culpa

CALUM, 13 ANOS. LUKE, 12 ANOS.

Depois de tanto tempo dormindo com Julie, Luke estava surpreso por acordar num "abraço apaixonado" com Calum – nem com sua irmã ele conseguia isso (normalmente ele acabava com os dedos do pé dela em sua boca ou no seu nariz).

Agora, aonde quer que olhasse, aonde quer que sua pele estivesse desnuda, ele tinha Calum.

Calum, Calum, Calum.

Os braços de Calum rodeavam seu tronco, a perna direita dele estava entre as suas, e o nariz e os lábios pressionados contra sua clavícula.

Calum, Calum, Calum

Luke podia até dizer que o sangue dele cantava, que conseguia diferenciar quais batimentos cardíacos eram dele e quais era de Calum.

Calum, Calum, Calum.

Calum estava acordado.

—Oi – murmurou, mantendo os olhos fechados, o corpo tenso, o coração disparado.

—Hum – balbuciou Calum, sonolento, aproximando-se mais ainda. – Eu estou dormindo ainda – resmungou ele. – Você deveria dormir também.

Hã, sim, Luke via isso acontecendo, ele desejava que as palavras de Calum virassem realidade, que seu desejo se cumprisse, que ele conseguisse dormir – Luke já estava surpreso por ter conseguido dormir mesmo que fosse por tão pouco tempo, mesmo que o céu ainda estivesse escuro pela sua janela e as lâmpadas da rua acesas. Era um milagre ele ter dormido por quem sabe quanto tempo (qualquer tempo era, foi, um milagre), mas... havia algo de mágico em alguém do seu lado, alguém que você amava e confiava e estava vivo.

Vivo, vivo, vivo.

Luke sentia-se vivo.

E culpado.

Não era para se sentir assim, não era para se sentir daquele jeito, não era para se sentir vivo enquanto sua irmã podia não estar a qualquer momento, enquanto seu pai não estava e mais nunca estaria.

Mas Luke estava.

Luke estava vivo, vivo, e queria sair e correr e gritar e chorar e viver.

Vivo.

Ele estava vivo.

E cansado.

E sentia culpa.

E não queria (não conseguia) dormir.

—Pare de pensar – reclamou Calum, cutucando o pé dele com o próprio. – E vá dormir.

Luke resmungou algo e suspirou, cansado, e Calum abriu seus olhos, surpreso, ao sentir a respiração dele em seu rosto, percebendo o quanto estavam próximos.

Próximo, próximo, culpa.

Calum tossiu, puxando a cabeça para trás, e tentou se afastar sem parecer tão óbvio que era isso que fazia – como eles tinham acabados daquele jeito? Melhor, como poderia tirar sua perna (o que sua perna estava fazendo ali?) dentre as de Luke sem parecer óbvio... a situação toda?

Calum odiava como uma parte dele estava gostando de estar ali, deitado ao lado de Luke, ouvindo sua respiração e sentindo sua presença próxima.

Calum odiava como se lembrava de detalhes, pedaços dele, tão pequenos e simples, que deveriam passar despercebidos, mas que pareciam estar gravados em sua mente.

Cada vez que fechava os olhos, Calum lembrava-se dos olhos azuis de Luke brilhando, dos sinais que pareciam uma constelação em seu ombro direito, de como seu sorriso era ligeiramente torto para a esquerda, do seu riso que o fazia rir em conjunto, em como ele era quente e Calum se sentia em casa.

Mas, cada vez que abria os seus olhos, Calum enxergava-se sozinho com Luke e via as olheiras ao redor dos seus olhos, os ombros caídos e os lábios curvados em derrota.

Calum odiava vê-lo assim e se odiava ainda mais por gostar de estar com ele nesse momento, por seu amigo tê-lo permitido que estivesse ali, por Luke ainda querê-lo ao seu lado.

Calum odiava como, nesse momento, seu coração ainda tremia e ele pensava o quanto Luke era bonito e quanto o amava e quanto o amava mais ainda por estar daquele jeito por Julie.

Calum odiava cada um dos seus pensamentos, mas não podia se impedir de pensá-los – e, preferia mil vezes sua culpa de pensar assim, do que pensar em Julie; Julie que estava deitada numa cama sem acordar, que tinha passado por uma cirurgia e não tinha reagido, mas também não teve nem uma piora.

O quadro da sua amiga estava... bem. Todos os seus sinais estavam bem, quase todos exames tiveram bons resultados, mas Julie não acordava. E não reagia. Talvez sua amiga nunca mais andasse. Talvez sua amiga nunca mais acordasse. Talvez sua amiga... talvez sua amiga tivesse desistido de viver.

E Calum não queria pensar nisso – porque se Julie desistisse qualquer um desistiria, porque se qualquer um desistisse ele não tinha fé em si para não fazer o mesmo.

