Pedaços Transformados
49 Amigos
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LUKE, 12 ANOS.
Luke sabia que pegava leve com Julie, que sempre fazia seus gostos e que isso o fazia parecer um cachorrinho adestrado, mas, ei, quem podia culpá-lo? Quem que já tinha visto aqueles olhinhos pidões dela podia culpá-lo?
Sua irmãzinha tinha os melhores olhos lacrimejantes que conhecia — era só morder a bochecha por dentro ou os lábios fracamente que ela já estava em lágrimas. E lágrimas era a fraqueza de Luke. Principalmente em relação a Julie. Principalmente quando era o culpado por elas.
Mas às vezes Luke não sabia se pegava-a nos ombros e agitava-a até que o juízo entrasse nela ou simplesmente a ignorava.
Normalmente era o segundo.
Nunca havia sido o primeiro.
Hoje também não seria.
—Julie — disse Luke, mordendo os lábios para não rir, porque essa... Essa era a principal razão dele pegar leve com sua irmã. — Você... Você... — Ele começou a rir, não aguentando. — Você não vai fazer amigas desse jeito.
—O que? — questionou ela, se virando na cadeira para olhá-lo. — Do que você está falando?
—Aquela garota queria ser sua amiga — sussurrou Luke para não envergonhar a garota em questão que estava ao lado da sua irmã.
—Do que você está falando? — repetiu sua irmã, confusa. — Cristine me perguntou qual era a página, eu disse que estava no quadro.
—Ela é um caso perdido — murmurou Calum ao seu lado, abismado por sua amiga ser tão cega ao ponto de acreditar que Agatha, não Cristine, não havia enxergado aqueles números imensos no quadro.
—Julie — disse Luke, tentando ser sério e falhando miseravelmente ao ver a expressão de não-estou-entendendo-nada de Julie, porque ela realmente não entendia nada.
Julie podia ser a pessoa mais inteligente (depois de sua mãe) que Luke conhecia, mas era a mais desligada do mundo (depois de seu pai) que existia. Ela era a combinação perfeita dos seus pais e nesses momentos Luke sentia-se grato por não ter herdado nem uma dessas características — ser inteligente devia ser um fardo, sabendo ddas coisas difíceis e nem um pouco das fáceis.
(Literalmente falando, se Luke estivesse literalmente falando, sua irmã sabia coisa difícil como equações de terceiro grau e se confundia com coisas fáceis, como fração. Isso era o que seu pai chamaria de divisão perfeita dos genes, em que Luke ficou com o conhecimento da sua mãe de dividir por um numerador e Julie por mais de três.)
Calum estava certo, ele suspirou. Sua irmã era um caso perdido.
—Segunda tentativa do dia — assobiou Calum no intervalo.
—Eu não quero ver — murmurou Luke. — É muito vergonhoso.
—Para quem? — provocou Calum aos risos.
Luke inclinou-se para frente, partindo ao meio o sanduíche de queijo e presunto do seu amigo e colocando um pedaço do seu de frango para ele, encontrando os olhos de Calum fixos no seu processo meticuloso de divisão quando se endireitou.
—Eu estava apenas... Eu não tenho... Isso não é... — Luke colocou um pedaço do sanduíche na boca e mastigou, sem encontrar o olhar dele, porque não era como se ele fosse um perfeccionista como sua mãe. — Agatha ainda está tentando? — questionou, quando seu amigo não fez nem um esforço de desviar o foco do fato dele estar sendo um perfeccionista como sua mãe.
—Você tem que concordar que é impressionante como ela tenta — comentou Calum. E Luke tentou não dizer em voz alta "de quem você está falando?" quando Calum encheu os copos deles e de Julie com suco cuidadosamente. — Essa é a primeira vez desde...
—Malia — concordou Luke, olhando-o com cautela, mas Calum respirava.
Para dentro, para fora. Um, dois. Inspirar, expirar.
Sorrindo para seu amigo como se tentasse dizer que estava bem, que tudo estava bem, que não tinha para que se preocupar, que aquilo nos seus olhos não eram lágrimas de tristeza, mas apenas lágrimas, que elas apenas estavam ali porque Malia não estava, Calum apenas balançou a cabeça e colocou um pedaço de pão na boca, e Luke mudou de assunto, porque era o que amigos faziam — mesmo que Calum não tivesse feito por ele.
—Vai entrar em qual clube?
—Por que você não é... não aceita — corrigiu-se Luke na metade — ser amiga de Agatha?
—Porque isso não é algo que se aceita — respondeu Julie, sem levantar os olhos do seu trabalho. — Acontece. Você não aceita ser amigo de alguém, você vira. E eu não quero virar amiga de ninguém.
—Por que? — questionou Luke, franzindo a testa. — Você está com medo?
—Eu não tenho medo! — exclamou sua irmã, encarando-o. — Eu nunca tenho medo.
—Você tem medo de ratos — apontou Luke com o lápis.
—E você de baratas, então pronto.
—Não tem porque ter medo de dizer que você está com medo — recomeçou Luke um minuto depois. — Que você...
—Eu. Não. Estou. Com medo — disse Julie pausadamente. — Certo — disse ela de repente, batendo as mãos na mesa e se levantando. — Amigas? Você quer que a gente seja amigas? Vamos ser amigas. Melhores amigas.
—J-Julie — gaguejou Luke, agarrando seu braço. — Não é isso, não é... Não é para você... Eu não estou dizendo...
—Eu não vou, Luke — disse ela, sentando-se novamente e jogando o cabelo sobre o ombro. — Não sei o que você pensa de mim, mas psicologia reversa não funciona comigo. Agora faça seu trabalho, porque eu não vou te dar a resposta como eu sei que Calum faz.
Não funciona? Luke queria sua esperança de volta, porque ali estava Julie e Agatha e ele podia afirmar que sua irmã ficava olhando para ele como se dissesse "te enganei, otário!" e Agatha...
—Eu não gosto dela — disse Luke de repente.
—Eu também não — concordou Calum ao seu lado.
No começo era engraçado ver Agatha tentar e tentar ser amiga da sua irmã, mas não mais. Em algum momento se tornou cansativo, irritante, desconfortável. Ver Agatha tentar quando Julie não percebia era engraçado, ver Agatha tentar quando Julie sabia e não queria era errado. Julie não queria ser amiga dela, sua irmã havia deixado isso claro, então por que Agatha continuava?
—Tem algo sobre ela... — Luke movimentou a mão, sem palavras que pudesse dizer para que seu amigo entendesse, mas ele concordou novamente.
—É.
—E o pior é que Julie não vai nos ouvir.
—Talvez estejamos errados — sugeriu Calum, fracamente, não acreditando em suas próprias palavras, assim como Luke não conseguiu, embora tentasse, quisesse.
Errar? Sem problemas. Luke ficaria feliz em saber que estava errado, que ele e Calum estavam, mas não que Julie estivesse.
Luke queria que sua irmã estivesse certa em fazer amizade com Agatha, que Agatha fosse uma pessoa digna de ser amiga dela, porque Julie... Julie merecia fazer amigos.
Luke sabia que sua irmã merecia. E ele desejava que isso desse certo, porque se não desse... se não desse ele teria culpa, pois fora ele que fez Julie acreditar que tinha que ser amiga de Agatha, que ela não conseguiria, que ela tinha medo.
Seria sua culpa se sua irmã chorasse no final de tudo.
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