Pedaços Transformados
177 Droga
Notas iniciais
droga
setembro, hoje
Luke não queria ser um aproveitador ou, pior, um voyeur, mas... Droga, era difícil não encarar Calum.
Os cabelos pretos um pouco ensebados.
A pele completamente ressecada.
Os lábios rachados – e talvez tivesse um machucado no canto esquerdo, de tanto que Calum o mordia. (Calum os mordia muito, cada preocupação era uma marca, cada ansiedade trazia outra, qualquer reflexão deixava-o mordendo os lábios.)
Os olhos pareciam caídos.
O nariz franzido em uma expressão que se assemelhava a nojo.
E droga.
Droga, droga, droga.
Luke queria tocá-lo, ver se os cabelos estavam tão sujos quanto pareciam, passar os dedos pela pele dele e sentir toda a não suavidade, beijar os lábios dele e hidratá-los (talvez morder um pouco também, fazer sua parte), fazer os olhos abrirem-se, iluminarem-se e se levantarem e ver o nariz de Calum franzido que nem ficava quando sorria.
Luke queria tocá-lo, beijá-lo, prová-lo... em todos os ângulos, em todos os contornos, em todos os cantos.
Droga.
Luke definitivamente não era egoísta desse jeito ou um maníaco para pensar em tudo isso nessa situação, ele apenas...
Ao menos ele estava controlando-se para não fazer nada disso!
(Ainda...)
Era a primeira vez que Luke permitia-se (tinha a oportunidade de) encarar seu melhor amigo, sua paixão, e suspirar de amor, porque... Luke não precisava ser um gênio e ele com toda certeza não era um idiota idiota (ele era um idiota, como sua irmã tão querida gostava de chamar qualquer pessoa que gostava; e graças a Deus ela não o deixava se esquecer disso), porque sabia, estava óbvio para si, que estava apaixonado por Calum.
Ele. Estava. Apaixonado.
Por Calum.
Calum.
Calum.
Luke definitivamente não era egoísta desse jeito ou um maníaco para pensar em tudo isso, ele apenas estava apaixonado.
E droga.
Parecia a primeira vez.
Berkeley parecia brincadeira de criança em comparação.
Luke queria saber como Julie conseguiu, conseguia, ser tão fria e indiferente a isso, como ele não pode perceber nem uma demonstração que ela estava apaixonada antes de dizer, porque ele sentia que sua paixão era óbvia para todos, assim como suas bochechas vermelhas, as mãos suadas, a respiração um pouco entrecortada.
Ao menos, para Luke, tudo isso era, assim como a consciência do que era ele e do que era Calum e do que queria que não fosse.
Oh, droga.
Merda.
Luke não era um maníaco, um voyeur, um perseguidor ou um... um... Ele apenas era um cara, apaixonado por seu melhor amigo.
Completamente.
Profundamente.
Desesperadamente.
De. Ses. Pe. Ra. Da. Men. Te.
(Talvez se repetisse o bastante para si ele começasse a acreditar, tudo aparecesse menos assustador.)
E ele preferia mil vezes encará-lo à pensar em tudo que não queria.
Como o fato de que seu coração doía.
Como o fato de Calum estar deitado numa cama do hospital, podendo ou não estar com câncer, podendo ou não ter o que a irmã tinha, podendo ou não morrer que nem ela.
Droga.
Luke preferia pensar no quanto seu amigo ficaria constrangido e sentindo-se culpado quando soubesse que estava apaixonado por ele, porque enquanto Luke estava apaixonado por Calum, Calum estava... Calum o via apenas como amigo.
Droga.
Isso era uma merda.
Tudo isso.
Do começo ao fim.
Do fim ao começo.
Não existia uma coisa que Luke preferisse pensar, na verdade, ele só queria deitar-se e sentir o coração batendo de Calum, para lembrar-se que ele ainda estava vivo.
Ele. Estava.
Vivo.
Por que não tinha uma maldita droga de máquina de batimentos cardíacos ali?