E Calum não queria pensar em Luke (em Luke que estava próximo, perto, apesar dele mesmo estar no canto da cama, quase caindo, temendo tocá-lo e vê-lo se desfazer diante dos seus olhos), porque... Calum não queria pensar nele daquele modo, não quando Julie estava daquele jeito, e não queria pensar em Julie quando ela estava daquele jeito – Calum não queria pensar em nada, ninguém, ele só queria dormir, ele só queria esquecer, ele só queria acordar e descobrir que tudo era um sonho, que todos estavam bem, que Andrew estava vivo, mas sua mente teimava em voltar para Luke.

Luke era o ponto central de tudo.

Calum queria cair daquela cama para ver se parava com aqueles pensamentos.

—Você pode vim mais para o meio, Calum – murmurou Luke, sem abrir os olhos, mas o sentindo longe. – Eu não mordo.

Não, ele não mordia, mas Calum não tinha tanta certeza quanto a si mesmo. Ele mordia? Ele não queria descobrir. E ele não tinha forças para se impedir caso quisesse.

—Eu estou bem – resmungou.

—Venha logo – ordenou seu amigo, esticando a mão, pegando seu pulso e puxando-o para frente.

Calum não pode se negar a isso ou a ele, porque não tinha controle do seu corpo, porque Luke estava próximo e porque... seu corpo não era dele.

Seu corpo não era assim, seu corpo não deveria ser assim. Seu corpo não deveria ter todas aquelas curvas e aquela protuberância em cima das suas costelas, aqueles... seios.

Calum não deveria ter seios.

Mais uma coisa para odiar.

Se odiar.

Luke devia estar sentindo-os agora, Luke devia estar se arrependendo e querendo que ele ficasse longe, se afastasse, devia estar enojado — era por isso que Calum não queria se aproximar, ele não queria ter a certeza que seu corpo era errado, mesmo que já tivesse.

Seu corpo era errado, seu corpo não era seu, mas... era.

E Calum não queria aceitar.

E Calum odiava-se por estar pensando em si quando tantas coisas haviam acontecido — Julie podia acordar ou não, andar ou não, e ele não queria seu corpo. Tantas pessoas iriam querer um corpo como o dele, um corpo saudável, mas ele não o queria.

Calum não queria seu corpo.

Calum queria dormir e esquecer que o tinha.

Mas Calum ainda queria Luke próximo.

Mesmo que ele não o quisesse.

Mas não se ele sentisse nojo dele.

Mas ele era Luke, seu melhor amigo, sua primeira paixão, a pessoa que mais confiava no mundo e Calum... Calum não o queria longe, Calum sabia (sabia, sabia, sabia, sabia) que Luke não era assim, que Luke o enxergava como um garoto (será?), que o aceitava como ele se enxergava e o amava. Talvez não do mundo que queria, mas Luke o amava. E amor era amor e Calum também o amava. (E não estava se sentindo exigente.)

—Há quanto tempo – guinchou Calum, como se fosse um ratinho, pequeno e com medo – você não dorme?

—Eu estava dormindo tipo há três segundos...

—Luke – avisou.

—Três dias – confessou ele num sussurro culpado, abrindo os olhos, porque não queria mais culpa, porque não queria ser fraco, porque queria enfrentar sua dor e dizer suas fraquezas, porque aquele era Calum e ele não o julgaria, estaria ao seu lado. – Cada vez que fecho os olhos eu só... Eu só me odeio. Me culpo. Penso no que poderia ter feito de diferente para ter mudado tudo. Eu não quero dormir e acordar e descobrir que isso não é um sonho, eu não quero acordar para ouvir que Julie...

Luke piscou, rapidamente, mordendo os lábios para se impedir de chorar e apertou o pulso de Calum que ainda segurava, sentindo seu batimento forte, latejando contra seus dedos.

—Eu sei – concordou Calum, tristemente, desvencilhando de Luke para que eles estivessem de mãos dadas. E a apertou. – Eu também.

—Você acha que ela...

—Julie é forte – interrompeu Calum.

Ela era, ela era, ela tinha que ser.

O silêncio durou o tempo que Calum conseguiu inspirar e sentir Luke o olhando, profundamente, através da sua alma, enxergando seu ser – Calum queria correr, fugir, nunca mais ser visto... Calum expirou e se manteve ali, ancorando-se a Luke.

—Julie é forte – Luke repetiu as palavras que ouvir.

—A mais forte de todas – completou Calum.

—Ela vai superar isso.

—Vai.

—Ela vai andar.

Calum assentiu, sem forças de falar, porque todas suas forças concentravam-se em não chorar. Mas ela iria. Julie iria andar. Ela era Julie e Julie não desistia, Julie era forte e...

Julie era forte e tinha que ser.

Julie era forte e tinha que superar.

Julie era forte e tudo iria se resolver.

Julie era forte e Calum tinha quer ser também.

Julie era forte e Calum esperava que isso fosse o suficiente.