacifico. – Estou esperando-a no carro.

—Hã, e-eu... O que?

—Preciso ir para casa tomar banho – explicou Liz – e essa senhorita aqui vai dormir. Convença-a.

—Não vou – teimou Julie, cruzando os braços, infatilmente.

—E eu? – questionou Luke, ainda perdido.

—Você? – Liz aproximou-se, encarando-o tão perto quanto fez com Julie, tentando ver e sentindo-se bem melhor por não conseguir, por não ter nada. – Você parece bem – decidiu, batendo a mão em seu ombro. – Fique aqui com Calum enquanto vou para casa.

—Mas...

—O que? Ele está dormindo – disse Liz, com irritação. – Não vai fugir.

—M-mas... – gaguejou Luke. – Não é melhor a gente ir para outro hospital. Fazer o exame. Saber logo.

—Hum... – Liz tinha que concordar era melhor, mas... – Não. Calum está dormindo, então deixe-o dormir. Uma noite de sono é o que ele precisa – disse, exalando. Com fé em Deus. – Ele tomou remédio e só vai acordar amanhã, E não vai fugir – repetiu, porque seu filho ainda parecia duvidoso.

—Ok. – Ele assentiu, devagar. – Ok.

—Ótimo. – Liz soltou o ar. Sorriu. Parou. Não parecia certo. Balançou a cabeça. Esvaziou a mente. E caminhou para fora do quarto. – Eu amo vocês — anunciou ela, mandando um olhar de aviso para sua filha, outro para seu filho, um de agradecimento para seu genro e finalmente fixou os olhos em seu terceiro filho, que tecnicamente era o mais velho, mas que ela sentia que era o mais novo, apenas porque sim. – Eu amo vocês – murmurou, fechando-se do lado de fora, do lado errado, do lado que tinha paredes brancas e teto branco e um silêncio que deveria ser incolor, do lado que deveria ser o limbo para muitos, mas que para si era o inferno, de tão... tão malditamente sem esperança que era.

Mas ela tinha.

Ela tinha que ter.

Não tinha como não ter.

Não tinha como não acreditar.

Não quando Liz Hemmings tinha visto tanta coisa, não quando havia deixado de ser uma cética justamente por isso.

Corgito ergo sum.

Penso, logo existo.

Existo, logo creio.

Creio, logo sou.

Ela era, ela tinha que ser.

Ela era, ela tinha quer, Liz respirou.

Ela era, ela tinha que ser.

Forte.

Corajosa.

Persistente.

Esperançosa.

Ela era, ela tinha que ser.

Era seu mantra.