Foda.
A tarefa de conferir que Calum estava vivo era...
—Ei – sussurrou, vendo os olhos de Calum abrindo-se e arregalando-se de primeira, sendo a primeira coisa que ele viu, querendo rir pela emoção que sentia, o bolo que engasgava na sua garganta e o amor que o sufocava. Ele o amava. – Como você está?
—O que você está fazendo? – questionou Calum, a voz grogue de sonos, os olhos pesados e sonolentos e a mente distante. O que Luke estava fazendo?
O rosto de Luke estava acima dele, o nariz quase pressionado contra o seu, os olhos pairavam sobre uma bochecha enquanto os lábios sobre a outra, e a mão dele pressionava firmemente contra o seu coração – Calum estava começando a hiperventilar e estava ciente de que Luke estava ciente do seu coração correndo desesperado.
Uau.
Eles estavam próximos.
Muito, muito próximos.
Droga, não era o suficiente – Calum queria esticar os dedos e puxá-lo para mais perto.
—Conferindo você, idiota – respondeu Luke, afastando-se e deitando-se e então cutucando a bochecha dele com a ponta do dedo, não querendo... não tocá-lo. Ele suspirou. – Você nos preocupou.
Calum aproveitou por um segundo a mais do que deveria, inclinando a cabeça em direção a mão que agora segurava sua bochecha, fechando os olhos e suspirando, porque Luke estava quente e ele estava tão... gelado?
Calum franziu a testa, tentando focar no que era real e não imaginário e no fato de não estar mais dormindo.
Ele não era naturalmente gelado.
Ou o quarto de Luke alguma vez era, não durante as vésperas do seu aniver....
Ahhh, ele lembrou-se, seus olhos queimaram, seu coração entristeceu.
Parou.
—Ei – disse Luke, suavemente, dedilhando os dedos, como se a bochecha dele fosse um piano. – Está tudo bem. Agora.
Voltou a bater.
Calum sorriu, cansado, e tão triste por estar fazendo as pessoas que amava sofrer ainda mais, tão triste por ser o culpado, tão triste por ter achado que era melhor esconder isso delas do que dizer a verdade: o seu medo de estar doente como sua irmã estava, o seu medo de perder todos, o seu medo de estar sozinho, de deixá-los sozinhos.
—Desculpe – murmurou ele, os olhos enchendo-se de lágrimas. – Desculpe – repetiu, encolhendo-se quando Luke se aproximou, temendo machucá-lo novamente, ainda mais. – Desculpe, desculpe, desculpe – novamente, novamente, novamente.
Luke o abraçou e Calum sentiu-se quebrando ainda mais.
Resfazendo-se.
Destruindo-se.
Nunca inteiro, sempre aos pedaços.
Nunca completo, sempre quebrado.
—Eu não queria que fosse verdade – confessou Calum. – Eu não queria...
—Eu sei, eu sei, eu sei — rogou Luke, sem parar, apertando-o forte e puxando-o para mais perto, para ter certeza que era real, para que seu coração sentisse que uma parte dele ainda estava ali, que Calum ainda estava vivo e o que quer que acontece, o que fosse preciso fazer, Luke faria para que ele continuasse.
Luke não podia deixar Calum morrer — não podia deixar sua irmã sofrer novamente e perder uma parte tão preciosa para ela; não podia deixar sua mãe sentir que perderia um filho, mais um de sua família.
Luke não podia deixar seu coração tibetuar e acreditar que perderia um pedaço seu – um pedaço que faria toda a diferença em quem ele era; um pedaço que não o deixaria sem sua outra metade (Julie), mas que chegaria perto.
Tudo isso era um grande foda, droga!
—E-eu... – gaguejou Calum.
Luke o apertou.
—Eu sei. – Ele sabia. Calum era que nem sua irmã e ele o conhecia. Ele se conhecia. Nem sempre era fácil dizer o que queria, mesmo que fosse verdade, principalmente se fosse verdade. – Eu também te amo.
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