Pedaços Transformados
126 Ali
ali
LIZ, 34 ANOS.
Liz queria chegar em casa o mais rápido possível, ela queria entrar e abraçar Julie, sentindo cada osso contra sua pele (não que fosse difícil com sua filha tão magra quanto estava), e apertar cada um dos seus filhos contra si, para ter a certeza de que eles estavam ali, de que ela estava ali, de que todos estavam ali.
De que sua família estava ali.
—Calum? — chamou Liz, descendo do carro, confusa.
O que Calum estava fazendo do lado de fora da sua casa naquela chuva forte e naquele frio... frio? Era para ele estar dentro de casa, devidamente embalado e protegido, não tremendo na sua varanda, andando de um lado para o outro como se não soubesse se deveria ou não entrar. Ou não tivesse a chave de casa.
—Hum — balbuciou Calum. — Hã... eu...
—Essas crianças de hoje em dia são tão falantes — comentou, amável, passando a mão em seus cabelos pretos suave antes de se dirigir para a porta. — Entre quando eu te anunciar.
—O que? — exclamou ele, confuso.
—O que? — repetiu Liz, sorrindo. — Eu sempre quis ser uma locutora de rádio.
—Não — discordou Calum, recuperando sua voz, surpreso e meio que... Liz estava falando a verdade? — Você não quis.
—Hum — cantarolou ela sem comprometimento, empurrando a porta e...
Liz apenas tocou na porta da sua casa, mas o tempo parecia ter vontade própria e o vento a abriu rapidamente, apagando as velas ao mesmo tempo em que um relâmpago atravessou o céu, iluminando tudo ao redor da sua silhueta, e um trovão retumbou e fez todos tremerem... E então as lâmpadas piscaram antes da energia se restabelecer de vez e todos puderam ver quem era que estava na porta.
Aquilo era uma cena de filme de terror? Liz, da porta, toda molhada e com um monte de sacolas nas mãos, achou que sim. Aquela... aquela... Ela piscou mais uma vez, não acreditando no que via. Aquela era sua filha?!
—Julie! – exclamou, dando um passo para trás, horrorizada, quase batendo em Calum que queria ver o que aconteceu. – Você... Você... O que? – Não aja como se fosse uma grande coisa, aconselhou a parte sã da sua mente que estava enlouquecendo. – O que você está vestindo? — questionou, embora quisesse gritar o que sua filha tinha na cabeça para cortar seu cabelo daquele jeito. O que ela tinha realmente? Não mais tanto cabelo que poderia doar.
—Gostou? – perguntou Julie, levantando-se e dando uma voltinha. – Eu chamo de...
—Não quero nem saber como você chama essa coisa – interrompeu, tremendo com a visão. (Liz esperava que sua filha ao menos tivesse cortado o cabelo do jeito certo para doar, porque ela não tinha nem ao menos acertado no que restava.) – Vou fingir que não vi isso e vamos comer. Trouxe pizza! – anunciou, levantando a sacola que segurava e balançando-a, esperando alguma reação dos seus filhos... que não aconteceu. Liz suspirou (eles eram um caso perdido) antes de completar ainda animada (ela não iria desistir tão facilmente) dando um passo para o lado e fazendo uma reverência, como se anunciasse quem fosse entrar num baile real: – Eeee Caluuum Hood!
O chichiar dos gafanhotos foi a única coisa que Liz ouviu. Olhando de canto de olho, ela percebeu que Calum Hood não estava ao seu lugar, esperando sua apresentação. Suspirando, Liz colocou as coisas no chão e murmurou “um já volto” antes de sair de casa.
—O que você está fazendo aí? — sussurrou, ferozmente. — Passe logo para aqui.
Calum sorriu como se aquelas fossem as palavras mágicas e Liz teve certeza que toda sua família enlouqueceu de vez — e não era ela que estava reclamando.
Sua família estava ali.
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